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terça-feira, 21 de julho de 2020

Anseios pelo céu...


Vivendo um período de recomeços em minha caminhada cristã, tenho voltado a fazer as perguntas mais básicas: "Quem Deus é? Qual Seu grande propósito? O que Ele está tentando nos mostrar? O que Ele espera de nós?". Me pego pensando em como temos respondido essas perguntas até aqui. O que acreditamos sobre cada uma delas. 

E, um dia desses, ouvindo o Leonardo Gonçalves cantando "There" , me vi refletindo sobre nosso ensino a respeito do céu, ou da eternidade. O que nós ensinamos para as crianças sobre o céu - as primeiras coisas, o básico? Lá no fim do nosso evangelismo de 5 cores, qual representa a eternidade? O amarelo. E o que ele retrata? As ruas de ouro! As ruas de ouro! E isso me deixou estarrecida! De tudo que poderíamos escolher para ensinar uma criança sobre o céu, foi a imagem das "ruas de ouro" a escolhida!

Então, continuei pensando sobre o que costuma vir à nossa mente ou ser expresso quando falamos do céu? "O descanso tão esperado para nossas almas; o fim de toda dor e sofrimento; a vida feliz para sempre; o lugar para os que foram feitos livres do fogo do inferno; o nosso reinado do lado de Deus"... e como é tudo sobre nós! Coroa, descanso, paz, segurança... e quanto é de Jesus que nós lembramos quando pensamos a respeito do céu? Quanto podemos dizer, como na música, "Eu não me importo com a coroa ou com a cor das vestes, enquanto Jesus estiver na cidade, eu quero estar lá!"?

Qual tem sido a essência da nossa fé? Em que a temos construído? Em medo do inferno? Em benefícios próprios? Em interesses egoístas? Em resolver nossos problemas? Porque se tem sido só isso, estamos tão longe! É tão maior do que isso! Tão além! Tão mais profundo e belo! O que são as ruas de ouro perante a oportunidade de finalmente encontrar nosso Amado e desfrutar de Sua companhia e Seu amor plenos eternamente? Ah, como estamos longe de entender a grandeza do que nos está proposto se não conseguimos perceber isso!

Será que realmente compreendemos? Ou será que precisamos voltar ao começo e aprender tudo de novo? No fim, estou certa de que é muito, muito mais bonito do que costumamos imaginar. 

segunda-feira, 20 de julho de 2020

Um Deus relacional. Uma relação de amor.


Nesse dia do amigo, me pego pensando na profundidade do significado de nossas relações humanas na vida. Se pararmos pra refletir com um pouco mais de calma, perceberemos que, no meio dos tantos tesouros oferecidos a nós nessa vida, no fim, são as nossas relações uns com os outros o que realmente tem valor. Uma amizade, um casamento, uma relação pais e filhos, família, até mesmo nossas relações com nossos bichinhos de estimação. No fim de tudo, a coisa mais bonita e valiosa que encontraremos nesta vida é encontrada nas relações. 

Isso me remete a um comentário do Pr Filipe Fontes, em uma reflexão sobre o casamento: costumamos pensar que Deus escolheu algumas imagens existentes no mundo para revelar a si mesmo em sua Palavra - escolheu a figura de um pai, de um filho, de um leão... a coisa criada para revelar Quem Ele é. Porém,a verdade é que Deus já era antes de tudo ser criado. A verdade é que ele CRIOU todas as coisas a fim de que elas pudessem revelar Quem Ele é. E que fantástico isso é! Porque ao invés de pensar que Deus achou a ideia de "família" ou "amizade" suficientemente boas para explicar a Si mesmo, Ele intencionou criar essas coisas, na profundidade de sua beleza e significado, para nos ajudar a compreender a profundidade da Sua beleza e significado. E isso muda drasticamente a forma como devemos olhar para um noivo e uma noiva, um pai e um filho, dois irmãos, dois amigos, pois essas coisas foram criadas para expressar a relação que Deus tem para viver conosco!

E tudo isso nos chama a pensar de onde surgiu todo esse significado das relações para que elas sejam tão importantes, tão marcantes e determinantes em nossas histórias. Por que Deus se revela primordialmente por meio de relacionamentos? E é quando somos chamados a olhar para a Trindade. No princípio, era Deus. E Deus é Pai, Filho e Espírito Santo. No princípio, era o relacionamento mais pleno, bonito, gracioso, amoroso, verdadeiro, profundo, íntimo, perfeito de todos: o relacionamento de Pai, Filho e Espírito Santo. É a partir desta relação que todas as coisas são criadas. E é para expressar e partilhar essa relação que todas as coisas são criadas. 

Que diferença faz pensar em um Deus individual criando todas as coisas, e pensar em um Deus Triuno criando todas as coisas. Pai, Filho e Espírito Santo, juntos, criando. Revelando não somente ao Pai, mas revelando a perfeita unidade da Trindade. Porque isso muda como enxergamos o propósito de todas as coisas. O propósito da criação. Não um propósito pragmático, focado em metas a serem alcançadas, em um trabalho ou função a ser cumprida, definidas por um chefe trabalhador que tem um importante projeto a cumprir. Um propósito relacional: um novo estilo de vida, o estilo de vida que a Trindade vive e deseja partilhar com toda a criação. Não é totalmente diferente?

Talvez toda essa sensação maravilhosa que sentimos quando nos encontramos em verdadeiros e íntimos relacionamentos de amor seja uma gota do que Deus deseja nos revelar sobre si mesmo e Seu propósito eterno: é parecido com isso o que Ele é e o que Ele nos chama a ser e a viver com Ele nessa vida! Um relacionamento de amor. Não é isso o que Ele está construindo? Uma festa de casamento? Não é assim que a história vai acabar: com as Bodas do Cordeiro? Ah, que imagem maravilhosa! A imagem do fim da história não é a coroação de um Rei, é um casamento! Talvez o momento mais incrível vivido por um ser humano nessa terra: o noivo apaixonado que, finalmente, receberá sua amada para uma vida de unidade e intimidade plena, a maior intimidade que se pode viver nessa terra! Lágrimas nos olhos, coração palpitando, sorrisos que não cabem no rosto, e toda a alegria das pessoas que amam aquele casal e torcem para sua mais plena felicidade... Que quadro maravilhoso de se pensar para o fim da história do Deus Eterno! 

Essa é uma história de amor. Que começa com a mais bela relação de amor. Que se desenvolve com um chamado para participação nesta linda relação. Que termina com a celebração da unidade plena, final e eterna desta relação de amor. Não é lindo pensar em um Deus assim? Tenho para mim que, quando O encontrarmos face a face, veremos nEle um olhar apaixonado muito mais apaixonado do que podemos imaginar! O olhar do Noivo que, finalmente, recebe Sua Noiva no altar. Que isso mude nosso jeito de pensar nEle, em nós, na história que está sendo escrita nesse mundo e na vida que estamos sendo chamados a viver. 

Um Deus relacional. Um chamado relacional. Uma vida relacional. Um relacionamento de amor.

domingo, 19 de novembro de 2017

Maturidade...



Estou cada dia mais convencida de que maturidade tem muito mais a ver com lágrimas do que com risos, com decepções do que com encantos, com frustrações do que com vitórias, com dores do que com conforto, com tempestades do que com bonanças, com desertos do que com jardins...

Pois é na dor, na fornalha, na pressão, nos tempos contrários, quando nada do que esperamos acontece, quando nenhuma das nossas expectativas é suprida, quando nossos sonhos se frustram, quando os sentimentos são abafados e a empolgação passa que iremos mostrar a real força de nossas convicções – a real força de nossa fé.

Pois maturidade tem a ver com força. Não é sobre a intensidade com que começamos, mas com nossa capacidade de permanecer, enfrentando cada estação, cada inverno pesado, cada outono em que as folhas todas caem e as árvores ficam todas desfolhadas e secas... e ainda continuar de pé. É poder cantar como cantaram “Os Arrais”: “Como as árvores, eu permaneço no mesmo lugar; no outono, no inverno, eu espero primavera chegar...”. É sobre saber esperar.

É sobre ser testado e aprovado. Sobre sobreviver ao dia mau. Sobre conseguir atravessar as noites escuras sem deixar o coração endurecer e perder a esperança. É sobre não desistir de amar, mesmo sem receber amor. É sobre não desistir de dar, mesmo sem nada em troca. É sobre decidir pelo que se é, pelo que é verdade, não pelo retorno que teremos. É sobre escolher continuar dizendo sim à missão de salvar a outrem, ainda que nosso único pagamento seja uma cruz.

Estou cada dia mais convencida de que maturidade tem a ver com suportar as demoras da vida e ainda acreditar. Sobre abalar-se e não desistir. Sobre ainda poder olhar com compaixão, graça e misericórdia mesmo para aqueles que mais nos feriram. Sobre morrer, mas ainda assim escolher doar-se. Sobre injustiças, sobre “nãos”, sobre feridas, sobre solidão, sobre diminuir, pois, como também cantaram “Os Arrais”, “somente uma fé que se abalou inabalável é”.

Porque é tão fácil ter um sorriso nos lábios, um coração grato, um olhar compassivo, braços estendidos, serviço disposto, vontades firmes, convicções inabaláveis quando os tempos nos são favoráveis, quando o caminho está cheio de companheiros, quando nosso sonho é compreendido e apoiado, quando encontramos suporte e cuidado, quando está confortável e bonito o trajeto à frente, quando há luz e certezas... e como são bons e abençoados estes tempos de bonança que o Senhor nos dá!

Porém o dia mau chegará. E não nos enganemos: ele chegará! O inverno. Depois de viver as belezas do verão e da primavera, precisamos estar preparados para o inverno, pois ele sempre chega. Quando não haverá mais tantas companhias, quando nossos sonhos e visões serão considerados loucos, quando não haverá a mão estendida ou o abraço esperado, quando seremos julgados e condenados, quando uma cruz nos esperará no fim do caminho, quando vai doer e sangrar e pareceremos enfrentar tudo isso sozinhos... e é então que saberemos a real força de tudo que achávamos ter e ser. É então que saberemos o real material do qual nossa casa era construída. Quando o vento bate forte. Quando a tempestade cai.

E esse é o propósito dos nossos invernos. Não apenas nos testar e provar, mas nos amadurecer. Nos mostrar nossas fragilidades e nos convidar a cuidar delas e deixa-las ser cuidadas, e nos fortalecer. Pois quando conseguimos vence-los – ah! quando conseguimos vence-los! – descobriremos que havia em nós uma força que jamais imaginaríamos, e descobriremos que nossa paz e satisfação não são construídas e determinadas pelo que está acontecendo lá fora, mas pelo que está acontecendo aqui dentro. Até chegar aquele dia em que, esteja frio ou calor, claro ou escuro, silêncio ou barulho, repleto de gente ou sem ninguém, continuaremos encontrando motivos para sorrir e confiar e, finalmente, descansar. Maturidade.

Por isso, também “nos gloriamos nas tribulações, porque aprendemos que a tribulação produz perseverança; a perseverança produz um caráter aprovado; e o caráter aprovado produz confiança. E a confiança não nos decepciona, porque Deus derramou seu amor em nossos corações, por meio do Espírito Santo que Ele mesmo nos outorgou” (Romanos 5.3-5), porque “Ele me declarou: “A minha graça te é suficiente, pois o meu poder se aperfeiçoa na fraqueza”. Sendo assim, de boa vontade me gloriarei nas minhas fraquezas, a fim de que o poder de Cristo repouse sobre mim. Por esse motivo, por amor de Cristo, posso ser feliz nas fraquezas, nas ofensas, nas necessidades, nas perseguições, nas angústias. Porquanto, quando estou enfraquecido é que sou forte!” (1 Coríntios 12.9-10).

Porque Ele é a nossa força. Ele é nossa fonte de paz e alegria. Ele é nosso motivo e esperança. Ele é nosso propósito e herança. Ele é nosso conforto e abrigo. Ele é nossa segurança e nosso amigo sempre presente.

“Porque dELE, e por ELE, e para ELE, são todas as coisas; glória, pois, a ELE eternamente. Amém.” (Romanos 11.36)

E, seja verão ou inverno, outono ou primavera... Ele nunca nos faltará!


Nele podemos descansar e confiar.

Amadurecer...

terça-feira, 7 de novembro de 2017

Ele continua sendo bom...



Se estivermos atentos, se houver em nós uma pequena centelha de atenção, um pequeno intervalo de paciência para parar e contemplar em meio aos dias maus, em meio aos dias de ventos parados, quando parece que o Senhor calou e esqueceu, como se tivesse resolvido sair do jogo e deixar pra lá todas as promessas... nós ainda O ouviremos. Ele ainda nos falará, no meio da brisa suave, no meio de uma discreta luz brilhante, como aquela flor escondida, solitária, no meio de pedras e cachoeiras... Ele ainda falará.

Falará que continua sendo Deus, e que continua sendo bom. E que, diferente de nós, Ele não esquece e não desiste. Ele não volta atrás e não abandona. E Ele ainda sabe o caminho mais bonito para nós, aquele que precisamos trilhar pra descobrirmos o melhor que podemos ser. Ele ainda tem o plano sob controle e sabe exatamente aonde quer nos levar. Ele ainda tem o plano perfeito – e Seus planos continuam sendo belos, plenos e cheios de alegria e paz.

Ele ainda escreve histórias bonitas e, revelando Sua infinita graça, as coloca em nossas vidas para nos fazer lembrar – e não desistir. Para não nos deixar achar que eram apenas fábulas contadas pelos antigos, apenas sonhos infantis ou aspirações utópicas. Então, Ele nos lembra e nos revela Seu imensurável poder. Porque Ele continua sendo Deus, e continua sendo bom. Porque todo o poder está em Suas mãos, e Ele realmente – REALMENTE – nos ama. Ele conhece cada anseio dos nossos corações, Ele conhece cada uma das nossas lágrimas, Ele mesmo plantou sonhos em nossas almas, desde a eternidade, e é fiel e justo para completar em nós a obra que Ele mesmo começou.

Então, coração, espera nEle. Confia nEle. Para, contempla, respira fundo e confia. Seu Deus continua sendo Deus – e Ele continua sendo bom. Você pode descansar. Ele ainda está lá, Ele ainda vê você, Ele ainda te conhece e te ama e continua contigo. Não desanima, não! Ainda há muito para acontecer. Ainda há muito para se surpreender. Caminha, continua a caminhar. Olha para o alto, olha para o Pai, coloca nEle seu amor, e Ele te guiará.


Sonha, coração! Nunca deixe de sonhar! Pois para as alturas fostes criado, para os ares, para os céus, para as montanhas, para muito mais... continua a crer, abre tuas asas e recomeça o teu voar – pois lá no fim, na plenitude do mais belo horizonte, está Seu Criador e Pai – sempre Deus, e sempre bom – a te esperar...

sábado, 26 de março de 2016

Quaresma – Dia 40 – O Sábado da Paixão, a Multidão e os Seguidores do Messias



“Então, Jesus clamou em alta voz: Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito! E, dito isto, expirou” (Lucas 23.46)

E, tendo finalizado Sua vida mortal assim, com estas últimas palavras, Jesus gera diferentes reações naqueles que presenciavam Seus últimos momentos.

Lendo a narração da condenação e crucificação de Jesus, ficava imaginando o que levou aquela multidão, provavelmente a mesma que vivia cercando Jesus e buscando Seus milagres e admirando-se deles e das palavras e ensinos de Jesus, bradar de forma tão veemente para que Pilatos O crucificasse. Não faz sentido! Aquelas pessoas haviam visto o que Jesus fazia! Elas O haviam acompanhado, sabiam quem Ele era. Mas, talvez, tendo sido enganadas por aqueles falsos religiosos que queriam a morte de Jesus, elas achassem que aquilo seria bom. Fiquei pensando se aquelas pessoas não achavam que, de repente, mandar Jesus para ser morto por oficiais romanos não seria a oportunidade perfeita para que Ele operasse o maior de todos os milagres; se elas não estavam realmente esperando que Ele se manifestaria em glória, ali, combatendo Seus inimigos romanos, descendo da cruz e tomando o poder para libertação civil do povo de Israel... e não é possível afirmar nada disso, pois só Deus sabia o que se passava no coração daquela multidão. Mas, talvez, fosse isso. Enganadas por escribas e fariseus, talvez aquelas pessoas, até aquele momento, mesmo depois de tudo o que já haviam visto e ouvido de Jesus, ainda não haviam entendido o que e quem seria o Messias. E esperavam o libertador das cadeias externas – quando o Pai O havia enviado para libertá-los das cadeias internas, e eternas. Mas eles não haviam entendido. E, assim, como a última cartada, esperavam que aquela condenação injusta seria a grande oportunidade para o libertador revolucionário levantar-se para vencer a opressão romana. Então, gritaram pela Sua condenação e morte (v.18, 21, 23) e, após terem-na conseguido, lá foram eles seguindo o Messias crucificado (v.27), aguardando pelo grande milagre.

Porém, o tão esperado milagre não chegou. O Messias não desceu da cruz. Ele não vociferou contra os “malditos romanos” que O escarneciam, maltratavam e humilhavam. Ao contrário, Ele pediu ao Pai que os perdoasse (v.34). Ele era blasfemado, e não falou nada. E “o povo estava ali e a tudo observava” (v.35). Esperando. Esperando. Até que, sem entender nada e, talvez, guardando as esperanças de que o grande milagre e a grande revolução do Messias acontecessem até o fim, eles O ouvem falar: “Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito!”. E morrer. E eu acredito que ali, naquele exato momento, as vendas caíram de seus olhos. E o evangelho de Lucas fala: “E todas as multidões reunidas para este espetáculo, vendo o que havia acontecido, retiraram-se a lamentar, batendo nos peitos” (v.48). E, novamente, fiquei pensando: naquele momento, aquela multidão poderia ter, simplesmente, se frustrado com a não realização do milagre que esperavam e tendo chegado, finalmente, na conclusão de que “Ele não era mesmo o Messias que dizia ser”; e voltariam para suas casas decepcionados e desanimados. Contudo, não foi assim que a multidão saiu. As Escrituras dizem que, mediante tudo o que viram, as multidões saíram lamentando e batendo nos peitos. Sinal de tristeza. Por isso, eu creio que eles entenderam: entenderam Quem era Aquele Homem crucificado, e entenderam o que fizeram. Por isso, choraram e lamentaram. Ele era quem dizia ser. E eles não acreditaram. Porque esperavam o Messias errado. Porque haviam sido convencidos de uma mentira. Mas, ali, diante daquela cruz, diante dAquele Homem que ainda amava e perdoava, que entregava-se como ovelha ao matadouro, que cumpria as Escrituras, e que entregava o Seu espírito ao Seu Pai... eles, finalmente entenderam.

E, infelizmente, ainda hoje, grandes multidões esperam o Messias errado. E não apenas entre os judeus – mas entre nós. Ainda esperam o Salvador que irá salvá-los das coisas deste mundo. Um Messias cujo propósito é acabar com a opressão física: a dor, o sofrimento, a pobreza, a opressão, a violência, toda a maldade dessa terra – representados pela opressão de Roma sobre o povo de Israel. E exatamente por isso muitos vivem tantas crises a respeito de Deus e o sofrimento humano. Como Ele pode ser bom e ainda existir o mal? Como Jesus poderia ser o Messias e o povo de Israel ainda continuar oprimido por Roma e por tantos sofrimentos oriundos disso? Era de um revolucionário que os judeus achavam precisar. Mas Deus enxergava além. Ele enxerga além. Ele sabe que, ainda que fôssemos libertos de todas as correntes de dor e sofrimento deste mundo, continuaríamos escravos. De nós mesmos. De uma escravidão que nada nesse mundo poderia nos livrar – a escravidão eterna. E que nenhum bem, nenhuma felicidade, nenhum conforto vividos nesse mundo poderiam suprir o sofrimento gerado por essa escravidão – porque essa é a verdadeira escravidão, o verdadeiro sofrimento: aquele que nos tira o sentido da vida, o propósito, a identidade... todas as coisas. A escravidão que nos esvazia totalmente – pois nos separa do nosso Criador, a Fonte de todo bem. E, enquanto estivermos separados dEle, nossa alma nunca poderá ser realmente feliz. E nenhum bem dessa vida pode suprir essa falta. Assim, é dessa escravidão que o Messias vem libertar o mundo – pois, uma vez libertos dela, uma vez religados com Deus, a Fonte de todo bem, nenhum sofrimento deste mundo é capaz de roubar nossa felicidade e nossa paz. Somos preenchidos e salvos por dentro e, quando isso acontece, nenhuma guerra, nenhuma opressão, nenhuma fome, nenhuma perseguição, nenhum escárnio, nenhuma humilhação... NADA que venha de fora poderá nos abalar. A salvação HABITA em nós. Por isso, essa era – e é – a maior missão do Salvador.

E, por isso, a reação de Seus seguidores foi tão diferente da reação da multidão. Enquanto a multidão saiu a lamentar e bater nos peitos, “todos os conhecidos de Jesus e as mulheres que o tinham seguido desde a Galiléia permaneceram a contemplar de longe estas coisas. [...] As mulheres que tinham vindo da Galiléia com Jesus, seguindo, viram o túmulo e como o corpo fora ali depositado. Então, se retiraram para preparar aromas e bálsamos. E, no sábado, descansaram, segundo o mandamento” (Lucas 23.49, 55-56). Com toda certeza, aqueles homens e mulheres estavam sofrendo profundamente naquele momento. Seu grande Mestre havia morrido, depois de tanta dor. Não podemos imaginar quão duro isso foi para os Seus seguidores. Mas a narração a respeito deles é claramente diferente da feita a respeito da multidão.

Eles permaneceram. Jesus já estava morto, mas seus corações continuavam fiéis a Ele. Porque Ele os havia transformado – e agora já não era mais possível viver desligados dEle. E, mesmo quando Ele já havia morrido, eles continuavam ali. Sim, é verdade que muitos – talvez a maioria – dos seguidores de Jesus não permaneceram; fugiram. Mas aqueles que ali ficaram, e aquelas mulheres galileias principalmente, representavam o remanescente fiel, o exemplo para todos os seguidores, para todos nós. Sua fidelidade ao Cristo não se extinguia com Sua morte. Elas criam, elas sabiam Que Ele era o Enviado de Deus. E, por isso, continuavam a crer e a segui-Lo. Prova disso é que aquelas mulheres, acompanhando José de Arimatéia e Nicodemus, vão ver onde o corpo do Mestre haveria de ser colocado – e foram preparar aromas e bálsamos para colocar sobre ele (v.56a). O comentário de minha Bíblia Shedd diz assim, sobre esse versículo: “Aromas e bálsamos. Vê-se o amor pelo Senhor no trato do Seu corpo. Normalmente um criminoso crucificado seria enterrado sem cerimônia num campo qualquer”. Mesmo morto, mesmo estando ali apenas o corpo do Mestre, aquelas mulheres ainda O amam e O honram, com seus perfumes e especiarias. Elas continuam crendo. E continuam amando – mesmo quando tudo parece ter “dado errado”. Mesmo quando elas, provavelmente, nem entendiam o porquê de tudo aquilo. Mas elas continuam fiéis. Porque elas já haviam experimentado a verdadeira libertação, dada pelo Cristo. Então, mesmo sem entender, mesmo na dor e no sofrimento, elas permanecem.

E, finalmente, que versículo lindo é o 55, parte b: “E, no sábado, descansaram, segundo o mandamento”. Descansaram. Fiquei me perguntando: “Como elas podem ter descansado no dia imediatamente após a morte de Jesus?”. Mas a palavra se repetia na minha mente: descansaram. E glórias a Deus pelo significado disso! Aquelas mulheres, com toda certeza, sofriam, com seus corações moídos por tudo o que aquela sexta-feira havia trazido. Certamente, elas enfrentavam dor e angústia enormes. Contudo, quando estamos com o Cristo, quando O conhecemos, quando Ele nos transformou, de alguma forma miraculosa que só pode ser resultado da ação do próprio Espírito de Deus, nós podemos encontrar descanso para nossas almas e corações – mesmo quando eles estão quebrados e despedaçados. Nós podemos. Podemos continuar obedecendo – “segundo o mandamento” – mesmo quando parece impossível. Porque é Ele quem nos capacita. E Deus capacitou aquelas mulheres, mesmo em meio à tamanha dor que elas sentiam. E Ele vem nos lembrar hoje: quando o sábado da paixão chegar em nossas vidas, e tudo parecer acabado, sem saída, sem explicação, impossível de compreender, quando isso doer mais do que podemos expressar, quando nos sentirmos sós e abandonados, quando não parecer mais haver esperança e o sofrimento tomar conta do coração – ainda assim, nosso Pai tem um lugar de descanso para nossas almas. Ainda assim, nosso Pai nos capacita para obedecer. Porque Ele continua conosco. Sempre. Todos os dias. E Sua salvação, operada no mais íntimo de nós, continua a nos salvar – dia após dia, dor após dor. Ele é a nossa Salvação. E continuará sendo, até o fim.


Que hoje, no “Sábado da Paixão”, e em cada “sábado da paixão” de nossas vidas, possamos nos lembrar de Quem era o Homem a expirar naquela cruz – e de todas as promessas que o Domingo traria consigo. E trouxe. E trará. Porque nem mesmo a morte foi, é, nem jamais será capaz de deter o Salvador deste mundo. Nossa esperança é eterna, e nunca falhará. Glórias, pois, a Jesus Cristo, eternamente. Amém. Amém.

sexta-feira, 25 de março de 2016

Quaresma - Dia 39 - O exemplo do Jesus Humano


"Pai, se queres, passa de mim este cálice; contudo, não se faça a minha vontade, e sim a tua" (Lucas 22.42)

Talvez as palavras que mais revelam a humanidade de Jesus. E que bonito ver que Deus, ao nos deixar Sua Palavra registrada, deseja expressar a perfeita humanidade de Jesus nesse momento tão primordial que é a véspera do cumprimento da Sua missão na terra - e do pagamento do preço a ela estipulado. Jesus não se faz de forte. Sim, desde o princípio Ele sabia que precisaria sofrer e morrer. Mas, quando o momento chega, o Jesus Homem sofre, tem medo, gostaria de ser poupado. E pede a ajuda do Pai. Pede pra não precisar passar por tanto sofrimento.

E isso é tão importante para nós, seres humanos chamados para imitar o Mestre. Porque nós também sabemos, por Sua Palavra deixada a nós, que sofrimentos e perseguições nos esperam. Sabemos que o caminho de Cristo é nosso caminho. Que a cruz que O esperava também nos espera. Contudo, muitas vezes, nos esquecemos que Ele, mesmo também sabendo que tudo isso O esperava, teve medo e quis ter outra opção. E aqui Ele nos ensina que não precisamos deixar de ser humanos para O seguir. Que Ele sabe como é duro passar pelas dores dessa vida, que dá medo, que é ruim. Ele sabe. E por isso não nos diz que é nosso dever "desejar" essas coisas. Não nos diz para pedir sofrimento e morte. Assim como Ele, o próprio Deus, pediu para ser poupado, tamanho o peso do que O esperava, Ele compreende quando também sentimos medo e queremos ser poupados.

E tudo isso me faz lembrar tanto de nossos irmãos perseguidos fisicamente pela fé. Quando vejo Jesus sendo açoitado, crucificado e morto, lembro de meus irmãos perseguidos pelo Estado Islâmico e tantos outros extremistas religiosos. E, podemos ter certeza: mesmo sabendo de todas as promessas que acompanham o sofrimento do salvo, viver o sofrimento é muito duro. Numa intensidade que a maioria de nós sequer imagina. A ponto de Jesus pedir que Seus discípulos orassem com Ele naquele momento de dor. E assim é com nossos irmãos. Dói. Muito. E pesa em nosso coração e espírito. E gostaríamos de ser poupados. Eles certamente gostariam. E Jesus sabe como é isso. E não nos condena.

Porém, Ele termina nos ensinando a fazer a maior oração de nossas vidas: "contudo, não se faça a minha vontade, e sim a tua". E esse é o grande ponto. Mesmo que tenhamos vontade de fugir, como Jesus parece ter tido, precisamos seguir o exemplo deste Jesus que também foi homem, como nós, e pedir a vontade de Deus ao invés da nossa. Por fé. Por confiança em nosso Pai. Por obediência. Não uma obediência oriunda do medo. Mas uma obediência oriunda de uma fidelidade baseada em confiança e Amor. Jesus conhecia o Seu Pai perfeitamente. E sabia que os planos e vontades dEle eram perfeitos. Por isso pediu por eles. E é isso o que nós precisamos lembrar também. Algumas vezes essas vontades irão doer muito, irão nos levar a uma cruz muito pesada - mas eles continuam sendo mais elevados que os nossos, e perfeitos.

Que possamos aprender com o exemplo do Jesus Homem. Que sofreu. Que teve medo. Mas que permaneceu fiel. Que confiou. Que teve fé. Porque o Seu Pai é o nosso Pai. E porque já conhecemos o fim da história - como Jesus já conhecia. E o verdadeiro amor lança fora todo medo. Vamos sofrer, vai doer, vai ser difícil - Jesus já predisse isso. Mas a conclusão será muito mais maravilhosa do que possamos imaginar. Nosso Pai é fiel e perfeito. Ele não nos abandonará. Podemos confiar nEle - e seguir os passos de Jesus, até o fim. Amém.

quinta-feira, 24 de março de 2016

Quaresma - Dia 37 - Nossas pequenas moedinhas


"Viu também certa viúva pobre lançar ali duas pequenas moedas; e disse: Verdadeiramente, vos digo que esta viúva pobre deu mais do que todos" (Lucas 21.2-3)

E acho que nós sempre precisaremos lembrar desse ensino da Palavra. Achamos que Deus está interessado em nossa produtividade, nossa utilidade, quantas coisas temos em nossas mãos para oferecer a Ele, o tamanho de nossas ofertas, o tamanho de nossos dons, nossas capacidades, nosso trabalho, nosso tempo em atividades religiosas... E aí as Escrituras nos falam desta viúva pobre. Lá estavam os ricos lançando suas enormes ofertas e achando-se tão importantes por isso, mas é à viúva que Jesus elogia - com suas duas ínfimas moedinhas. Porque não é com a quantidade da oferta que Ele se preocupa, é com o tamanho da entrega. Não com nossas capacidades à serviço dele, mas com nossas vidas entregues a Ele. Aquela viúva se entregou, integralmente, a ponto de entregar sua sobrevivência - ainda que isso significasse apenas duas moedinhas no fundo do gazofilácio.

E nós precisamos aprender isso com ela e com aqueles ricos. Os grandes montantes entregues por aqueles homens ricos não impressionaram Jesus. Porque Ele olha para dentro, e não para fora. Foi o coração daquela mulher, provavelmente desprezada por aqueles homens ricos, provavelmente se sentindo tão pequena e sem utilidade, provavelmente envergonhada por entregar tão pouco... mas foi o coração dela que despertou a admiração do Mestre. E é assim conosco.

Quanto tempo e energias temos gastado tentando conquistar a admiração do Mestre por meio de nossas muitas ofertas - nosso muito trabalho, nossas muitas atividades, nossa muita inteligência, nossos muitos dons e capacidades... e quantas vezes temos vivido sobrecarregados e infelizes por nunca nos sentir bons o suficiente para agradar ao nosso Senhor, sempre sentindo precisar de mais, sempre nos cobrando uma oferta maior... quando nos esquecemos que não é nada disso o que Ele está procurando em nós. E não é por nenhuma dessas coisas que Ele nos ama. Não é com essas coisas que Ele está preocupado e interessado. E vamos perdendo nossas vidas investindo nas coisas erradas - nas coisas que agradam e conquistam a admiração dos homens, mas não a de Deus.

É nossa vida o que Ele deseja. Nosso coração o que Ele quer. Uma entrega total, amor total, confiança total... é uma condição interna, não externa. É a mudança e o compromisso que nenhum homem pode ver, só Ele pode. E é com isso que Ele se importa. Não interessa qual será o resultado da conversão disso em bens quantificáveis e observáveis. Não importa se serão apenas duas moedinhas. É nossa vida - toda ela - o que Ele quer. Nosso amor. Só. Não precisamos convencê-Lo que somos bons ou dignos de ser amados. Nós não somos. Mas Ele nos ama mesmo assim. Porque escolheu nos amar. Não precisamos ficar nos esforçando para conquistar o Seu amor e aprovação.  Não temos essa capacidade. Ele já nos ama INTEGRALMENTE. Numa medida que não pode ser aumentada ou diminuída. E nada vai mudar esse amor (Rm. 8). Não precisamos nos cansar tanto, sobrecarregar tanto, e nem mesmo nos culpar tanto por não termos mais do que nossas duas moedinhas para entregar. Ele nos ama independente disso. E o que Ele está realmente olhando é se o que entregamos reflete a condição de entrega do nosso coração. Se ela é total, não importa que sejam apenas nossas pequenas moedinhas... é a oferta perfeita e suficiente para Aquele que, dia a dia, escolhe nos amar.

sexta-feira, 18 de março de 2016

Quaresma – Dia 33 – Aproximando-nos de quem?



“Aproximavam-se de Jesus todos os publicanos e pecadores para o ouvir” (Lucas 15.1)

Quem são as pessoas que têm se aproximado de nós? Quem são as pessoas de quem temos nos aproximado? Porque esse texto fala muito de quem era Jesus – e de qual era a Sua missão. Mesmo sendo Santo, mesmo sendo o perfeito Deus, os piores da sociedade (material e espiritual) sentiam-se atraídos por Jesus. E se aproximavam para ouvi-Lo. Ainda que Jesus falasse sobre pecado e o condenasse, ainda que Ele falasse sobre a Santidade do Pai e a necessidade de arrependimento, ainda assim... publicanos, pecadores, impuros, doentes, marginalizados, excluídos aproximavam-se dEle. Enquanto isso, os perfeitinhos e santos, os religiosos “filhos de Abraão” cada vez mais se afastavam dEle.

E nós? Quem são as pessoas que temos atraído? Será que nossa postura, nossa vida atrai os sujos, os pequenos, os marginalizados, os PECADORES deste tempo? Ou, ao olhar para nós, eles enxergam os juízes que só sabem condená-los ou os santos dos quais eles não são dignos de se aproximar? Porque, infelizmente, é assim que o mundo tem visto, muitas e muitas vezes, a nós, cristãos. Porque os ensinamos a ver assim. Porque fomos ensinados a nos manter longe dos pecadores. Não podemos nos misturar com quem não entende a teologia no mesmo nível que entendemos. Não podemos visitar igrejas que não sejam 100% santas em suas doutrinas. Não podemos ter amigos pecadores. Não podemos pisar em solo que não seja santo. Só podemos estar na companhia dos santos. E foi aí que construímos este muro que nos separa do mundo real – o mundo que Jesus veio salvar. Sem perceber, fazemos como os fariseus: “E murmuravam os fariseus e os escribas, dizendo: Este recebe pecadores e come com eles” (v.2). Fazemos isso com nossos irmãos. Fazemos isso em nossas igrejas. Perdemos, em nossas vidas, a misericórdia, o amor, a compaixão que havia em Cristo – e que atraía a Ele os piores pecadores. A misericórdia, amor e compaixão que ainda há nEle e que é o que continua atraindo a Ele os pobres desta terra – aqueles que nós rejeitamos.

E o ensino volta para o mesmo ponto: quando crescemos, Ele diminui. Quando nos achamos bons demais, é então que estamos mal. Quando consideramos o outro mau demais, é quando nós mesmos estamos assim. Quando o orgulho tem espaço, o espírito, certamente, não o tem. Não há espaço para este orgulho que olha as pessoas com superioridade, e a Presença Salvadora de Jesus. E Jesus vem, então, ensinar isso, por meio de várias parábolas – A ovelha perdida, a dracma perdida, o filho perdido – para ensinar uma coisa só: o Reino de Deus é para os perdidos, e não para os santos. Para os doentes, e não para os sãos. Para os imperfeitos, e não para os perfeitos. Por um fato simples: diante de Deus, não existem santos, sãos e perfeitos. Somos todos perdidos, doentes e imperfeitos. Contudo, para fazer parte do Reino dEle, precisamos nos reconhecer assim – e parar de nos sentir melhores do que os outros. Não há nada melhor em nós. Nada. Porque tudo que temos de bom é, puramente, graça de Deus. Em essência, somos exatamente iguais a qualquer publicano e pecador. E é por isso que Jesus nos recebe.

Termino com uma música que sempre me confronta demais. É um desafio constante para minha mente orgulhosa e soberba, para essa carne má que há em mim e que me faz acreditar, vez ou outra, que sou melhor do que sou – e que me faz desejar estar junto apenas dos santos e perfeitos. Até que eu paro e me lembro de Jesus – e de quais pessoas Ele escolheu estar perto. De quais pessoas estavam ao redor dEle. E volto a compreender onde devem estar os meus olhos e o meu coração. “Sou humano demais pra compreender...”.


Eu fico tentando compreender
O que nos Teus olhos pôde ver
Aquela mulher na multidão
Que, já condenada, acreditou
Que ainda havia o que fazer
Que ainda restara algum valor
E ao se prender em Teu olhar
Por certo haveria de vencer
E assim fizeste a vida
Retornar aos olhos dela
E quem antes condenava
Se percebe pecador
Teu amor desconcertante
Força que conserta o mundo
Eu confesso não saber compreender

Sou humano demais pra compreender
Humano demais pra entender
Este jeito que escolheste de amar quem não merece
Sou humano demais pra compreender
Humano demais pra entender
Que aqueles que escolheste e tomaste pela mão
Geralmente eu não os quero do meu lado

Eu fico surpreso ao ver-Te assim
Trocando os santos por Zaqueu
E tantos doutores por Simão
Alguns sacerdotes por Mateus
E, mesmo na cruz, em meio à dor
Um gesto revela quem Tu és
Te tornas amigo do ladrão
Só pra lhe roubar o coração
E assim foste o contrário,
O avesso do avesso
E por mais que eu me esforce
Não sei bem se Te conheço
Tu enxergas o profundo
Eu insisto em ver a margem
Quando vês o coração
Eu vejo a imagem

Sou humano demais pra compreender
Humano demais pra entender
Este jeito que escolheste de amar quem não merece
Sou humano demais pra compreender
Humano demais pra entender
Que aqueles que escolheste e tomaste pela mão
Geralmente eu não os quero do meu lado

Mas recebemos, em nós, o Revelador do Coração do Pai. Que Ele nos ensine a ver e a ser como Cristo é. Até que cheguemos à estatura do Varão Perfeito – Jesus, nosso Senhor. Para glória e revelação do Seu Nome na terra. Amém.



Quaresma – Dia 32 – Reino dos necessitados



“Sai depressa para as ruas e becos da cidade e traze para aqui os pobres, os aleijados, os cegos e os coxos” (Lucas 14.21)

Deus chamando para a Sua ceia. E que texto sério este é. Porque, primeiro, Deus chama os “sãos”. E chama muitos. Só que todos eram pessoas importantes e, por isso, na hora em que tudo já estava preparado, eles precisam desculpar-se por não poder ir participar. Afinal, havia tantas coisas para resolver: um campo recém comprado que precisava ser visitado; cinco juntas de bois que precisavam ser experimentadas; um casamento recém contraído que precisava ser desfrutado... Tão importantes... tão ocupados... que não há tempo para ceias.

E, ao ler isso, meu coração se enche de temor. Porque eu me vejo nisso. Nos vejo nisso. Nossa geração sempre tão ocupada, com tantas coisas importantes para fazer. Tantas coisas para estudar, tantas notícias novas para ouvir, tantos compromissos, tantas pessoas importantes com quem falar, tantos eventos importantes para organizar, tanto dinheiro para ganhar, tantas dívidas para pagar, tantos amigos para fazer... e não nos tem sobrado tempo para ceias. Para a grande ceia de Deus. Mas, ela já está pronta (v.16-17). O servo do dono da ceia já veio nos chamar para nos achegar a ela. E o convite foi feito para tantos. Porém, todos eles tinham coisas demais para resolver, e não ligaram para o seu convite.

E foi então que o dono da casa, irado, disse ao seu servo para trazer para o jantar os pobres, os aleijados, os cegos e os coxos. E assim ele o fez. E estes não negaram. E lá estavam eles para a grande ceia daquele grande senhor. Por quê? Por um simples motivo: eles sabiam-se necessitados. Sabiam-se pobres e doentes, e pessoas assim não negam convites – muito menos para uma ceia. Eles sabem reconhecer bênçãos, quando estas lhes são oferecidas. Eles sabem reconhecer que tem tão pouco e, diante disso, tudo se torna tão grandioso e importante – quanto mais um convite feito por um grande senhor.

E é aí que eu penso quem somos nós. Os homens ocupados e importantes, ou os pobres e doentes. Como enxergamos a nós mesmos? Como temos vivido as nossas vidas? Como pessoas grandes, a quem o Grande Senhor oferece favores – os quais nos sentimos no direito de avaliar para verificar se estes são mais ou menos importantes do que os nossos compromissos? Ou como aqueles homens pobres, cegos, aleijados, coxos, conscientes da sua pequenez diante daquele Grande Senhor, e do quanto participar daquela Ceia lhes era um privilégio impagável? De fato, aqueles homens necessitados nunca poderiam pagar por aquela ceia. Eles não tinham nada a oferecer. E, talvez, exatamente por isso eles não negaram aquele chamado.

Infelizmente, costumamos nos enxergar de uma maneira tão diferente do que realmente somos. Somos os homens pobres, cegos e aleijados, sujos, mendigos, sem nada para oferecer a Deus. Mas, tão facilmente acreditamos quando o mundo nos diz que somos grandes e importantes, e que Deus precisa entrar na fila da nossa agenda, para ver onde conseguimos encaixa-Lo. E o triste disso é que, no final desta parábola, o senhor da grande ceia diz: “Porque vos declaro que nenhum daqueles homens que foram convidados provará a minha ceia” (v.24). Uma vez que a ceia tenha começado e o convite tenha sido negado, não há mais volta. A oportunidade passou. E perdemos a coisa mais importante que poderíamos ter recebido nesta existência.

Seguir a Jesus Cristo é um grande privilégio, mas também tem exigências. Primeiro, o reconhecimento de quem, de fato, somos: reconhecermo-nos pobres, cegos, coxos, aleijados. Necessitados. Imerecedores. Sem nada para oferecer em troca, a não ser nossa presença – nossa vida. Segundo, pagar o preço. Reconhecer que todos as nossas coisinhas, que parecem tão grandes diante das lentes deste mundo, são ínfimas, sem valor, diante do insondável valor de participar da ceia dAquele Senhor. Nada pode se comparar a participar daquilo que Ele estava preparando. Nenhum de nossos tesouros. Nem mesmo nossos campos, bois ou, ainda, casamentos. Nem mesmo nosso desejo de afeição natural, pois assim diz o Senhor Jesus: “Se alguém vem a mim e não aborrece a seu pai, e mãe, e mulher, e filhos, e irmãos, e irmãs e ainda a sua própria vida, não pode ser meu discípulo”. Porque para seguir a Jesus é necessária a consciência de que nosso maior tesouro é Ele. Maior do que qualquer outro tesouro, por mais valioso que ele seja, que possamos ter nessa vida – incluindo nossa própria vida neste corpo. Reconhecer nossa pequenez – e reconhecer a grandeza dEle.

Por isso, é preciso calcular o preço a ser pago para dizer esse “Sim” a Jesus. Um preço muitas vezes não ensinado, não esclarecido. Mas o preço é grande, e é preciso que seja calculado – assim como é necessário que se calcule a despesa para construir uma torre ou a quantidade de soldados para vencer uma guerra (v.28-32). Para que não ocorra que, tendo dito um sim inconsciente, venhamos a ser envergonhados. Seguir a Jesus exige renúncia: de nosso orgulho, nossa reputação, nossos maiores tesouros, nossa própria vida: “pois, todo aquele que dentre vós não renuncia a tudo quanto tem não pode ser meu discípulo” (v.33).


Por isso o Reino é dos necessitados. Porque quem é pobre, aleijado, cego e coxo facilmente enxerga que tudo aquilo que ele venha a possuir nesta vida não pode se comparar ao que Aquele Senhor lhe oferece. Aquela ceia. Por isso, sua resposta não poderia ser outra a não ser “Sim!”. Ele olha para si mesmo e olha para Aquele Senhor, e entende. E, para entrar no Reino de Cristo, é necessário que seja assim também. Que Ele cresça, e nós diminuamos. Que reconheçamos quem somos e Quem Ele é. E, só assim, compreenderemos como somos privilegiados por poder fazer parte disso. Quando tivermos a consciência que somos os pobres, aleijados, cegos e coxos. E Ele é o Rei. E a menor coisa que Ele possa nos oferecer ainda será maior do que tudo o mais que possamos conquistar sem Ele. Assim, que nossa resposta seja sim. E que participar do que Ele tem preparado seja a maior alegria dos nossos corações. Que assim seja. Amém.

quarta-feira, 16 de março de 2016

Quaresma – Dia 31 – Chamados a diminuir



“Quando por alguém fores convidado para um casamento, não procures o primeiro lugar [...]. Pelo contrário, quando fores convidado, vai tomar o último lugar...” (Lucas 14.8a, 10a)

Totalmente diferente do que fazemos. Nós queremos os primeiros lugares. O local de destaque. Queremos aparecer na foto. Queremos ser vistos. Queremos que todos saibam que estamos ali. Queremos ser os mais bonitos. Queremos elogios. Queremos privilégios. Queremos ser o centro das atenções. Queremos o protagonismo...

O problema é que essa é a matemática do mundo: para ser o primeiro, é preciso crescer; para ser o primeiro, é preciso ultrapassar todo mundo; para ser o primeiro, é preciso aparecer; pois, quanto mais você for visto, mais será reconhecido. Porém, a matemática de Deus é diferente. É exatamente o oposto: quer ser o primeiro? Seja o último; quer ser servido? Sirva; quer viver? Morra; quer ser salvo? Entregue-se... Só que, entre estes dois raciocínios, facilmente somos convencidos da lógica do primeiro e da falta de lógica do segundo – e escolhemos errado. E isso acontece por causa de um pecado bem particular dentro de nós: o orgulho. Eu realmente acho que ele é o pior pecado – porque tem tudo a ver com nos acharmos deuses, e tomar o lugar do Único Deus.

Por isso é tão difícil falar da submissão feminina em nossos dias. Porque aprendemos (e acreditamos) que só somos valorizados à medida em que aparecemos, crescemos, estamos à frente dos outros, protagonizamos, lideramos. Se não somos a figura central, então estamos sendo desvalorizados – perdendo o nosso valor. Nós aprendemos isso, e acreditamos nisso. Aprendemos que, se queremos viver, devemos lutar pela vida. Mas Jesus ensina que precisamos morrer. Se queremos ser os primeiros, devemos ir pro fim da fila – e só sair de lá se Aquele que nos convidou nos chamar. Se queremos ser líderes, devemos atar a toalha à cintura e lavar os pés dos demais, como Jesus fez. Servir ao invés de procurar ser servidos. Porém, dizer pra alguém ser o último, ser servo, lavar pés, diminuir, nestes dias em que vivemos, é tirar-lhe o valor, é chamar-lhe de inferior, é menospreza-lo. Porque “se alguém tem valor, ele não estará servindo e sim sendo servido”. Mas essa não é a lógica de Deus. Pois a lógica do mundo é egoísta e individualista. Mas a lógica de Deus é altruísta – focada no amor genuíno. E o que ama serve, sem perder, em nada, seu senso de identidade e de valor perante Deus. Porque Deus diminuiu-se e serviu – e continuou sendo inteiramente Deus. Porque, perante Deus, nosso valor não é determinado pelo papel que desempenhamos, e sim pelo que somos – o que Ele diz que somos.

Mas assumir verdades como estas para nossas vidas exige renúncia. Renunciar ao nosso orgulho, ao nosso ego, à nossa vaidade, ao nosso desejo de ser o centro, à idolatria de nós mesmos. E isso dói. Porque é tão bom ser reconhecido, enxergado, elogiado. É tão bom estar à frente e ter seu nome mencionado. E é tão ruim quando trabalhamos tanto mas ninguém nos vê. Ninguém sabe que fomos nós. Ninguém nos reconhece. É tão ruim. Porque não é o que nossa carne quer. Lá no fundo, não é com a aprovação de Deus que estamos realmente preocupados – é com a aprovação dos homens.

Contudo, Jesus termina esta história dizendo àquelas pessoas: “Quando deres um jantar ou uma ceia, não convides os teus amigos, nem teus irmãos, nem teus parentes, nem vizinhos ricos; para não suceder que eles, por sua vez, te convidem e sejas recompensado. Antes, ao dares um banquete, convida os pobres, os aleijados, os coxos e os cegos; e serás bem-aventurado, pelo fato de não terem eles com que recompensar-te; a tua recompensa, porém, tu a receberás na ressurreição dos justos” (Lc. 14.12-14). Ele estava nos ensinando: “Quando fizeres o que quer que seja, não busque a aprovação e as recompensas das mãos dos homens. Busque a aprovação e a recompensa das mãos de Deus. Pois somente uma tu poderás receber. Se tua recompensa vem de homens, Deus não poderá recompensar-te. E mais valiosas – muito mais valiosas – são as recompensas que tens para receber na ressurreição dos justos do que todas as que podes receber aqui nesta vida”.

É isso. Que queiramos o primeiro lugar diante de Deus, e não dos homens. Que queiramos crescer diante de Deus, e não dos homens. Que queiramos viver diante de Deus, e não dos homens. E que entendamos que, se assim desejamos, os caminhos a tomar serão opostos àqueles que os homens nos propõem. É o último lugar que devemos buscar. É diminuir. É morrer. Porque, somente assim, quando tivermos coração de servos, quando o Senhor tiver nos limpado de nosso orgulho e nossa vaidade e presunção, Ele poderá nos exaltar. Só assim poderemos ser os primeiros. Antes, somos chamados a diminuir. E que este chamado não seja rejeitado por nós. Ele é o único caminho para o verdadeiro crescimento.


sexta-feira, 11 de março de 2016

Quaresma – Dia 28 – Reagindo à repreensão



“Saindo Jesus dali, passaram os escribas e fariseus a argui-lo com veemência, procurando confundi-lo a respeito de muitos assuntos, com o intuito de tirar das suas próprias palavras motivos para o acusar” (Lucas 11.53-54)

Como você reage quando é repreendido por alguém, quando alguém chama a sua atenção? Jesus estava fazendo isso com os fariseus e os escribas nos versos de Lucas 11. 37 a 52. Ele censurou os fariseus e os intérpretes da Lei, expondo seus pecados, sua falsa religiosidade, sua hipocrisia. Jesus lhes tirou as máscaras. E é interessante que Jesus nem fez isso diante da multidão. O texto diz que Ele estava à mesa com um fariseu que O havia convidado para comer com ele. Dá a ideia de que eles estavam na casa do fariseu. Mas, mesmo fazendo estas exortações tão sérias e pesadas àqueles líderes religiosos, eles não se arrependeram. Após ouvir todas aquelas revelações a respeito da condição errada e falsa de seus corações e de suas ações religiosas, aqueles homens, que poderiam ter assumido a sua culpa, o seu pecado, e se arrependido, e pedido o perdão de Jesus, não o fizeram. Ao contrário, ao invés de assumirem-se pecadores e pedir perdão, eles decidem encontrar desculpas para matar o Cristo.

E essas são as duas opções que temos. Ou nos humilhamos, assumindo nossa fraqueza e pedindo ajuda; ou nos vestimos de presunção e vaidade e tentamos reverter o quadro, transformando em acusado aquele que nos acusa. Humildade ou orgulho. São as duas opções. Ou tirar as máscaras, ou reforça-las, tirando de nós o foco do julgamento e colocando-o sobre a vida daquele que nos estava revelando. E é exatamente uma dessas duas coisas que nós fazemos quando somos acusados, quando somos repreendidos. Ou reconhecemos ou também nos tornamos acusadores – e ainda mais ferrenhos do que aquele que nos exortou. Se não assumimos nosso papel de “vilões”, para defender nossa falsa fama de “mocinhos”, então nossa saída é transformar todos os que “ameaçam nossa fama” também em vilões. Jesus era Santo – O Messias. Mas aqueles homens precisavam transformá-Lo no vilão, para defender o seu orgulho, para não precisarem reconhecer quão maus eram. Então, mais fácil era transformar Jesus em alguém mau do que reconhecer que Ele estava certo.

E é assim com a gente. Não só quando Deus nos repreende (diretamente, pelo Espírito Santo em nossa consciência). Mas, principalmente, quando as pessoas nos repreendem. Quando Deus nos repreende por meio das pessoas. Quando elas expõem nossos erros e pecados. É tão difícil ser exortado. É duro, dói. A repreensão nunca é algo fácil. Porque é um confronto ao nosso ego, ao nosso orgulho, à nossa vaidade, à nossa necessidade de aceitação, ao nosso desejo de ser deus. A verdade é que o maior pecado de todo ser humano é o desejo de usurpar o lugar de Deus. Ser iguais a Ele, tomando-Lhe o centro. E quando somos censurados e expostos, todos descobrem que não somos “deus” coisa nenhuma. Somos pecadores. E quanto lutamos para esconder essa verdade dos outros – e de nós mesmos.

Mas esse caminho não é um caminho possível para nós, cristãos. Porque só há lugar ao lado de Deus quando há arrependimento. Porque só há lugar para UM DEUS na vida do cristão. E não somos nós. Porque o caminho de Cristo é o caminho da cruz, da humilhação, da diminuição, para que o Pai seja quem cresça. E isso começa nas pequenas coisas. Começa em reconhecermos o orgulho que há em nós – e que se manifesta, ou tenta se manifestar, cada vez que alguém nos chama a atenção. Todas as vezes em que não podemos simplesmente responder “É verdade. Eu fiz isso. Me perdoe”, mas precisamos nos justificar eternamente, para convencer de que estamos sempre certos. Começa em aprender a ficar calados. Aprender a pedir perdão. Aprender a tirar as máscaras e mostrar seu pior lado. É assim que se aprende a ser cristão. É assim que se cresce na fé. Não há lugar para nosso ego, nosso orgulho, nossa vaidade.

Que não sejamos como estes escribas e fariseus que, para se defender, procuram motivos para acusar quem lhes exorta. Que não sejamos assim. Que reconheçamos o pecado em nossa vida, que nos arrependamos, que procuremos mudar – e que nos lembremos que aqueles que nos exortam com sinceridade são verdadeiros amigos e instrumentos de Deus. São voz do Espírito Santo, que é quem nos convence do pecado, da justiça e do juízo. E precisamos dar ouvidos à essa voz. Porque precisamos dela para mudar e para crescer. Que nunca calemos essa voz em função de nossa necessidade de defender nossa “reputação”. Que aprendamos a ser humildes – com o mais humilde dos homens que viveu sobre esta terra: Aquele que deixou o Seu reino celestial e humilhou-se, fazendo-se como um de nós, pecadores, por amor ao Pai e ao próximo. Ele é nosso maior exemplo. E é exatamente com a simplicidade e a humildade dEle que devemos reagir à repreensão. Para que Seu Nome seja glorificado. E que Ele nos ajude. Amém.


quinta-feira, 10 de março de 2016

Quaresma – Dia 27 – Ver como Cristo vê



“Ora, aconteceu que, ao dizer Jesus estas palavras, uma mulher, que estava entre a multidão, exclamou e disse-lhe: Bem-aventurada aquela que te concebeu, e os seios que te amamentaram! Ele, porém, respondeu: Antes, bem-aventurados são os que ouvem a palavra de Deus e a guardam!” (Lucas 11.27)

Nós somos como essa mulher. Nos admiramos com feitos, com status, com o exterior. Conhecemos um pastor ou líder cristão e nos admiramos com suas palavras bonitas, sua excelente explanação bíblica, seu nível de conhecimento, sua persuasão, sua eloquência, sua gentileza. Chegamos em uma igreja e logo nos chamam a atenção aqueles que desenvolvem grandes trabalhos, os missionários que foram para o outro lado do planeta e estão fazendo grandes coisas lá, os que estão abrindo igrejas ou que possuem cargos importantes. Olhamos para Hebreus 11, o capítulo dos “Heróis da fé”, e ficamos maravilhados com seus feitos poderosos e maravilhosos. Olhamos o exterior. Nos deixamos encantar com obras. Somos facilmente convencidos por nossos olhos e ouvidos.

Assim foi com aquela mulher. Ela estava tão tomada de admiração por tudo que ouvira Jesus falando, que concluiu: “Uau! Quão abençoada é a mãe deste homem, aquela que lhe amamentou em seu seio!”. E é uma conclusão tão natural. É uma conclusão provavelmente correta, inclusive. Todos nós poderíamos concordar com ela: de fato, como foi bem-aventurada a mulher escolhida por Deus para ser a mãe de Jesus! Ela é mesmo bem-aventurada. Assim como quando ouvimos uma boa pregação e nos enchemos de admiração, quando olhamos para os missionários desenvolvendo grandes projetos ao redor do mundo e nos enchemos de admiração, quando vemos as manifestações sobrenaturais de poder que os patriarcas e profetas fizeram e nos enchemos de admiração... e tudo isso é natural, é esperado, e não está errado.

Porém, Jesus responde aquela mulher: “Antes, bem-aventurados são os que ouvem a palavra de Deus e a guardam!” (Lc.11.28). A Nova Tradução na Linguagem de Hoje traduziu a fala de Jesus da seguinte forma: “—Mais felizes são aqueles que ouvem a mensagem de Deus e obedecem a ela”. A versão Bíblia Viva diz: “Sim, mas ainda mais abençoados são todos aqueles que ouvem a palavra de Deus e a põem em prática”. Jesus não estava dizendo que a mulher estava errada. Não é que Sua mãe não fosse bem-aventurada, que não houvesse motivo de júbilo pela vida da mulher que Lhe havia dado a luz e amamentado. Havia motivos de alegria por isso. O que Jesus estava dizendo era: “Porém, há coisas que são muito mais importantes do que isso!”. Há razão em admirar-se com as palavras de sabedoria e de conhecimento de alguém, com os resultados alcançados por um projeto sociomissionário ou evangelístico, com um determinado ministério dentro de nossas igrejas, com grandes feitos poderosos e sobrenaturais... estas são coisas que merecem a nossa admiração. Contudo... há coisas muito mais importantes, PARA DEUS, do que estas.

Deus não se admira de nossos grandes feitos, de nossos cargos, dos lugares altos que conquistamos em nossas vidas – mesmo em nossas vidas religiosas e cristãs. Porque Ele é Deus – e quem pode ter feitos maiores do que os Seus? Não, não dá pra convencê-Lo dessa forma. Até porque o conhecimento que Ele tem sobre nós é muito – infinitamente – maior do que o que qualquer ser humano pode vir a ter. Ele sabe exatamente quem somos. E isso me faz lembrar a história de Samuel visitando a casa de Jessé, pai de Davi, para ungir um de seus filhos como Rei de Israel. E lá estava Samuel tentando descobrir quem daqueles rapazes ele deveria ungir como rei. E de que forma ele estava fazendo a sua avaliação? Olhando para o exterior – a estatura, a força, a beleza... Então, Deus lhe diz: “Não considere a sua aparência nem sua altura, pois eu o rejeitei. O Senhor não vê como o homem: o homem vê a aparência, mas o Senhor vê o coração" (1 Sm. 16.7).

E a mesma coisa Jesus estava falando para aquela mulher: “Não olhe somente para o exterior, para a posição que aquela mulher desempenhou, pelo fato dela ter sido minha mãe. Olhe além. Porque, diante de vocês, isso pode significar muita coisa. Mas diante do Pai, isso é tão pouco. Ele vê muito além disso. E Ele se importa com coisas muito mais importantes e difíceis – com o coração.”. E é quando Jesus diz o que é mais importante para Deus: Ouvir e guardar a Sua Palavra. Isso é muito mais profundo do que pregar sobre a Palavra de Deus. É muito mais profundo do que realizar curas e milagres. É muito mais profundo do que liderar projetos bem-sucedidos. É muito mais profundo do que ter conquistado uma posição reconhecida diante dos outros. Tem a ver com o coração. Com o mais íntimo do seu ser. Com o lugar que a Palavra de Deus tem em sua vida. Quão profundo ela tem chegado? E quanto dela tem sido guardado – e vivido? Muito mais difícil. Muito mais profundo. Aquilo que convence a Deus.

É isso o que Ele procura em nós. Não alguém que possui cargos ou funções importantes e de destaque – como ser a “mãe de Jesus”. Não alguém com grandes e poderosos feitos. Não. O que admira a Deus é um coração rendido à Sua Palavra. Que a ouve com atenção, com interesse, com desejo, com sede e fome – e que a guarde como um tesouro que não tem preço, que não se vende nem se compra, como sua pérola encontrada. É com a condição do nosso coração que Ele está interessado. Porque nossos feitos podem, facilmente, mascarar nosso coração sujo, impuro e distante de Deus. Muitos chegarão, no último dia, tendo feito grandes coisas no Nome de Jesus, e serão considerados estranhos por Jesus e deixados de fora do Seu Reino (Mt. 7.22-23). Porém, se o nosso coração está cheio de Jesus, não será possível esconder isso naquilo que fazemos. Nossas obras, nossas vidas refletirão isso. Porque a boca fala do que o coração está cheio (Mt. 12:34b).

Que possamos aprender a ver como Cristo vê. A nos importar com o que Ele se importa. A investir no que causa admiração a Ele – e não aos homens. Porque Ele não vê como os homens vêem. Para convencê-Lo, é preciso ir além das aparências. Assim, que nossas vidas possam ser mais do que aparência. Que nos importemos menos com a aparência que temos do que com o que há no mais íntimo de nós. Que ouvir e guardar a Sua Palavra seja nosso objetivo principal. E que, depois que formos transformados pela Palavra, nossa vida possa, simplesmente, ser um reflexo do que o Espírito Santo já está operando dentro de nós. De dentro para fora. E que nossa maior preocupação – conosco e com os outros – seja o que está acontecendo lá dentro, e não aqui fora. Porque o homem vê o exterior, mas Deus vê o coração. Esse é o nosso maior testemunho cristão – e nosso maior instrumento de glórias a Deus. Ver como Ele vê. E que Ele nos ensine e nos ajude. Amém.

quarta-feira, 9 de março de 2016

Quaresma – Dia 26 – Uma oração que reflete uma vida



“Então, ele [Jesus] os ensinou: Quando orardes, dizei:
Pai
Santificado seja o teu nome;
Venha o teu reino;
O pão nosso cotidiano dá-nos de dia em dia;
Perdoa-nos os nossos pecados,
Pois também nós perdoamos a todo o que nos deve;
E não nos deixes cair em tentação”
(Lucas 11.2-4)

Jesus ensina Seus discípulos a orarem. Mas, se olharmos mais de perto, Seu ensino não é apenas sobre o momento da oração. É sobre nossa vida. É sobre como cada um de Seus discípulos e seguidores, o que inclui a nós, deve viver. Porque a oração deve ser um reflexo de tudo aquilo em que cremos e em que baseamos a nossa vida diária. Portanto, assim nos ensina Jesus a viver:

- Reconhecendo em Deus o nosso Pai: relacionando-nos com Ele como filhos, que respeitam o seu pai, porém que também possuem por ele afeição, amor, carinho, sentimentos. E que são repreendidos e exortados por ele, mas também cuidados e abraçados. Uma relação íntima, duradoura, indestrutível. Uma relação muito superior a de um amigo ou de um servo com seu senhor. A relação entre um filho e o seu pai. O seu “papai”. Aquela relação de confiança que faz com que uma criança pule das alturas para os braços de seu pai quando ele chama. Aquela relação que faz com que uma criança corra para os braços do seu pai quando algum perigo a ameaça. Aquela relação que faz com que uma criança diga para aquele menino malvado que a está ameaçando: “Vou contar pro meu pai!”. Essa é a relação que somos chamados a ter com Deus. Intimidade. Proximidade. Afetividade. Confiança. Entrega. Amor.

- Revelando a Santidade de Deus: reconhecendo, constantemente, que Ele é Santo. Totalmente Santo. Não deixando que isso nos fuja à mente. Mas, principalmente, revelando, com as nossas vidas, a Santidade de nosso Pai. Que nosso viver diário possa mostrar ao mundo que somos filhos de um Deus que é Santo – e, por isso, também lutamos para nos tornar santos, para sermos como nosso Pai é. Que nossa luta por santidade possa revelar ao mundo que seguimos a um Deus completamente Santo. Que ela seja o maior ensino sobre a Santidade de Deus. E o maior motivo para que o mundo que nos cerca santifique o Nome do nosso Deus.

- Estabelecendo o reino de Deus nesta vida: que o reino dEle venha – através de nós. Que nosso andar neste mundo reflita o reino de Deus. Os valores do reino de Deus. As verdades do reino de Deus. Que, por onde quer que formos, o jeito de DEUS REINAR possa tornar-se real, vivo, palpável, por meio de nós. Que sejamos a imagem de como é viver no reino de Deus. Que mostremos ao mundo como o reino dEle é e há de ser. E que inauguremos o reino dEle hoje, aqui, todos os dias. Com nossas vidas. Com nossas decisões, motivações, ações, sentimentos, planos, sonhos, enfim. Que tudo o que somos possa ser reflexo de um reino que já se iniciou. Um novo jeito da vida funcionar. Controlado por um Santo, Maravilhoso, Gracioso, Amoroso, Justo Rei. E que, mesmo que ainda não esteja completo, já possui embaixadores espalhados pelo mundo inteiro, responsáveis por levar Seu jeito de funcionar para os quatro cantos desta terra. Nós. Estabelecedores do reino de Deus – aqui e agora.

- Vivendo de dia em dia: o pão nosso cotidiano, dado de dia em dia. A confiança na provisão diária de Deus. Confiança de que nosso Deus não nos abandonará. Ele nos suprirá as necessidades. Não todas de uma vez – mas de dia em dia. Assim, não ansiosos por saber como acontecerão todos os capítulos desta novela. Mas descansados em provar do cuidado diário de Deus. Satisfeitos em ver o Seu agir e provisão a cada dia. Não olhando para ontem, nem cheios de preocupação com o fim dos nossos dias. Mas vivendo um dia de cada vez. Pois confiamos em Quem cuida de nós. E que nossa vida possa refletir isso ao mundo. A confiança em um Deus que não esquece dos Seus e não os abandona – mas supre as suas necessidades, dia a dia.

- Reconhecendo-nos pecadores: todos os dias. Lembrar quem somos. Lembrar de nossas fraquezas, de nossos pecados, da maldade que habita em nós e do quanto somos necessitados da graça de Deus que perdoa os nossos pecados. Reconhecer que somos pecadores e que somos dependentes do favor dEle para viver. Que nossos méritos nunca serão suficientes. Que nossa bondade nunca será tão grande quanto deveria. Que não somos tão bons assim. Que não somos merecedores. Que tudo o que temos e somos de bom é fruto de graça – e não de conquista. E, assim, poderemos ser livres deste orgulho que tanto nos assedia. Humilhados, para que o Senhor possa nos exaltar, em Sua graça. Diminuindo, para que Ele cresça. Que nunca nos esqueçamos disso.

- Perdoando a todos os que nos devem: porque sabemos que nós não merecemos, mas nosso Pai nos trata com graça. Então, assim também nós trataremos os outros. Lembrando a forma como nosso Deus trata com nossos pecados, nós também trataremos aqueles que pecam contra nós. Porque nossa justiça não pode ser maior do que a de Deus. E se somos seus filhos, é como Ele vive que nós devemos viver. E se somos tão dependentes e tão devedores de Sua graça, Seus favores imerecidos dados a nós, não podemos tratar os que nos devem de forma diferente. Perdoamos porque fomos perdoados. Amamos porque fomos amados. E que nossa reação aos que nos devem, aos que pecam contra nós também possa refletir Quem é o nosso Deus.

- Lembrando das tentações que nos cercam: e que elas virão. Que elas nos acompanharão por todo o caminho. E que nós precisaremos de ajuda. A ajuda de nosso Pai. Não nos enganar, achando que porque tudo parece estar tão bem, podemos descansar e deixar de vigiar. Não. Permanecer atentos e vigilantes, porque seremos tentados. Várias e várias vezes. Cotidianamente. E podemos cair em nossas tentações. E precisamos da ajuda de Deus para que isso não aconteça. Precisamos estar próximos a Ele. Precisamos manter nossos olhos fixos nEle, nossos ouvidos atentos à Sua voz que nos alerta quando a tentação vem, prontos a enxergar Sua mão sendo estendida a nós e segurá-la. Mas, para tudo isso, precisamos estar perto dEle. Na hora da tentação, é a presença e a companhia de nosso Pai que poderá nos salvar. Mantenhamos-nos próximos a Ele.


E que nossa oração possa ser apenas um reflexo de nossa vida. Nunca duas coisas opostas. Nunca diferentes. Mas concordantes. Uma imagem da outra. Que nossas orações não sejam apenas palavras. Que nossa fé não seja apenas palavras. Que nossa fé e nossas orações sejam acompanhadas por nossa vida. Para que o mundo possa reconhecer – por meio do que falamos e por meio do que vivemos – Quem é o Deus a quem seguimos e pertencemos. E O glorifique. Assim possa ser. Amém.

Quaresma – Dia 25 – Quem é o meu próximo?



“Ele, porém, querendo justificar-se, perguntou a Jesus: Quem é o meu próximo?” (Lucas 10.29)

E, por meio de uma parábola, Jesus responde:

Teu próximo é todo aquele que, no decorrer de teu caminho, precisar de você. Todo aquele que, estando ferido, abandonado, desprezado, saqueado surgir à beira do caminho pelo qual passas. Todo aquele que precisar da tua ajuda. Material, emocional, física, espiritual, social. Este é o teu próximo.

E você perguntará: “- E o que eu devo fazer por ele?”

Você deve amá-lo. E amar significa doar-se. Significa parar um pouco, em seu caminho, desviar um pouco os olhos do ponto aonde se estava indo, do compromisso que lhe esperava, da atividade religiosa que você tinha a fazer, para olhar para o lado, reconhecer quem está jogado às margens de sua estrada, aproximar-se dele, ter piedade de sua dor, cuidar de seus ferimentos, tomar de seu óleo e seu vinho para ajudar suas feridas a cicatrizarem, deixar o conforto do animal que o transportava até então e oferece-lo para transportar aquele que, naquele momento, precisa mais do que você, decidir vivenciar o incômodo e o desconforto por um tempo, para que aquele que precisa de comodidade e conforto naquela hora possa desfruta-los, procurar junto àquele estranho o auxílio e repouso que ele precisa, e certificar-se de não deixa-lo por conta própria, mas sob os cuidados de alguém que esteja por perto para garantir sua recuperação, tomando sobre você mesmo todos os custos e cobranças provenientes desta atenção oferecida e comprometendo-se a arcar com eles. Isso é amor. Isso é AMAR AO PRÓXIMO COMO A SI MESMO.

Isso é o que todos nós, fariseus mascarados, precisamos aprender. A pensar menos em nós mesmos e nossa necessidade de cumprir nossos caminhos, nossos objetivos, nossas atividades, nossas rotinas – e reconhecer que há um outro PRÓXIMO A NÓS, que precisa ser enxergado e amado. E que, se queremos herdar a vida eterna, este é o caminho. Amar a Deus sobre todas as coisas culmina no amor ao PRÓXIMO como amamos a nós mesmos. E nos preocupar com o outro tanto quanto nos preocupamos com nós mesmos. E fazer pelo outro o que fazemos por nós mesmos. E colocar o outro em nosso lugar. E nos colocar no lugar dele. E abrir mão de nosso conforto e comodidade para oferece-los a quem precisa mais do que nós. E como tudo isso é difícil. Mas isso é amor.

“Qual destes três te parece ter sido o próximo do homem que caiu nas mãos dos salteadores? Respondeu-lhe o intérprete da Lei: O que usou de misericórdia para com ele. Então, [Jesus] lhe disse: Vai e procede tu de igual modo” (Lucas 10.36-37)


Saber quem é o seu próximo, descobrir onde ele está, enxerga-lo não é suficiente. É preciso ir e proceder de igual modo. Usar de misericórdia. Ser para com o outro como aquele samaritano foi para com aquele viajante. Reconhecer o seu próximo – e amar. Nosso maior desafio de vida. Saber trilhar nossos caminhos de tal maneira que nossos próximos não nos passem despercebidos – e que não os ignoremos, negligenciemos, calemos, em função das nossas tantas preocupações, sejam elas quais forem. E, ao encontra-los, ama-los. Doar-nos. Oferecer nosso melhor. Nosso grande desafio. Ser como Jesus. Que Ele nos ajude, para Sua glória neste mundo. Amém.

segunda-feira, 7 de março de 2016

Quaresma – Dia 24 – Nossa fonte de alegria



“Não obstante, alegrai-vos, não porque os espíritos se vos submetem, e sim porque o vosso nome está arrolado nos céus” (Lucas 10.20)

Lá estavam os setenta discípulos enviados por Jesus para a missão de precedê-Lo em cada cidade e lugar para onde Jesus estava para ir (v.1), cheios de alegria porque os próprios demônios se submetiam a eles por causa do Nome de Jesus (v.17). Aqueles homem haviam experimentado aquele sobrenatural que só é possível viver quando estamos na missão de Deus e com Deus, vendo-O fazer o impossível acontecer. Esse tipo de experiência que eu sonho tanto em poder viver mais na minha vida. Por isso eu posso imaginar a alegria daqueles homens. Me coloco no lugar deles, olhando para mim mesma e vendo alguém tão pequena, com uma fé tão pequena, com tantos pecados, e Deus, de repente, fazendo coisas grandiosas acontecerem por meio da minha vida, coisas inimagináveis para mim, mas feitas no Nome de Jesus. Eu entendo perfeitamente o entusiasmo, a euforia desses homens chegando com o Mestre e dizendo (como se isso fosse algo incrível também para Jesus): “Mestre, os demônios obedeciam às nossas ordens!”. Mas aí Jesus responde: “alegrem-se, não porque os espíritos se submetem a vocês, mas porque seus nomes estão escritos nos céus" (v.20). E parece que foi um balde de água fria. Eles estavam tão eufóricos! E Jesus vem com uma dessa. Como assim?

Mas o que me chamou a atenção é que, antes de falar disso, Jesus não condenou simplesmente a alegria que os discípulos sentiam. Eles estavam maravilhados por verem o sobrenatural de Deus acontecendo em suas vidas. E Jesus se aproxima deles nessa alegria, compartilhando do sentimento deles e dizendo: “Eu vi coisas maravilhosas acontecerem desde o princípio da criação. Eu vi quando Satanás, que era anjo, tornou-se traidor e foi expulso do céu. E vocês também verão coisas extraordinárias acontecerem. Vocês pisarão cobras e escorpiões e não sofrerão nada, porque Eu tenho compartilhado minha autoridade com vocês – sobre essas coisas e sobre todo o poder do inimigo. Contudo...” (v.18-19). E é quando chega o nosso versículo chave: “Contudo, alegrem-se, não porque os espíritos se submetem a vocês, mas porque seus nomes estão escritos nos céus". O que Jesus estava dizendo era: Vocês ainda verão coisas maravilhosas demais para seus olhos acontecendo, pelo poder do meu Nome, que concedo a vocês, meus discípulos, porém, não é nestas coisas que deve estar a vossa alegria.

E é o que Jesus precisa falar para cada um de nós tantas e tantas vezes. Passamos a vida toda esperando alguma coisa extraordinária acontecer em nossas vidas para sermos alegres. Estamos sempre aguardando algo de Deus: um agir sobrenatural, uma manifestação, uma graça específica, uma resposta de oração, um casamento, um ministério, um dom, etc, etc, etc. Como se só fôssemos ser realmente alegres, completos, quando estas coisas acontecessem. E Jesus não condena isso. Jesus não condenou a alegria proveniente da experiência sobrenatural que os discípulos viveram. Ele, inclusive, disse que eles poderiam e deveriam esperar que estas coisas lhes acontecessem, porque Ele mesmo partilhava com eles da Sua autoridade. E Jesus não condena nossas alegrias provenientes de outras fontes: de um ministério, de um casamento, de uma conquista, de ter filhos, de realizar um sonho, de ter uma experiência sobrenatural com Ele... não! Ele, inclusive, fala a nós: “Você pode esperar que essas alegrias lhe sejam acrescentadas na vida, meu servo, porque Eu cuido de você!”. Mas, existe um “Contudo”, e ele é muito importante. Contudo, estas coisas, que nos são acrescentadas em nosso caminhar com Deus, não podem nem devem ser nossas fontes primárias de alegria. Não podemos ser dependentes delas para estarmos alegres.

Qual deve ser nossa fonte de alegria, então? Jesus disse: “mas porque seus nomes estão escritos nos céus". Não pelo que Ele FARÁ nas nossas vidas. Mas pelo que Ele JÁ FEZ. Essa deve ser nossa fonte primária de alegria. DEUS JÁ FEZ O MAIOR MILAGRE DE TODOS EM MINHA VIDA. Ele escreveu meu nome no Livro da Vida. Oh, glorioso Deus! Que coisa nessa vida pode se comparar a isso? Um casamento? Um ministério? Uma conquista? Filhos? Um sonho? Que coisa neste mundo ou no porvir poderia se comparar ao fato de que eu, um pecador, fui feito FILHO de DEUS, e meu nome foi escrito no Livro DELE – e nada poderá apaga-Lo de lá? Nada. Não há alegria que este mundo possa nos oferecer que assemelhe-se a isso. Mas nós não entendemos – porque ainda somos feitos da matéria desse mundo. Ainda não conhecemos a matéria do mundo de lá. Os tesouros do mundo do nosso Pai ainda nos são mistério. Apenas os imaginamos. Mas não os conhecemos. Por isso, não conseguimos imaginar a dimensão do seu valor. Enquanto isso, os tesouros deste mundo aqui são feitos da mesma matéria que hoje nós somos feitos, nós conseguimos mensurar o valor que eles tem – e por isso os desejamos. Contudo, basta parar para olhar para esse Eterno, Santo, Poderoso, Cheio de Graça, Soberano, Maravilhoso, Perfeito Deus que se fez nosso Pai para compreendermos que nada neste mundo jamais se assemelhará a Ele. Portanto, Seus tesouros eternos, uma VIDA AO SEU LADO – agora e por toda a eternidade – jamais se comparará com nenhum dos tesouros que conhecemos nesta vida. É incomparável. Incomparavelmente melhor.


Assim, nós momentos em que a figueira não florescer, a videira não der o seu fruto, a safra das azeitonas falhar, as lavouras não produzirem alimento, não houver ovelhas no curral nem bois nos estábulos... nós podemos falar como Habacuque: “ainda assim eu exultarei no Senhor e me alegrarei no Deus da minha salvação.” (Hc. 3.17-18). Porque, ainda que todas as conquistas que temos nesta vida nos tragam alegria – e uma alegria tão grande, um entusiasmo, uma euforia tão intensos – quando elas falharem, quando elas não vierem, quando não houver tesouro nenhum em nossas mãos, há uma conquista, um tesouro que ninguém pode nos roubar. Há uma alegria que nunca falhará. Há uma segurança e um descanso eternos, que garantem FELICIDADE às nossas almas, mesmo quando mais nada nos sobrar: O DEUS DA NOSSA SALVAÇÃO. NEle, estamos ETERNAMENTE seguros – porque Ele mesmo escreveu nosso nome em Seu Livro de Vida. E nada nos poderá tirar essa alegria. Nossa verdadeira fonte de alegria. E que ela seja, de verdade. A alegria que nunca cessará. E que nada nos faça esquecer. E que não haja, em nossos corações, tesouro mais desejável do que este. Nossa perfeita fonte de alegria. Assim seja. Amém.