sábado, 1 de outubro de 2016

A questão do beijo antes do casamento


Eis uma questão sobre a qual, enquanto jovem solteira, tenho refletido durante muitos anos. Faz muito tempo desde que comecei a ler/ouvir pessoas falando sobre esse aspecto específico dos “namoros” cristãos, e já pensei realmente bastante no assunto. Vi muita gente que, enquanto solteira, defendia o “beijo só no dia do casamento”, mas que acabou abrindo mão dessa convicção quando iniciou um relacionamento romântico. Vi muita gente desacreditando desse fato como um princípio bíblico. Assim como vi muita gente ensinando isso como pecado e regra a ser cumprida. E me deparei com muito medo, em meu coração, de defender a reserva do beijo romântico (leia-se “beijo na boca”) para o dia do casamento de uma forma legalista – porque pude identificar muitas coisas em minha caminhada cristã que eram defendidas de maneira legalista e acusadora e que precisaram ser repensadas e redefinidas.

Contudo, continua havendo uma voz incômoda em meu coração me dizendo que não posso abrir mão deste princípio. E hoje já não tenho a ousadia de acreditar que todos precisam pensar e sentir assim como eu. Sei que não tenho o direito de julgar pessoas simplesmente pelo fato de não enxergarem a vida como eu enxergo e não tomarem as mesmas decisões que eu. Entendi que cada um de nós tem uma história e que o pecado se manifestará em nossas vidas de maneiras diferentes, que cada um de nós enfrentará tentações diferentes de acordo com tudo aquilo que tem vivido. Assim, hoje quero falar dos motivos que me fazem crer que o beijo romântico deve ser reservado para o casamento – mas quero falar do que isso representa para mim. Não posso afirmar que seja assim para todas as pessoas – e, certamente, não é. Mas, provavelmente, já foi muito parecido para todos nós, em algum ponto de nossas vidas.

Eu sempre me pego fazendo essa pergunta a mim mesma: “E quando eu precisar falar para o cara com quem espero me relacionar que não pretendo beijar até o dia do casamento? Como vai ser? Como vou explicar isso pra ele?”. E confesso que não é nada fácil. Porque parece algo tão louco, tão de outro mundo. E não é fácil, pelo menos pra mim, ter de lidar com o julgamento dos outros a respeito de você – especialmente se esse outro é alguém com quem você espera desenvolver um relacionamento para casamento. Mas tenho precisado pensar nas explicações que darei um dia, e me perguntar quais são as reais razões que me levam a crer nisso como um princípio cristão. E eu realmente poderia escrever quase um livro aqui sobre isso, porque eis um assunto que me tira o sossego há anos mesmo! (rs). Mas gostaria de mencionar aqueles que, hoje, me são os mais importantes diante de minha identidade cristã.

1) Meu corpo não me pertence

“Acaso não sabem que o corpo de vocês é santuário do Espírito Santo que habita em vocês, que lhes foi dado por Deus, e que vocês não são de si mesmos? Vocês foram comprados por alto preço. Portanto, glorifiquem a Deus com o corpo de vocês” (1 Coríntios 6.19-20 – NVI)

Esse texto pra mim é um dos mais importantes na Bíblia quando penso em “até onde devo chegar em meu contato físico romântico antes do casamento”. A verdade ensinada por ele é uma das mais importantes: nosso corpo não é nosso. Fomos comprados, e por alto preço, e, por isso, não nos pertencemos mais. Somos de Deus. E nossos corpos são morada do Espírito Santo de Deus. E não tem como fugir do fato de que, ao escrever isso, Paulo estava falando exatamente do uso do corpo para pecado sexual. Todo o texto de 1 Coríntios 6.12-20 trata disso. Em minha Bíblia, o título para esse trecho é “A sensualidade é condenada”.

Paulo começa dizendo: “Todas as coisas me são lícitas, mas nem todas convêm”. E fica claro também que Paulo não está falando apenas contra o ato sexual em si, porque no verso 18 ele diz: “Fujam da imoralidade sexual [...]”. O Dicionário Almeida do aplicativo The Word traduz o termo imoralidade como “Ato ou costume que fere a pureza e a moral; indecência (1Co 5.1, RA)”. Poderíamos dizer: tudo aquilo que fere a pureza e a moral sexual – não apenas o ato sexual em si. E o verso 13b diz: “Porém o corpo não é para a impureza, mas, para o Senhor, e o Senhor, para o corpo”. Uma vez que fomos comprados por Cristo, toda nossa vida passou a pertencer a Ele – incluindo nosso corpo. Não é mais meu. Não posso mais usar do jeito que eu quiser. É do Senhor e para o Senhor. O entendimento disso é essencial.

E a única circunstância em que a Bíblia afirma que Deus compartilha a posse de nosso corpo com outra pessoa é no contexto do casamento: “A mulher não tem autoridade sobre o seu próprio corpo, mas sim o marido. Da mesma forma, o marido não tem autoridade sobre o seu próprio corpo, mas sim a mulher” (1 Coríntios 7.4). Nunca encontrei outra situação em que posso compartilhar a posse de meu corpo com outro, para outro propósito que não seja a glória de Deus, que não o casamento. Nesse contexto, Deus concede o corpo um do outro como um presente ao cônjuge – e como nossa arma contra a imoralidade. É interessante que Paulo fale, no verso 1 deste mesmo capítulo, que “é bom que o homem não toque em mulher, mas, por causa da imoralidade, cada um deve ter sua esposa, e cada mulher o seu próprio marido”. Não “tocar em mulher” é muito mais do que “não fazer sexo”. Porque não tenho direito sobre o corpo do outro, e não tenho direito de entregar meu corpo a alguém, exceto a esposa a seu marido e vice-versa.

2) O que não provem de fé é pecado

“Mas aquele que tem dúvidas, se come está condenado, porque o que faz não provém da fé; e tudo o que não provém da fé é pecado” (Romanos 14.23)

Outro texto extremamente desafiador pra mim nesse assunto. Já pensei em abrir mão desse princípio do beijo só no dia do casamento. Realmente já quis abrir mão disso. “Deve ser besteira isso. Deve ser exagero meu. Olha quantos jovens cristãos genuínos se beijam durante seus namoros! Não deve ser tudo isso que eu penso! Eu nunca nem vivi isso, como vou querer saber?”. Mas, por mais que eu pensasse em todos os argumentos pra não precisar mais defender esse princípio, sempre havia aquele incômodo lá no coração me dizendo que DEUS estava me ensinando sobre esse tipo de pureza há anos – e que eu queria abrir mão disso não por convicção, mas por medo de ser julgada. Eu não acreditava, e não acredito, que “beijo não tem problema”. Portanto, decidir viver assim não seria uma decisão proveniente de FÉ e, portanto, para mim, seria pecado.

Nesse ponto, assim como Paulo falava sobre os alimentos ou a guarda de dias especiais, aquele que o faz não deve julgar aquele que não faz porque, no fim, seremos julgamos é pela fé que motivou nossa decisão. Deus está olhando nossas motivações. E eu quis optar por atitudes que fossem mais compreensíveis ao mundo, que não exigissem tantas explicações e que não viessem a gerar tantos olhares de “qual o problema dela?” quando o dia de tomar essa decisão chegar. Mas optar dessa forma não seria viver por fé – e não seria viver para a glória de Deus. Então, até que o Espírito de Deus testemunhe ao meu espírito e transforme minhas convicções, gerando fé onde não há fé, não tenho como abrir mão disso sem pecar.

3) Pureza além do corpo: na mente

“Ouvistes que foi dito: Não adulterarás. Eu, porém, vos digo: qualquer que olhar para uma mulher com intenção impura, no coração, já adulterou com ela” (Mateus 5.26-27 – ARA)

“Mas eu lhes digo: quem olhar para uma mulher e desejar possuí-la já cometeu adultério no seu coração.” (Mateus 5.27 – NTLH)

Lembro de um texto fantástico que li, em algum blog, que dizia “Deus não quer a sua virgindade”, ou algo assim. E o que ele defendia era que podemos, facilmente, ainda ser virgens em nosso corpo, mas será que em nossas mentes ainda somos virgens? E essa é uma pergunta muito séria. Acredito que é o mesmo que Jesus estava ensinando nesse trecho de Mateus: você pode não ter adulterado fisicamente, mas tê-lo feito em sua mente e coração. E aí vem o grande ensino de Jesus: Deus não está preocupado apenas com nosso exterior, Ele está interessado em nosso coração e nossas motivações. O Antigo Testamento, a Lei, estavam preocupados com o pecado externo – o adultério do corpo. Mas o Novo Testamento ensina que Deus vai além disso: preocupa-se com a santidade e a pureza de nosso coração e nossa mente. E, com toda certeza: esse é um padrão muito mais difícil de pureza a se manter.
Eu nunca namorei. Beijei 3 rapazes, entre os 14 e os 16 anos (coisa que eu realmente gostaria que não tivesse acontecido). Desde os 16, quando o Senhor converteu meu coração a Si mesmo, não tenho contato físico romântico com rapaz nenhum. Não tenho necessidade ou dependência de contato físico com rapazes. Eles me são até estranhos, pra falar a verdade. Manter virgindade física não é um problema pra mim – porque a gente não sente tanta falta daquilo que a gente nunca teve. Mas guardar minha mente e meu coração das expectativas do que virá a ser um relacionamento sexual dentro do casamento, com alguém que ainda nem sei quem é, é muito mais difícil. Porque tenho esperado pelo casamento (e, claro, todas as “bênçãos” que virão com ele) há muitos anos, e sou o tipo de pessoa que cria muita expectativa a respeito das coisas. Não deixar que essas expectativas se tornem essa cobiça, esse “olhar [ou pensar] com intenção impura”, esse “desejar possuir” que Jesus estava falando é muito mais difícil, pra mim, do que não fazer sexo.

E onde entra o beijo nisso? Se é difícil manter a pureza de minha mente e meu coração estando ainda solteira e sem sequer conhecer o cara com quem irei me casar, quem dirá tendo-o conhecido, estando apaixonada, planejando um casamento e ainda trocando beijos apaixonados com ele? Eu nunca passei por isso, mas, com toda sinceridade, não tem como um beijo entre duas pessoas apaixonadas ser um contato não sexual – e que não traga pensamentos e expectativas sexuais. A vivência de nossa sexualidade é um impulso natural do ser humano, que tende a ser crescente quando é iniciado, e não decrescente – porque seu destino final é a consumação sexual, a qual constitui a consumação do próprio casamento (aliás, era a própria celebração do casamento no Antigo Testamento). Assim, nossos impulsos sexuais, uma vez iniciados, não tendem a diminuir, mas a crescer, até que o ápice da união sexual seja alcançado.

E eu não quero ter que ficar lutando contra esses impulsos durante a minha preparação para o casamento – nem no aspecto físico, nem no mental. Não quero precisar ficar experimentando a culpa por não resistir ao pecado, no corpo ou na mente, e manchar a pureza para a qual o Senhor me chamou e a qual Ele tem me ensinado a buscar. Dediquei os últimos 12 anos de minha vida tentando viver de forma pura e bonita diante de Deus, tentando aprender Seus princípios e coloca-los em prática na minha vida, para honrar a Deus em todas as minhas escolhas. Não quero perder isso exatamente ao encontrar aquele que deve ser o primeiro protetor e estimulador de minha pureza, enquanto noiva sua e de Cristo. Não quero, depois, carregar o sentimento de culpa-lo por ter me feito quebrar meu compromisso com Deus. Quero andar tão longe quanto possível de tudo aquilo que me tente a desonrar a Deus em meu corpo e, principalmente, em meu coração. E, em meu caso, o beijo seria um problema com certeza. Conheço a fraqueza da minha carne e sei que não posso brincar com ela.

4) O significado do contato físico pra mim

E esse ponto não é um ponto bíblico. É pessoal – e apenas um complemento do ponto anterior. Como mencionei, nunca namorei e praticamente não sei o que é contato físico romântico. Esse tipo de contato não tem o mesmo significado pra mim que tem para quem já o vivenciou tanto que já se acostumou com ele. Um beijo pra mim não é “só um beijo”. Se você já beijou tantas vezes que já até perdeu a conta (ou mesmo que não tenha perdido a conta ainda), o beijo já se tornou algo comum pra você. Não tem mais o efeito que o “primeiro beijo” teve. É a mesma coisa com o sexo. Um amigo meu, já com 30 anos e virgem, me disse isso: sexo pra mim não tem o mesmo significado que tem pros meus amigos que já transam há anos. E eles não entendem. E é verdade. O valor do sexo – e a preocupação com quando ou como vive-lo – só é tão grande pra nós porque ele ainda é um “tesouro inexplorado”. Ainda é mistério, ainda é alvo. A “Lua-de-mel” só é algo cheio de expectativas pra nós porque traz consigo o presente da iniciação sexual. Para um casal de namorados que já faz sexo normalmente, a lua-de-mel nada mais é do que uma noite como outra qualquer. Perdeu o brilho, perdeu o valor.

E é nesse ponto que não me atrevo a esperar que todas as pessoas enxerguem a questão do beijo como eu enxergo. O beijo é algo que traz quase tantas expectativas pra mim quanto o sexo – porque não me é comum, é também um alvo, é também uma espera. Não é como dar um abraço ou segurar na mão – ainda que até essas pequenas coisas tenham um significado diferente quando você não está acostumado ao contato físico com alguém do sexo oposto (sabe quando você se assusta e meio que toma um choque quando “sua mão encosta na mão daquela pessoa”? Quantos, nesses nossos dias de excessivo contato físico entre pessoas de sexos opostos, ainda conseguem sentir isso, não é?). E não posso esperar que alguém que já se acostumou – porque explorou isso de forma errada, antes do tempo – enxergue e viva isso da mesma forma. Por isso não julgo mais. Vejo casais de namorados cristãos, que realmente são cristãos, e se beijam normalmente. Antes eu só conseguia pensar que eles só podiam viver mergulhados em desejo sexual ilícito. Mas hoje penso que pode não ser assim. Não sei, talvez os dois já tenham explorado tanto esse contato durante suas vidas que já estão anestesiados a ele. E o beijo pode já não gerar neles aquilo que, provavelmente, vai gerar em mim. Então, não dá pra saber. O fato é que cada um de nós sabe qual o efeito que os contatos físicos com alguém do sexo oposto terá em nós.

E uma coisa é certa: o significado que aquele “pode beijar a noiva” terá em alguém para quem o beijo não foi uma prática constante dentro do relacionamento pré-conjugal será totalmente diferente (e muito mais bonito e cheio de valor) do que para alguém que já se acostumou com essa carícia. E, como uma boa e incurável sonhadora, certamente vou querer a história mais cheia dos valores e significados intensos – e da pureza, no corpo e na mente, para glória do meu Criador, Salvador e Santificador. E que meus filhos e as próximas gerações possam ter uma bela história para contar – uma história de honra e glória a Deus.

Espero poder saber um pouquinho mais sobre as experiências ou expectativas de vocês a respeito do assunto também. Ainda tô em tempo de continuar aprendendo – até que o prometido apareça!

Paz e graça do Pai, pessoal – e muita alegria de voltar aqui!

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