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segunda-feira, 19 de março de 2018

Asas e raiz...



Dividida entre a raiz e as asas. Esse amor tão grande pelo ninho construído: meu aconchego, meu porto seguro, minha história de afetos, minha certeza de pertencimento, meus laços, meus tesouros conquistados e guardados com tanto zelo, ano após ano, luta após luta, superação após superação, entre dores e prazeres, lágrimas e risos, sonhos e insônias - meu lugar para chamar de meu, para saber quem sou. E, ao mesmo tempo, essa vontade louca de voar, essa certeza tão convicta de que há mais, há mais de mim mesma para descobrir, há mais de mim mesma para viver, há mais para construir, há mais histórias de amor, há mais desafios a vencer, lágrimas a chorar, risos para rir, aventuras para desbravar, gente para abraçar, força para desenvolver, espaço para preencher, horizontes para contemplar, sonhos para sonhar, há mais... há muito mais. E esse mesmo coração que quer ir, quer ficar, nessa briga eterna aqui dentro, triste e feliz, cheio e incompleto, pleno e insatisfeito, lutando, guerreando, procurando encontrar um caminho, um lugar, um equilíbrio, tentando descobrir como ser pássaro com raízes fincadas ao chão, ou como ser árvore frondosa com asas abertas ao vento. Ah, coração! Aonde iremos nós assim? Como nos resolveremos? Não sem dores: seja por cortar asas, seja por cortar raízes - nessa dança doída de não poder ter tudo que se ama e que se é nessa vida. Porque uma vida só é pequena demais para tanto amar. Voa e permanece. Ama hoje e amanhã. Vai e volta. E tenta. E não desiste. Um dia, ah um dia!, haverá algum lugar em que contradições poderão conviver pacificamente. E, então, se ser feliz.

domingo, 19 de novembro de 2017

Maturidade...



Estou cada dia mais convencida de que maturidade tem muito mais a ver com lágrimas do que com risos, com decepções do que com encantos, com frustrações do que com vitórias, com dores do que com conforto, com tempestades do que com bonanças, com desertos do que com jardins...

Pois é na dor, na fornalha, na pressão, nos tempos contrários, quando nada do que esperamos acontece, quando nenhuma das nossas expectativas é suprida, quando nossos sonhos se frustram, quando os sentimentos são abafados e a empolgação passa que iremos mostrar a real força de nossas convicções – a real força de nossa fé.

Pois maturidade tem a ver com força. Não é sobre a intensidade com que começamos, mas com nossa capacidade de permanecer, enfrentando cada estação, cada inverno pesado, cada outono em que as folhas todas caem e as árvores ficam todas desfolhadas e secas... e ainda continuar de pé. É poder cantar como cantaram “Os Arrais”: “Como as árvores, eu permaneço no mesmo lugar; no outono, no inverno, eu espero primavera chegar...”. É sobre saber esperar.

É sobre ser testado e aprovado. Sobre sobreviver ao dia mau. Sobre conseguir atravessar as noites escuras sem deixar o coração endurecer e perder a esperança. É sobre não desistir de amar, mesmo sem receber amor. É sobre não desistir de dar, mesmo sem nada em troca. É sobre decidir pelo que se é, pelo que é verdade, não pelo retorno que teremos. É sobre escolher continuar dizendo sim à missão de salvar a outrem, ainda que nosso único pagamento seja uma cruz.

Estou cada dia mais convencida de que maturidade tem a ver com suportar as demoras da vida e ainda acreditar. Sobre abalar-se e não desistir. Sobre ainda poder olhar com compaixão, graça e misericórdia mesmo para aqueles que mais nos feriram. Sobre morrer, mas ainda assim escolher doar-se. Sobre injustiças, sobre “nãos”, sobre feridas, sobre solidão, sobre diminuir, pois, como também cantaram “Os Arrais”, “somente uma fé que se abalou inabalável é”.

Porque é tão fácil ter um sorriso nos lábios, um coração grato, um olhar compassivo, braços estendidos, serviço disposto, vontades firmes, convicções inabaláveis quando os tempos nos são favoráveis, quando o caminho está cheio de companheiros, quando nosso sonho é compreendido e apoiado, quando encontramos suporte e cuidado, quando está confortável e bonito o trajeto à frente, quando há luz e certezas... e como são bons e abençoados estes tempos de bonança que o Senhor nos dá!

Porém o dia mau chegará. E não nos enganemos: ele chegará! O inverno. Depois de viver as belezas do verão e da primavera, precisamos estar preparados para o inverno, pois ele sempre chega. Quando não haverá mais tantas companhias, quando nossos sonhos e visões serão considerados loucos, quando não haverá a mão estendida ou o abraço esperado, quando seremos julgados e condenados, quando uma cruz nos esperará no fim do caminho, quando vai doer e sangrar e pareceremos enfrentar tudo isso sozinhos... e é então que saberemos a real força de tudo que achávamos ter e ser. É então que saberemos o real material do qual nossa casa era construída. Quando o vento bate forte. Quando a tempestade cai.

E esse é o propósito dos nossos invernos. Não apenas nos testar e provar, mas nos amadurecer. Nos mostrar nossas fragilidades e nos convidar a cuidar delas e deixa-las ser cuidadas, e nos fortalecer. Pois quando conseguimos vence-los – ah! quando conseguimos vence-los! – descobriremos que havia em nós uma força que jamais imaginaríamos, e descobriremos que nossa paz e satisfação não são construídas e determinadas pelo que está acontecendo lá fora, mas pelo que está acontecendo aqui dentro. Até chegar aquele dia em que, esteja frio ou calor, claro ou escuro, silêncio ou barulho, repleto de gente ou sem ninguém, continuaremos encontrando motivos para sorrir e confiar e, finalmente, descansar. Maturidade.

Por isso, também “nos gloriamos nas tribulações, porque aprendemos que a tribulação produz perseverança; a perseverança produz um caráter aprovado; e o caráter aprovado produz confiança. E a confiança não nos decepciona, porque Deus derramou seu amor em nossos corações, por meio do Espírito Santo que Ele mesmo nos outorgou” (Romanos 5.3-5), porque “Ele me declarou: “A minha graça te é suficiente, pois o meu poder se aperfeiçoa na fraqueza”. Sendo assim, de boa vontade me gloriarei nas minhas fraquezas, a fim de que o poder de Cristo repouse sobre mim. Por esse motivo, por amor de Cristo, posso ser feliz nas fraquezas, nas ofensas, nas necessidades, nas perseguições, nas angústias. Porquanto, quando estou enfraquecido é que sou forte!” (1 Coríntios 12.9-10).

Porque Ele é a nossa força. Ele é nossa fonte de paz e alegria. Ele é nosso motivo e esperança. Ele é nosso propósito e herança. Ele é nosso conforto e abrigo. Ele é nossa segurança e nosso amigo sempre presente.

“Porque dELE, e por ELE, e para ELE, são todas as coisas; glória, pois, a ELE eternamente. Amém.” (Romanos 11.36)

E, seja verão ou inverno, outono ou primavera... Ele nunca nos faltará!


Nele podemos descansar e confiar.

Amadurecer...

quarta-feira, 23 de março de 2016

Quaresma – Dia 36 – Vida cristã, ciladas e o exemplo de Jesus



“Observando-o, subornaram emissários que se fingiam de justos para verem se o apanhavam em alguma palavra” (Lucas 20.20a)

Definitivamente, ao olhar para a Bíblia, precisamos desenvolver o olhar de identificar em Jesus, e em todas as coisas que Ele viveu, o exemplo para nossas vidas e todas as coisas que nós também viveremos.

Estive pensando nesse episódio da vida de Jesus. Escribas e sacerdotes armando uma cilada para pegar Jesus em um erro e entrega-Lo às autoridades romanas e destruí-Lo – e em como isso existe em nossas vidas cristãs também. E eu nem estou falando de como sofremos ciladas e perseguições injustas em nossos relacionamentos com os descrentes – estou falando das ciladas que sofremos dentro do próprio meio religioso, originadas daqueles que deveriam ser defensores da fé junto conosco. E era isso o que Jesus estava vivendo. Enquanto publicanos e pecadores sentavam ao Seu lado para ouvi-Lo e aprender com Ele, os líderes religiosos do grupo ao qual Jesus pertencia (os judeus) armavam armadilhas para derrubar Jesus.

E como é triste viver algo assim. Tenho certeza que nenhuma decepção nessa vida é maior do que sermos enganados, ou descobrirmos que estão armando para nosso mal, no meio daqueles em quem mais confiamos. No meio dos que chamamos de irmãos. No meio dos que nos abraçam. No meio do que chamamos de “igreja”. Isso é muito duro. Tão duro a ponto de fazer muitas e muitas pessoas desistirem dessa coisa de “igreja” – de participar de um grupo e dedicar-se a ele. Porque nos frustramos e nos ferimos, e essas feridas são mais profundas do que a maioria que podemos experimentar. Assim, muitos desistem.

Contudo, olhamos pra vida de Jesus e toda ela era repleta desse tipo de coisas. Do início ao fim de Seu ministério. Até o dia mais difícil de Sua vida – enganado e abandonado pelos Seus. Como sempre, nós não paramos para mensurar quanto aquilo era duro pra Jesus. Aqueles escribas e fariseus e sacerdotes eram, para a religião judaica, a religião “do povo de Deus”, o grupo dentro do qual Deus determinou que o Messias fosse trazido ao mundo, como nossos pastores, líderes de ministérios, mestres da Palavra. Estamos acostumados com o fato desses homens estarem sempre perseguindo a Jesus, e por isso tendemos a achar que Jesus lidava tranquilamente com isso, sem nenhum problema – afinal, Jesus sabia o que se passava no coração deles, né? No entanto, aqueles homens eram os líderes do “Povo de Deus”, aqueles que deveriam estar ensinando os caminhos de vida ao povo, aqueles que deveriam ser os exemplos e ajudar o povo a conhecer a Deus e amá-Lo... mas eles faziam exatamente o contrário. E, certamente, o coração de Jesus doía por conta disso. Ele era homem como nós.

Mas Jesus não desistiu. Ele não abandonou os judeus por causa disso. E Ele também não agiu de forma negligente, não se importando com o que aqueles homens pensavam e faziam, falando o que quisesse e fazendo o que quisesse, de qualquer forma, independente do resultado que aquilo teria, principalmente proveniente daqueles que armavam ciladas para Ele. Não. Jesus identificava as armadilhas, com a ajuda do Pai, e respondia a elas com sabedoria. Ele não precisava justificar-se àqueles homens pecadores e maus. Mas, Ele fazia, na medida do possível. Ele não precisava medir Suas palavras por causa do julgamento daqueles homens, mas Ele o fazia, na medida do possível.

Nesse episódio, especificamente, vemos isso. Os emissários enviados perguntam a Jesus se é lícito pagar tributos a César – porque eles esperavam que Jesus fosse pregar revolução contra Roma ou algo assim, e então diria que não se deve pagar tributos a César, já que boa parte desses tributos era cobrado de maneira injusta e opressiva. E Jesus sabia que aquela pergunta era uma cilada. E Ele poderia nem ter se dado o trabalho de responder. Mas Ele age com sabedoria, e com sabedoria responde: “Mostrai-me um denário. De quem é a efígie e a inscrição? [...] Dai, pois, a César o que é de César e a Deus o que é de Deus” (v.24-25). E a conclusão da narração é que: “Não puderam apanhá-Lo em palavra alguma diante do povo; e, admirados da sua resposta, calaram-se” (v.26). E esse versículo 26, pra mim, resume todo esse ensino.

Não adianta nos enganarmos e esperarmos que nossa vida cristã seja sempre linda, com pessoas lindas, honestas e bem intencionadas, que se dedicarão a nos ajudar e ao nosso bem. Não será assim. Muito mais do que imaginamos, nós encontraremos, dentro do nosso meio cristão, pessoas más, líderes maus, que procurarão puxar nosso tapete, nos enganar, nos apanhar em erros para conseguir nosso mal diante de outros... nós vamos viver isso. Por que posso afirmar isso? Porque Jesus viveu. E Sua vida é o nosso exemplo – para as coisas boas de se viver, e também para as difíceis. Porém, a grande questão para nós é como iremos enfrentar essas situações. E nossa resposta é a mesma: seguindo o exemplo de Jesus. Nós sempre teremos duas opções na hora de decidir como responder a algo que acontece em nossas vidas. Contudo, a Palavra de Deus nos chama a escolher o exemplo do Cristo – porque somos Seus seguidores e imitadores. E como Jesus agia diante dessas situações? Com sabedoria. Com domínio próprio. Com temor a Deus. Honrando o Nome do Senhor. De uma forma que se podia dizer a Seu respeito: “Não puderam apanhá-Lo em palavra alguma”. Jesus procedia de forma que não se tinha do que acusa-Lo. Suas palavras eram medidas, controladas e baseadas em amor. Ele não pagava mal com mal. Ele pagava mal com bem. E então, mesmo os seus acusadores, ao Lhe ouvir, saíam “admirados da sua resposta”, e calavam-se. Esse é nosso Jesus. Esse é nosso modelo. Alguém que poderia ter expressado toda Sua condenação e ódio por tudo aquilo que aqueles homens faziam, enquanto líderes religiosos do povo, mas não fazia assim. Respondia equilibradamente e com sabedoria. E era assim que até mesmo Seus inimigos O admiravam.


Esse é o chamado para nossas vidas. Que, mesmo nos momentos mais difíceis, mesmo quando formos enganados, quando forem armadas armadilhas para nos fazer cair – por aqueles que deveriam ser nossos irmãos e apoiadores da fé – que nossos olhos possam voltar para Jesus e lembrar de Sua sabedoria, domínio próprio e de Seu segundo maior mandamento: amar ao nosso próximo – e amar o nosso inimigo. Jesus viveu assim enquanto esteve em nosso meio, como homem. E nos convida a viver assim também. A sofrer as dores com longanimidade. Paciência. E fé em Deus. A não desistir. A perseverar. Porque nosso caminho é o caminho do amor, da misericórdia, do perdão, da compaixão, da GRAÇA – o mesmo caminho que Jesus escolheu e viveu. Porque Ele é o nosso exemplo, e sempre será. Porque as dores que Ele sofreu são e serão as nossas dores – mas a sabedoria, o amor e o temor a Deus com os quais Jesus decidiu reagir a essas dores também devem ser os nossos. Quando, na vida cristã, tivermos que ser expostos às piores ciladas, provenientes daqueles de quem menos esperávamos, que lembremos do exemplo de Jesus. E o sigamos. De forma que todos os que nos perseguem possam olhar para nossas vidas e “não podendo apanhar-nos em palavra alguma diante do povo; admirados da nossa resposta, calem-se”. Essa é nossa maior arma. E é assim que venceremos. Para a glória do nosso Pai e do Nome de Jesus. Ele nos ajude. Amém.

segunda-feira, 21 de março de 2016

Quaresma – Dia 34 – Vocação de Jesus, nossa Vocação



“[...] lembra-te de que recebeste os teus bens em tua vida, e Lázaro igualmente, os males; agora, porém, aqui, ele está consolado; tu, em tormentos” (Lucas 16. 25)

Quanto mais eu leio o Evangelho de Lucas, mas vejo como este ensino de Jesus se repete, vez após vez: Jesus veio para os desprezados deste mundo. Isso é tão claro. Capítulo após capítulo, lá está Jesus e os fariseus opondo-se um ao outro: Jesus aproximando-se dos excluídos, ensinando sobre misericórdia, compaixão e amor; e os fariseus, odiando-O por isso, e nos ensinando sobre orgulho, autojustiça e discriminação. De tudo o que tenho aprendido do estudo deste Evangelho, isso tem se destacado. E, neste domingo, pude perceber ainda mais a profundidade, a extensão, a relevância desse ensino.

Fui visitar uma igreja nesse domingo, onde estava acontecendo o Musical de Páscoa deles, com coral, teatro e dança. Foi lindo. É sempre um privilégio poder VER a história das Boas Novas sendo encenada. Pensar em Jesus como um homem de “carne e osso”, vivendo no meio de homens “de carne e osso”, e imaginá-Lo, por meio daquele homem que O encenava, fazendo todas as coisas que a Bíblia nos diz que Ele fazia. Isso me toca profundamente. Abre minha mente, meus olhos. E senti isso naquele dia. E, particularmente, em um momento da encenação: Jesus reunido com Seus discípulos, alegre, sorridente, e aproximando-se dEle os coxos, os cegos, os endemoninhados... e Jesus aproximando-se de cada um deles com amor, e libertando-os – e, talvez pela primeira vez na vida de algumas daquelas pessoas, AMANDO-OS. Como isso foi profundo pra mim. E entendi que essa era a vocação de Jesus, ou fazia parte de Sua vocação: AMAR. E amar exatamente aqueles que não eram amados – os excluídos, os rejeitados, os desprezados.

A gente, com certeza, não tem ideia de quanto a exclusão de aleijados, endemoninhados, leprosos, doentes, pecadores, etc, era algo forte no tempo e na sociedade em que Jesus viveu. Mas a Lei falava para o povo de Israel separar de seu meio os “impuros”, para não se contaminarem. E o povo transformou essa “separação dos impuros” em exclusão mesmo. E nós não temos como imaginar como se sentiam os leprosos, a mulher do fluxo de sangue, os doentes (que eram considerados pecadores), os samaritanos, os publicanos, as prostitutas, os pobres, etc, no meio daquele povo que se considerava tão santo que não poderia nem se aproximar deles. Não podemos imaginar quanto eles se sentiam impuros, indignos, sujos, lixo naquela sociedade. Porque, provavelmente, eles haviam sido tratados assim durante toda ou quase toda sua vida. E eles também já deviam ter sido convencidos de que eram o que todo mundo afirmava que eles eram.

E aí chega Jesus. Nossa! Isso é tão forte! A gente já tá acostumado com o fato de Jesus se aproximar dessas pessoas, a ponto de não percebermos o significado disso. Mas NINGUÉM se aproximava dessas pessoas. NINGUÉM se importava com elas. Elas eram NINGUÉM. E lá está nosso Mestre: não apenas aproximando-se delas, mas estendendo a mão, tocando, curando, AMANDO. E é por isso que, cada dia mais, eram essas pessoas que se aproximavam de Jesus. Ele quebra todos os protocolos e todos os paradigmas. Descontrói tudo, para, então, reconstruir. Tudo. Estava eu lendo os capítulos 15 em diante do livro de Lucas e percebendo de quantos rejeitados Jesus fala até o capítulo 18: o pecador (representado pelo Filho Pródigo, em Lc. 15.11-32), o pobre (representado por Lázaro, em Lc. 16.19-31), o doente (representado pelos 10 leprosos, de Lc. 17.11-19), o que está fora do nosso círculo religioso (representado pelo publicano, de Lc. 18.9-14), os inúteis (representados pelas crianças, de Lc. 18.15-17), e continua nos capítulos seguintes – o cego de Jericó, Zaqueu. Os desprezados. Até as crianças! Hoje, vivendo numa sociedade que entende seu dever de proteger as crianças, por serem indefesos, não entendemos quanto as crianças eram desprezadas naquela sociedade. Mas muitas sociedades patriarcais, ainda hoje, como no Oriente, ainda as trata assim – não podem contribuir com nada, não tem nada para oferecer, então só tornam-se “alguém” quando crescem e podem participar da “vida da sociedade e da família”. E vem Jesus abraça-las e dizer que para entrar no Reino dEle é preciso receber o Reino como elas.

E, diante de tudo isso, diante do Evangelho lido e visto naquela encenação, entendo que esta é a nossa vocação. Foi para estes que Jesus veio. De tantas formas, a Sua Palavra tenta nos mostrar isso. Foi para os pequenos, os invisíveis, os que são “nada” que Ele olhou. E é para eles que devemos olhar também. Eu olhava para aquele homem, encenando Jesus, curando aquelas pessoas com um sorriso no rosto, e pensava: eu quero ser isso neste mundo também! Quero ser aquela que irá olhar para aqueles a quem ninguém olha, aqueles que se acham ninguém, aqueles que não tem mais esperança, os rejeitados, os sem voz, os esquecidos... quero ser Jesus para eles. Quero fazê-los saber que Deus se importa com eles, que Jesus veio ao mundo para eles e que Ele tem vida nova, plena, eterna para lhes oferecer. Que Jesus tem identidade e propósito para suas vidas. Que eles são importantes, são especiais, são amados por Deus – e que Ele nunca os esquece. Quero ser a presença viva e palpável de Deus nas vidas dessas pessoas. Ir àqueles a quem ninguém vai. Levar amor aonde não existe amor. A vocação de Jesus como minha vocação. A vocação de amar – aqueles que já nem acreditam mais em amor.


Vocação de Jesus, nossa vocação. E que nossas vidas possam ser como a vida do nosso Mestre. Sua missão, nossa missão. Seu chamado, nosso chamado. Sua vida, nossa vida. Que seja assim. Que Ele nos ensine. Que Ele nos ajude. E que possamos ser Seus verdadeiros embaixadores e representantes, fiéis e perseverantes, em amor, neste mundo. Para que Seu Nome seja glorificado. Que assim seja. Amém e amém.

sexta-feira, 18 de março de 2016

Quaresma – Dia 33 – Aproximando-nos de quem?



“Aproximavam-se de Jesus todos os publicanos e pecadores para o ouvir” (Lucas 15.1)

Quem são as pessoas que têm se aproximado de nós? Quem são as pessoas de quem temos nos aproximado? Porque esse texto fala muito de quem era Jesus – e de qual era a Sua missão. Mesmo sendo Santo, mesmo sendo o perfeito Deus, os piores da sociedade (material e espiritual) sentiam-se atraídos por Jesus. E se aproximavam para ouvi-Lo. Ainda que Jesus falasse sobre pecado e o condenasse, ainda que Ele falasse sobre a Santidade do Pai e a necessidade de arrependimento, ainda assim... publicanos, pecadores, impuros, doentes, marginalizados, excluídos aproximavam-se dEle. Enquanto isso, os perfeitinhos e santos, os religiosos “filhos de Abraão” cada vez mais se afastavam dEle.

E nós? Quem são as pessoas que temos atraído? Será que nossa postura, nossa vida atrai os sujos, os pequenos, os marginalizados, os PECADORES deste tempo? Ou, ao olhar para nós, eles enxergam os juízes que só sabem condená-los ou os santos dos quais eles não são dignos de se aproximar? Porque, infelizmente, é assim que o mundo tem visto, muitas e muitas vezes, a nós, cristãos. Porque os ensinamos a ver assim. Porque fomos ensinados a nos manter longe dos pecadores. Não podemos nos misturar com quem não entende a teologia no mesmo nível que entendemos. Não podemos visitar igrejas que não sejam 100% santas em suas doutrinas. Não podemos ter amigos pecadores. Não podemos pisar em solo que não seja santo. Só podemos estar na companhia dos santos. E foi aí que construímos este muro que nos separa do mundo real – o mundo que Jesus veio salvar. Sem perceber, fazemos como os fariseus: “E murmuravam os fariseus e os escribas, dizendo: Este recebe pecadores e come com eles” (v.2). Fazemos isso com nossos irmãos. Fazemos isso em nossas igrejas. Perdemos, em nossas vidas, a misericórdia, o amor, a compaixão que havia em Cristo – e que atraía a Ele os piores pecadores. A misericórdia, amor e compaixão que ainda há nEle e que é o que continua atraindo a Ele os pobres desta terra – aqueles que nós rejeitamos.

E o ensino volta para o mesmo ponto: quando crescemos, Ele diminui. Quando nos achamos bons demais, é então que estamos mal. Quando consideramos o outro mau demais, é quando nós mesmos estamos assim. Quando o orgulho tem espaço, o espírito, certamente, não o tem. Não há espaço para este orgulho que olha as pessoas com superioridade, e a Presença Salvadora de Jesus. E Jesus vem, então, ensinar isso, por meio de várias parábolas – A ovelha perdida, a dracma perdida, o filho perdido – para ensinar uma coisa só: o Reino de Deus é para os perdidos, e não para os santos. Para os doentes, e não para os sãos. Para os imperfeitos, e não para os perfeitos. Por um fato simples: diante de Deus, não existem santos, sãos e perfeitos. Somos todos perdidos, doentes e imperfeitos. Contudo, para fazer parte do Reino dEle, precisamos nos reconhecer assim – e parar de nos sentir melhores do que os outros. Não há nada melhor em nós. Nada. Porque tudo que temos de bom é, puramente, graça de Deus. Em essência, somos exatamente iguais a qualquer publicano e pecador. E é por isso que Jesus nos recebe.

Termino com uma música que sempre me confronta demais. É um desafio constante para minha mente orgulhosa e soberba, para essa carne má que há em mim e que me faz acreditar, vez ou outra, que sou melhor do que sou – e que me faz desejar estar junto apenas dos santos e perfeitos. Até que eu paro e me lembro de Jesus – e de quais pessoas Ele escolheu estar perto. De quais pessoas estavam ao redor dEle. E volto a compreender onde devem estar os meus olhos e o meu coração. “Sou humano demais pra compreender...”.


Eu fico tentando compreender
O que nos Teus olhos pôde ver
Aquela mulher na multidão
Que, já condenada, acreditou
Que ainda havia o que fazer
Que ainda restara algum valor
E ao se prender em Teu olhar
Por certo haveria de vencer
E assim fizeste a vida
Retornar aos olhos dela
E quem antes condenava
Se percebe pecador
Teu amor desconcertante
Força que conserta o mundo
Eu confesso não saber compreender

Sou humano demais pra compreender
Humano demais pra entender
Este jeito que escolheste de amar quem não merece
Sou humano demais pra compreender
Humano demais pra entender
Que aqueles que escolheste e tomaste pela mão
Geralmente eu não os quero do meu lado

Eu fico surpreso ao ver-Te assim
Trocando os santos por Zaqueu
E tantos doutores por Simão
Alguns sacerdotes por Mateus
E, mesmo na cruz, em meio à dor
Um gesto revela quem Tu és
Te tornas amigo do ladrão
Só pra lhe roubar o coração
E assim foste o contrário,
O avesso do avesso
E por mais que eu me esforce
Não sei bem se Te conheço
Tu enxergas o profundo
Eu insisto em ver a margem
Quando vês o coração
Eu vejo a imagem

Sou humano demais pra compreender
Humano demais pra entender
Este jeito que escolheste de amar quem não merece
Sou humano demais pra compreender
Humano demais pra entender
Que aqueles que escolheste e tomaste pela mão
Geralmente eu não os quero do meu lado

Mas recebemos, em nós, o Revelador do Coração do Pai. Que Ele nos ensine a ver e a ser como Cristo é. Até que cheguemos à estatura do Varão Perfeito – Jesus, nosso Senhor. Para glória e revelação do Seu Nome na terra. Amém.



Quaresma – Dia 32 – Reino dos necessitados



“Sai depressa para as ruas e becos da cidade e traze para aqui os pobres, os aleijados, os cegos e os coxos” (Lucas 14.21)

Deus chamando para a Sua ceia. E que texto sério este é. Porque, primeiro, Deus chama os “sãos”. E chama muitos. Só que todos eram pessoas importantes e, por isso, na hora em que tudo já estava preparado, eles precisam desculpar-se por não poder ir participar. Afinal, havia tantas coisas para resolver: um campo recém comprado que precisava ser visitado; cinco juntas de bois que precisavam ser experimentadas; um casamento recém contraído que precisava ser desfrutado... Tão importantes... tão ocupados... que não há tempo para ceias.

E, ao ler isso, meu coração se enche de temor. Porque eu me vejo nisso. Nos vejo nisso. Nossa geração sempre tão ocupada, com tantas coisas importantes para fazer. Tantas coisas para estudar, tantas notícias novas para ouvir, tantos compromissos, tantas pessoas importantes com quem falar, tantos eventos importantes para organizar, tanto dinheiro para ganhar, tantas dívidas para pagar, tantos amigos para fazer... e não nos tem sobrado tempo para ceias. Para a grande ceia de Deus. Mas, ela já está pronta (v.16-17). O servo do dono da ceia já veio nos chamar para nos achegar a ela. E o convite foi feito para tantos. Porém, todos eles tinham coisas demais para resolver, e não ligaram para o seu convite.

E foi então que o dono da casa, irado, disse ao seu servo para trazer para o jantar os pobres, os aleijados, os cegos e os coxos. E assim ele o fez. E estes não negaram. E lá estavam eles para a grande ceia daquele grande senhor. Por quê? Por um simples motivo: eles sabiam-se necessitados. Sabiam-se pobres e doentes, e pessoas assim não negam convites – muito menos para uma ceia. Eles sabem reconhecer bênçãos, quando estas lhes são oferecidas. Eles sabem reconhecer que tem tão pouco e, diante disso, tudo se torna tão grandioso e importante – quanto mais um convite feito por um grande senhor.

E é aí que eu penso quem somos nós. Os homens ocupados e importantes, ou os pobres e doentes. Como enxergamos a nós mesmos? Como temos vivido as nossas vidas? Como pessoas grandes, a quem o Grande Senhor oferece favores – os quais nos sentimos no direito de avaliar para verificar se estes são mais ou menos importantes do que os nossos compromissos? Ou como aqueles homens pobres, cegos, aleijados, coxos, conscientes da sua pequenez diante daquele Grande Senhor, e do quanto participar daquela Ceia lhes era um privilégio impagável? De fato, aqueles homens necessitados nunca poderiam pagar por aquela ceia. Eles não tinham nada a oferecer. E, talvez, exatamente por isso eles não negaram aquele chamado.

Infelizmente, costumamos nos enxergar de uma maneira tão diferente do que realmente somos. Somos os homens pobres, cegos e aleijados, sujos, mendigos, sem nada para oferecer a Deus. Mas, tão facilmente acreditamos quando o mundo nos diz que somos grandes e importantes, e que Deus precisa entrar na fila da nossa agenda, para ver onde conseguimos encaixa-Lo. E o triste disso é que, no final desta parábola, o senhor da grande ceia diz: “Porque vos declaro que nenhum daqueles homens que foram convidados provará a minha ceia” (v.24). Uma vez que a ceia tenha começado e o convite tenha sido negado, não há mais volta. A oportunidade passou. E perdemos a coisa mais importante que poderíamos ter recebido nesta existência.

Seguir a Jesus Cristo é um grande privilégio, mas também tem exigências. Primeiro, o reconhecimento de quem, de fato, somos: reconhecermo-nos pobres, cegos, coxos, aleijados. Necessitados. Imerecedores. Sem nada para oferecer em troca, a não ser nossa presença – nossa vida. Segundo, pagar o preço. Reconhecer que todos as nossas coisinhas, que parecem tão grandes diante das lentes deste mundo, são ínfimas, sem valor, diante do insondável valor de participar da ceia dAquele Senhor. Nada pode se comparar a participar daquilo que Ele estava preparando. Nenhum de nossos tesouros. Nem mesmo nossos campos, bois ou, ainda, casamentos. Nem mesmo nosso desejo de afeição natural, pois assim diz o Senhor Jesus: “Se alguém vem a mim e não aborrece a seu pai, e mãe, e mulher, e filhos, e irmãos, e irmãs e ainda a sua própria vida, não pode ser meu discípulo”. Porque para seguir a Jesus é necessária a consciência de que nosso maior tesouro é Ele. Maior do que qualquer outro tesouro, por mais valioso que ele seja, que possamos ter nessa vida – incluindo nossa própria vida neste corpo. Reconhecer nossa pequenez – e reconhecer a grandeza dEle.

Por isso, é preciso calcular o preço a ser pago para dizer esse “Sim” a Jesus. Um preço muitas vezes não ensinado, não esclarecido. Mas o preço é grande, e é preciso que seja calculado – assim como é necessário que se calcule a despesa para construir uma torre ou a quantidade de soldados para vencer uma guerra (v.28-32). Para que não ocorra que, tendo dito um sim inconsciente, venhamos a ser envergonhados. Seguir a Jesus exige renúncia: de nosso orgulho, nossa reputação, nossos maiores tesouros, nossa própria vida: “pois, todo aquele que dentre vós não renuncia a tudo quanto tem não pode ser meu discípulo” (v.33).


Por isso o Reino é dos necessitados. Porque quem é pobre, aleijado, cego e coxo facilmente enxerga que tudo aquilo que ele venha a possuir nesta vida não pode se comparar ao que Aquele Senhor lhe oferece. Aquela ceia. Por isso, sua resposta não poderia ser outra a não ser “Sim!”. Ele olha para si mesmo e olha para Aquele Senhor, e entende. E, para entrar no Reino de Cristo, é necessário que seja assim também. Que Ele cresça, e nós diminuamos. Que reconheçamos quem somos e Quem Ele é. E, só assim, compreenderemos como somos privilegiados por poder fazer parte disso. Quando tivermos a consciência que somos os pobres, aleijados, cegos e coxos. E Ele é o Rei. E a menor coisa que Ele possa nos oferecer ainda será maior do que tudo o mais que possamos conquistar sem Ele. Assim, que nossa resposta seja sim. E que participar do que Ele tem preparado seja a maior alegria dos nossos corações. Que assim seja. Amém.

quarta-feira, 16 de março de 2016

Quaresma – Dia 31 – Chamados a diminuir



“Quando por alguém fores convidado para um casamento, não procures o primeiro lugar [...]. Pelo contrário, quando fores convidado, vai tomar o último lugar...” (Lucas 14.8a, 10a)

Totalmente diferente do que fazemos. Nós queremos os primeiros lugares. O local de destaque. Queremos aparecer na foto. Queremos ser vistos. Queremos que todos saibam que estamos ali. Queremos ser os mais bonitos. Queremos elogios. Queremos privilégios. Queremos ser o centro das atenções. Queremos o protagonismo...

O problema é que essa é a matemática do mundo: para ser o primeiro, é preciso crescer; para ser o primeiro, é preciso ultrapassar todo mundo; para ser o primeiro, é preciso aparecer; pois, quanto mais você for visto, mais será reconhecido. Porém, a matemática de Deus é diferente. É exatamente o oposto: quer ser o primeiro? Seja o último; quer ser servido? Sirva; quer viver? Morra; quer ser salvo? Entregue-se... Só que, entre estes dois raciocínios, facilmente somos convencidos da lógica do primeiro e da falta de lógica do segundo – e escolhemos errado. E isso acontece por causa de um pecado bem particular dentro de nós: o orgulho. Eu realmente acho que ele é o pior pecado – porque tem tudo a ver com nos acharmos deuses, e tomar o lugar do Único Deus.

Por isso é tão difícil falar da submissão feminina em nossos dias. Porque aprendemos (e acreditamos) que só somos valorizados à medida em que aparecemos, crescemos, estamos à frente dos outros, protagonizamos, lideramos. Se não somos a figura central, então estamos sendo desvalorizados – perdendo o nosso valor. Nós aprendemos isso, e acreditamos nisso. Aprendemos que, se queremos viver, devemos lutar pela vida. Mas Jesus ensina que precisamos morrer. Se queremos ser os primeiros, devemos ir pro fim da fila – e só sair de lá se Aquele que nos convidou nos chamar. Se queremos ser líderes, devemos atar a toalha à cintura e lavar os pés dos demais, como Jesus fez. Servir ao invés de procurar ser servidos. Porém, dizer pra alguém ser o último, ser servo, lavar pés, diminuir, nestes dias em que vivemos, é tirar-lhe o valor, é chamar-lhe de inferior, é menospreza-lo. Porque “se alguém tem valor, ele não estará servindo e sim sendo servido”. Mas essa não é a lógica de Deus. Pois a lógica do mundo é egoísta e individualista. Mas a lógica de Deus é altruísta – focada no amor genuíno. E o que ama serve, sem perder, em nada, seu senso de identidade e de valor perante Deus. Porque Deus diminuiu-se e serviu – e continuou sendo inteiramente Deus. Porque, perante Deus, nosso valor não é determinado pelo papel que desempenhamos, e sim pelo que somos – o que Ele diz que somos.

Mas assumir verdades como estas para nossas vidas exige renúncia. Renunciar ao nosso orgulho, ao nosso ego, à nossa vaidade, ao nosso desejo de ser o centro, à idolatria de nós mesmos. E isso dói. Porque é tão bom ser reconhecido, enxergado, elogiado. É tão bom estar à frente e ter seu nome mencionado. E é tão ruim quando trabalhamos tanto mas ninguém nos vê. Ninguém sabe que fomos nós. Ninguém nos reconhece. É tão ruim. Porque não é o que nossa carne quer. Lá no fundo, não é com a aprovação de Deus que estamos realmente preocupados – é com a aprovação dos homens.

Contudo, Jesus termina esta história dizendo àquelas pessoas: “Quando deres um jantar ou uma ceia, não convides os teus amigos, nem teus irmãos, nem teus parentes, nem vizinhos ricos; para não suceder que eles, por sua vez, te convidem e sejas recompensado. Antes, ao dares um banquete, convida os pobres, os aleijados, os coxos e os cegos; e serás bem-aventurado, pelo fato de não terem eles com que recompensar-te; a tua recompensa, porém, tu a receberás na ressurreição dos justos” (Lc. 14.12-14). Ele estava nos ensinando: “Quando fizeres o que quer que seja, não busque a aprovação e as recompensas das mãos dos homens. Busque a aprovação e a recompensa das mãos de Deus. Pois somente uma tu poderás receber. Se tua recompensa vem de homens, Deus não poderá recompensar-te. E mais valiosas – muito mais valiosas – são as recompensas que tens para receber na ressurreição dos justos do que todas as que podes receber aqui nesta vida”.

É isso. Que queiramos o primeiro lugar diante de Deus, e não dos homens. Que queiramos crescer diante de Deus, e não dos homens. Que queiramos viver diante de Deus, e não dos homens. E que entendamos que, se assim desejamos, os caminhos a tomar serão opostos àqueles que os homens nos propõem. É o último lugar que devemos buscar. É diminuir. É morrer. Porque, somente assim, quando tivermos coração de servos, quando o Senhor tiver nos limpado de nosso orgulho e nossa vaidade e presunção, Ele poderá nos exaltar. Só assim poderemos ser os primeiros. Antes, somos chamados a diminuir. E que este chamado não seja rejeitado por nós. Ele é o único caminho para o verdadeiro crescimento.


sábado, 12 de março de 2016

Quaresma – Dia 29 – O que realmente importa



“[...] porque, onde está o vosso tesouro, aí estará também o vosso coração” (Lucas 12.34)

O texto de Lucas 12, versos 1 a 34, fala de um assunto só: o verdadeiro sentido da vida. E eu só percebi isso quando já estava chegando lá pelo verso 22. Aí acontecem aqueles momentos de iluminação de Deus. É tudo sobre a mesma coisa.

O texto começa com Jesus alertando seus discípulos e a multidão reunida contra o fermento dos fariseus: a hipocrisia. Hipocrisia que se revelava na vida cheia de coisas ocultas que eles tinham, das máscaras que eles usavam. Mas Jesus adverte a todos que nossa verdadeira face nunca poderá ficar escondida para sempre. Nossas máscaras cairão, nossas coisas escondidas serão reveladas. Portanto, que não haja em nossa vida este fermento de hipocrisia que havia nas vidas dos escribas e fariseus, com quem Jesus acabara de conversar e de a quem acabara de repreender, no fim do capítulo 11. E a hipocrisia deles consistia em uma coisa: dizerem-se preocupados com as coisas espirituais, com suas máscaras espirituais, porém com os olhos e o coração fixos em si mesmos e nas coisas deste mundo. Diziam-se espirituais, mas eram carnais. E, então, Jesus mostra três comportamentos que revelam quando nosso coração está nas coisas deste mundo e não nas coisas espirituais, e quais deveriam ser nossas verdadeiras preocupados – o que realmente importa.

1) Medo da morte (Lucas 12.4-12)

“Digo-vos, pois, amigos meus: não temais os que matam o corpo e, depois disso, nada mais podem fazer” (v.4).

Infelizmente, raramente paramos para pensar por que certas coisas da vida geram tanta preocupação, tanto medo em nós. Por que tememos tanto a morte? Mesmo que não assumamos. Nós a tememos. Pensamos, caso somos convidados a realizar uma ação cristã em um local perigoso da cidade: “Mas será que devemos mesmo ir lá? Será que é seguro?”. Se somos convidados para um trabalho missionário em um país em guerra: “Mas não é melhor ir a outro lugar?”. Se somos desafiados a desenvolver qualquer atividade que possa nos trazer dor ou mesmo qualquer tipo de desconforto, até mesmo o emocional, logo desanimamos. Tenho ouvido tantos cristãos preocupados com o risco de extremistas islâmicos se aproveitarem dessa onda de migração de refugiados Sírios e de outras áreas do Oriente Médio, e da abertura que o Brasil tem dado, liberando as fronteiras e facilitando a entrada destes refugiados. E a preocupação sempre é: “nós não sabemos o que eles podem fazer. Daqui a pouco estarão realizando atentados terroristas aqui no Brasil, perseguindo a Igreja, e nós estaremos correndo riscos”. E isso tem gerado tanta preocupação a tantas pessoas, nestes tempos. Mas, por que isso nos amedronta tanto? Por que o risco de sermos perseguidos, de sofrermos um atentado, de sofrermos danos físicos nos causam tanto alarme? E a verdade é que é porque nossas preocupações estão neste mundo, e não na eternidade. No mundo físico, e não no espiritual. Em nós mesmos, e não em Deus. E é por isso que tememos tanto aqueles que podem matar o corpo, mesmo sem poder fazer dano nenhum a nosso espírito. Porque colocamos valor maior no corpo do que no espírito. E é com ele que nos preocupamos, acima de todas as coisas. Por isso, o medo da morte chega a paralisar certas pessoas. Por isso há pessoas (mesmo cristãs) que, quando ouvem alguém dizendo “Se eu morrer amanhã, encontro você lá no céu!”, rapidamente respondem: “Credo! Tá amarrado! Ninguém vai morrer não! Para com isso!”. Porque criamos raízes neste mundo e não queremos deixa-lo. Nós o transformamos em nosso tesouro, nos esquecendo que este corpo perecerá, e este mundo também. Que a verdadeira realidade está além deste corpo físico.

E o ensino de Jesus sobre isso é: “temei aquele que, depois de matar, tem poder para lançar no inferno. Sim, digo-vos, a esse deveis temer.” (v.5). Deus. É a Ele que devemos temer. Ao que acontecerá com nossos espíritos APÓS a nossa morte física. Isso sim é realmente importante. Ao olharmos para todas essas situações arriscadas e difíceis para nós mesmos, que nossa preocupação não esteja em “O que acontecerá comigo?”, mas “De que forma isso pode influenciar realidades espirituais?”. Na minha vida e na vida dos demais envolvidos. Como isso pode beneficiar ou prejudicar, espiritualmente, a Igreja de Jesus Cristo, nossa fé, nosso crescimento, nossa aproximação de Deus, e todos aqueles que ainda precisam conhecer a Jesus. Porque estas coisas influenciarão para a vida eterna. E é com elas que devemos nos preocupar.

2) Avareza (Lucas 12.13-21)

“Então, direi à minha alma: tens em depósito muitos bens para muitos anos; descansa, come, bebe e regala-te. Mas Deus lhe disse: Louco...” (v. 19-20a)

Nós podemos até não perceber também, mas todos pensamos nisso. Precisamos de um fundo de aposentadoria. Precisamos de uma poupança. Precisamos de uma casa melhor. Precisamos de um carro novo. Precisamos de mais roupas. Precisamos de mais sapatos. Precisamos de mais lazer. Precisamos de mais um trabalho. Precisamos de tantas, tantas, tantas coisas. Precisamos derrubar nossos celeiros, para podermos construir outros que possam abarcar os tesouros que temos conseguido juntar. E, então – só então - , quando tivermos conseguido juntar o suficiente, descansaremos e seremos felizes. Essa é a filosofia da grande maioria das pessoas hoje em dia. Nossos pais nos ensinam. Nós, que somos jovens, precisamos ralar muito e trabalhar muito agora, enquanto temos forças e energias, para que, um dia, possamos nos aposentar e usufruir dos bens que acumulamos. Só acontece que juntar bens toma nosso tempo, nossas forças, nossas atenções, nossos planejamentos... tudo o que somos. E, então, quando vemos, em nossa corrida para entesourar para nós mesmos, quase nada sobrou para Deus. Para a minha poupança, nunca pode faltar. Mas para ajudar um necessitado, sempre falta. Para apoiar um missionário, sempre falta. Para investir nos trabalhos da igreja, sempre falta. Mas para minha calça jeans nova, a gente dá um jeitinho. Para o cinema do fim de semana, a gente dá um jeitinho. Para minha maquiagem nova, minhas unhas semanais, meu cabelo... a gente arruma.

“Mas Deus lhe disse: Louco, esta noite te pedirão a tua alma; e o que tens preparado, para quem será? Assim é o que entesoura para si mesmo e não é rico para com Deus” (v.20-21). Temos tempo para nós mesmos, mas não temos para Deus. Temos energia para nosso trabalho, que nos permite juntar tesouro para nós mesmos, mas não temos para nossa família, nossos amigos, os que precisam de nós, e o próprio Deus. Mas essa vida terminará. De repente. Quando menos esperarmos. E o que terá valido serão os tesouros que acumulamos para com Deus. Nosso amor, nossa misericórdia, nossa compaixão, nossa doação, nossa liberalidade para com o Reino de Deus. Juntar para a eternidade, e não para este mundo perecível.

3) Ansiosa preocupação com as necessidades dessa vida (Lucas 12.22-33)

“Por isso, eu vos advirto: não andeis ansiosos pela vossa vida, quanto ao que haveis de comer, nem pelo vosso corpo, quanto ao que haveis de vestir. Porque a vida é mais do que o alimento, e o corpo, mais do que as vestes.” (v.22-23)

E é assim que Jesus conclui o Seu ensino. “Não andem tão ansiosos assim!”. Por que nós andamos tão ansiosos com nossa vida – nossas necessidades diárias ou futuras? Porque nós nos esquecemos que esta vida não se resume à realidade material – há uma realidade espiritual, da qual nós fazemos parte, e, nesta realidade, há um Deus Todo Poderoso que é nosso Pai e cuida dos Seus filhos. Mas nos esquecemos disso. Passamos a acreditar que o provedor de nossas vidas somos nós mesmos. Nossos esforços. Nossos empregos. E, por isso, eles precisam ser nossas prioridades. Por isso precisamos trabalhar mais um turno, mesmo quando isso prejudica as coisas que realmente valem à pena nessa vida. Porque acreditamos que nosso sustento vem de nós mesmos – e não do Senhor. Então, vivemos preocupados com o que haveremos de comer, de beber, de vestir, etc. Por isso, deixamos de investir no Reino de Deus. Por isso, deixamos de estar com o Corpo de Cristo, pois precisamos trabalhar. Por isso, abrimos mão de uma viagem missionária, pois nos custaria reduzir os custos com a manutenção de nosso estilo de vida – o que não podemos fazer. Por isso, o campo missionário transcultural é tão apavorante pra tanta gente ainda. Por isso os pais se desesperam quando seus filhos dizem ser chamados para o trabalho missionário em campos pobres. Por isso, os jovens são ensinados a escolher profissões que darão dinheiro, e não as que fazem parte do chamado de Deus para suas vidas. É assim que fazemos nossas escolhas hoje em dia. Calculando nossa sobrevivência. E é assim que deixamos Deus de fora da nossa história – e ficamos de fora da história dEle.

O que Ele nos ensina: “Observai os corvos, os quais não semeiam, nem ceifam, não têm despensa nem celeiros; todavia, Deus os sustenta. Quanto mais valeis do que as aves! [...] Observai os lírios; [...] se Deus veste assim a erva que hoje está no campo e amanhã é lançada no forno, quanto mais tratando-se de vós, homens de pequena fé! [...] vosso Pai sabe que necessitais [destas coisas]. Buscai, antes de tudo, o seu reino, e estas coisas vos serão acrescentadas. Não temais, ó pequenino rebanho; porque vosso Pai se agradou em dar-vos o seu reino. Vendei os vossos bens e dai esmola; fazei para vós outros bolsas que não desgastam, tesouro inextinguível nos céus, onde não chega o ladrão, nem a traça consome, porque, onde está o vosso tesouro, aí estará também o vosso coração” (v.24, 27a, 28, 30b-34)

Não se trata de não termos mais cuidado com nossa vida e deixarmos de ser atentos e sábios com nossas escolhas diárias. Não se trata de não nos precavermos financeiramente e sairmos torrando nosso dinheiro de qualquer forma, ainda que seja em ações religiosas, sem a responsabilidade de cumprir com nossos compromissos – pessoais, cidadãos, familiares. Não se trata de não assumirmos nosso papel em nos empenharmos para conseguir nosso sustento e ficarmos sentados, esperando Deus mandar o maná do céu. Não é sobre essas coisas que este texto fala. Não é sobre negligência, preguiça, irresponsabilidade, falta de compromisso e de responsabilidade, falta de sabedoria e vida desregrada. Não é sobre uma fé cega. É sobre onde está nosso coração. É sobre onde está o nosso tesouro. É sobre em que temos investido as nossas vidas. É sobre o que realmente tem importado para nós. E o que realmente importa para Deus. O que realmente importa nessa vida. É sobre descobrir isso e investir nisso. Tudo o que pudermos. É sobre não viver para si mesmo – mas para Deus, e para o próximo. Pois foi assim que Jesus viveu. E veio nos deixar o exemplo. Ele sabe o que realmente importa. Aprendamos com Ele.


sexta-feira, 11 de março de 2016

Quaresma – Dia 28 – Reagindo à repreensão



“Saindo Jesus dali, passaram os escribas e fariseus a argui-lo com veemência, procurando confundi-lo a respeito de muitos assuntos, com o intuito de tirar das suas próprias palavras motivos para o acusar” (Lucas 11.53-54)

Como você reage quando é repreendido por alguém, quando alguém chama a sua atenção? Jesus estava fazendo isso com os fariseus e os escribas nos versos de Lucas 11. 37 a 52. Ele censurou os fariseus e os intérpretes da Lei, expondo seus pecados, sua falsa religiosidade, sua hipocrisia. Jesus lhes tirou as máscaras. E é interessante que Jesus nem fez isso diante da multidão. O texto diz que Ele estava à mesa com um fariseu que O havia convidado para comer com ele. Dá a ideia de que eles estavam na casa do fariseu. Mas, mesmo fazendo estas exortações tão sérias e pesadas àqueles líderes religiosos, eles não se arrependeram. Após ouvir todas aquelas revelações a respeito da condição errada e falsa de seus corações e de suas ações religiosas, aqueles homens, que poderiam ter assumido a sua culpa, o seu pecado, e se arrependido, e pedido o perdão de Jesus, não o fizeram. Ao contrário, ao invés de assumirem-se pecadores e pedir perdão, eles decidem encontrar desculpas para matar o Cristo.

E essas são as duas opções que temos. Ou nos humilhamos, assumindo nossa fraqueza e pedindo ajuda; ou nos vestimos de presunção e vaidade e tentamos reverter o quadro, transformando em acusado aquele que nos acusa. Humildade ou orgulho. São as duas opções. Ou tirar as máscaras, ou reforça-las, tirando de nós o foco do julgamento e colocando-o sobre a vida daquele que nos estava revelando. E é exatamente uma dessas duas coisas que nós fazemos quando somos acusados, quando somos repreendidos. Ou reconhecemos ou também nos tornamos acusadores – e ainda mais ferrenhos do que aquele que nos exortou. Se não assumimos nosso papel de “vilões”, para defender nossa falsa fama de “mocinhos”, então nossa saída é transformar todos os que “ameaçam nossa fama” também em vilões. Jesus era Santo – O Messias. Mas aqueles homens precisavam transformá-Lo no vilão, para defender o seu orgulho, para não precisarem reconhecer quão maus eram. Então, mais fácil era transformar Jesus em alguém mau do que reconhecer que Ele estava certo.

E é assim com a gente. Não só quando Deus nos repreende (diretamente, pelo Espírito Santo em nossa consciência). Mas, principalmente, quando as pessoas nos repreendem. Quando Deus nos repreende por meio das pessoas. Quando elas expõem nossos erros e pecados. É tão difícil ser exortado. É duro, dói. A repreensão nunca é algo fácil. Porque é um confronto ao nosso ego, ao nosso orgulho, à nossa vaidade, à nossa necessidade de aceitação, ao nosso desejo de ser deus. A verdade é que o maior pecado de todo ser humano é o desejo de usurpar o lugar de Deus. Ser iguais a Ele, tomando-Lhe o centro. E quando somos censurados e expostos, todos descobrem que não somos “deus” coisa nenhuma. Somos pecadores. E quanto lutamos para esconder essa verdade dos outros – e de nós mesmos.

Mas esse caminho não é um caminho possível para nós, cristãos. Porque só há lugar ao lado de Deus quando há arrependimento. Porque só há lugar para UM DEUS na vida do cristão. E não somos nós. Porque o caminho de Cristo é o caminho da cruz, da humilhação, da diminuição, para que o Pai seja quem cresça. E isso começa nas pequenas coisas. Começa em reconhecermos o orgulho que há em nós – e que se manifesta, ou tenta se manifestar, cada vez que alguém nos chama a atenção. Todas as vezes em que não podemos simplesmente responder “É verdade. Eu fiz isso. Me perdoe”, mas precisamos nos justificar eternamente, para convencer de que estamos sempre certos. Começa em aprender a ficar calados. Aprender a pedir perdão. Aprender a tirar as máscaras e mostrar seu pior lado. É assim que se aprende a ser cristão. É assim que se cresce na fé. Não há lugar para nosso ego, nosso orgulho, nossa vaidade.

Que não sejamos como estes escribas e fariseus que, para se defender, procuram motivos para acusar quem lhes exorta. Que não sejamos assim. Que reconheçamos o pecado em nossa vida, que nos arrependamos, que procuremos mudar – e que nos lembremos que aqueles que nos exortam com sinceridade são verdadeiros amigos e instrumentos de Deus. São voz do Espírito Santo, que é quem nos convence do pecado, da justiça e do juízo. E precisamos dar ouvidos à essa voz. Porque precisamos dela para mudar e para crescer. Que nunca calemos essa voz em função de nossa necessidade de defender nossa “reputação”. Que aprendamos a ser humildes – com o mais humilde dos homens que viveu sobre esta terra: Aquele que deixou o Seu reino celestial e humilhou-se, fazendo-se como um de nós, pecadores, por amor ao Pai e ao próximo. Ele é nosso maior exemplo. E é exatamente com a simplicidade e a humildade dEle que devemos reagir à repreensão. Para que Seu Nome seja glorificado. E que Ele nos ajude. Amém.


quinta-feira, 10 de março de 2016

Quaresma – Dia 27 – Ver como Cristo vê



“Ora, aconteceu que, ao dizer Jesus estas palavras, uma mulher, que estava entre a multidão, exclamou e disse-lhe: Bem-aventurada aquela que te concebeu, e os seios que te amamentaram! Ele, porém, respondeu: Antes, bem-aventurados são os que ouvem a palavra de Deus e a guardam!” (Lucas 11.27)

Nós somos como essa mulher. Nos admiramos com feitos, com status, com o exterior. Conhecemos um pastor ou líder cristão e nos admiramos com suas palavras bonitas, sua excelente explanação bíblica, seu nível de conhecimento, sua persuasão, sua eloquência, sua gentileza. Chegamos em uma igreja e logo nos chamam a atenção aqueles que desenvolvem grandes trabalhos, os missionários que foram para o outro lado do planeta e estão fazendo grandes coisas lá, os que estão abrindo igrejas ou que possuem cargos importantes. Olhamos para Hebreus 11, o capítulo dos “Heróis da fé”, e ficamos maravilhados com seus feitos poderosos e maravilhosos. Olhamos o exterior. Nos deixamos encantar com obras. Somos facilmente convencidos por nossos olhos e ouvidos.

Assim foi com aquela mulher. Ela estava tão tomada de admiração por tudo que ouvira Jesus falando, que concluiu: “Uau! Quão abençoada é a mãe deste homem, aquela que lhe amamentou em seu seio!”. E é uma conclusão tão natural. É uma conclusão provavelmente correta, inclusive. Todos nós poderíamos concordar com ela: de fato, como foi bem-aventurada a mulher escolhida por Deus para ser a mãe de Jesus! Ela é mesmo bem-aventurada. Assim como quando ouvimos uma boa pregação e nos enchemos de admiração, quando olhamos para os missionários desenvolvendo grandes projetos ao redor do mundo e nos enchemos de admiração, quando vemos as manifestações sobrenaturais de poder que os patriarcas e profetas fizeram e nos enchemos de admiração... e tudo isso é natural, é esperado, e não está errado.

Porém, Jesus responde aquela mulher: “Antes, bem-aventurados são os que ouvem a palavra de Deus e a guardam!” (Lc.11.28). A Nova Tradução na Linguagem de Hoje traduziu a fala de Jesus da seguinte forma: “—Mais felizes são aqueles que ouvem a mensagem de Deus e obedecem a ela”. A versão Bíblia Viva diz: “Sim, mas ainda mais abençoados são todos aqueles que ouvem a palavra de Deus e a põem em prática”. Jesus não estava dizendo que a mulher estava errada. Não é que Sua mãe não fosse bem-aventurada, que não houvesse motivo de júbilo pela vida da mulher que Lhe havia dado a luz e amamentado. Havia motivos de alegria por isso. O que Jesus estava dizendo era: “Porém, há coisas que são muito mais importantes do que isso!”. Há razão em admirar-se com as palavras de sabedoria e de conhecimento de alguém, com os resultados alcançados por um projeto sociomissionário ou evangelístico, com um determinado ministério dentro de nossas igrejas, com grandes feitos poderosos e sobrenaturais... estas são coisas que merecem a nossa admiração. Contudo... há coisas muito mais importantes, PARA DEUS, do que estas.

Deus não se admira de nossos grandes feitos, de nossos cargos, dos lugares altos que conquistamos em nossas vidas – mesmo em nossas vidas religiosas e cristãs. Porque Ele é Deus – e quem pode ter feitos maiores do que os Seus? Não, não dá pra convencê-Lo dessa forma. Até porque o conhecimento que Ele tem sobre nós é muito – infinitamente – maior do que o que qualquer ser humano pode vir a ter. Ele sabe exatamente quem somos. E isso me faz lembrar a história de Samuel visitando a casa de Jessé, pai de Davi, para ungir um de seus filhos como Rei de Israel. E lá estava Samuel tentando descobrir quem daqueles rapazes ele deveria ungir como rei. E de que forma ele estava fazendo a sua avaliação? Olhando para o exterior – a estatura, a força, a beleza... Então, Deus lhe diz: “Não considere a sua aparência nem sua altura, pois eu o rejeitei. O Senhor não vê como o homem: o homem vê a aparência, mas o Senhor vê o coração" (1 Sm. 16.7).

E a mesma coisa Jesus estava falando para aquela mulher: “Não olhe somente para o exterior, para a posição que aquela mulher desempenhou, pelo fato dela ter sido minha mãe. Olhe além. Porque, diante de vocês, isso pode significar muita coisa. Mas diante do Pai, isso é tão pouco. Ele vê muito além disso. E Ele se importa com coisas muito mais importantes e difíceis – com o coração.”. E é quando Jesus diz o que é mais importante para Deus: Ouvir e guardar a Sua Palavra. Isso é muito mais profundo do que pregar sobre a Palavra de Deus. É muito mais profundo do que realizar curas e milagres. É muito mais profundo do que liderar projetos bem-sucedidos. É muito mais profundo do que ter conquistado uma posição reconhecida diante dos outros. Tem a ver com o coração. Com o mais íntimo do seu ser. Com o lugar que a Palavra de Deus tem em sua vida. Quão profundo ela tem chegado? E quanto dela tem sido guardado – e vivido? Muito mais difícil. Muito mais profundo. Aquilo que convence a Deus.

É isso o que Ele procura em nós. Não alguém que possui cargos ou funções importantes e de destaque – como ser a “mãe de Jesus”. Não alguém com grandes e poderosos feitos. Não. O que admira a Deus é um coração rendido à Sua Palavra. Que a ouve com atenção, com interesse, com desejo, com sede e fome – e que a guarde como um tesouro que não tem preço, que não se vende nem se compra, como sua pérola encontrada. É com a condição do nosso coração que Ele está interessado. Porque nossos feitos podem, facilmente, mascarar nosso coração sujo, impuro e distante de Deus. Muitos chegarão, no último dia, tendo feito grandes coisas no Nome de Jesus, e serão considerados estranhos por Jesus e deixados de fora do Seu Reino (Mt. 7.22-23). Porém, se o nosso coração está cheio de Jesus, não será possível esconder isso naquilo que fazemos. Nossas obras, nossas vidas refletirão isso. Porque a boca fala do que o coração está cheio (Mt. 12:34b).

Que possamos aprender a ver como Cristo vê. A nos importar com o que Ele se importa. A investir no que causa admiração a Ele – e não aos homens. Porque Ele não vê como os homens vêem. Para convencê-Lo, é preciso ir além das aparências. Assim, que nossas vidas possam ser mais do que aparência. Que nos importemos menos com a aparência que temos do que com o que há no mais íntimo de nós. Que ouvir e guardar a Sua Palavra seja nosso objetivo principal. E que, depois que formos transformados pela Palavra, nossa vida possa, simplesmente, ser um reflexo do que o Espírito Santo já está operando dentro de nós. De dentro para fora. E que nossa maior preocupação – conosco e com os outros – seja o que está acontecendo lá dentro, e não aqui fora. Porque o homem vê o exterior, mas Deus vê o coração. Esse é o nosso maior testemunho cristão – e nosso maior instrumento de glórias a Deus. Ver como Ele vê. E que Ele nos ensine e nos ajude. Amém.

sexta-feira, 4 de março de 2016

Quaresma – Dia 22: É o discípulo maior que o seu Mestre?



“É necessário que o Filho do Homem sofra muitas coisas, seja rejeitado pelos anciãos, pelos principais sacerdotes e pelos escribas; seja morto e, no terceiro dia, ressuscite” (Lucas 9.22)

É necessário. Sofrimento. Rejeição. Morte. Era NECESSÁRIO. Esse era o caminho do Messias. E Jesus estava falando a respeito de si mesmo.

Todos nós queremos a ressurreição. Todos queremos a glória do Messias – ser como Ele é em todo o Seu resplendor e glória, na eternidade de gozo e paz que teremos ao lado do Salvador, que será Rei sobre toda a terra. Ah, todos queremos. Queremos a coroa. Queremos os joelhos dobrados. Queremos ser reconhecidos. Queremos a ressurreição. Mas queremos a MORTE que a antecede? Queremos o sofrimento e a rejeição? Queremos a coroa de espinhos tanto quanto a de ouro? Queremos o abandono tanto quanto a morada celestial? Queremos o peso de uma cruz tanto quanto a ascensão ao céu? Porque, para que o Mestre chegasse ao Seu ponto de glorificação – a ressurreição, primeiro lhe foi necessário sofrer muitas coisas, ser rejeitado por todos os líderes de sua religião e, finalmente, ser morto. Foi-lhe NECESSÁRIO. Acaso é o discípulo maior do que o seu Mestre?

A vida cristã consiste em seguir os passos de Jesus. Isso é ser discípulos. E quando somos chamados para ser como o Cristo, não é apenas no amor, na alegria e no bem para com todos. É também na maneira que reagimos quando somos injustiçados, quando somos abandonados pelos que se juravam nossos melhores amigos, quando somos rejeitados e humilhados, quando sofremos nossas piores dores e nossos amigos dormem ou fogem, quando nos sentimos tão sós a ponto de sentir que o próprio Pai nos abandonou... a forma como carregamos a nossa cruz – ainda estando machucados, ensanguentados, doloridos, cheios de chagas. Isso é ser Cristão. Ser como Cristo em TODAS AS COISAS.

E é exatamente o que Jesus continua falando após esse versículo:

Se alguém quer vir após mim, a si mesmo se negue, dia a dia tome a sua cruz e siga-me” (v.23)

O caminho para seguir Jesus é de negação. Negar a si mesmo. Não existe outro caminho. A Bíblia Viva diz: “Aquele que quiser Me seguir, deve pôr de lado seus próprios desejos e carregar sua cruz cada dia”. E quando Jesus diz: “tome a sua cruz, dia a dia, e siga-me”, esse convite para seguir Jesus, após tomar a sua cruz, era pra onde? Era para o Gólgota. Seguir Jesus até o monte em que a crucificação ocorreria. Tomar a cruz é aceitar morrer. Dar sua vida. Abrir mão. Entregar tudo. Estar disposto a carregar o fardo e o peso da cruz. A sentir dor. A sentir-se solitário, muitas vezes. A sentir-se humilhado e desprezado. Até mesmo abandonado pelo Pai. Foi assim quando Jesus tomou a Sua cruz. Esse foi Seu caminho de cruz. E é o de todo aquele que resolve tomar cruz também. Compreender que haverá morte. Mas fazer como Abraão – só que o sacrifício, ao invés de ser de seu filho, seria de si mesmo.

Por quê? Porque a lógica de Deus não é a nossa lógica. “Pois quem quiser salvar a sua vida perde-la-á; quem perder a vida por minha causa, esse a salvará” (v.24). Porque, na lógica de Deus, ganha quem perde. Vive quem morre. É o primeiro quem é o último. É o maior quem é o menor. É exaltado quem se humilha. Bem-aventurado é o que chora, o que tem fome e sede, o que é perseguido. Essa é a lógica de Deus. Totalmente oposta à nossa. E se realmente desejamos nos tornar mais parecidos com Jesus, são essas coisas que precisamos começar a ver em nossas vidas. Se o que estamos vivendo se parece com o que Jesus viveu – e se estamos aprendendo a reagir como Ele reagiu. A olhar como Ele olhou. A valorizar as coisas que Ele valoriza.

Esse é o caminho que somos chamados a percorrer. Um caminho que pode parecer tão duro e cinza, às vezes. Mas, lembremos, que é o mesmo caminho que o nosso Mestre trilhou. O mesmo caminho que O conduziu à vida plena e eterna. À verdadeira glória. Portanto, um caminho que terminará em muito, muito gozo, paz e felicidade. Podemos confiar. Não é o discípulo maior do que o seu Mestre. Aquele que partilhar da morte de Cristo, também partilhará de Sua ressurreição. Essa é a promessa que nos foi feita. Mas não há ressurreição sem morte. Portanto, que a morte venha. Que venham os caminhos duros. Porque, no fim, alcançaremos a glória de toda nossa existência – ser como o nosso Mestre.

E eu termino com uma música que amo demais e que fala exatamente sobre isso. Espinhos, Grupo Logos. E que o Nome de Jesus cresça – e o nosso diminua. Toda honra e glória a Ele. Amém.




Senhor Jesus, eu não entendo o espinho
Mas se a cruz é o fim deste caminho
Dá-me mais graça, não sou maior que o meu Senhor
Apenas servo sou, apenas servo e nada mais.

Se as pontas aguçadas da coroa Te feriram, ó Cabeça
Eu que sou corpo, parte do Teu corpo, não devo reclamar.

Dá-me mais graça, Senhor! Dá-me mais graça!
Passa os Teus dedos nos meus olhos, vem me consolar
Dá-me mais graça, Senhor! Dá-me mais graça!
Faze-me em Cristo, outra vez
Ser mais que vencedor

Senhor Jesus, ainda não entendo o espinho
Mas se o mesmo faz parte da Tua cruz
Eu o aceito, não sou maior que o meu Senhor
Apenas servo sou, apenas servo e nada mais.

Senhor, se estou por Ti sendo provado quero aprovado ser agora
Sei o que tens a dizer, e creio nisto também, basta-me a graça.

Dá-me mais graça, Senhor! Dá-me mais graça!
Passa os Teus dedos nos meus olhos, vem me consolar
Dá-me mais graça, Senhor! Dá-me mais graça!
Faze-me em Cristo, outra vez
Ser mais que vencedor

Um vencedor em Cristo

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

Quaresma – Dia 15: Quebrando os Paradigmas Religiosos



“Afirmo-vos que nem mesmo em Israel achei fé como esta” (Lucas 7.9b)

A reflexão do vídeo devocional de hoje da Cidade Viva Pb (que você pode ver aqui), sobre esse trecho do Evangelho de Lucas, contando a história da cura do servo do centurião, já traz uma boa análise a respeito do assunto. Mas eu gostaria de avaliar um pouco mais o contexto por detrás desse evento vivenciado por Jesus e o significado destas palavras que Jesus pronunciou a respeito daquele centurião.

Primeiro, vamos lembrar algumas coisas sobre os judeus. Durante toda a história do povo de Israel, narrada no Antigo Testamento, os judeus foram O POVO separado de Deus. Eles eram únicos. Os únicos. Não havia mistura. Inclusive, em todo o percurso histórico deles, o grande mandamento de Deus era para que eles não se misturassem com os outros povos e não adotassem as práticas deles. Então, em todo o Antigo Testamento, vemos o povo de Israel sendo ensinado a manter-se separado dos demais, pois eles eram um povo especial – O POVO DE DEUS. E então, sabemos pelos estudos históricos, que os judeus acabaram desenvolvendo uma verdadeira inimizade contra todos aqueles que não eram judeus – como os samaritanos e os “gentios” de forma geral, entre os quais encontravam-se os publicanos e centuriões, que além de não serem judeus ainda trabalhavam para Roma na opressão de Roma sobre Israel. Então, essas pessoas eram consideradas inimigas – enquanto que os judeus achavam-se especiais, pois ELES ERAM “O Povo da Aliança” e, portanto, O Povo de Deus. Portanto, o sentimento de superioridade era algo comum a praticamente todos os judeus. Eles cresceram aprendendo a enxergar a vida dessa forma.

Aí nós chegamos neste texto, lembrando de uma segunda coisa: todo o texto que antecede esse fato, que se estende desde Lucas 5.17 até Lucas 6.49, como já discutimos anteriormente, está condenando as práticas e as vidas dos LÍDERES RELIGIOSOS do povo israelita. Aqueles que se sentiam os mais nobres judeus, “protetores da Lei”, estavam sendo desmascarados por Jesus e combatidos por ele – os fariseus e os escribas. Eles eram os maiorais dentro da religião judaica. E Jesus vinha enfrentando e denunciando várias de suas mentiras religiosas. E, logo após terminar de expor Seu confronto com os líderes religiosos do “Povo escolhido de Deus”, Lucas narra o encontro de Jesus com o Centurião Romano – um GENTIO, um (quase) INIMIGO de Israel. É verdade que aquele centurião tinha a amizade dos anciãos dos judeus, como diz o verso 5, era considerado “amigo do povo” e “digno” de receber o favor de Jesus, inclusive tendo construído a sinagoga de Cafarnaum. No entanto, ele continuava sendo gentio, e eu posso quase ter certeza que aqueles judeus, por mais que o considerassem amigo, não o consideravam como um igual. Ele ainda era gentio e ainda era romano.

E então, depois de ter reprovado tão duramente os escribas e fariseus diante de Seus discípulos, aquele centurião se comporta com tamanha fé, e Lucas registra que: “admirou-se Jesus dele” (v.9a). Que coisa linda de se dizer a respeito de alguém! Uma pessoa que conquistou a admiração do MESSIAS. Depois das palavras de tanta frustração e decepção de Jesus em relação AOS DO SEU POVO, Ele encontra aquele gentio e sente ADMIRAÇÃO por ele. E não apenas admira-se, mas declara aos Seus discípulos e aos que estavam reunidos ali: “Afirmo-vos que nem mesmo em Israel achei fé como esta” (v.9b). E eu fiquei pensando: que afronta estas palavras foram para os judeus ali reunidos! E que quebra de paradigmas! Porque, aqueles homens, tão acostumados a se sentirem superiores aos outros simplesmente por serem “os descendentes de Abraão”, são não apenas comparados a um centurião romano, mas considerados inferiores a ele – e não em qualquer coisa, mas na coisa que mais os definia como “especiais” – FÉ.

E penso que havia propósito nessa sequência de fatos. Jesus estava preparando os Seus discípulos. Seus discípulos precisavam daquela renovação da mente que Paulo menciona em Romanos 12.2. Eles haviam sido criados com tantos paradigmas religiosos, e tantos deles errados, resultando numa mentalidade tão diferente do que todas as revelações de Deus significavam, que eles precisavam aprender tudo de novo. Afinal, foi isso o que Jesus veio fazer, não é? Revelar o real significado da Lei. Todo o entendimento religioso que aquele povo havia adquirido até ali estava incompleto, e só em Jesus era possível compreender o sentido pleno. E era o que Jesus estava começando a fazer – transformar os Seus seguidores. Expô-los aos grandes erros de seu PRÓPRIO POVO – humilhá-los, diminuí-los, para que eles pudessem desenvolver a humildade e a compaixão necessárias para um discípulo Seu. Para que Eles pudessem compreender e também desenvolver o Seu Próprio Caráter. O caráter de Deus. E, para isso, eles precisavam diminuir, “baixar a bola”. E é o que está acontecendo aqui. Eles não apenas foram expostos às mentiras existentes na vida religiosa de seu próprio povo, mas também foram forçados a escutar Deus elogiando um “DE FORA DOS SEUS”, e considera-lo superior aos “escolhidos”.

E como Deus precisa fazer isso conosco! Oh, Senhor, quantas vezes temos nos achado superiores às pessoas que estão “fora do nosso círculo” – sejam pessoas de denominações cristãs diferentes da nossa, ou mesmo pessoas que são novas na fé, que estão conhecendo a Jesus agora – em contraste conosco, que conhecemos a Cristo “há tanto tempo”. E olhamos com menosprezo para nosso próximo, e com orgulho para nós mesmos. “Nós já conhecemos as grandes doutrinas teológicas” ou “nós fazemos parte da denominação mais bíblica”, e etc. E é quando Jesus precisa nos fazer passar por essas experiências que Seus discípulos passaram – de “baixar nossa bola”. Fazer um milagre na vida daquele irmãozinho tão simples, que conhece tão pouco ainda, mas que tem TANTA FÉ! Aquele irmão que talvez nem saiba explicar direitinho o plano de salvação ou a história da igreja, ou que talvez nem entenda direito essa coisa de ser Protestante, nunca estudo a Reforma, sabe o básico da Bíblia, mas SEU CORAÇÃO ESTÁ EM DEUS. Ele CRÊ. Ele sabe. Ele tem FÉ. Aquela fé que muitas vezes, por nosso excesso de paradigmas e de raciocínios, nos falta. A fé simples. A fé que diz: “Senhor, não te incomodes, porque não sou digno de que entres em minha casa. Por isso, eu mesmo não me julguei digno de ir ter contigo; porém manda com uma palavra, e o meu rapaz será curado. Porque também eu sou homem sujeito à autoridade, e tenho soldados às minhas ordens, e digo a este: vai, e ele vai; e a outro: vem, e ele vem; e ao meu servo: faze isto, e ele o faz” (v. 6-8). Tão diferente de tudo que se falou sobre os escribas e fariseus. Fé humilde. Fé sincera. A fé, o coração, a vida que aqueles discípulos precisavam aprender – a vida que nós precisamos aprender.

Quantos paradigmas existiam na mentalidade religiosa daquele povo, mesmo daqueles discípulos. Verdades que lhes foram ensinadas no decorrer de anos e anos. E que criaram raízes. E que não eram questionadas. E Jesus vem acabar com tudo isso. Ele vem questionar. Ele vem mostrar que estava errado. Ele vem reconstruir e revelar o verdadeiro sentido de todas as coisas. É o que Ele quer fazer conosco. Quebrar nossos “pré-conceitos”. Questionar nossos paradigmas. Nos levar a refletir acerca de nossas próprias vidas, antes de nos acharmos superiores a quem quer que seja. Nos mostrar que o que causa a Sua admiração é tão diferente do que causa a nossa. E que é com as coisas que despertam a SUA ADMIRAÇÃO que nós devemos nos preocupar. Seus critérios. Seus padrões. E não os nossos. Não os da religião. E que o Seu jeito de avaliar tem a ver com simplicidade, humildade, compaixão, fé sincera, confiança, entrega. A partir destas coisas vem a verdadeira religião.


Que Ele nos ensine. Amém.