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quinta-feira, 24 de março de 2016

Quaresma - Dia 37 - Nossas pequenas moedinhas


"Viu também certa viúva pobre lançar ali duas pequenas moedas; e disse: Verdadeiramente, vos digo que esta viúva pobre deu mais do que todos" (Lucas 21.2-3)

E acho que nós sempre precisaremos lembrar desse ensino da Palavra. Achamos que Deus está interessado em nossa produtividade, nossa utilidade, quantas coisas temos em nossas mãos para oferecer a Ele, o tamanho de nossas ofertas, o tamanho de nossos dons, nossas capacidades, nosso trabalho, nosso tempo em atividades religiosas... E aí as Escrituras nos falam desta viúva pobre. Lá estavam os ricos lançando suas enormes ofertas e achando-se tão importantes por isso, mas é à viúva que Jesus elogia - com suas duas ínfimas moedinhas. Porque não é com a quantidade da oferta que Ele se preocupa, é com o tamanho da entrega. Não com nossas capacidades à serviço dele, mas com nossas vidas entregues a Ele. Aquela viúva se entregou, integralmente, a ponto de entregar sua sobrevivência - ainda que isso significasse apenas duas moedinhas no fundo do gazofilácio.

E nós precisamos aprender isso com ela e com aqueles ricos. Os grandes montantes entregues por aqueles homens ricos não impressionaram Jesus. Porque Ele olha para dentro, e não para fora. Foi o coração daquela mulher, provavelmente desprezada por aqueles homens ricos, provavelmente se sentindo tão pequena e sem utilidade, provavelmente envergonhada por entregar tão pouco... mas foi o coração dela que despertou a admiração do Mestre. E é assim conosco.

Quanto tempo e energias temos gastado tentando conquistar a admiração do Mestre por meio de nossas muitas ofertas - nosso muito trabalho, nossas muitas atividades, nossa muita inteligência, nossos muitos dons e capacidades... e quantas vezes temos vivido sobrecarregados e infelizes por nunca nos sentir bons o suficiente para agradar ao nosso Senhor, sempre sentindo precisar de mais, sempre nos cobrando uma oferta maior... quando nos esquecemos que não é nada disso o que Ele está procurando em nós. E não é por nenhuma dessas coisas que Ele nos ama. Não é com essas coisas que Ele está preocupado e interessado. E vamos perdendo nossas vidas investindo nas coisas erradas - nas coisas que agradam e conquistam a admiração dos homens, mas não a de Deus.

É nossa vida o que Ele deseja. Nosso coração o que Ele quer. Uma entrega total, amor total, confiança total... é uma condição interna, não externa. É a mudança e o compromisso que nenhum homem pode ver, só Ele pode. E é com isso que Ele se importa. Não interessa qual será o resultado da conversão disso em bens quantificáveis e observáveis. Não importa se serão apenas duas moedinhas. É nossa vida - toda ela - o que Ele quer. Nosso amor. Só. Não precisamos convencê-Lo que somos bons ou dignos de ser amados. Nós não somos. Mas Ele nos ama mesmo assim. Porque escolheu nos amar. Não precisamos ficar nos esforçando para conquistar o Seu amor e aprovação.  Não temos essa capacidade. Ele já nos ama INTEGRALMENTE. Numa medida que não pode ser aumentada ou diminuída. E nada vai mudar esse amor (Rm. 8). Não precisamos nos cansar tanto, sobrecarregar tanto, e nem mesmo nos culpar tanto por não termos mais do que nossas duas moedinhas para entregar. Ele nos ama independente disso. E o que Ele está realmente olhando é se o que entregamos reflete a condição de entrega do nosso coração. Se ela é total, não importa que sejam apenas nossas pequenas moedinhas... é a oferta perfeita e suficiente para Aquele que, dia a dia, escolhe nos amar.

quarta-feira, 23 de março de 2016

Quaresma – Dia 36 – Vida cristã, ciladas e o exemplo de Jesus



“Observando-o, subornaram emissários que se fingiam de justos para verem se o apanhavam em alguma palavra” (Lucas 20.20a)

Definitivamente, ao olhar para a Bíblia, precisamos desenvolver o olhar de identificar em Jesus, e em todas as coisas que Ele viveu, o exemplo para nossas vidas e todas as coisas que nós também viveremos.

Estive pensando nesse episódio da vida de Jesus. Escribas e sacerdotes armando uma cilada para pegar Jesus em um erro e entrega-Lo às autoridades romanas e destruí-Lo – e em como isso existe em nossas vidas cristãs também. E eu nem estou falando de como sofremos ciladas e perseguições injustas em nossos relacionamentos com os descrentes – estou falando das ciladas que sofremos dentro do próprio meio religioso, originadas daqueles que deveriam ser defensores da fé junto conosco. E era isso o que Jesus estava vivendo. Enquanto publicanos e pecadores sentavam ao Seu lado para ouvi-Lo e aprender com Ele, os líderes religiosos do grupo ao qual Jesus pertencia (os judeus) armavam armadilhas para derrubar Jesus.

E como é triste viver algo assim. Tenho certeza que nenhuma decepção nessa vida é maior do que sermos enganados, ou descobrirmos que estão armando para nosso mal, no meio daqueles em quem mais confiamos. No meio dos que chamamos de irmãos. No meio dos que nos abraçam. No meio do que chamamos de “igreja”. Isso é muito duro. Tão duro a ponto de fazer muitas e muitas pessoas desistirem dessa coisa de “igreja” – de participar de um grupo e dedicar-se a ele. Porque nos frustramos e nos ferimos, e essas feridas são mais profundas do que a maioria que podemos experimentar. Assim, muitos desistem.

Contudo, olhamos pra vida de Jesus e toda ela era repleta desse tipo de coisas. Do início ao fim de Seu ministério. Até o dia mais difícil de Sua vida – enganado e abandonado pelos Seus. Como sempre, nós não paramos para mensurar quanto aquilo era duro pra Jesus. Aqueles escribas e fariseus e sacerdotes eram, para a religião judaica, a religião “do povo de Deus”, o grupo dentro do qual Deus determinou que o Messias fosse trazido ao mundo, como nossos pastores, líderes de ministérios, mestres da Palavra. Estamos acostumados com o fato desses homens estarem sempre perseguindo a Jesus, e por isso tendemos a achar que Jesus lidava tranquilamente com isso, sem nenhum problema – afinal, Jesus sabia o que se passava no coração deles, né? No entanto, aqueles homens eram os líderes do “Povo de Deus”, aqueles que deveriam estar ensinando os caminhos de vida ao povo, aqueles que deveriam ser os exemplos e ajudar o povo a conhecer a Deus e amá-Lo... mas eles faziam exatamente o contrário. E, certamente, o coração de Jesus doía por conta disso. Ele era homem como nós.

Mas Jesus não desistiu. Ele não abandonou os judeus por causa disso. E Ele também não agiu de forma negligente, não se importando com o que aqueles homens pensavam e faziam, falando o que quisesse e fazendo o que quisesse, de qualquer forma, independente do resultado que aquilo teria, principalmente proveniente daqueles que armavam ciladas para Ele. Não. Jesus identificava as armadilhas, com a ajuda do Pai, e respondia a elas com sabedoria. Ele não precisava justificar-se àqueles homens pecadores e maus. Mas, Ele fazia, na medida do possível. Ele não precisava medir Suas palavras por causa do julgamento daqueles homens, mas Ele o fazia, na medida do possível.

Nesse episódio, especificamente, vemos isso. Os emissários enviados perguntam a Jesus se é lícito pagar tributos a César – porque eles esperavam que Jesus fosse pregar revolução contra Roma ou algo assim, e então diria que não se deve pagar tributos a César, já que boa parte desses tributos era cobrado de maneira injusta e opressiva. E Jesus sabia que aquela pergunta era uma cilada. E Ele poderia nem ter se dado o trabalho de responder. Mas Ele age com sabedoria, e com sabedoria responde: “Mostrai-me um denário. De quem é a efígie e a inscrição? [...] Dai, pois, a César o que é de César e a Deus o que é de Deus” (v.24-25). E a conclusão da narração é que: “Não puderam apanhá-Lo em palavra alguma diante do povo; e, admirados da sua resposta, calaram-se” (v.26). E esse versículo 26, pra mim, resume todo esse ensino.

Não adianta nos enganarmos e esperarmos que nossa vida cristã seja sempre linda, com pessoas lindas, honestas e bem intencionadas, que se dedicarão a nos ajudar e ao nosso bem. Não será assim. Muito mais do que imaginamos, nós encontraremos, dentro do nosso meio cristão, pessoas más, líderes maus, que procurarão puxar nosso tapete, nos enganar, nos apanhar em erros para conseguir nosso mal diante de outros... nós vamos viver isso. Por que posso afirmar isso? Porque Jesus viveu. E Sua vida é o nosso exemplo – para as coisas boas de se viver, e também para as difíceis. Porém, a grande questão para nós é como iremos enfrentar essas situações. E nossa resposta é a mesma: seguindo o exemplo de Jesus. Nós sempre teremos duas opções na hora de decidir como responder a algo que acontece em nossas vidas. Contudo, a Palavra de Deus nos chama a escolher o exemplo do Cristo – porque somos Seus seguidores e imitadores. E como Jesus agia diante dessas situações? Com sabedoria. Com domínio próprio. Com temor a Deus. Honrando o Nome do Senhor. De uma forma que se podia dizer a Seu respeito: “Não puderam apanhá-Lo em palavra alguma”. Jesus procedia de forma que não se tinha do que acusa-Lo. Suas palavras eram medidas, controladas e baseadas em amor. Ele não pagava mal com mal. Ele pagava mal com bem. E então, mesmo os seus acusadores, ao Lhe ouvir, saíam “admirados da sua resposta”, e calavam-se. Esse é nosso Jesus. Esse é nosso modelo. Alguém que poderia ter expressado toda Sua condenação e ódio por tudo aquilo que aqueles homens faziam, enquanto líderes religiosos do povo, mas não fazia assim. Respondia equilibradamente e com sabedoria. E era assim que até mesmo Seus inimigos O admiravam.


Esse é o chamado para nossas vidas. Que, mesmo nos momentos mais difíceis, mesmo quando formos enganados, quando forem armadas armadilhas para nos fazer cair – por aqueles que deveriam ser nossos irmãos e apoiadores da fé – que nossos olhos possam voltar para Jesus e lembrar de Sua sabedoria, domínio próprio e de Seu segundo maior mandamento: amar ao nosso próximo – e amar o nosso inimigo. Jesus viveu assim enquanto esteve em nosso meio, como homem. E nos convida a viver assim também. A sofrer as dores com longanimidade. Paciência. E fé em Deus. A não desistir. A perseverar. Porque nosso caminho é o caminho do amor, da misericórdia, do perdão, da compaixão, da GRAÇA – o mesmo caminho que Jesus escolheu e viveu. Porque Ele é o nosso exemplo, e sempre será. Porque as dores que Ele sofreu são e serão as nossas dores – mas a sabedoria, o amor e o temor a Deus com os quais Jesus decidiu reagir a essas dores também devem ser os nossos. Quando, na vida cristã, tivermos que ser expostos às piores ciladas, provenientes daqueles de quem menos esperávamos, que lembremos do exemplo de Jesus. E o sigamos. De forma que todos os que nos perseguem possam olhar para nossas vidas e “não podendo apanhar-nos em palavra alguma diante do povo; admirados da nossa resposta, calem-se”. Essa é nossa maior arma. E é assim que venceremos. Para a glória do nosso Pai e do Nome de Jesus. Ele nos ajude. Amém.

quinta-feira, 10 de março de 2016

Quaresma – Dia 27 – Ver como Cristo vê



“Ora, aconteceu que, ao dizer Jesus estas palavras, uma mulher, que estava entre a multidão, exclamou e disse-lhe: Bem-aventurada aquela que te concebeu, e os seios que te amamentaram! Ele, porém, respondeu: Antes, bem-aventurados são os que ouvem a palavra de Deus e a guardam!” (Lucas 11.27)

Nós somos como essa mulher. Nos admiramos com feitos, com status, com o exterior. Conhecemos um pastor ou líder cristão e nos admiramos com suas palavras bonitas, sua excelente explanação bíblica, seu nível de conhecimento, sua persuasão, sua eloquência, sua gentileza. Chegamos em uma igreja e logo nos chamam a atenção aqueles que desenvolvem grandes trabalhos, os missionários que foram para o outro lado do planeta e estão fazendo grandes coisas lá, os que estão abrindo igrejas ou que possuem cargos importantes. Olhamos para Hebreus 11, o capítulo dos “Heróis da fé”, e ficamos maravilhados com seus feitos poderosos e maravilhosos. Olhamos o exterior. Nos deixamos encantar com obras. Somos facilmente convencidos por nossos olhos e ouvidos.

Assim foi com aquela mulher. Ela estava tão tomada de admiração por tudo que ouvira Jesus falando, que concluiu: “Uau! Quão abençoada é a mãe deste homem, aquela que lhe amamentou em seu seio!”. E é uma conclusão tão natural. É uma conclusão provavelmente correta, inclusive. Todos nós poderíamos concordar com ela: de fato, como foi bem-aventurada a mulher escolhida por Deus para ser a mãe de Jesus! Ela é mesmo bem-aventurada. Assim como quando ouvimos uma boa pregação e nos enchemos de admiração, quando olhamos para os missionários desenvolvendo grandes projetos ao redor do mundo e nos enchemos de admiração, quando vemos as manifestações sobrenaturais de poder que os patriarcas e profetas fizeram e nos enchemos de admiração... e tudo isso é natural, é esperado, e não está errado.

Porém, Jesus responde aquela mulher: “Antes, bem-aventurados são os que ouvem a palavra de Deus e a guardam!” (Lc.11.28). A Nova Tradução na Linguagem de Hoje traduziu a fala de Jesus da seguinte forma: “—Mais felizes são aqueles que ouvem a mensagem de Deus e obedecem a ela”. A versão Bíblia Viva diz: “Sim, mas ainda mais abençoados são todos aqueles que ouvem a palavra de Deus e a põem em prática”. Jesus não estava dizendo que a mulher estava errada. Não é que Sua mãe não fosse bem-aventurada, que não houvesse motivo de júbilo pela vida da mulher que Lhe havia dado a luz e amamentado. Havia motivos de alegria por isso. O que Jesus estava dizendo era: “Porém, há coisas que são muito mais importantes do que isso!”. Há razão em admirar-se com as palavras de sabedoria e de conhecimento de alguém, com os resultados alcançados por um projeto sociomissionário ou evangelístico, com um determinado ministério dentro de nossas igrejas, com grandes feitos poderosos e sobrenaturais... estas são coisas que merecem a nossa admiração. Contudo... há coisas muito mais importantes, PARA DEUS, do que estas.

Deus não se admira de nossos grandes feitos, de nossos cargos, dos lugares altos que conquistamos em nossas vidas – mesmo em nossas vidas religiosas e cristãs. Porque Ele é Deus – e quem pode ter feitos maiores do que os Seus? Não, não dá pra convencê-Lo dessa forma. Até porque o conhecimento que Ele tem sobre nós é muito – infinitamente – maior do que o que qualquer ser humano pode vir a ter. Ele sabe exatamente quem somos. E isso me faz lembrar a história de Samuel visitando a casa de Jessé, pai de Davi, para ungir um de seus filhos como Rei de Israel. E lá estava Samuel tentando descobrir quem daqueles rapazes ele deveria ungir como rei. E de que forma ele estava fazendo a sua avaliação? Olhando para o exterior – a estatura, a força, a beleza... Então, Deus lhe diz: “Não considere a sua aparência nem sua altura, pois eu o rejeitei. O Senhor não vê como o homem: o homem vê a aparência, mas o Senhor vê o coração" (1 Sm. 16.7).

E a mesma coisa Jesus estava falando para aquela mulher: “Não olhe somente para o exterior, para a posição que aquela mulher desempenhou, pelo fato dela ter sido minha mãe. Olhe além. Porque, diante de vocês, isso pode significar muita coisa. Mas diante do Pai, isso é tão pouco. Ele vê muito além disso. E Ele se importa com coisas muito mais importantes e difíceis – com o coração.”. E é quando Jesus diz o que é mais importante para Deus: Ouvir e guardar a Sua Palavra. Isso é muito mais profundo do que pregar sobre a Palavra de Deus. É muito mais profundo do que realizar curas e milagres. É muito mais profundo do que liderar projetos bem-sucedidos. É muito mais profundo do que ter conquistado uma posição reconhecida diante dos outros. Tem a ver com o coração. Com o mais íntimo do seu ser. Com o lugar que a Palavra de Deus tem em sua vida. Quão profundo ela tem chegado? E quanto dela tem sido guardado – e vivido? Muito mais difícil. Muito mais profundo. Aquilo que convence a Deus.

É isso o que Ele procura em nós. Não alguém que possui cargos ou funções importantes e de destaque – como ser a “mãe de Jesus”. Não alguém com grandes e poderosos feitos. Não. O que admira a Deus é um coração rendido à Sua Palavra. Que a ouve com atenção, com interesse, com desejo, com sede e fome – e que a guarde como um tesouro que não tem preço, que não se vende nem se compra, como sua pérola encontrada. É com a condição do nosso coração que Ele está interessado. Porque nossos feitos podem, facilmente, mascarar nosso coração sujo, impuro e distante de Deus. Muitos chegarão, no último dia, tendo feito grandes coisas no Nome de Jesus, e serão considerados estranhos por Jesus e deixados de fora do Seu Reino (Mt. 7.22-23). Porém, se o nosso coração está cheio de Jesus, não será possível esconder isso naquilo que fazemos. Nossas obras, nossas vidas refletirão isso. Porque a boca fala do que o coração está cheio (Mt. 12:34b).

Que possamos aprender a ver como Cristo vê. A nos importar com o que Ele se importa. A investir no que causa admiração a Ele – e não aos homens. Porque Ele não vê como os homens vêem. Para convencê-Lo, é preciso ir além das aparências. Assim, que nossas vidas possam ser mais do que aparência. Que nos importemos menos com a aparência que temos do que com o que há no mais íntimo de nós. Que ouvir e guardar a Sua Palavra seja nosso objetivo principal. E que, depois que formos transformados pela Palavra, nossa vida possa, simplesmente, ser um reflexo do que o Espírito Santo já está operando dentro de nós. De dentro para fora. E que nossa maior preocupação – conosco e com os outros – seja o que está acontecendo lá dentro, e não aqui fora. Porque o homem vê o exterior, mas Deus vê o coração. Esse é o nosso maior testemunho cristão – e nosso maior instrumento de glórias a Deus. Ver como Ele vê. E que Ele nos ensine e nos ajude. Amém.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

Quaresma – Dia 14: Autoanálise



“Como poderás dizer a teu irmão: Deixa, irmão, que eu tire o argueiro do teu olho, não vendo tu mesmo a trave que está no teu? Hipócrita, tira primeiro a trave do teu olho e, então, verás claramente para tirar o argueiro que está no olho de teu irmão” (Lucas 6.42)

Poxa, fiquei muito feliz hoje, após fazer minha leitura bíblica e a reflexão dessa noite, por descobrir que o vídeo da Cidade Viva Pb estava falando exatamente sobre o mesmo assunto: a necessidade da autoanálise. Glórias a Deus!

O trecho bíblico sobre o qual eu gostaria de refletir hoje está em Lucas 6.39-49. É interessante que eu pensei, quando terminou o tópico “O juízo temerário é proibido”, de Lucas 6.37-38, que havia terminada a exposição de Jesus a respeito dos padrões dos fariseus e escribas, e a Sua oposição a eles, porque no versículo 39 Jesus começa a contar uma parábola, sobre o cego que guia outro cego. Porém, ao começar a ler, vi que Jesus continua falando sobre a mesma coisa: agora por meio de parábolas (do guia cego, da árvore e seus frutos e dos dois fundamentos), Jesus continua falando sobre os erros cometidos pelos fariseus e escribas, e tentando ensinar Seus discípulos a não os cometerem também. E o principal pecado que Jesus combate aqui é a HIPOCRISIA: um cego que, achando-se superior aos outros, guia outros cegos; uma árvore que não dá frutos; um homem que ouve os ensinos de Cristo mas não os pratica – e, seja o cego, a árvore sem frutos ou o conhecedor que não pratica, sentem-se no direito ou na posição de criticar os outros. E Jesus nos mostra que nosso caminho deve ser muito diferente: nosso esforço deve ser, primeiro, para criticar A NÓS MESMOS.

O texto começa falando sobre um homem que, mesmo tendo uma trave em seus olhos, está preocupado em tirar o argueiro do olho do outro. A versão King James coloca assim: “Por que reparas no cisco que está no olho do teu irmão e não percebes o tronco que está no teu próprio olho?” (v.41). Que diferença existe entre um CISCO e um TRONCO! Um grão de POEIRA e o TRONCO DE UMA ÁRVORE! Como é possível que alguém possa enxergar um cisco mas não enxergar um tronco? Não foi à toa que Jesus usou essa comparação. Ele queria falar de alguém que estava tão focado em olhar pra vida alheia, procurando os defeitos dos outros com tanto afinco, que foi capaz de enxergar o menor desvio do irmão; mas, tendo perdido tão completamente o hábito ou a capacidade de olhar e analisar sua própria vida, era capaz de ter um tronco inteiro em seus olhos sem percebê-lo. E esses eram os fariseus e escribas. Eles eram os guias cegos e os homens com o tronco nos olhos. Tão dedicados a julgar o cumprimento da lei pelos outros, que tornaram-se insensíveis ao pecado em suas próprias vidas, incapazes de se autoanalisar. E Jesus os chama de HIPÓCRITAS! Homens tão cheios de pecados, muito maiores do que os pecados do irmão, mas ainda assim incapazes de se autoavaliar e autocondenar, mas tão apressados em condenar o mínimo pecado do outro. E quantas vezes NÓS não temos sido assim? Como o Sérgio Queiroz diz no vídeo: tão apressados em julgar o outro e tão lentos em julgar a nós mesmos. Achamos inaceitável o pecado do nosso irmão, mas aceitamos com tanta facilidade nossos próprios pecados. Identificamos com tanta facilidade a área em que o outro está fraco e caindo, mas temos tanta dificuldade em identificar a área em que NÓS estamos fracos e caindo. E a ordem de Jesus é: SE AUTOANALISE! OLHE PARA SUA VIDA PRIMEIRO! JULGUE A SI MESMO ANTES DE JULGAR O OUTRO! E isso coloca um peso, uma responsabilidade enorme no fato de julgarmos alguém. Porque o que Jesus está dizendo é: antes de julgar o erro do seu irmão, CORRIJA O SEU! TIRE A TRAVE DO SEU PRÓPRIO OLHO ANTES DE QUERER TIRAR O CISCO DO OLHO DO SEU IRMÃO! “Retira, antes de tudo, a trave do teu olho e, só assim, verás com nitidez para tirar o cisco que está no olho de teu irmão” (v. 42b – BKJ). É muito interessante perceber que Jesus não estava condenando a tentativa do homem de tirar o cisco do olho do irmão. Não! Tanto que o texto termina dizendo “verás com nitidez para tirar o cisco que está no olho do teu irmão”. O cisco é para ser tirado. Esse esforço não é errado. O que Jesus está condenando aqui é o fato de que aquele que queria tirar o cisco do olho do outro não tinha cuidado NEM MESMO DO SEU PRÓPRIO OLHO! É a HIPOCRISIA de julgar o outro, enquanto você tem problemas muito maiores em sua própria vida que você ainda não se dedicou a resolver. E isso é muito sério! Jesus chama essas pessoas de HIPÓCRITAS – como os fariseus e escribas!

E o texto continua nos explicando COMO FAZER MINHA AUTOANÁLISE. Como eu devo me avaliar? E a resposta está nos versos 43 e 44a: “Não há árvore boa que dê mau fruto; nem tampouco árvore má que dê bom fruto. Porquanto cada árvore é conhecida pelo seu próprio fruto”. E depois: “O homem bom do bom tesouro do coração tira o bem, e o mau do mau tesouro tira o mal; porque a boca fala do que está cheio o coração” (v.45). E finalmente: “Por que me chamais Senhor, Senhor, e não fazeis o que vos mando? Todo aquele que vem a mim, e ouve as minhas palavras, e as pratica [...] é semelhante a um homem que, edificando uma casa [...] lançou o alicerce sobre a rocha; e, vindo a enchente [...] não a pôde abalar, por ter sido bem construída. Mas o que ouve e não pratica é semelhante a um homem que edificou uma casa sobre a terra sem alicerces, e, arrojando-se o rio contra ela, logo desabou...” (v.46-49)

Como nós devemos nos autoavaliar? Observando nossos FRUTOS! Não a beleza das folhas ou das flores. Não quão belos nós parecemos. Não o que aparentamos aos outros. Mas nossos FRUTOS! Qual tem sido o RESULTADO de nossas vidas? Qual tem sido o tesouro que temos tirado de nosso baú e oferecido às pessoas em nossa vida? O que tem saído de nossas bocas? Porque os frutos revelam a identidade da árvore; os tesouros que oferecemos revelam a condição do nosso baú; as palavras que saem de nossas bocas revelam a condição do nosso coração! É pelo que FAZEMOS que devemos nos autoanalisar – NÃO PELO QUE FALAMOS! De nada adianta chamar Jesus de Senhor, fazer lindas orações, como faziam os fariseus e os escribas, ter as palavras certas, se não FAZEMOS aquilo que falamos, se não VIVEMOS! De nada adianta OUVIR as palavras de Jesus, CONHECER Seus ensinos, ter a maior gama possível de conhecimento e estudos, se não PRATICAMOS tudo isso! De nada vale! Seremos considerados como o homem que construiu uma casa na areia, sem construir o alicerce, enganando-se a si mesmo, com uma linda casa, mas que será destruída pela enchente! Mas Jesus nos chama para o AUTOCONHECIMENTO, para uma vida consciente de que precisa de um alicerce firme, que resiste à enchente  - o JULGAMENTO DE DEUS – e esse alicerce é a PRÁTICA da Palavra, e não apenas o seu conhecimento.

Isso é tão sério! Que responsabilidade! Porque nós podemos enganar aos homens com nossas boas aparências e nossas palavras certinhas. Homens se satisfazem com aparências. Aliás, normalmente é somente com isso que eles estão preocupados. Nosso exterior. Mas, como Deus diz a Samuel em 1 Samuel 16.7: “Não atentes para a sua aparência, nem para a sua altura, porque eu o rejeitei; porque o SENHOR não vê como o homem vê. O homem vê o exterior, porém o SENHOR, o coração”. Nós nos contentamos com a aparência. Nos deixamos convencer por ela. Olhamos para um pregador cheio de conhecimento da Palavra e com uma pregação maravilhosa e isso é o suficiente para o considerarmos um grande homem de Deus. Olhamos para alguém que realiza muitas atividades religiosas e exerce muitos cargos de confiança na igreja, e rapidamente nos convencemos do quanto aquela pessoa é espiritual. Mas Deus não julga assim, tão superficialmente. Ele olha além. Ele olha nosso coração – e o que provém dele para as nossas vidas. Não só as nossas vidas “eclesiásticas”, mas nossas 24 horas de vida. 7 dias na semana. Todos os dias do ano. A cada minuto. Que frutos temos dado em TODA A NOSSA VIDA? Que tesouros temos tirado de nosso baú? Quanto daquilo que ouvimos e falamos tem se tornado prática em nossas vidas? É muito mais profundo. É muito mais sério. É uma análise vital para qualquer seguidor do Cristo.


Que o Senhor nos dê o discernimento e a sabedoria espirituais para realizarmos nossa autoanálise. Que o Espírito Santo nos ajude a ser mais rígidos com nosso próprio pecado, a trata-lo como tratamos o pecado alheio, com o mesmo nível de julgamento. Que sejamos lentos em julgar aos outros e rápidos em julgar a nós mesmos. Porque, conforme fala o texto de ontem, de Lucas 6.38: “porque a medida que usares para medir o teu próximo, essa mesma será usada para vos medir” (BKJ). Deus nos ajude a enxergar o que há em nossos olhos – sejam troncos ou ciscos. Ele nos ajude a ver. A reconhecer que frutos temos dado em nossas vidas; que tesouros existem em nossos baús; o que está guardado em nossos corações. E, tendo identificado o fruto mau, o tesouro mau e as palavras más, Ele gere em nos verdadeiro arrependimento e nos conduza à transformação. Que Ele nos ensine a ser mais misericordiosos com os outros, e mais realistas em relação a nós mesmos. Menos orgulhosos. Ele nos quebrante. Ele nos humilhe. Para que Ele mesmo possa crescer em nós. Para que nossa vida seja aroma agradável às Suas narinas – e testemunho fiel de Sua Santidade a este mundo. Ele nos ajude. Amém.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

Quaresma – Dia 13: Na contramão do mundo



“Então, olhando ele para os seus discípulos, disse-lhes...” (Lucas 6.20)

Que fantástico olhar para a Bíblia e ver quantas coisas novas ela sempre tem para nos ensinar. O texto de Lucas 6.20-38 é como o de Lucas 5.17 a 6.11: apesar de dividido em vários tópicos, é contínuo e está falando a mesma coisa e procurando nos passar o mesmo ensinamento: os padrões de Deus são opostos aos padrões do mundo. E que oposições fortes Jesus faz aos padrões do mundo, neste texto, em ensino aos Seus discípulos. Vejamos:

- O mundo nos ensina a desejar/lutar por/ viver para ganhar dinheiro – estabilidade e conforto é o objetivo maior da vida de quase todas as pessoas do século XXI, acumular riquezas para “viver bem”. Mas Jesus diz: “Bem-aventurados vós, os pobres, porque vosso é o reino de Deus” (v.20b) e “Mas ai de vós, os ricos! Porque tendes a vossa consolação.”. Porque quando nos falta, reconhecemos que precisamos do socorro de Deus – e Ele nos oferece o Seu reino; mas quando nos sobra, nos tornamos independentes e autossuficientes, e não há mais nada que Deus possa nos oferecer, pois sequer precisamos dEle – nosso tesouro e consolação a própria terra pode dar.

- O mundo nos ensina a sempre ir em busca de saciar todos os nossos desejos, não passar privações, não nos negar, estar sempre saciados, independente do preço a pagar. Mas Jesus diz: “Bem-aventurados vós, os que agora tendes fome, porque sereis fartos” (v. 21) e “Ai de vós, os que estais agora fartos! Porque vireis a ter fome” (v.25). Se nossa vida neste mundo é em busca de nossa própria saciedade, as coisas deste mundo nos saciarão – mas, no porvir, teremos fome, pois já fomos saciados. Mas, quando este mundo não pode nos suprir as necessidades, então olhamos para o porvir e ansiamos pela recompensa que um dia poderá chegar – e a ela receberemos.

- O mundo nos ensina a buscar felicidade – Ah! A felicidade! A “deusa” deste mundo moderno. Ela é o centro, ela é o foco, ela é a justificativa para todas as coisas, sua busca é incontestável, sempre justificada, sempre correta, sempre perfeita. Ser feliz é o lema! E, certamente, “o que Deus quer é que as pessoas sejam felizes”, não é? Mas Jesus diz: “Bem-aventurados vós, os que agora chorais, porque haveis de rir” (v.21b) e “Ai de vós, os que agora rides! Porque haveis de lamentar e chorar” (v.25b). Porque este mundo vai passar e, com ele, todas as suas “alegrias”. Porque este corpo vai morrer e todos os seus prazeres serão exterminados junto com ele. Acabarão. E aquele cuja felicidade foi construída neste alicerce de areia, chamado “Terra” e que, de tão satisfeitos e “felizes” que estavam com o desfrute dos manjares desta terra, esqueceram que tudo isso pereceria e não olharam além. Porém, aqueles que choram nesta vida, estes acabam por descobrir – ou, pelo menos, desejar – que haja mais além dos sofrimentos presentes, e, por esperarem e desejarem, eles receberão.

- O mundo nos ensina a buscar a aceitação, o lugar de destaque, o reconhecimento, as luzes, o status, o poder, o domínio, o topo – e que nenhum lugar que não seja o primeiro é suficiente. Mas Jesus nos diz: “Bem-aventurados sois quando os homens vos odiarem e quando vos expulsarem da sua companhia, vos injuriarem e rejeitarem o vosso nome como indigno, por causa do Filho do Homem. Regozijai-vos naquele dia e exultai, porque grande é o vosso galardão no céu; pois dessa forma procederam seus pais com os profetas” (v.22,23) e “Ai de vós, quando nos louvarem! Porque assim procederam seus pais com os falsos profetas” (v.26). Porque quando o desejo do nosso coração é o reconhecimento e o louvor dos homens, facilmente traímos a Deus. Porque o mundo O odeia e, portanto, raramente louvará os Seus caminhos. Mas, quando entendemos que o verdadeiro louvor e o verdadeiro reconhecimento não provém desta vida, que o que recebemos aqui irá passar, então toda a perseguição, todas as injúrias, todas as injustiças, toda a exclusão que vivemos por seguir as verdades do Cristo tornam-se ínfimas, e promessas nos esperam no futuro que há de vir.

- O mundo nos ensina a nos amar primeiro, acima de tudo, e que aquele que não me ama não merece o meu amor; que meu amor é para ser oferecido àquele que faz por merecer e que aquele que quer o meu mal, também não deve contar com o meu bem; que besta é quem faz o bem para quem só paga com o mal. Mas Jesus diz: “amai os vossos inimigos, fazei o bem aos que vos odeiam; bendizei aos que vos maldizem, orai pelos que vos caluniam” (v.27-28).

- O mundo nos ensina que a “legítima defesa” é sempre legítima, e que não devo considerar mau ou errado qualquer mal que é feito em resposta a um mal recebido, pois “aquilo que alguém planta, deve estar preparado para colher”, portanto, “se alguém me fez mal, deve estar preparado para o mal também!”. Mas Jesus diz: “Ao que te bate numa face, oferece-lhe também a outra; e, ao que tirar a tua capa, deixa-o levar também a túnica; dá a todo o que te pede; e, se alguém levar o que é teu, não entres em demanda” (v.29,30).

- O mundo nos ensina que “cada um recebe aquilo que dá” e “a cada um deve ser dado a paga conforme suas próprias ações”; que primeiro eu preciso me preocupar comigo, e só depois com o outro; e que, se alguma coisa faz mal, que seja ao outro e não a mim – “eu primeiro!”. Mas Jesus diz: “Como quereis que os homens vos façam, assim fazei-o vós também a eles” (v.31) e “Amai, porém, os vossos inimigos, fazei o bem e emprestai, sem esperar nenhuma paga” (v.35a).

- O mundo nos ensina a apontar o dedo para quem pensa diferente de nós, e julgar e condenar, e nos achar melhores do que os outros, e donos da verdade; e que, se alguém cometeu um erro, deve ser exposto e cobrado. Mas Jesus diz: “Não julgueis e não sereis julgados; não condeneis e não sereis condenados; perdoai e sereis perdoados” (v.37).

E que palavras pesadas estas são! Para nós, discípulos do Cristo! Que palavras duras! Para muitos de nós, tão acostumados com as filosofias e os ensinos deste mundo, ler todas essas ordens de Jesus, todos esses mandamentos, todos esses padrões tão contraditórios a tudo o que conhecemos como “JUSTIÇA”, é quase revoltante! “Não é justo!”, muitos de nós podemos falar! E, de fato, segundo a justiça deste mundo – egoísta, individualista, hedonista – não é justo! Não é justo que eu sofra por causa do mal que o outro fez! Não é justo que eu leve a carga sozinho, enquanto o outro se aproveita de mim! Não é justo que o outro faça suas besteiras e não seja exposto e condenado! Não é justo que alguém me faça mal e saia impune! Não é justo que eu dê a alguém e essa pessoa não me pague! Não é justo que eu ame e não seja amado em retorno! Não é justo simplesmente deixar pra lá o mal que alguém me fez! Não é justo! Não é justo! Não é justo!

Mas a justiça DE DEUS não é a nossa justiça. A nossa é egoísta, a dEle é Altruísta. E se há Alguém que poderia agir pensando em si mesmo acima dos outros, esse é Deus, totalmente superior a todos nós, seres humanos pecadores. Mas Ele não faz isso. Jesus diz para amarmos até os nossos inimigos porque: “será grande o vosso galardão, e sereis filhos do Altíssimo. Pois ele é benigno até para com os ingratos e maus.” (v.35b). Ele, O ALTÍSSIMO, resolve exercer justiça em benignidade e misericórdia, e nos chama a viver o SEU PADRÃO também: “Sede misericordiosos, como também é misericordioso vosso Pai” (v.36).

Se nos tornamos FILHOS DELE, SEGUIDORES DO CRISTO, os ensinos do mundo não são mais para nós. Não é mais o nosso padrão. Não é mais no que devemos acreditar. Não é mais o que devemos buscar. Nosso caminho é o oposto. É a contramão. É o SIM à chamada de Paulo em Romanos 12.2a: “Não vos conformeis com este século, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente”. Renovação da mente. Não mais as filosofias e teorias deste mundo, da sociedade. Não dá mais pra ser igual a todo mundo. Renovação da mente. Contramão. Esse é o nosso rumo, a nossa nova direção. E isso dói! Isso vai doer muito, muitas vezes. Pobre, faminto, chorando, injustiçado, perseguido, recebendo tapas, dando sem retorno... não é fácil. Não é um chamado fácil. Mas se há alguém que sabe o que nos levará à VERDADEIRA FELICIDADE, esse é o CRIADOR e CONSUMADOR de todas as coisas. Ele sim sabe o que é ser BEM-AVENTURADO. E o que trará apenas “AI” no final. Ele sabe. E, se Ele nos diz que o caminho das Bem-Aventuranças é a contramão, é nela que devemos andar: “Para que experimenteis qual seja a boa, agradável e perfeita vontade de Deus” (Rm. 12.2b).


Vamos juntos, na contramão – de mãos dadas, ajudando-nos uns aos outros a não desfalecer. O galardão que nos espera, ao fim deste caminho, certamente será muito melhor do que TUDO o que este mundo pode nos oferecer. Vai vale à pena!

terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

Quaresma - Dia 7: Verdadeiro Arrependimento



“Então, as multidões o interrogavam, dizendo: Que havemos, pois, de fazer?” (Lucas 3.10)

Eis a pergunta mais importante da vida do ser humano. E agora, o que nós devemos fazer? No texto de Lucas 3.1-14, o evangelista expõe o ministério de João Batista e, no verso 7, diz que João se dirigiu às multidões que o procuravam para serem batizadas e lhes disse: “Raça de víboras, quem vos induziu a fugir da ira vindoura?”. E, se pararmos para refletir seriamente sobre o que João estava falando, que coisa tão dura de se falar! O texto diz que aquelas pessoas estavam INDO ATRÁS do Batismo de João. E nós sabemos qual era a pregação de João Batista em seu ministério, conforme falam os evangelhos de Mateus e Marcos: “Naqueles dias, apareceu João Batista pregando no deserto da Judéia e dizia: Arrependei-vos, porque está próximo o reino dos céus” (Mateus 3.1-2) e “apareceu João Batista no deserto, pregando batismo de arrependimento para remissão de pecados” (Marcos 1.4). João andava por toda a vizinhança do Jordão pregando ARREPENDIMENTO e BATISMO DE ARREPENDIMENTO, para remissão dos pecados. O batismo era o que ele ensinava. Ele conclamava as pessoas a se arrependerem e virem batizar-se. Porém, Lucas nos diz que havia uma multidão que vinha para ser batizada, porém, João a chama de raça de víboras e a condena por tentarem fugir da ira vindoura! Isso não seria completamente contrário ao que ele pregava? Ele pregava sobre remissão dos pecados, para que as pessoas fossem livres da ira vindoura, contudo condenava aquelas pessoas porque estavam tentando fugir desta mesma ira, por meio do batismo que ele oferecia.

Só que não existe contradição aqui. Eu acho tão bonito o que Lucas resolveu registrar em seu evangelho a respeito da pregação de João. Os demais evangelhos falam muito sucintamente a respeito do que Lucas fala aqui. Logo após mencionar a repreensão que João faz àquela multidão, o texto continua dizendo: “Produzi, pois, frutos dignos de arrependimento” (v.8a). E é preciso parar para analisar muito bem o que essas palavras significam. Talvez alguém queira usá-las para defender que a salvação depende dos frutos que damos, que o arrependimento segue os frutos, os quais precisamos gerar primeiro. Porém, não é o que o texto diz. João não se contradiz aqui, como se a salvação dependesse dos nossos frutos e não do nosso arrependimento. O que ele está dizendo é que o verdadeiro arrependimento não pode vir separado de frutos. Frutos dignos de arrependimento. A versão King James diz: “Produzi, então, frutos que demonstrem arrependimento” (v.8a). João via, na vida daquela multidão que o procurava, que não havia verdadeiro arrependimento. Era somente pelo medo da ira vindoura que eles procuravam batizar-se. Mas não haviam se arrependido de seus pecados. E foi por isso que João os repreendeu. O batismo de João não era para essas pessoas.

E minha pergunta é: será que as pessoas, em nossos dias, têm compreendido o que é o verdadeiro arrependimento? Será que temos conseguido ensinar o que João estava ensinando: que a salvação não é pelas obras, e sim a partir do arrependimento dos pecados, porém que não existe arrependimento real se não houver mudança de obras? Será que nós mesmos temos entendido a relação que existe entre essas duas coisas? É belíssimo como Lucas escolheu o restante das palavras de João Batista para registrar nesse texto e deixar bem claro o que estava sendo ensinado. As multidões, após serem exortadas, perguntam, então, a João: “Que havemos, pois, de fazer?” (v.10 – ARA), ou, segundo a versão King James, “O que devemos fazer então?”. Aquelas pessoas, definitivamente, não haviam entendido a pregação de João. E ele, então, explica a eles:

“Quem tiver duas túnicas, reparta com quem não tem; e quem tiver comida, faça o mesmo. [...] Não cobreis mais do que o estipulado. [...] A ninguém maltrateis, não deis denúncia falsa e contentai-vos com o vosso soldo” (v. 11, 13, 14)

É interessante que Lucas não se restringiu a registrar o que os outros evangelistas registraram: o “arrependei-vos” de João. Ele vai além. Ele explica o que quer dizer esse “arrependei-vos”. Significa MUDANÇA. É o significado dessa palavra tão batida e mal empregada nos nossos dias: “CONVERSÃO”. O que significa conversão? Significa isso aí que João falou àquela multidão. O que significa o verdadeiro arrependimento? Significa conversão. Conversão é uma palavra que significa, literalmente, mudança de direção. Aquele que vivia somente para si mesmo, que passe a ser misericordioso com o outro e o ajude. Aquele que era avarento e mentiroso, seja honesto. Aquele que queria o mal do outro e se aproveitava de sua posição para, por meio da exploração alheia, se beneficiar, deixe de fazê-lo. MUDE. E quando você mudar, isso não GERARÁ arrependimento em você. Isso apenas DEMONSTRARÁ que o verdadeiro arrependimento aconteceu. Você entendeu. Você reconheceu-se errado, pecador, e a compreensão de seu pecado pesou tanto sobre você que você não poderia mais continuar na mesma direção, no mesmo caminho, nas mesmas obras. A única coisa que poderia acontecer era CONVERGIR, sair daquele caminho e voltar na direção oposta.

Me preocupa tanto a realidade que nosso Brasil e, talvez, uma boa parte do Ocidente vive hoje em relação ao Cristianismo. A mensagem cristã se banalizou. Falou-se tanto, talvez sem entender o verdadeiro sentido dos ensinos das Escrituras, talvez com a motivação errada de arrebanhar ovelhas para nosso pasto, talvez sem nem mesmo os pregadores terem se tornado verdadeiras ovelhas deste pasto, que a mensagem foi banalizada. Podemos perguntar para todas as pessoas ao nosso redor se elas creem em Deus, e a grande maioria afirmará que sim. Perguntemos a elas se elas são filhas de Deus, e elas dirão que sim. Perguntemos a elas se elas são cristãs, e elas responderão que sim. Como aquela multidão dizia ser filha de Abraão, filha da promessa de Deus. No entanto, João diz a elas: “e não comeceis a dizer entre vós mesmos: Temos por pai a Abraão; porque eu vos afirmo que destas pedras Deus pode suscitar filhos a Abraão” (v.8b). Filhos como vocês? Até mesmo essas pedras podem ser. Vocês não são filhos! Vocês sequer entendem o que é ser um filho de Abraão. E sabemos disso ao olhar para as suas vidas! É assim no nosso mundo hoje. Os pregadores dizem: “Tenham fé em Jesus e vocês serão salvos!”. E todos dizem ter fé, sem nem saber o que é a verdadeira fé salvadora. Os pregadores dizem: “Todo aquele que crer será salvo!”. E todos dizem crer, porém sem ter a menor ideia do que significa crer para ser salvo. João havia pregado: “Arrependei-vos, pois está próximo o reino dos céus”. E todos diziam terem se arrependido, somente para não provarem do juízo que acompanhava a chegada do Reino do Senhor dos Exércitos. Sem a correta explicação do que todas essas palavras tão simples, mas tão decisivas, significam – “crer”, “fé”, “arrepender-se” – mais contribuiremos para condenação do que para salvação.

João poderia ter, simplesmente, fingido que não via a contradição na vida daquelas pessoas. Era uma MULTIDÃO procurando-o para ser batizada. Ele poderia dizer, como muitos dizem hoje: “Quem sou eu para dizer que o arrependimento deles não é verdadeiro? Se eles estão afirmando terem se arrependido e desejam ser batizados, então quem sou eu para não batizá-los?”. Mas não. João sabia qual era seu papel. O último profeta. E que se ele se omitisse em deixar suficientemente claro o significado de sua pregação, não completaria a sua missão de preparar o caminho para o Senhor Jesus. João foi levantado por Deus para preparar o caminho para a primeira vinda do Messias. Nós somos aqueles que Deus chama para preparar o caminho para Sua segunda vinda, que se aproxima, como nos tempos do Batista. E, como o Batista, não podemos comprometer nossa mensagem. Que ela esteja clara para nós – e que ela seja viva e real em nós. Que possamos examinar a nós mesmos para saber se temos experimentado o verdadeiro arrependimento e a verdadeira conversão. E, tendo provado a nós mesmos, que o Senhor nos capacite a ensinar a este mundo a verdade completa – ainda que seja uma palavra dura aos que a ouvem.

Aquela multidão que perguntou a João “Que havemos, pois, de fazer?”, e que não havia experimentado verdadeiro arrependimento, provavelmente não gostou muito das respostas que ele deu. Aquelas pessoas egoístas, provavelmente não gostaram de ouvir que precisavam tornar-se misericordiosas. Aqueles publicanos que usavam de seus postos para tirar mais dinheiro do que deviam dos outros, e enriquecer às suas custas, provavelmente não gostaram de ouvir que deveriam parar de cobrar o que não era devido. Aqueles soldados, acostumados a maltratar os outros por prazer, a usar de sua autoridade para humilhar aos outros e se beneficiar às custas dos outros, provavelmente não gostaram de ouvir que deveriam parar de maltratar, de fazer denúncias falsas e deveriam se contentar com seu salário. O que João fez foi mostrar-lhes que eles não queriam, de fato, abrir mão de seus pecados. Portanto, não havia neles arrependimento. E pregar isso é duro. Dizer a alguém que se ela não deixa suas práticas pecaminosas, então sua fé é vã, então ela não crê em Deus, e então ela não é Sua filha. Ela está se autoenganando. E então, ela não está preparada para receber o batismo de arrependimento. E então ela não está preparada para entrar para a família da fé. E não é fácil pregar isso. Mas é preciso.


Que o Senhor nos conceda coragem, mas também amor e sabedoria, para aprender como fazer isso, como ser os proclamadores das verdades completas do evangelho. Que não sejamos acusadores duros e implacáveis que se colocam como juízes e vivem para apontar o pecado alheio. Mas que não sejamos também medrosos e mais interessados em agradar ao homem do que a revelar-lhe os ensinos das Escrituras. Que o Espírito Santo nos ajude a encontrar o equilíbrio. E que nada do que façamos seja feito sem amor, pois “sem amor, nada disso me aproveitaria” (1 Coríntios 13.3b). Que Ele nos ajude a assim ser. Para Sua glória. Amém.

quarta-feira, 4 de maio de 2011

As muralhas que construímos


Muralhas são estruturas construídas para oferecer proteção a um determinado lugar contra os perigos externos.

Nós vivemos em tempos de grandes perigos, em todos os aspectos. Principalmente nós, cristãos. O padrão da sociedade e das pessoas em geral cada vez mais se distancia do padrão que nós devemos viver, e isso torna nossa vida aqui neste mundo uma constante luta pela manutenção do que é correto e verdadeiro. Uma constante luta. É quando, no meio desta batalha, percebemos a necessidade de levantar muralhas.

Levantar muralhas é algo bom e necessário. Estabelecer limites, cercas de proteção para nossas mentes, corações, corpos e espíritos. Nos guardar dos perigos que nos cercam constantemente. No entanto, com mais facilidade e sutileza (e mais vezes) do que imaginamos, investimos demais na altura do muro e este, ao invés de servir para nos proteger, acaba nos isolando completamente e limitando ou excluindo nosso campo de visão do que está lá fora. Criamos o nosso mundinho e passamos a ver tudo a partir das poucas coisas que ficaram dentro de nossas tão elevadas cercas. É o perigo das muralhas.

Os rabinos judeus eram conhecidos como “os construtores de cercas”, ou algo assim. Sua missão era garantir que todos os judeus obedecessem a todos os mandamentos da Torá – e isso era uma missão boa e correta, afinal, dizia respeito a dedicar-se ao cumprimento da vontade de Deus. No entanto, nesta ânsia tão grande por só fazer o que era certo, eles passaram a ampliar os mandamentos. Não pregavam mais apenas o que a Lei mandava, mas aumentavam as exigências para que ninguém corresse o risco de vir a pecar. Um exemplo muito claro era a guarda do sábado – encheram o sábado de regras: é proibido dar mais do que tantos passos, é proibido fazer mais esforço do que isso, é proibido sair de casa, e muitos outros “é proibidos” que nunca estiveram na Lei. Eram as muralhas construídas além da medida que era devida.

Existem muitas áreas nas quais fazemos isso com as “cercas” que precisamos construir, mas eu gostaria de abordar apenas duas: visão teológico-doutrinária e relacionamentos.

1. Religião, Teologia, Doutrina...

Vivemos numa realidade religiosa e, principalmente, teológico-doutrinária muito difícil, quase caótica. A própria Palavra nos adverte que, quanto mais os últimos dias se aproximassem, mais os falsos profetas e os falsos ensinos se multiplicariam. E nós temos visto isso acontecer em nossos dias. Absurdos teológicos que usam o nome de Deus e de Cristianismo para fazer coisas totalmente contrárias às Escrituras. 

Muitos de nós, provavelmente, já estivemos neste meio, já fomos enganados e caímos nas ciladas das mentes astutas que sabem como nos ludibriar. Eu mesma me converti em um meio repleto de sentimentalismo, centrado em homens, com pouca base doutrinária e bíblica, e foi isso o que aprendi e vivi durante muitos anos da minha vida cristã. Um dia meus olhos foram se abrindo e Deus, em Sua graça, foi me ensinando a analisar os caminhos e procurar pela verdade. Foi quando passei a ser mais atenta e não aceitar qualquer coisa que se fala dentro de uma igreja – aquela atitude “bereianos”. Entendi que precisava procurar compreensão e sabedoria para não cair tão facilmente nas ciladas dos falsos mestres, pois já caí em MUITAS. 

Eis o momento em que percebemos a necessidade das muralhas. Olhamos para nossas vidas e vemos com que facilidade temos sido enganados, e que não pode continuar assim. As muralhas aqui, então, são o conhecimento e o entendimento da verdade. Estudos, leituras, análises, discussões, pontos de vista... Precisamos disso! Este é um passo importante para nosso amadurecimento na fé. ["Julgai todas as coisas, retende o que é bom" (1 Ts. 5:21) / “Para que não mais sejamos como meninos, agitados de um lado para outro e levados ao redor por todo vento de doutrina, pela artimanha dos homens, pela astúcia com que induzem ao erro" (Efésios 4:14)]

No entanto, este mesmo bem também oferece riscos. O mesmo risco dos rabinos e fariseus. Passamos a compreender um pouquinho só da verdade e, a partir de então, achamos que já sabemos tudo e que somente o que funciona de acordo com nossa própria visão está certo. É quando esquecemos o momento de parar a construção do muro e o estendemos mais do que deveríamos. É quando deixamos de nos preocupar com aquilo que fere a essência do Evangelho, a verdade bíblica, e passamos a nos preocupar com opiniões humanas. Quando nossa preocupação não está no fato da igreja estar centrada na cruz, pregando o Evangelho genuíno, mas na forma como a igreja organiza o culto, nos tipos de música que ela toca, na linguagem que o pregador usa, se batem palma ou não, se as pessoas se vestem desse jeito ou daquele... Passamos a julgar o trivial, o exterior, o método. É quando nossos muros nos cegam e achamos que podemos ser juízes dos outros.

É pouco provável que algum de nós nunca tenha conhecido alguém que, imerso em estudos teológico-doutrinários e na dedicação de compreender a verdade bíblica e a vontade de Deus, tornou-se fechado em seus próprios entendimentos, cheio de preconceitos para com quem pensa diferente e que acabou desenvolvendo uma postura de “eu tenho a verdade”. Olhamos para o que é diferente do que entendemos ser a verdade com julgamento, menosprezo ou, até mesmo, desprezo. É quando os muros de doutrina e verdade tornam-se muros de religiosidade e legalismo, e deixam de nos proteger para nos aprisionar.

      2. Relacionamentos

E, aqui, queria falar sobre relacionamento com o sexo oposto, não necessariamente romance, pois também construímos muralhas de prisão neste aspecto.

Lá vamos nós, novamente, olhar para a realidade caótica em que estamos imersos. Relacionamento com o sexo oposto é uma dessas áreas em crise total em nosso século. Nem sei por onde começar para falar disso, pois é tão óbvio: maldade de mentes e corações, falta de respeito, libertinagem, sexualidade à solta, sensualidade todo tempo evidenciada, ausência de limites, imoralidade no olhar, no falar, em tudo... Tudo isso tem tornado extremamente difícil para um jovem cristão sentir-se seguro e despreocupado ao relacionar-se com pessoas do outro sexo.

Posso falar como mulher: é MUITO difícil ter uma aproximação despreocupada com rapazes diante de toda essa realidade. Esse é um assunto que converso com muitas amigas cristãs e a maioria mostra a mesma dificuldade. Após anos e anos convivendo com rapazes cheios de malícia, que sempre se aproximam com segundas intenções, que não querem ser apenas seus amigos, mas olham, analisam, falam com interesses sexuais, é muito complicado sentir-se segura.

É quando entendemos a necessidade de elevar nossas muralhas – nos guardar, tomar cuidado, definir limites. Então, deixamos de ser tão legais quanto gostaríamos, porque os rapazes sempre confundem as coisas, mantemos a distância, o “pé atrás”. Precisamos manter nossa pureza e isso precisa de cercas. Como as demais, estas cercas são boas e imprescindíveis.

Porém, novamente temos mais problemas do que gostaríamos para determinar a altura certa e a hora de parar de construir. Ficamos tão frustradas, decepcionadas e amedrontadas com as experiências ruins que passamos que acabamos por nos fechar completamente. “Ninguém pode se aproximar!”. Aquelas atitudes de cavalheirismo, educação e verdadeira masculinidade que todo rapaz deveria ter foram tão distorcidas, e atualmente são tão usadas com malícia apenas para atrair uma “mocinha ingênua” ao engano, que passamos a desacreditar que elas possam ser utilizadas com sinceridade e pureza. Então, um cumprimento cordial, um elogio, uma delicadeza, um sorriso, um convite, uma aproximação gentil acabam sempre causando receio. É como se o botão “Cuidado! Ele está com segundas intenções!” fosse imediatamente acionado, e nossa reação é “Opa! Um passo para trás!”. Nos fechamos como ostras!

Sinal de que construímos nossas muralhas além do que deveríamos. Com o fim de nos proteger dos ladrões, passamos a olhar todos como se fossem ladrões e nos tornamos sempre desconfiados e com medo de aproximações.

ENTÃO, O QUE FAZER?

É hora de fazer o caminho inverso: desconstruir nossas muralhas. Pedir que Deus nos mostre os excessos que acabamos edificando e, então, começar a desfazê-los. Relaxar um pouco e lembrar que, ainda que precisemos vigiar atentamente contra os ladrões da madrugada, nem todos são ladrões. Podemos manter o devido cuidado sem nos tornamos obsessivos. Podemos (e devemos) respeitar e viver bem com nossos irmãos cujas doutrinas ou metodologias são diferentes das nossas, mas que permanecem fiéis a Cristo e ao Seu Evangelho. Podemos nos aproximar de nossos irmãos do sexo oposto com alegria e também com pureza, e desenvolver amizades desinteressadas e sinceras.

Isso ainda é possível. Só precisamos tomar cuidado com as muralhas que construímos.

terça-feira, 26 de abril de 2011

Transformai-vos... pela renovação da vossa mente!

Como eu disse no último post, neste último feriado e final de semana estive participando de um acampamento de jovens da Igreja Batista Central de Fortaleza chamado #estalo e cujo tema central era: "Renove sua mente" (ou "Renove Your Mind" como ficou mais conhecido! rs). E eu queria falar um pouco desse tempo que Deus mesmo preparou para minha vida.

Eu fui para o #estalo com expectativas muito grandes, conforme também comentei no post anterior. Meu entusiasmo por conhecer a igreja do "Pedro Pamplona" e do "Fellipe Mastrillo", dois jovens cujos blogs acompanho e admiro muito, especialmente sendo ela uma igreja tão jovem, era enorme.

No entanto, ao chegar lá, tudo foi quase totalmente diferente do que eu havia imaginado. Todas as minhas idealizações prontas e acabadas do que eu viveria foram frustradas e, devo confessar, passei por momentos muito difíceis lá. Tive dificuldade de me adaptar, de me relacionar e meu coração foi se fechando a cada momento por não ter encontrado lá aquilo que ele estava procurando.

Eu nem imaginava o que Deus estava preparando para estes dias. Porém, havia algo que, mesmo em meio aos momentos mais difíceis que passei, ecoava em meu espírito: o Senhor está no controle! Eu cria nisso. Sabia disso. Sabia, mesmo quando eu não queria acreditar muito, que Deus tinha algum propósito com tudo o que estava acontecendo e minha oração era que eu conseguisse compreender esse propósito e vê-lo se cumprindo na minha vida.

E o propósito era revelar o pecado do meu próprio coração. Era manifestar as coisas que estavam escondidas, ou que eu tentava esconder de mim mesma e dos outros, as coisas que eu usava para me justificar em detrimento dos outros.

A cada ministração da Palavra que eu ouvia (que, aliás, foi uma melhor do que a outra), Deus me mostrava pecados que precisavam ser tratados e retirados da minha vida. Coisas que eu achava que já haviam passado, mas que ainda estavam lá, camufladas.

A verdade das minhas expectativas quanto ao encontro? Eu esperava encontrar uma igreja perfeita, com pessoas perfeitas e que fossem a resposta para todas as perguntas. Eu achava que sabia de todas as verdades, que sabia qual era o método correto, como as coisas deviam acontecer, o que era melhor diante de Deus e, ao me deparar com coisas diferentes do que eu havia definido como certo, me achava no direito de sentir frustrada.

Orgulho. Justiça-própria. Legalismo. Perfeccionismo. Julgamento alheio. E a fonte de todos estes males: dificuldade em aceitar o amor gratuito de Deus, que não depende de comportamentos corretos, que não depende de métodos nem de estereótipos, que depende somente da Sua GRAÇA. Essas foram as coisas que o Espírito Santo falou ao meu coração num momento de ministração em que vimos um vídeo da Paixão de Cristo, que falava desse amor sem medidas e sem condições, e após o qual fomos convidados a escrever nossos pecados e depois pregá-los em uma cruz de madeira, simbolizando a entrega deles diante da cruz de Cristo.

Deus falou TANTO comigo neste momento. Me mostrou como, durante toda a minha vida, eu havia precisado me esforçar muito para fazer coisas admiráveis para, então, me sentir amada. Como me era tão importante ser a melhor aluna, para poder receber um elogio dos meus pais. Como as pessoas sempre comentavam sobre meu desempenho escolar e quanto isso representava o amor e aceitação que eu esperava receber. E, assim, me tornei perfeccionista. Fixada em bons desempenhos. E, mesmo sem perceber, eu trouxe isso para minha vida com Cristo. E a verdade é que eu julgava a mim mesma e às pessoas ao meu redor pelos seus (nossos) desempenhos: o que é feito de bom e admirável. E quem quer que não externasse boas obras, não merecia o amor do Pai.

Que tristeza! Falava tanto da Graça, mas ainda não a entendia no meu dia a dia. Tanto não a entendia que me achava no direito de julgar pessoas. As pessoas que Deus havia amado de tal maneira que havia dado Seu Filho Unigênito para salvá-las. E foi quando o Espírito Santo falou ao meu espírito:

"Esse Amor não pode ser conquistado por obras, Aline! Não depende de obras. Ele é GRATUITO. É INCONDICIONAL. Deus simplesmente ESCOLHEU amá-los! Não fique assim tão preocupada com as obras, elas virão! Sou Eu quem as fará brotar, crescer e se aperfeiçoar em cada um dos escolhidos do Pai! Não espere isso de homens. Vocês não são capazes de fazer isso. Sou Eu quem o faz! Eu que convenço do pecado, Eu que os ajudo a mudar. É de Deus que vem o dom da Fé e o aperfeiçoar dela. Pare de esperar que as pessoas sejam perfeitas, que as igrejas sejam perfeitas para que, então, você possa amá-las. Deus não esperou que vocês fossem santos para os amar! Você não encontrará obras acabadas e perfeitas, você encontrará pecadores, assim como você. Esperar outra coisa é ilusão. Então, ame-os, assim como Nós os amamos! Receba esse Amor GRATUITO que temos para você, e ame assim também!".

Minhas lágrimas não foram suficientes para mostrar todo o meu arrependimento ao ver que tudo isso estava no meu coração. Que eu ainda não havia compreendido esse Amor de GRAÇA com o qual Deus me ama e ama a cada um que Ele chama para a Salvação! Entendi que meus olhos não devem estar em homens, mas no Senhor!

Não, as pessoas não eram assim tão ruins por lá (rs). Elas eram apenas pessoas. O problema estava em mim, que esperava que elas fossem conforme a MINHA vontade e que as julgava caso se desviassem algo disso. Esperava que elas fossem perfeitas por professarem a fé cristã, enquanto elas eram apenas pessoas salvas pela graça, assim como EU! E, então, olhando pra mim e pro meu próprio pecado, e olhando para Deus e Sua infinita Graça e Amor, recomecei a aprender a amar. Aprendi a abrir mão de meus preconceitos, de meus paradigmas, de minhas falsas verdades, e a olhar os outros através dos olhos de Cristo. E que GRANDE diferença isso fez em minha vida! Que GRANDE significado isso trouxe para todos os momentos vividos em cada dia desse final de semana.

Verdadeiramente, Deus me trouxe até aqui para um #estalo e, sem nenhuma sombra de dúvida, para a RENOVAÇÃO DA MINHA MENTE. Foi exatamente o que Ele fez! Abriu meus olhos e me ensinou a ver com o Amor que Ele vê. Não sem Sua Santidade e Justiça, mas sem nunca deixar de lado esse Amor que motivou o ápice do agir de Deus na história do homem: a entrega de Seu próprio Filho por nós!

Sim, vivi em plenitude o sentido da Páscoa. E saio daqui amando profundamente estes meus irmãos que se reúnem como Corpo de Cristo aqui em Fortaleza, com o sentimento claro de fazermos parte da mesma essência gloriosa: a Igreja Separada do Cordeiro! Saio daqui admirando-os DEMAIS por sua integridade e compromisso com a Palavra de Deus, com a pregação de um Evangelho puro e vivo, mas sem medo de romper paradigmas de modelos e métodos para alcançar a todos com esta graça. Saio daqui depois de muitas risadas (MUITAS!) e também de muitas lágrimas - de alegria e gratidão a Deus, porque tenho quase certeza de que não há nada mais belo nesta terra do que o encontro entre os membros do Corpo de Cristo espalhados por aí e o reconhecimento de Cristo em cada membro!

Louvo ao Senhor por Sua Soberania, por Sua misericórdia comigo, por Sua paciência em me mostrar meus pecados e me ajudar a combatê-los e vencê-los, por Seu Amor que se destina a um ser tão finito e cheio de falhas como eu e ainda vai além disso - inunda a este ser e o torna digno de também aprendê-lo e manifestá-lo! Foram dias incríveis! (Sem falar da reunião do Surfistas de Cristo!!!!! Wooowww!!! \o/\o/\o/ Sem palavras pra descrever!!) Levarei cada um como marcas em minha história, e aprendizados que espero não mais esquecer.

Fica a homenagem e o carinho a cada um desses irmãos. E a glória e o louvor a Deus!

"Transformai-vos pela renovação da vossa mente, para que experimenteis qual seja a boa, perfeita e agradável vontade de Deus" (Romanos 12:2)



quarta-feira, 23 de março de 2011

Moderna... mas sempre mulher!


“Ela conquistou o mundo, o poder político e o mercado de trabalho. Está mais estudada e dispõe de recursos financeiros, mas ainda é insegura quanto ao próprio corpo, sonha com o príncipe encantado e sofre com o drama da maternidade.”


[parte do texto “Sempre mulher”, da revista Vida e Saúde, edição de Março de 2011, pags. 10-17]


“É a hora de dizer que a independência feminina custou muito caro. Sim, para as mulheres. É claro que ela tem inúmeros benefícios com a independência que conquistou, mas é preciso olhar também para os prejuízos que são muitos, a começar pela jornada que era uma, antes de trabalhar fora, virou duas, e agora já se fala em tripla jornada. Afinal, continuam sendo das mulheres os deveres com os filhos, o marido e a casa, mesmo que tenha empregados. Vinda do trabalho com uma grande carga de pressão, é natural que, ao chegar em casa, ela não tenha a mesma candura e paciência para lidar com os filhos. Até que se desligue do ambiente de trabalho, os filhos já foram dormir sem conseguir a mãe suave de que precisavam.

“É bom considerar que filhos de mães que trabalham fora tiveram que aprender na marra a se virar mais sozinhos, ser independentes e, por conta da renda extra dos pais, têm mais possibilidades financeiras. Contudo, isso tem um custo. Acredito que essa independência financeira da mulher é diretamente ligada ao aumento assustador no número de divórcios, já que, com a possibilidade de se virar bem sozinha, ela não se prende a relacionamentos que não a satisfazem”, analisa a psicóloga Telma Vitzig, que enxerga um fenômeno curioso: “Filhos de pais separados, quando convivem com a guarda compartilhada, ao sair da casa de um dos pais, ficam algumas horas sem pertencer a ninguém, para que a própria mente se ajuste a quem é a autoridade naquele momento. Daí as revoltas, incompreensões. É muito duro para a criança”, explica a especialista. Sim, pois a independência da mulher alterou a configuração social.

Telma argumenta que “trabalhar fora faz com que a mulher gaste uma energia muito grande e desnecessária para se adaptar aos papéis. O natural da mulher é ser flexível e gerar harmonia no lar. Ela é talhada pra isso. No mercado de trabalho, essas características precisam sumir para dar lugar à rigidez, austeridade e se assemelhar ao homem. Mandar e ditar ordens aos filhos como aos subordinados não funciona, então ela tem todo um trabalho de desconstruir aquela personagem do trabalho e assumir outro papel em casa. Isso desgasta e confunde a mulher”.

O curioso é que, por mais independente que seja, a mulher moderna ainda sonha com coisas simples e gentilezas que eram típicas de suas avós, como ter um homem que lhe abra a porta, traga flores e dê segurança e proteção. Entretanto, não ter mais isso é o preço que ela paga pelo feminismo. Uma revisão dos livros de história vai explicar pra você, leitora, que a pretensão feminista lá no século 19 ainda era por condições salubres de trabalho e direitos básicos.
Todavia, com o passar do tempo e algumas conquistas, o feminismo que se colheu em meados do século 20 acabou virando uma guerra dos sexos sem sentido e pregação de igualdade de gêneros. Igualdade improvável, a começar pelo fato de que homens e mulheres são diferentes na essência. E ponto.

O homem também sofre com essa realidade, pois ele também não foi preparado para esse tipo de mulher. Se estava acostumado com o padrão da mãe e da avó, será mesmo um choque para ele conviver com os novos moldes que sua mulher terá. [...]

Não se pode negar a pressão da sociedade para que a mulher trabalhe fora e alcance sucesso em sua profissão. Mesmo sem se dar conta, muitas assumem esse posto contra sua própria vontade, mais para não serem excluídas do grupo e das expectativas sociais. Junto com isso vem a culpa por não dar conta de tudo com perfeição, como se espera e se alardeia. [...]

Levando em conta o estilo de vida da mulher atual, temos a chamada janela estrogênica, ou seja, a produção hormonal muito maior, já que menstruam cedo e têm filhos bem mais tarde, além de ter poucos, ficando à mercê dos hormônios que, sim, são o gatilho para câncer de mama e de endométrio. Segundo o Dr. Fernandes, “a amamentação precoce, antes dos 30 anos, aumenta os fatores de proteção contra o câncer de mama. Efeito contrário acontece quando a gestação e amamentação acontecem depois dos 30”, orienta.”


[Por Fabiana Nertotti, colaboradora especial da revista Vida e Saúde. Trecho das páginas 13, 14 e 16]

terça-feira, 8 de março de 2011

Convicções...



“O caminho que você toma com os seus pés nunca deveria contradizer as convicções do seu coração”
(Joshua Harris – Eu disse adeus ao namoro)

Ter convicções é fácil. Ouvir a verdade e reconhecê-la como tal, na teoria, não requer tanto de nós. Criar teorias belas e impactantes não é tão difícil assim. Somos convencidos por palavras sábias e concordamos com elas e, assim, nos achamos bons demais.

O difícil é viver convicções, quando elas precisam ser vividas. Esse é que é o grande desafio. Não saber o que é certo, mas fazer o que é certo. Transformar teoria em prática. É neste ponto que caímos.

Porque escolher as palavras que parecem mais corretas e santas, usá-las e pregá-las aos outros é simples demais. O problema é quando nós mesmos nos deparamos com as situações reais em que devemos aplicá-las em nossas próprias vidas.

O momento em que precisa-se decidir quem comandará: os pés ou o coração.

São os pés que tomam o caminho. Aonde eles forem, todo o corpo será obrigado a ir. Eles são os guias. O coração? Ele deveria ser o mestre, aquele que dá as ordens aos pés. Afinal, por acaso têm os pés a capacidade de refletir para tomar decisões? Não. Portanto, Deus não poderia falar aos pés. Mas Ele fala aos nossos corações. E é lá que nascem, crescem e moram nossas convicções. É lá que Deus escreve Suas verdades.

Estamos parados, ou andando lentamente em uma paisagem rotineira, e Deus começa a falar sobre os caminhos perigosos que podem, e irão, surgir à frente e o que devemos fazer quando isso acontecer. Nossos caminhos, neste momento, estão tranquilos, e então é bastante fácil ir ouvindo os conselhos, anotando-os no coração e dizendo: “Sim, Senhor! Estou entendendo, sim! Poxa, Você tem toda a razão! Pode deixar que, quando isso acontecer, eu farei exatamente o que o Senhor está dizendo!”. Até achamos aqueles conselhos belíssimos, de tamanha sabedoria que nos fazem regozijar em ouví-los!

No entanto, um dia os caminhos perigosos aparecem. Ouvimos tanto falar sobre eles! Porém, quando nos deparamos com eles, eles parecem tão diferentes das descrições que ouvimos. Parecem-nos tão pouco perigosos, até mesmo agradáveis! E, então, vemos a bifurcação no caminho. Temos que tomar uma decisão. Há uma placa indicando “Perigo” apontando para a esquerda. E uma placa de “Siga por aqui” apontando para a direita. O Mestre já havia falado que seria assim.

Mas, o caminho à esquerda encontra-se cheio de luzes coloridas, vários bancos para descanso e todas as pessoas à sua frente parecem se dirigir para lá. E o caminho à direita parece tão estreito, difícil de trilhar e, o pior, não parece haver ninguém indo para lá. Como pode a placa de “Perigo” estar voltada para a esquerda e não para a direita?

Então, trava-se a guerra. O coração diz: “O Senhor falou sobre isso! Ele disse que haveria uma placa de perigo e que não deveríamos seguir por ela. Vamos pelo caminho da direita!”. Mas os pés se revoltam e protestam: “O quê? Por acaso você não está vendo a diferença entre estes dois caminhos? Veja só como o caminho da esquerda parece seguro e confortável! Todos estão indo por ele! Como pode haver perigo lá? Enquanto o caminho da direita... ele mete medo! Não há ninguém lá e ele é tão estreito! Nós vamos pela direita!”.

Neste momento, todas as pessoas que estavam trilhando o caminho da esquerda voltam-se para a situação e passam a opinar: “Ah, esse caminho aí do lado não dá em lugar nenhum, não! É impossível de trilhá-lo! Dizem que ele dará em um lugar muito bonito, o mais belo da região. Mas a verdade é que ele tem tantas pedras e espinhos que é simplesmente inviável andar por ele! Venha por aqui conosco. Ainda que haja essa placa de perigo aí, a verdade é que esse aqui é o único caminho possível de trilhar! Não se preocupe com isso!”.

E chega-se o momento da decisão. O momento pelo qual todos passaremos. E a decisão quem tem que tomar somos nós. No momento de colocar o corpo em movimento, o que poderá fazer o pobre coração? São os pés que tomarão o caminho, qualquer que seja ele. Ainda que o coração proteste e, depois de todas as convicções construídas durante o caminho que para trás ficou, saiba qual a resposta certa, ele pouco poderá fazer se os pés decidirem contrariá-lo.

Não haverá jeito, então, se os pés decidirem? Sim, haverá. Ainda há uma saída: um cérebro que controla o corpo inteiro – inclusive os pés teimosos. A verdade é que é nossa responsabilidade escolher o caminho.

A questão é: a quem daremos ouvidos, aos pés ou ao coração?


“Entrai pela porta estreita (larga é a porta, e espaçoso o caminho que conduz para a perdição, e são muitos os que entram por ela), porque estreita é a porta, e apertado, o caminho que conduz para a vida, e são poucos os que acertam com ela” (Mateus 7. 13,14)


terça-feira, 1 de março de 2011

Mulher filé, mulher melancia, mulher pequi...

Pr. Isaltino Gomes Coelho Filho

Pastoral do boletim da IB Central de Macapá, 27.2.11


Ouvia o noticiário, enquanto me arrumava para sair. Ouvi que a “Mulher filé” fora assaltada e agredida. Ignorava esta. Sabia da Mulher melancia, e de outra cuja fruta não guardei. Deve haver mulher pequi (desculpem-me, goianos, mas o cheiro deve ser de doer).

Que pobreza! Mas é um quadro de nossa época. O valor da mulher é medido pelo volume de certas partes de seu corpo. E algumas se tornaram ridículas. A tentativa de algumas de terem os lábios de Angelina Jolie produziu mulheres deformadas.

Não sou casado com mulher feia. Pelo contrário. Ano após ano a beleza dela se apura. Digo, de brincadeira (mas de verdade), que a mulher é bonita mesmo após os quarentas. Com vinte todas têm a obrigação de o serem. Mas o tempo mostra a verdadeira beleza. Vinicius de Moraes disse que “as feias que me desculpem, mas beleza é fundamental”. Mas beleza é subjetivo. No filme Os deuses devem estar loucos, o personagem central, um aborígine africano, se choca ao ver uma loira, autêntica beldade de Hollywood. Ela lhe parece descascada. O cabelo é cor de palha. Ela é grande e deve precisar de muita comida para funcionar. Seu critério de beleza difere do de um ocidental.

A mídia consegue crescer em mediocridade. Sua pobreza cultural e a moral caminham juntas. Quem fica o dia todo diante da televisão é pouco exigente. É uma indigência cultural que deprime. Coitadas dessas moças cujo único valor são as próteses de silicone. Não sabem articular uma sentença gramatical completa. Seu mérito são as protuberâncias. Mulher melancia, mulher jaca, mulher banana, etc. E quando vier o desgaste natural pelo tempo? Velhice não é doença, praga ou feiúra. É condição. É etapa na vida. A musa Brigite Bardot que enlouquecia os homens nos anos sessentas foi avassalada pelo tempo.

Ter boa estética é bom. Somos entes estéticos. Mas se o valor de uma pessoa é o silicone, ela é muito pobre. Mas há algo duradouro e não desgastável: o caráter. Por isso pergunto: “E a mulher caráter”? Sumiu, o que não é de se estranhar numa sociedade materialista e sensual como a nossa. A ética foi substituída pela estética. Caráter não importa. Importam os sentidos. A mulher foi coisificada e virou uma peça de carne pendurada num açougue chamado “Exibicionismo”, aplaudida por erotizados.

Beleza é uma coisa. Cuidar do corpo também. Cultuá-lo é pobreza. Um dos personagens que fez Tarzan morreu louco. Perdeu o papel ao envelhecer. Mas caráter cultivado e valorizado não se perde.

O animal é o seu corpo. O homem tem o seu corpo. Você é mais que corpo. É alma também. E viverá após o corpo voltar ao pó. Cuide da alma com mais zelo. Vale a pena.