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sábado, 26 de março de 2016

Quaresma – Dia 40 – O Sábado da Paixão, a Multidão e os Seguidores do Messias



“Então, Jesus clamou em alta voz: Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito! E, dito isto, expirou” (Lucas 23.46)

E, tendo finalizado Sua vida mortal assim, com estas últimas palavras, Jesus gera diferentes reações naqueles que presenciavam Seus últimos momentos.

Lendo a narração da condenação e crucificação de Jesus, ficava imaginando o que levou aquela multidão, provavelmente a mesma que vivia cercando Jesus e buscando Seus milagres e admirando-se deles e das palavras e ensinos de Jesus, bradar de forma tão veemente para que Pilatos O crucificasse. Não faz sentido! Aquelas pessoas haviam visto o que Jesus fazia! Elas O haviam acompanhado, sabiam quem Ele era. Mas, talvez, tendo sido enganadas por aqueles falsos religiosos que queriam a morte de Jesus, elas achassem que aquilo seria bom. Fiquei pensando se aquelas pessoas não achavam que, de repente, mandar Jesus para ser morto por oficiais romanos não seria a oportunidade perfeita para que Ele operasse o maior de todos os milagres; se elas não estavam realmente esperando que Ele se manifestaria em glória, ali, combatendo Seus inimigos romanos, descendo da cruz e tomando o poder para libertação civil do povo de Israel... e não é possível afirmar nada disso, pois só Deus sabia o que se passava no coração daquela multidão. Mas, talvez, fosse isso. Enganadas por escribas e fariseus, talvez aquelas pessoas, até aquele momento, mesmo depois de tudo o que já haviam visto e ouvido de Jesus, ainda não haviam entendido o que e quem seria o Messias. E esperavam o libertador das cadeias externas – quando o Pai O havia enviado para libertá-los das cadeias internas, e eternas. Mas eles não haviam entendido. E, assim, como a última cartada, esperavam que aquela condenação injusta seria a grande oportunidade para o libertador revolucionário levantar-se para vencer a opressão romana. Então, gritaram pela Sua condenação e morte (v.18, 21, 23) e, após terem-na conseguido, lá foram eles seguindo o Messias crucificado (v.27), aguardando pelo grande milagre.

Porém, o tão esperado milagre não chegou. O Messias não desceu da cruz. Ele não vociferou contra os “malditos romanos” que O escarneciam, maltratavam e humilhavam. Ao contrário, Ele pediu ao Pai que os perdoasse (v.34). Ele era blasfemado, e não falou nada. E “o povo estava ali e a tudo observava” (v.35). Esperando. Esperando. Até que, sem entender nada e, talvez, guardando as esperanças de que o grande milagre e a grande revolução do Messias acontecessem até o fim, eles O ouvem falar: “Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito!”. E morrer. E eu acredito que ali, naquele exato momento, as vendas caíram de seus olhos. E o evangelho de Lucas fala: “E todas as multidões reunidas para este espetáculo, vendo o que havia acontecido, retiraram-se a lamentar, batendo nos peitos” (v.48). E, novamente, fiquei pensando: naquele momento, aquela multidão poderia ter, simplesmente, se frustrado com a não realização do milagre que esperavam e tendo chegado, finalmente, na conclusão de que “Ele não era mesmo o Messias que dizia ser”; e voltariam para suas casas decepcionados e desanimados. Contudo, não foi assim que a multidão saiu. As Escrituras dizem que, mediante tudo o que viram, as multidões saíram lamentando e batendo nos peitos. Sinal de tristeza. Por isso, eu creio que eles entenderam: entenderam Quem era Aquele Homem crucificado, e entenderam o que fizeram. Por isso, choraram e lamentaram. Ele era quem dizia ser. E eles não acreditaram. Porque esperavam o Messias errado. Porque haviam sido convencidos de uma mentira. Mas, ali, diante daquela cruz, diante dAquele Homem que ainda amava e perdoava, que entregava-se como ovelha ao matadouro, que cumpria as Escrituras, e que entregava o Seu espírito ao Seu Pai... eles, finalmente entenderam.

E, infelizmente, ainda hoje, grandes multidões esperam o Messias errado. E não apenas entre os judeus – mas entre nós. Ainda esperam o Salvador que irá salvá-los das coisas deste mundo. Um Messias cujo propósito é acabar com a opressão física: a dor, o sofrimento, a pobreza, a opressão, a violência, toda a maldade dessa terra – representados pela opressão de Roma sobre o povo de Israel. E exatamente por isso muitos vivem tantas crises a respeito de Deus e o sofrimento humano. Como Ele pode ser bom e ainda existir o mal? Como Jesus poderia ser o Messias e o povo de Israel ainda continuar oprimido por Roma e por tantos sofrimentos oriundos disso? Era de um revolucionário que os judeus achavam precisar. Mas Deus enxergava além. Ele enxerga além. Ele sabe que, ainda que fôssemos libertos de todas as correntes de dor e sofrimento deste mundo, continuaríamos escravos. De nós mesmos. De uma escravidão que nada nesse mundo poderia nos livrar – a escravidão eterna. E que nenhum bem, nenhuma felicidade, nenhum conforto vividos nesse mundo poderiam suprir o sofrimento gerado por essa escravidão – porque essa é a verdadeira escravidão, o verdadeiro sofrimento: aquele que nos tira o sentido da vida, o propósito, a identidade... todas as coisas. A escravidão que nos esvazia totalmente – pois nos separa do nosso Criador, a Fonte de todo bem. E, enquanto estivermos separados dEle, nossa alma nunca poderá ser realmente feliz. E nenhum bem dessa vida pode suprir essa falta. Assim, é dessa escravidão que o Messias vem libertar o mundo – pois, uma vez libertos dela, uma vez religados com Deus, a Fonte de todo bem, nenhum sofrimento deste mundo é capaz de roubar nossa felicidade e nossa paz. Somos preenchidos e salvos por dentro e, quando isso acontece, nenhuma guerra, nenhuma opressão, nenhuma fome, nenhuma perseguição, nenhum escárnio, nenhuma humilhação... NADA que venha de fora poderá nos abalar. A salvação HABITA em nós. Por isso, essa era – e é – a maior missão do Salvador.

E, por isso, a reação de Seus seguidores foi tão diferente da reação da multidão. Enquanto a multidão saiu a lamentar e bater nos peitos, “todos os conhecidos de Jesus e as mulheres que o tinham seguido desde a Galiléia permaneceram a contemplar de longe estas coisas. [...] As mulheres que tinham vindo da Galiléia com Jesus, seguindo, viram o túmulo e como o corpo fora ali depositado. Então, se retiraram para preparar aromas e bálsamos. E, no sábado, descansaram, segundo o mandamento” (Lucas 23.49, 55-56). Com toda certeza, aqueles homens e mulheres estavam sofrendo profundamente naquele momento. Seu grande Mestre havia morrido, depois de tanta dor. Não podemos imaginar quão duro isso foi para os Seus seguidores. Mas a narração a respeito deles é claramente diferente da feita a respeito da multidão.

Eles permaneceram. Jesus já estava morto, mas seus corações continuavam fiéis a Ele. Porque Ele os havia transformado – e agora já não era mais possível viver desligados dEle. E, mesmo quando Ele já havia morrido, eles continuavam ali. Sim, é verdade que muitos – talvez a maioria – dos seguidores de Jesus não permaneceram; fugiram. Mas aqueles que ali ficaram, e aquelas mulheres galileias principalmente, representavam o remanescente fiel, o exemplo para todos os seguidores, para todos nós. Sua fidelidade ao Cristo não se extinguia com Sua morte. Elas criam, elas sabiam Que Ele era o Enviado de Deus. E, por isso, continuavam a crer e a segui-Lo. Prova disso é que aquelas mulheres, acompanhando José de Arimatéia e Nicodemus, vão ver onde o corpo do Mestre haveria de ser colocado – e foram preparar aromas e bálsamos para colocar sobre ele (v.56a). O comentário de minha Bíblia Shedd diz assim, sobre esse versículo: “Aromas e bálsamos. Vê-se o amor pelo Senhor no trato do Seu corpo. Normalmente um criminoso crucificado seria enterrado sem cerimônia num campo qualquer”. Mesmo morto, mesmo estando ali apenas o corpo do Mestre, aquelas mulheres ainda O amam e O honram, com seus perfumes e especiarias. Elas continuam crendo. E continuam amando – mesmo quando tudo parece ter “dado errado”. Mesmo quando elas, provavelmente, nem entendiam o porquê de tudo aquilo. Mas elas continuam fiéis. Porque elas já haviam experimentado a verdadeira libertação, dada pelo Cristo. Então, mesmo sem entender, mesmo na dor e no sofrimento, elas permanecem.

E, finalmente, que versículo lindo é o 55, parte b: “E, no sábado, descansaram, segundo o mandamento”. Descansaram. Fiquei me perguntando: “Como elas podem ter descansado no dia imediatamente após a morte de Jesus?”. Mas a palavra se repetia na minha mente: descansaram. E glórias a Deus pelo significado disso! Aquelas mulheres, com toda certeza, sofriam, com seus corações moídos por tudo o que aquela sexta-feira havia trazido. Certamente, elas enfrentavam dor e angústia enormes. Contudo, quando estamos com o Cristo, quando O conhecemos, quando Ele nos transformou, de alguma forma miraculosa que só pode ser resultado da ação do próprio Espírito de Deus, nós podemos encontrar descanso para nossas almas e corações – mesmo quando eles estão quebrados e despedaçados. Nós podemos. Podemos continuar obedecendo – “segundo o mandamento” – mesmo quando parece impossível. Porque é Ele quem nos capacita. E Deus capacitou aquelas mulheres, mesmo em meio à tamanha dor que elas sentiam. E Ele vem nos lembrar hoje: quando o sábado da paixão chegar em nossas vidas, e tudo parecer acabado, sem saída, sem explicação, impossível de compreender, quando isso doer mais do que podemos expressar, quando nos sentirmos sós e abandonados, quando não parecer mais haver esperança e o sofrimento tomar conta do coração – ainda assim, nosso Pai tem um lugar de descanso para nossas almas. Ainda assim, nosso Pai nos capacita para obedecer. Porque Ele continua conosco. Sempre. Todos os dias. E Sua salvação, operada no mais íntimo de nós, continua a nos salvar – dia após dia, dor após dor. Ele é a nossa Salvação. E continuará sendo, até o fim.


Que hoje, no “Sábado da Paixão”, e em cada “sábado da paixão” de nossas vidas, possamos nos lembrar de Quem era o Homem a expirar naquela cruz – e de todas as promessas que o Domingo traria consigo. E trouxe. E trará. Porque nem mesmo a morte foi, é, nem jamais será capaz de deter o Salvador deste mundo. Nossa esperança é eterna, e nunca falhará. Glórias, pois, a Jesus Cristo, eternamente. Amém. Amém.

sexta-feira, 18 de março de 2016

Quaresma – Dia 32 – Reino dos necessitados



“Sai depressa para as ruas e becos da cidade e traze para aqui os pobres, os aleijados, os cegos e os coxos” (Lucas 14.21)

Deus chamando para a Sua ceia. E que texto sério este é. Porque, primeiro, Deus chama os “sãos”. E chama muitos. Só que todos eram pessoas importantes e, por isso, na hora em que tudo já estava preparado, eles precisam desculpar-se por não poder ir participar. Afinal, havia tantas coisas para resolver: um campo recém comprado que precisava ser visitado; cinco juntas de bois que precisavam ser experimentadas; um casamento recém contraído que precisava ser desfrutado... Tão importantes... tão ocupados... que não há tempo para ceias.

E, ao ler isso, meu coração se enche de temor. Porque eu me vejo nisso. Nos vejo nisso. Nossa geração sempre tão ocupada, com tantas coisas importantes para fazer. Tantas coisas para estudar, tantas notícias novas para ouvir, tantos compromissos, tantas pessoas importantes com quem falar, tantos eventos importantes para organizar, tanto dinheiro para ganhar, tantas dívidas para pagar, tantos amigos para fazer... e não nos tem sobrado tempo para ceias. Para a grande ceia de Deus. Mas, ela já está pronta (v.16-17). O servo do dono da ceia já veio nos chamar para nos achegar a ela. E o convite foi feito para tantos. Porém, todos eles tinham coisas demais para resolver, e não ligaram para o seu convite.

E foi então que o dono da casa, irado, disse ao seu servo para trazer para o jantar os pobres, os aleijados, os cegos e os coxos. E assim ele o fez. E estes não negaram. E lá estavam eles para a grande ceia daquele grande senhor. Por quê? Por um simples motivo: eles sabiam-se necessitados. Sabiam-se pobres e doentes, e pessoas assim não negam convites – muito menos para uma ceia. Eles sabem reconhecer bênçãos, quando estas lhes são oferecidas. Eles sabem reconhecer que tem tão pouco e, diante disso, tudo se torna tão grandioso e importante – quanto mais um convite feito por um grande senhor.

E é aí que eu penso quem somos nós. Os homens ocupados e importantes, ou os pobres e doentes. Como enxergamos a nós mesmos? Como temos vivido as nossas vidas? Como pessoas grandes, a quem o Grande Senhor oferece favores – os quais nos sentimos no direito de avaliar para verificar se estes são mais ou menos importantes do que os nossos compromissos? Ou como aqueles homens pobres, cegos, aleijados, coxos, conscientes da sua pequenez diante daquele Grande Senhor, e do quanto participar daquela Ceia lhes era um privilégio impagável? De fato, aqueles homens necessitados nunca poderiam pagar por aquela ceia. Eles não tinham nada a oferecer. E, talvez, exatamente por isso eles não negaram aquele chamado.

Infelizmente, costumamos nos enxergar de uma maneira tão diferente do que realmente somos. Somos os homens pobres, cegos e aleijados, sujos, mendigos, sem nada para oferecer a Deus. Mas, tão facilmente acreditamos quando o mundo nos diz que somos grandes e importantes, e que Deus precisa entrar na fila da nossa agenda, para ver onde conseguimos encaixa-Lo. E o triste disso é que, no final desta parábola, o senhor da grande ceia diz: “Porque vos declaro que nenhum daqueles homens que foram convidados provará a minha ceia” (v.24). Uma vez que a ceia tenha começado e o convite tenha sido negado, não há mais volta. A oportunidade passou. E perdemos a coisa mais importante que poderíamos ter recebido nesta existência.

Seguir a Jesus Cristo é um grande privilégio, mas também tem exigências. Primeiro, o reconhecimento de quem, de fato, somos: reconhecermo-nos pobres, cegos, coxos, aleijados. Necessitados. Imerecedores. Sem nada para oferecer em troca, a não ser nossa presença – nossa vida. Segundo, pagar o preço. Reconhecer que todos as nossas coisinhas, que parecem tão grandes diante das lentes deste mundo, são ínfimas, sem valor, diante do insondável valor de participar da ceia dAquele Senhor. Nada pode se comparar a participar daquilo que Ele estava preparando. Nenhum de nossos tesouros. Nem mesmo nossos campos, bois ou, ainda, casamentos. Nem mesmo nosso desejo de afeição natural, pois assim diz o Senhor Jesus: “Se alguém vem a mim e não aborrece a seu pai, e mãe, e mulher, e filhos, e irmãos, e irmãs e ainda a sua própria vida, não pode ser meu discípulo”. Porque para seguir a Jesus é necessária a consciência de que nosso maior tesouro é Ele. Maior do que qualquer outro tesouro, por mais valioso que ele seja, que possamos ter nessa vida – incluindo nossa própria vida neste corpo. Reconhecer nossa pequenez – e reconhecer a grandeza dEle.

Por isso, é preciso calcular o preço a ser pago para dizer esse “Sim” a Jesus. Um preço muitas vezes não ensinado, não esclarecido. Mas o preço é grande, e é preciso que seja calculado – assim como é necessário que se calcule a despesa para construir uma torre ou a quantidade de soldados para vencer uma guerra (v.28-32). Para que não ocorra que, tendo dito um sim inconsciente, venhamos a ser envergonhados. Seguir a Jesus exige renúncia: de nosso orgulho, nossa reputação, nossos maiores tesouros, nossa própria vida: “pois, todo aquele que dentre vós não renuncia a tudo quanto tem não pode ser meu discípulo” (v.33).


Por isso o Reino é dos necessitados. Porque quem é pobre, aleijado, cego e coxo facilmente enxerga que tudo aquilo que ele venha a possuir nesta vida não pode se comparar ao que Aquele Senhor lhe oferece. Aquela ceia. Por isso, sua resposta não poderia ser outra a não ser “Sim!”. Ele olha para si mesmo e olha para Aquele Senhor, e entende. E, para entrar no Reino de Cristo, é necessário que seja assim também. Que Ele cresça, e nós diminuamos. Que reconheçamos quem somos e Quem Ele é. E, só assim, compreenderemos como somos privilegiados por poder fazer parte disso. Quando tivermos a consciência que somos os pobres, aleijados, cegos e coxos. E Ele é o Rei. E a menor coisa que Ele possa nos oferecer ainda será maior do que tudo o mais que possamos conquistar sem Ele. Assim, que nossa resposta seja sim. E que participar do que Ele tem preparado seja a maior alegria dos nossos corações. Que assim seja. Amém.

sexta-feira, 11 de março de 2016

Quaresma – Dia 28 – Reagindo à repreensão



“Saindo Jesus dali, passaram os escribas e fariseus a argui-lo com veemência, procurando confundi-lo a respeito de muitos assuntos, com o intuito de tirar das suas próprias palavras motivos para o acusar” (Lucas 11.53-54)

Como você reage quando é repreendido por alguém, quando alguém chama a sua atenção? Jesus estava fazendo isso com os fariseus e os escribas nos versos de Lucas 11. 37 a 52. Ele censurou os fariseus e os intérpretes da Lei, expondo seus pecados, sua falsa religiosidade, sua hipocrisia. Jesus lhes tirou as máscaras. E é interessante que Jesus nem fez isso diante da multidão. O texto diz que Ele estava à mesa com um fariseu que O havia convidado para comer com ele. Dá a ideia de que eles estavam na casa do fariseu. Mas, mesmo fazendo estas exortações tão sérias e pesadas àqueles líderes religiosos, eles não se arrependeram. Após ouvir todas aquelas revelações a respeito da condição errada e falsa de seus corações e de suas ações religiosas, aqueles homens, que poderiam ter assumido a sua culpa, o seu pecado, e se arrependido, e pedido o perdão de Jesus, não o fizeram. Ao contrário, ao invés de assumirem-se pecadores e pedir perdão, eles decidem encontrar desculpas para matar o Cristo.

E essas são as duas opções que temos. Ou nos humilhamos, assumindo nossa fraqueza e pedindo ajuda; ou nos vestimos de presunção e vaidade e tentamos reverter o quadro, transformando em acusado aquele que nos acusa. Humildade ou orgulho. São as duas opções. Ou tirar as máscaras, ou reforça-las, tirando de nós o foco do julgamento e colocando-o sobre a vida daquele que nos estava revelando. E é exatamente uma dessas duas coisas que nós fazemos quando somos acusados, quando somos repreendidos. Ou reconhecemos ou também nos tornamos acusadores – e ainda mais ferrenhos do que aquele que nos exortou. Se não assumimos nosso papel de “vilões”, para defender nossa falsa fama de “mocinhos”, então nossa saída é transformar todos os que “ameaçam nossa fama” também em vilões. Jesus era Santo – O Messias. Mas aqueles homens precisavam transformá-Lo no vilão, para defender o seu orgulho, para não precisarem reconhecer quão maus eram. Então, mais fácil era transformar Jesus em alguém mau do que reconhecer que Ele estava certo.

E é assim com a gente. Não só quando Deus nos repreende (diretamente, pelo Espírito Santo em nossa consciência). Mas, principalmente, quando as pessoas nos repreendem. Quando Deus nos repreende por meio das pessoas. Quando elas expõem nossos erros e pecados. É tão difícil ser exortado. É duro, dói. A repreensão nunca é algo fácil. Porque é um confronto ao nosso ego, ao nosso orgulho, à nossa vaidade, à nossa necessidade de aceitação, ao nosso desejo de ser deus. A verdade é que o maior pecado de todo ser humano é o desejo de usurpar o lugar de Deus. Ser iguais a Ele, tomando-Lhe o centro. E quando somos censurados e expostos, todos descobrem que não somos “deus” coisa nenhuma. Somos pecadores. E quanto lutamos para esconder essa verdade dos outros – e de nós mesmos.

Mas esse caminho não é um caminho possível para nós, cristãos. Porque só há lugar ao lado de Deus quando há arrependimento. Porque só há lugar para UM DEUS na vida do cristão. E não somos nós. Porque o caminho de Cristo é o caminho da cruz, da humilhação, da diminuição, para que o Pai seja quem cresça. E isso começa nas pequenas coisas. Começa em reconhecermos o orgulho que há em nós – e que se manifesta, ou tenta se manifestar, cada vez que alguém nos chama a atenção. Todas as vezes em que não podemos simplesmente responder “É verdade. Eu fiz isso. Me perdoe”, mas precisamos nos justificar eternamente, para convencer de que estamos sempre certos. Começa em aprender a ficar calados. Aprender a pedir perdão. Aprender a tirar as máscaras e mostrar seu pior lado. É assim que se aprende a ser cristão. É assim que se cresce na fé. Não há lugar para nosso ego, nosso orgulho, nossa vaidade.

Que não sejamos como estes escribas e fariseus que, para se defender, procuram motivos para acusar quem lhes exorta. Que não sejamos assim. Que reconheçamos o pecado em nossa vida, que nos arrependamos, que procuremos mudar – e que nos lembremos que aqueles que nos exortam com sinceridade são verdadeiros amigos e instrumentos de Deus. São voz do Espírito Santo, que é quem nos convence do pecado, da justiça e do juízo. E precisamos dar ouvidos à essa voz. Porque precisamos dela para mudar e para crescer. Que nunca calemos essa voz em função de nossa necessidade de defender nossa “reputação”. Que aprendamos a ser humildes – com o mais humilde dos homens que viveu sobre esta terra: Aquele que deixou o Seu reino celestial e humilhou-se, fazendo-se como um de nós, pecadores, por amor ao Pai e ao próximo. Ele é nosso maior exemplo. E é exatamente com a simplicidade e a humildade dEle que devemos reagir à repreensão. Para que Seu Nome seja glorificado. E que Ele nos ajude. Amém.


terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

Quaresma – Dia 14: Autoanálise



“Como poderás dizer a teu irmão: Deixa, irmão, que eu tire o argueiro do teu olho, não vendo tu mesmo a trave que está no teu? Hipócrita, tira primeiro a trave do teu olho e, então, verás claramente para tirar o argueiro que está no olho de teu irmão” (Lucas 6.42)

Poxa, fiquei muito feliz hoje, após fazer minha leitura bíblica e a reflexão dessa noite, por descobrir que o vídeo da Cidade Viva Pb estava falando exatamente sobre o mesmo assunto: a necessidade da autoanálise. Glórias a Deus!

O trecho bíblico sobre o qual eu gostaria de refletir hoje está em Lucas 6.39-49. É interessante que eu pensei, quando terminou o tópico “O juízo temerário é proibido”, de Lucas 6.37-38, que havia terminada a exposição de Jesus a respeito dos padrões dos fariseus e escribas, e a Sua oposição a eles, porque no versículo 39 Jesus começa a contar uma parábola, sobre o cego que guia outro cego. Porém, ao começar a ler, vi que Jesus continua falando sobre a mesma coisa: agora por meio de parábolas (do guia cego, da árvore e seus frutos e dos dois fundamentos), Jesus continua falando sobre os erros cometidos pelos fariseus e escribas, e tentando ensinar Seus discípulos a não os cometerem também. E o principal pecado que Jesus combate aqui é a HIPOCRISIA: um cego que, achando-se superior aos outros, guia outros cegos; uma árvore que não dá frutos; um homem que ouve os ensinos de Cristo mas não os pratica – e, seja o cego, a árvore sem frutos ou o conhecedor que não pratica, sentem-se no direito ou na posição de criticar os outros. E Jesus nos mostra que nosso caminho deve ser muito diferente: nosso esforço deve ser, primeiro, para criticar A NÓS MESMOS.

O texto começa falando sobre um homem que, mesmo tendo uma trave em seus olhos, está preocupado em tirar o argueiro do olho do outro. A versão King James coloca assim: “Por que reparas no cisco que está no olho do teu irmão e não percebes o tronco que está no teu próprio olho?” (v.41). Que diferença existe entre um CISCO e um TRONCO! Um grão de POEIRA e o TRONCO DE UMA ÁRVORE! Como é possível que alguém possa enxergar um cisco mas não enxergar um tronco? Não foi à toa que Jesus usou essa comparação. Ele queria falar de alguém que estava tão focado em olhar pra vida alheia, procurando os defeitos dos outros com tanto afinco, que foi capaz de enxergar o menor desvio do irmão; mas, tendo perdido tão completamente o hábito ou a capacidade de olhar e analisar sua própria vida, era capaz de ter um tronco inteiro em seus olhos sem percebê-lo. E esses eram os fariseus e escribas. Eles eram os guias cegos e os homens com o tronco nos olhos. Tão dedicados a julgar o cumprimento da lei pelos outros, que tornaram-se insensíveis ao pecado em suas próprias vidas, incapazes de se autoanalisar. E Jesus os chama de HIPÓCRITAS! Homens tão cheios de pecados, muito maiores do que os pecados do irmão, mas ainda assim incapazes de se autoavaliar e autocondenar, mas tão apressados em condenar o mínimo pecado do outro. E quantas vezes NÓS não temos sido assim? Como o Sérgio Queiroz diz no vídeo: tão apressados em julgar o outro e tão lentos em julgar a nós mesmos. Achamos inaceitável o pecado do nosso irmão, mas aceitamos com tanta facilidade nossos próprios pecados. Identificamos com tanta facilidade a área em que o outro está fraco e caindo, mas temos tanta dificuldade em identificar a área em que NÓS estamos fracos e caindo. E a ordem de Jesus é: SE AUTOANALISE! OLHE PARA SUA VIDA PRIMEIRO! JULGUE A SI MESMO ANTES DE JULGAR O OUTRO! E isso coloca um peso, uma responsabilidade enorme no fato de julgarmos alguém. Porque o que Jesus está dizendo é: antes de julgar o erro do seu irmão, CORRIJA O SEU! TIRE A TRAVE DO SEU PRÓPRIO OLHO ANTES DE QUERER TIRAR O CISCO DO OLHO DO SEU IRMÃO! “Retira, antes de tudo, a trave do teu olho e, só assim, verás com nitidez para tirar o cisco que está no olho de teu irmão” (v. 42b – BKJ). É muito interessante perceber que Jesus não estava condenando a tentativa do homem de tirar o cisco do olho do irmão. Não! Tanto que o texto termina dizendo “verás com nitidez para tirar o cisco que está no olho do teu irmão”. O cisco é para ser tirado. Esse esforço não é errado. O que Jesus está condenando aqui é o fato de que aquele que queria tirar o cisco do olho do outro não tinha cuidado NEM MESMO DO SEU PRÓPRIO OLHO! É a HIPOCRISIA de julgar o outro, enquanto você tem problemas muito maiores em sua própria vida que você ainda não se dedicou a resolver. E isso é muito sério! Jesus chama essas pessoas de HIPÓCRITAS – como os fariseus e escribas!

E o texto continua nos explicando COMO FAZER MINHA AUTOANÁLISE. Como eu devo me avaliar? E a resposta está nos versos 43 e 44a: “Não há árvore boa que dê mau fruto; nem tampouco árvore má que dê bom fruto. Porquanto cada árvore é conhecida pelo seu próprio fruto”. E depois: “O homem bom do bom tesouro do coração tira o bem, e o mau do mau tesouro tira o mal; porque a boca fala do que está cheio o coração” (v.45). E finalmente: “Por que me chamais Senhor, Senhor, e não fazeis o que vos mando? Todo aquele que vem a mim, e ouve as minhas palavras, e as pratica [...] é semelhante a um homem que, edificando uma casa [...] lançou o alicerce sobre a rocha; e, vindo a enchente [...] não a pôde abalar, por ter sido bem construída. Mas o que ouve e não pratica é semelhante a um homem que edificou uma casa sobre a terra sem alicerces, e, arrojando-se o rio contra ela, logo desabou...” (v.46-49)

Como nós devemos nos autoavaliar? Observando nossos FRUTOS! Não a beleza das folhas ou das flores. Não quão belos nós parecemos. Não o que aparentamos aos outros. Mas nossos FRUTOS! Qual tem sido o RESULTADO de nossas vidas? Qual tem sido o tesouro que temos tirado de nosso baú e oferecido às pessoas em nossa vida? O que tem saído de nossas bocas? Porque os frutos revelam a identidade da árvore; os tesouros que oferecemos revelam a condição do nosso baú; as palavras que saem de nossas bocas revelam a condição do nosso coração! É pelo que FAZEMOS que devemos nos autoanalisar – NÃO PELO QUE FALAMOS! De nada adianta chamar Jesus de Senhor, fazer lindas orações, como faziam os fariseus e os escribas, ter as palavras certas, se não FAZEMOS aquilo que falamos, se não VIVEMOS! De nada adianta OUVIR as palavras de Jesus, CONHECER Seus ensinos, ter a maior gama possível de conhecimento e estudos, se não PRATICAMOS tudo isso! De nada vale! Seremos considerados como o homem que construiu uma casa na areia, sem construir o alicerce, enganando-se a si mesmo, com uma linda casa, mas que será destruída pela enchente! Mas Jesus nos chama para o AUTOCONHECIMENTO, para uma vida consciente de que precisa de um alicerce firme, que resiste à enchente  - o JULGAMENTO DE DEUS – e esse alicerce é a PRÁTICA da Palavra, e não apenas o seu conhecimento.

Isso é tão sério! Que responsabilidade! Porque nós podemos enganar aos homens com nossas boas aparências e nossas palavras certinhas. Homens se satisfazem com aparências. Aliás, normalmente é somente com isso que eles estão preocupados. Nosso exterior. Mas, como Deus diz a Samuel em 1 Samuel 16.7: “Não atentes para a sua aparência, nem para a sua altura, porque eu o rejeitei; porque o SENHOR não vê como o homem vê. O homem vê o exterior, porém o SENHOR, o coração”. Nós nos contentamos com a aparência. Nos deixamos convencer por ela. Olhamos para um pregador cheio de conhecimento da Palavra e com uma pregação maravilhosa e isso é o suficiente para o considerarmos um grande homem de Deus. Olhamos para alguém que realiza muitas atividades religiosas e exerce muitos cargos de confiança na igreja, e rapidamente nos convencemos do quanto aquela pessoa é espiritual. Mas Deus não julga assim, tão superficialmente. Ele olha além. Ele olha nosso coração – e o que provém dele para as nossas vidas. Não só as nossas vidas “eclesiásticas”, mas nossas 24 horas de vida. 7 dias na semana. Todos os dias do ano. A cada minuto. Que frutos temos dado em TODA A NOSSA VIDA? Que tesouros temos tirado de nosso baú? Quanto daquilo que ouvimos e falamos tem se tornado prática em nossas vidas? É muito mais profundo. É muito mais sério. É uma análise vital para qualquer seguidor do Cristo.


Que o Senhor nos dê o discernimento e a sabedoria espirituais para realizarmos nossa autoanálise. Que o Espírito Santo nos ajude a ser mais rígidos com nosso próprio pecado, a trata-lo como tratamos o pecado alheio, com o mesmo nível de julgamento. Que sejamos lentos em julgar aos outros e rápidos em julgar a nós mesmos. Porque, conforme fala o texto de ontem, de Lucas 6.38: “porque a medida que usares para medir o teu próximo, essa mesma será usada para vos medir” (BKJ). Deus nos ajude a enxergar o que há em nossos olhos – sejam troncos ou ciscos. Ele nos ajude a ver. A reconhecer que frutos temos dado em nossas vidas; que tesouros existem em nossos baús; o que está guardado em nossos corações. E, tendo identificado o fruto mau, o tesouro mau e as palavras más, Ele gere em nos verdadeiro arrependimento e nos conduza à transformação. Que Ele nos ensine a ser mais misericordiosos com os outros, e mais realistas em relação a nós mesmos. Menos orgulhosos. Ele nos quebrante. Ele nos humilhe. Para que Ele mesmo possa crescer em nós. Para que nossa vida seja aroma agradável às Suas narinas – e testemunho fiel de Sua Santidade a este mundo. Ele nos ajude. Amém.

terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

Quaresma - Dia 7: Verdadeiro Arrependimento



“Então, as multidões o interrogavam, dizendo: Que havemos, pois, de fazer?” (Lucas 3.10)

Eis a pergunta mais importante da vida do ser humano. E agora, o que nós devemos fazer? No texto de Lucas 3.1-14, o evangelista expõe o ministério de João Batista e, no verso 7, diz que João se dirigiu às multidões que o procuravam para serem batizadas e lhes disse: “Raça de víboras, quem vos induziu a fugir da ira vindoura?”. E, se pararmos para refletir seriamente sobre o que João estava falando, que coisa tão dura de se falar! O texto diz que aquelas pessoas estavam INDO ATRÁS do Batismo de João. E nós sabemos qual era a pregação de João Batista em seu ministério, conforme falam os evangelhos de Mateus e Marcos: “Naqueles dias, apareceu João Batista pregando no deserto da Judéia e dizia: Arrependei-vos, porque está próximo o reino dos céus” (Mateus 3.1-2) e “apareceu João Batista no deserto, pregando batismo de arrependimento para remissão de pecados” (Marcos 1.4). João andava por toda a vizinhança do Jordão pregando ARREPENDIMENTO e BATISMO DE ARREPENDIMENTO, para remissão dos pecados. O batismo era o que ele ensinava. Ele conclamava as pessoas a se arrependerem e virem batizar-se. Porém, Lucas nos diz que havia uma multidão que vinha para ser batizada, porém, João a chama de raça de víboras e a condena por tentarem fugir da ira vindoura! Isso não seria completamente contrário ao que ele pregava? Ele pregava sobre remissão dos pecados, para que as pessoas fossem livres da ira vindoura, contudo condenava aquelas pessoas porque estavam tentando fugir desta mesma ira, por meio do batismo que ele oferecia.

Só que não existe contradição aqui. Eu acho tão bonito o que Lucas resolveu registrar em seu evangelho a respeito da pregação de João. Os demais evangelhos falam muito sucintamente a respeito do que Lucas fala aqui. Logo após mencionar a repreensão que João faz àquela multidão, o texto continua dizendo: “Produzi, pois, frutos dignos de arrependimento” (v.8a). E é preciso parar para analisar muito bem o que essas palavras significam. Talvez alguém queira usá-las para defender que a salvação depende dos frutos que damos, que o arrependimento segue os frutos, os quais precisamos gerar primeiro. Porém, não é o que o texto diz. João não se contradiz aqui, como se a salvação dependesse dos nossos frutos e não do nosso arrependimento. O que ele está dizendo é que o verdadeiro arrependimento não pode vir separado de frutos. Frutos dignos de arrependimento. A versão King James diz: “Produzi, então, frutos que demonstrem arrependimento” (v.8a). João via, na vida daquela multidão que o procurava, que não havia verdadeiro arrependimento. Era somente pelo medo da ira vindoura que eles procuravam batizar-se. Mas não haviam se arrependido de seus pecados. E foi por isso que João os repreendeu. O batismo de João não era para essas pessoas.

E minha pergunta é: será que as pessoas, em nossos dias, têm compreendido o que é o verdadeiro arrependimento? Será que temos conseguido ensinar o que João estava ensinando: que a salvação não é pelas obras, e sim a partir do arrependimento dos pecados, porém que não existe arrependimento real se não houver mudança de obras? Será que nós mesmos temos entendido a relação que existe entre essas duas coisas? É belíssimo como Lucas escolheu o restante das palavras de João Batista para registrar nesse texto e deixar bem claro o que estava sendo ensinado. As multidões, após serem exortadas, perguntam, então, a João: “Que havemos, pois, de fazer?” (v.10 – ARA), ou, segundo a versão King James, “O que devemos fazer então?”. Aquelas pessoas, definitivamente, não haviam entendido a pregação de João. E ele, então, explica a eles:

“Quem tiver duas túnicas, reparta com quem não tem; e quem tiver comida, faça o mesmo. [...] Não cobreis mais do que o estipulado. [...] A ninguém maltrateis, não deis denúncia falsa e contentai-vos com o vosso soldo” (v. 11, 13, 14)

É interessante que Lucas não se restringiu a registrar o que os outros evangelistas registraram: o “arrependei-vos” de João. Ele vai além. Ele explica o que quer dizer esse “arrependei-vos”. Significa MUDANÇA. É o significado dessa palavra tão batida e mal empregada nos nossos dias: “CONVERSÃO”. O que significa conversão? Significa isso aí que João falou àquela multidão. O que significa o verdadeiro arrependimento? Significa conversão. Conversão é uma palavra que significa, literalmente, mudança de direção. Aquele que vivia somente para si mesmo, que passe a ser misericordioso com o outro e o ajude. Aquele que era avarento e mentiroso, seja honesto. Aquele que queria o mal do outro e se aproveitava de sua posição para, por meio da exploração alheia, se beneficiar, deixe de fazê-lo. MUDE. E quando você mudar, isso não GERARÁ arrependimento em você. Isso apenas DEMONSTRARÁ que o verdadeiro arrependimento aconteceu. Você entendeu. Você reconheceu-se errado, pecador, e a compreensão de seu pecado pesou tanto sobre você que você não poderia mais continuar na mesma direção, no mesmo caminho, nas mesmas obras. A única coisa que poderia acontecer era CONVERGIR, sair daquele caminho e voltar na direção oposta.

Me preocupa tanto a realidade que nosso Brasil e, talvez, uma boa parte do Ocidente vive hoje em relação ao Cristianismo. A mensagem cristã se banalizou. Falou-se tanto, talvez sem entender o verdadeiro sentido dos ensinos das Escrituras, talvez com a motivação errada de arrebanhar ovelhas para nosso pasto, talvez sem nem mesmo os pregadores terem se tornado verdadeiras ovelhas deste pasto, que a mensagem foi banalizada. Podemos perguntar para todas as pessoas ao nosso redor se elas creem em Deus, e a grande maioria afirmará que sim. Perguntemos a elas se elas são filhas de Deus, e elas dirão que sim. Perguntemos a elas se elas são cristãs, e elas responderão que sim. Como aquela multidão dizia ser filha de Abraão, filha da promessa de Deus. No entanto, João diz a elas: “e não comeceis a dizer entre vós mesmos: Temos por pai a Abraão; porque eu vos afirmo que destas pedras Deus pode suscitar filhos a Abraão” (v.8b). Filhos como vocês? Até mesmo essas pedras podem ser. Vocês não são filhos! Vocês sequer entendem o que é ser um filho de Abraão. E sabemos disso ao olhar para as suas vidas! É assim no nosso mundo hoje. Os pregadores dizem: “Tenham fé em Jesus e vocês serão salvos!”. E todos dizem ter fé, sem nem saber o que é a verdadeira fé salvadora. Os pregadores dizem: “Todo aquele que crer será salvo!”. E todos dizem crer, porém sem ter a menor ideia do que significa crer para ser salvo. João havia pregado: “Arrependei-vos, pois está próximo o reino dos céus”. E todos diziam terem se arrependido, somente para não provarem do juízo que acompanhava a chegada do Reino do Senhor dos Exércitos. Sem a correta explicação do que todas essas palavras tão simples, mas tão decisivas, significam – “crer”, “fé”, “arrepender-se” – mais contribuiremos para condenação do que para salvação.

João poderia ter, simplesmente, fingido que não via a contradição na vida daquelas pessoas. Era uma MULTIDÃO procurando-o para ser batizada. Ele poderia dizer, como muitos dizem hoje: “Quem sou eu para dizer que o arrependimento deles não é verdadeiro? Se eles estão afirmando terem se arrependido e desejam ser batizados, então quem sou eu para não batizá-los?”. Mas não. João sabia qual era seu papel. O último profeta. E que se ele se omitisse em deixar suficientemente claro o significado de sua pregação, não completaria a sua missão de preparar o caminho para o Senhor Jesus. João foi levantado por Deus para preparar o caminho para a primeira vinda do Messias. Nós somos aqueles que Deus chama para preparar o caminho para Sua segunda vinda, que se aproxima, como nos tempos do Batista. E, como o Batista, não podemos comprometer nossa mensagem. Que ela esteja clara para nós – e que ela seja viva e real em nós. Que possamos examinar a nós mesmos para saber se temos experimentado o verdadeiro arrependimento e a verdadeira conversão. E, tendo provado a nós mesmos, que o Senhor nos capacite a ensinar a este mundo a verdade completa – ainda que seja uma palavra dura aos que a ouvem.

Aquela multidão que perguntou a João “Que havemos, pois, de fazer?”, e que não havia experimentado verdadeiro arrependimento, provavelmente não gostou muito das respostas que ele deu. Aquelas pessoas egoístas, provavelmente não gostaram de ouvir que precisavam tornar-se misericordiosas. Aqueles publicanos que usavam de seus postos para tirar mais dinheiro do que deviam dos outros, e enriquecer às suas custas, provavelmente não gostaram de ouvir que deveriam parar de cobrar o que não era devido. Aqueles soldados, acostumados a maltratar os outros por prazer, a usar de sua autoridade para humilhar aos outros e se beneficiar às custas dos outros, provavelmente não gostaram de ouvir que deveriam parar de maltratar, de fazer denúncias falsas e deveriam se contentar com seu salário. O que João fez foi mostrar-lhes que eles não queriam, de fato, abrir mão de seus pecados. Portanto, não havia neles arrependimento. E pregar isso é duro. Dizer a alguém que se ela não deixa suas práticas pecaminosas, então sua fé é vã, então ela não crê em Deus, e então ela não é Sua filha. Ela está se autoenganando. E então, ela não está preparada para receber o batismo de arrependimento. E então ela não está preparada para entrar para a família da fé. E não é fácil pregar isso. Mas é preciso.


Que o Senhor nos conceda coragem, mas também amor e sabedoria, para aprender como fazer isso, como ser os proclamadores das verdades completas do evangelho. Que não sejamos acusadores duros e implacáveis que se colocam como juízes e vivem para apontar o pecado alheio. Mas que não sejamos também medrosos e mais interessados em agradar ao homem do que a revelar-lhe os ensinos das Escrituras. Que o Espírito Santo nos ajude a encontrar o equilíbrio. E que nada do que façamos seja feito sem amor, pois “sem amor, nada disso me aproveitaria” (1 Coríntios 13.3b). Que Ele nos ajude a assim ser. Para Sua glória. Amém.