Mostrando postagens com marcador Igreja. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Igreja. Mostrar todas as postagens

domingo, 19 de novembro de 2017

Maturidade...



Estou cada dia mais convencida de que maturidade tem muito mais a ver com lágrimas do que com risos, com decepções do que com encantos, com frustrações do que com vitórias, com dores do que com conforto, com tempestades do que com bonanças, com desertos do que com jardins...

Pois é na dor, na fornalha, na pressão, nos tempos contrários, quando nada do que esperamos acontece, quando nenhuma das nossas expectativas é suprida, quando nossos sonhos se frustram, quando os sentimentos são abafados e a empolgação passa que iremos mostrar a real força de nossas convicções – a real força de nossa fé.

Pois maturidade tem a ver com força. Não é sobre a intensidade com que começamos, mas com nossa capacidade de permanecer, enfrentando cada estação, cada inverno pesado, cada outono em que as folhas todas caem e as árvores ficam todas desfolhadas e secas... e ainda continuar de pé. É poder cantar como cantaram “Os Arrais”: “Como as árvores, eu permaneço no mesmo lugar; no outono, no inverno, eu espero primavera chegar...”. É sobre saber esperar.

É sobre ser testado e aprovado. Sobre sobreviver ao dia mau. Sobre conseguir atravessar as noites escuras sem deixar o coração endurecer e perder a esperança. É sobre não desistir de amar, mesmo sem receber amor. É sobre não desistir de dar, mesmo sem nada em troca. É sobre decidir pelo que se é, pelo que é verdade, não pelo retorno que teremos. É sobre escolher continuar dizendo sim à missão de salvar a outrem, ainda que nosso único pagamento seja uma cruz.

Estou cada dia mais convencida de que maturidade tem a ver com suportar as demoras da vida e ainda acreditar. Sobre abalar-se e não desistir. Sobre ainda poder olhar com compaixão, graça e misericórdia mesmo para aqueles que mais nos feriram. Sobre morrer, mas ainda assim escolher doar-se. Sobre injustiças, sobre “nãos”, sobre feridas, sobre solidão, sobre diminuir, pois, como também cantaram “Os Arrais”, “somente uma fé que se abalou inabalável é”.

Porque é tão fácil ter um sorriso nos lábios, um coração grato, um olhar compassivo, braços estendidos, serviço disposto, vontades firmes, convicções inabaláveis quando os tempos nos são favoráveis, quando o caminho está cheio de companheiros, quando nosso sonho é compreendido e apoiado, quando encontramos suporte e cuidado, quando está confortável e bonito o trajeto à frente, quando há luz e certezas... e como são bons e abençoados estes tempos de bonança que o Senhor nos dá!

Porém o dia mau chegará. E não nos enganemos: ele chegará! O inverno. Depois de viver as belezas do verão e da primavera, precisamos estar preparados para o inverno, pois ele sempre chega. Quando não haverá mais tantas companhias, quando nossos sonhos e visões serão considerados loucos, quando não haverá a mão estendida ou o abraço esperado, quando seremos julgados e condenados, quando uma cruz nos esperará no fim do caminho, quando vai doer e sangrar e pareceremos enfrentar tudo isso sozinhos... e é então que saberemos a real força de tudo que achávamos ter e ser. É então que saberemos o real material do qual nossa casa era construída. Quando o vento bate forte. Quando a tempestade cai.

E esse é o propósito dos nossos invernos. Não apenas nos testar e provar, mas nos amadurecer. Nos mostrar nossas fragilidades e nos convidar a cuidar delas e deixa-las ser cuidadas, e nos fortalecer. Pois quando conseguimos vence-los – ah! quando conseguimos vence-los! – descobriremos que havia em nós uma força que jamais imaginaríamos, e descobriremos que nossa paz e satisfação não são construídas e determinadas pelo que está acontecendo lá fora, mas pelo que está acontecendo aqui dentro. Até chegar aquele dia em que, esteja frio ou calor, claro ou escuro, silêncio ou barulho, repleto de gente ou sem ninguém, continuaremos encontrando motivos para sorrir e confiar e, finalmente, descansar. Maturidade.

Por isso, também “nos gloriamos nas tribulações, porque aprendemos que a tribulação produz perseverança; a perseverança produz um caráter aprovado; e o caráter aprovado produz confiança. E a confiança não nos decepciona, porque Deus derramou seu amor em nossos corações, por meio do Espírito Santo que Ele mesmo nos outorgou” (Romanos 5.3-5), porque “Ele me declarou: “A minha graça te é suficiente, pois o meu poder se aperfeiçoa na fraqueza”. Sendo assim, de boa vontade me gloriarei nas minhas fraquezas, a fim de que o poder de Cristo repouse sobre mim. Por esse motivo, por amor de Cristo, posso ser feliz nas fraquezas, nas ofensas, nas necessidades, nas perseguições, nas angústias. Porquanto, quando estou enfraquecido é que sou forte!” (1 Coríntios 12.9-10).

Porque Ele é a nossa força. Ele é nossa fonte de paz e alegria. Ele é nosso motivo e esperança. Ele é nosso propósito e herança. Ele é nosso conforto e abrigo. Ele é nossa segurança e nosso amigo sempre presente.

“Porque dELE, e por ELE, e para ELE, são todas as coisas; glória, pois, a ELE eternamente. Amém.” (Romanos 11.36)

E, seja verão ou inverno, outono ou primavera... Ele nunca nos faltará!


Nele podemos descansar e confiar.

Amadurecer...

quarta-feira, 23 de novembro de 2016

Série 1 Coríntios - Parte 1: Uma igreja orgulhosa e o problema das divisões denominacionais



Hoje iniciaremos uma série de reflexões a respeito do livro de 1 Coríntios. Serão análises gerais a respeito dos assuntos abordados na carta, sem adentrar de maneira muito profunda em tópicos específicos ou polêmicos, exceto em alguns casos. O objetivo é termos uma noção geral do que Paulo estava tentando ensinar àquela igreja, e como esses ensinos são aplicados à nossa vida cristã hoje. As análises apresentadas são pessoais, mais baseadas em meu entendimento da Palavra do que em estudos teológicos aprofundados a respeito de cada assunto, então, é claro que posso estar equivocada a respeito do sentido de qualquer aspecto, e a correção e/ou complementação por parte de todos os visitantes será muito bem-vinda.

Começaremos falando um pouco da questão que acredito ser a central na igreja de Corinto, e os aspectos abordados nos capítulos 1 a 4. Deus seja conosco, nos iluminando, revelando Sua Palavra e nos transformando, pela renovação da nossa mente, por meio das Sagradas Escrituras. A graça do Senhor seja conosco.

-------------------------------------------------------------------------------


"Porque em tudo fostes enriquecidos nele, em toda a palavra e em todo o conhecimento (Como o testemunho de Cristo foi mesmo confirmado entre vós). De maneira que nenhum dom vos falta, esperando a manifestação de nosso Senhor Jesus Cristo" (1 Co. 1. 5-7)


Estudando o livro de 1 Coríntios e tentando entender quem era aquela igreja para quem Paulo estava escrevendo, e percebendo as características das exortações que Paulo fazia àqueles irmãos, esses versículos 5 a 7 do primeiro capítulo me pareceram resumir o problema da igreja de Corinto: o que Paulo elogia foi o que se tornou a queda daquela igreja - seu enriquecimento na Palavra, conhecimento e dons espirituais tornou-se orgulho. E em muitos momentos veremos essa característica se manifestando nos pecados que aquela igreja estava cometendo. Uma igreja orgulhosa - ou cheia de pessoas que se tornaram espiritualmente orgulhosas e soberbas.

E isso é tão fácil de acontecer, não é? Quando começamos a receber muito de Deus, seja no que for - conhecimento, dons, manifestações sobrenaturais (como estava acontecendo com Corinto), o que quer que seja - corremos o grande perigo de começar a nos achar melhores do que os outros e, assim, começar a olhar quem "não está no nosso nível" com julgamento, exclusão, menosprezo.

A primeira expressão desse pecado na vida da igreja de Corinto pode ser percebida nos capítulos 1 a 
4, quando Paulo está falando das divisões que se estabeleceram dentro da igreja, principalmente, no caso desses capítulos, em função da valorização de nomes de líderes em detrimento da valorização da obra de Cristo, que une a todos os cristãos.

Paulo exorta a igreja contra a procura/ valorização / foco naquilo que homens podem oferecer, na sabedoria humana, no colocar a esperança e a fé nos atributos humanos, o que estava gerando divisões na igreja, visto que alguns se chamavam pelo nome de Paulo, outros pelo de Apolo, outros pelo de Pedro. Paulo lembra que nossa esperança e nosso foco devem estar na obra de Cristo (e não de homens) e na sabedoria de Deus (e não de homens), e que estas, ambas, são loucura para o mundo, porém, foi por meio do que é louco (e não sábio) que Deus resolveu operar e revelar Seu mistério de salvação. Portanto, não devemos olhar ou nos apoiar em homens, pois a sabedoria humana é loucura para Deus, mas em Cristo, e nEle sermos UM e andar em unidade.

Ainda falando sobre a divisão que havia se instalado na igreja, no capítulo 4, Paulo ensina que os apóstolos são apenas servidores de Cristo, e que a igreja / os grupos não deveriam julgar nenhum dos obreiros de Deus precocemente, que o dever de cada apóstolo era ser fiel a Deus e não a homens, e era Deus quem iria julgá-los. Portanto, um grupo, que seguia uma pessoa, não deveria ficar julgando outro grupo, que seguia outra pessoa, mas aguardar o julgamento final, quando todos serão julgados pelo Pai e todas as obras serão manifestadas.

O apóstolo também fala que esse julgamento que um grupo fazia do outro originava-se do orgulho que havia entre eles: um se achava superior ao outro. Mas lembra que tudo o que temos foi dado por Deus, portanto não temos do que nos orgulhar. 

Termina lembrando que os verdadeiros apóstolos, ao invés de estarem sendo exaltados ou procurando exaltação, estão sendo humilhados, perseguidos, pagando alto preço para ver o crescimento da Igreja, e diz à igreja para seguir seu exemplo, ao invés de ficarem orgulhosos, e envia Timóteo para ajudar a igreja a relembrar tudo que havia ensinado e tudo que estava vivendo por estar unido com Cristo.

Trazendo os ensinos desses 4 primeiros capítulos para nossas vidas, penso nitidamente nas divisões denominacionais que existem no meio evangélico brasileiro. Como nós somos como a igreja de Corinto. Um grupo achando-se melhor do que outro, apoiando-se em nomes de homens, em suas histórias, naquilo em que se acham superiores aos outros, e julgando todos aqueles que pensam e vivem diferente como inferiores. Como temos vivido como se não fôssemos a mesma Igreja, o mesmo Corpo de Cristo, a mesma Noiva, e dividindo o Corpo de Cristo, de forma a manchar o nome de nosso Cabeça, Jesus Cristo, entre os incrédulos. Quando nossa união deveria manifestar a maravilhosa obra que Cristo fez por nós, Sua graça em nos revelar Suas maravilhas e nos dar dons e entendimento - a nós e a todos os demais salvos, nos enchemos de orgulho com o pouco que temos recebido e nos tornamos juízes de todo mundo. Como nossa igreja evangélica brasileira precisa olhar para a igreja de Corinto, enxergar-se nela e aprender com ela. E eu faço parte disso. Eu também estou aprendendo a julgar menos e amar mais - como Paulo ensinará nos capítulos posteriores. O orgulho nos mata, e as divisões dentro do Corpo de Cristo nos matam também. Que não seja assim. Que o Senhor nos liberte do pecado do orgulho espiritual, da vaidade, da soberba, e nos ensine a enxergar o que realmente importa, o que realmente Jesus veio nos ensinar - e Seu Evangelho nos ensina.

Que Deus ajude a igreja brasileira. Vem, Senhor Jesus.



domingo, 27 de março de 2016

Quaresma – É Páscoa! – Ele Vive! Aleluia!



“Por que buscais entre os mortos ao que vive? Ele não está aqui, mas ressuscitou.” (Lucas 24.5b-6a)

Ressuscitou! Jesus Cristo vive! Aleluia!

Para renovar, fortalecer, conceder-nos fé. E, por isso, Ele ressuscita em secreto, sem ninguém ver. E revela-se primeiro aos improváveis, aos de menor posição – às mulheres (v. 5-8). Porque essa notícia era para ser recebida pela fé. Não pelo que os olhos diziam ou podiam confirmar. Não pelo raciocínio. Não pelos cálculos da inteligência humana. Mas pela fé. Porque toda a caminhada dali em diante seria pela fé. E Sua ressurreição precisava nos ensinar isso, e conceder, renovar, fortalecer nossa fé.

Para nos lembrar do valor da intimidade e do relacionamento. E, por isso, foi no caminhar ao lado, no ouvido atento, no compartilhar das dores e, principalmente, no partir do pão que Ele se revelou pela segunda vez, aos discípulos entristecidos no caminho de Emaús (v.13-32). Para nos lembrar que Sua ressurreição é para o dia-a-dia, para todos os nossos dias e, em especial, para os dias cansados e entristecidos; que Sua ressurreição era o cumprimento da promessa de que Ele permaneceria ao nosso lado todos os dias, até a consumação dos séculos – e que Ele continua a se importar com nossas dores e a querer participar de todos os nossos momentos, e a partir o pão conosco, o pão da Palavra e o pão para o corpo. Ele ressuscitou para andar com a gente – e é no relacionamento, no coração ardendo, e nos momentos mais singelos de intimidade que O reconheceremos, e que nossa fé e nossa vida se renovarão.

Para renovar nossas esperanças de salvação e vida eterna. E, por isso, Ele faz questão de mostrar aos Seus discípulos que Sua ressurreição foi não apenas em espírito, mas também em carne – possível de ver, de apalpar, de verificar. Porque essa é a promessa de ressurreição que nos foi feita. Porque, provavelmente, se os discípulos não O pudessem tocar e sentir, com seus próprios sentidos, eles pensariam que esta ressurreição era apenas para os seres celestiais, os “espíritos elevados” ou esse tipo de coisa que costumamos pensar quando vemos o sobrenatural de Deus acontecendo na vida de alguém. Mas Jesus lhes concede uma prova, sinal vivo e verificável, para aumentar-lhes a fé e renovar as esperanças da vida vindoura. Uma vida na qual não teremos apenas nossos espíritos, mas nossos próprios corpos ressuscitados e glorificados – como eles foram criados para ser, à semelhança do Messias. Sua ressurreição é também nossa promessa viva e real de nova vida.

Para revelar nossa missão aqui nesta terra: “e que em seu nome se pregasse arrependimento para remissão de pecados a todas as nações, começando de Jerusalém.” (v. 47). Uma vez tendo recebido fé, companhia, esperança e vida real para nossa caminhada, também revelar ao mundo inteiro o caminho para todas essas promessas. Apontar-lhes a porta. Ser porta-vozes das Boas Novas de Deus para a humanidade. Permitir que TODAS AS NAÇÕES recebam estas boas notícias que trazem vida eterna, e ajudar-lhes a alcançar as promessas que, por graça alcançamos, por meio do arrependimento e remissão dos pecados, no Messias enviado, Jesus Nazareno. E não em nossas próprias forças, mas na promessa dada pelo Pai ai Filho, de revestir-nos com o poder vindo do alto.

Para nossa alegria e nossa união. Porque, ao encher o coração de Seus discípulos de júbilo (v. 52) e ao mantê-los sempre unidos, no templo, louvando Seu Nome, Deus seria glorificado neste mundo. Pois, quando o mundo vê discípulos fiéis, regozijantes e unidos em louvor, mesmo após a morte do seu Mestre, o mundo começará a perguntar o motivo da nossa fé – e a também refletir sobre a verdade da Sua ressurreição. Porque é na Sua ressurreição – e no retorno de nosso Mestre ao Pai – que passaram a residir nosso júbilo, nossa paz, nossa esperança, nosso elo. Somos UM nEle. Ele nos une. Ele nos mantem juntos. E, quando assim permanecemos, em amor e regozijo, o mundo O conhecerá. O mundo O verá em nós. Passamos a ser Seu Santuário. Sua Casa. Seu Templo móvel, que pode alcançar o mundo inteiro. É assim que O glorificamos.

E, por todas essas coisas, nosso Redentor Ressuscitou! Ele vive! Aleluia! Nossa maior glória! Nossa maior felicidade! Nossa fonte de alegria e esperança! Nosso Salvador Vive e Reina! E nada mais poderá detê-lo ou superá-Lo! Nem mesmo a própria morte O deteve. Está consumado. Está concluído! E nós recebemos o PRIVILÉGIO, a INSONDÁVEL GRAÇA de ser participantes disto! Aleluia! Nosso Senhor Vive! Isso é Páscoa! Nossa Passagem: da morte para a vida. A Eterna Vida! Ele vive! Aleluia! Vem, Senhor Jesus!


quarta-feira, 23 de março de 2016

Quaresma – Dia 36 – Vida cristã, ciladas e o exemplo de Jesus



“Observando-o, subornaram emissários que se fingiam de justos para verem se o apanhavam em alguma palavra” (Lucas 20.20a)

Definitivamente, ao olhar para a Bíblia, precisamos desenvolver o olhar de identificar em Jesus, e em todas as coisas que Ele viveu, o exemplo para nossas vidas e todas as coisas que nós também viveremos.

Estive pensando nesse episódio da vida de Jesus. Escribas e sacerdotes armando uma cilada para pegar Jesus em um erro e entrega-Lo às autoridades romanas e destruí-Lo – e em como isso existe em nossas vidas cristãs também. E eu nem estou falando de como sofremos ciladas e perseguições injustas em nossos relacionamentos com os descrentes – estou falando das ciladas que sofremos dentro do próprio meio religioso, originadas daqueles que deveriam ser defensores da fé junto conosco. E era isso o que Jesus estava vivendo. Enquanto publicanos e pecadores sentavam ao Seu lado para ouvi-Lo e aprender com Ele, os líderes religiosos do grupo ao qual Jesus pertencia (os judeus) armavam armadilhas para derrubar Jesus.

E como é triste viver algo assim. Tenho certeza que nenhuma decepção nessa vida é maior do que sermos enganados, ou descobrirmos que estão armando para nosso mal, no meio daqueles em quem mais confiamos. No meio dos que chamamos de irmãos. No meio dos que nos abraçam. No meio do que chamamos de “igreja”. Isso é muito duro. Tão duro a ponto de fazer muitas e muitas pessoas desistirem dessa coisa de “igreja” – de participar de um grupo e dedicar-se a ele. Porque nos frustramos e nos ferimos, e essas feridas são mais profundas do que a maioria que podemos experimentar. Assim, muitos desistem.

Contudo, olhamos pra vida de Jesus e toda ela era repleta desse tipo de coisas. Do início ao fim de Seu ministério. Até o dia mais difícil de Sua vida – enganado e abandonado pelos Seus. Como sempre, nós não paramos para mensurar quanto aquilo era duro pra Jesus. Aqueles escribas e fariseus e sacerdotes eram, para a religião judaica, a religião “do povo de Deus”, o grupo dentro do qual Deus determinou que o Messias fosse trazido ao mundo, como nossos pastores, líderes de ministérios, mestres da Palavra. Estamos acostumados com o fato desses homens estarem sempre perseguindo a Jesus, e por isso tendemos a achar que Jesus lidava tranquilamente com isso, sem nenhum problema – afinal, Jesus sabia o que se passava no coração deles, né? No entanto, aqueles homens eram os líderes do “Povo de Deus”, aqueles que deveriam estar ensinando os caminhos de vida ao povo, aqueles que deveriam ser os exemplos e ajudar o povo a conhecer a Deus e amá-Lo... mas eles faziam exatamente o contrário. E, certamente, o coração de Jesus doía por conta disso. Ele era homem como nós.

Mas Jesus não desistiu. Ele não abandonou os judeus por causa disso. E Ele também não agiu de forma negligente, não se importando com o que aqueles homens pensavam e faziam, falando o que quisesse e fazendo o que quisesse, de qualquer forma, independente do resultado que aquilo teria, principalmente proveniente daqueles que armavam ciladas para Ele. Não. Jesus identificava as armadilhas, com a ajuda do Pai, e respondia a elas com sabedoria. Ele não precisava justificar-se àqueles homens pecadores e maus. Mas, Ele fazia, na medida do possível. Ele não precisava medir Suas palavras por causa do julgamento daqueles homens, mas Ele o fazia, na medida do possível.

Nesse episódio, especificamente, vemos isso. Os emissários enviados perguntam a Jesus se é lícito pagar tributos a César – porque eles esperavam que Jesus fosse pregar revolução contra Roma ou algo assim, e então diria que não se deve pagar tributos a César, já que boa parte desses tributos era cobrado de maneira injusta e opressiva. E Jesus sabia que aquela pergunta era uma cilada. E Ele poderia nem ter se dado o trabalho de responder. Mas Ele age com sabedoria, e com sabedoria responde: “Mostrai-me um denário. De quem é a efígie e a inscrição? [...] Dai, pois, a César o que é de César e a Deus o que é de Deus” (v.24-25). E a conclusão da narração é que: “Não puderam apanhá-Lo em palavra alguma diante do povo; e, admirados da sua resposta, calaram-se” (v.26). E esse versículo 26, pra mim, resume todo esse ensino.

Não adianta nos enganarmos e esperarmos que nossa vida cristã seja sempre linda, com pessoas lindas, honestas e bem intencionadas, que se dedicarão a nos ajudar e ao nosso bem. Não será assim. Muito mais do que imaginamos, nós encontraremos, dentro do nosso meio cristão, pessoas más, líderes maus, que procurarão puxar nosso tapete, nos enganar, nos apanhar em erros para conseguir nosso mal diante de outros... nós vamos viver isso. Por que posso afirmar isso? Porque Jesus viveu. E Sua vida é o nosso exemplo – para as coisas boas de se viver, e também para as difíceis. Porém, a grande questão para nós é como iremos enfrentar essas situações. E nossa resposta é a mesma: seguindo o exemplo de Jesus. Nós sempre teremos duas opções na hora de decidir como responder a algo que acontece em nossas vidas. Contudo, a Palavra de Deus nos chama a escolher o exemplo do Cristo – porque somos Seus seguidores e imitadores. E como Jesus agia diante dessas situações? Com sabedoria. Com domínio próprio. Com temor a Deus. Honrando o Nome do Senhor. De uma forma que se podia dizer a Seu respeito: “Não puderam apanhá-Lo em palavra alguma”. Jesus procedia de forma que não se tinha do que acusa-Lo. Suas palavras eram medidas, controladas e baseadas em amor. Ele não pagava mal com mal. Ele pagava mal com bem. E então, mesmo os seus acusadores, ao Lhe ouvir, saíam “admirados da sua resposta”, e calavam-se. Esse é nosso Jesus. Esse é nosso modelo. Alguém que poderia ter expressado toda Sua condenação e ódio por tudo aquilo que aqueles homens faziam, enquanto líderes religiosos do povo, mas não fazia assim. Respondia equilibradamente e com sabedoria. E era assim que até mesmo Seus inimigos O admiravam.


Esse é o chamado para nossas vidas. Que, mesmo nos momentos mais difíceis, mesmo quando formos enganados, quando forem armadas armadilhas para nos fazer cair – por aqueles que deveriam ser nossos irmãos e apoiadores da fé – que nossos olhos possam voltar para Jesus e lembrar de Sua sabedoria, domínio próprio e de Seu segundo maior mandamento: amar ao nosso próximo – e amar o nosso inimigo. Jesus viveu assim enquanto esteve em nosso meio, como homem. E nos convida a viver assim também. A sofrer as dores com longanimidade. Paciência. E fé em Deus. A não desistir. A perseverar. Porque nosso caminho é o caminho do amor, da misericórdia, do perdão, da compaixão, da GRAÇA – o mesmo caminho que Jesus escolheu e viveu. Porque Ele é o nosso exemplo, e sempre será. Porque as dores que Ele sofreu são e serão as nossas dores – mas a sabedoria, o amor e o temor a Deus com os quais Jesus decidiu reagir a essas dores também devem ser os nossos. Quando, na vida cristã, tivermos que ser expostos às piores ciladas, provenientes daqueles de quem menos esperávamos, que lembremos do exemplo de Jesus. E o sigamos. De forma que todos os que nos perseguem possam olhar para nossas vidas e “não podendo apanhar-nos em palavra alguma diante do povo; admirados da nossa resposta, calem-se”. Essa é nossa maior arma. E é assim que venceremos. Para a glória do nosso Pai e do Nome de Jesus. Ele nos ajude. Amém.

sexta-feira, 18 de março de 2016

Quaresma – Dia 33 – Aproximando-nos de quem?



“Aproximavam-se de Jesus todos os publicanos e pecadores para o ouvir” (Lucas 15.1)

Quem são as pessoas que têm se aproximado de nós? Quem são as pessoas de quem temos nos aproximado? Porque esse texto fala muito de quem era Jesus – e de qual era a Sua missão. Mesmo sendo Santo, mesmo sendo o perfeito Deus, os piores da sociedade (material e espiritual) sentiam-se atraídos por Jesus. E se aproximavam para ouvi-Lo. Ainda que Jesus falasse sobre pecado e o condenasse, ainda que Ele falasse sobre a Santidade do Pai e a necessidade de arrependimento, ainda assim... publicanos, pecadores, impuros, doentes, marginalizados, excluídos aproximavam-se dEle. Enquanto isso, os perfeitinhos e santos, os religiosos “filhos de Abraão” cada vez mais se afastavam dEle.

E nós? Quem são as pessoas que temos atraído? Será que nossa postura, nossa vida atrai os sujos, os pequenos, os marginalizados, os PECADORES deste tempo? Ou, ao olhar para nós, eles enxergam os juízes que só sabem condená-los ou os santos dos quais eles não são dignos de se aproximar? Porque, infelizmente, é assim que o mundo tem visto, muitas e muitas vezes, a nós, cristãos. Porque os ensinamos a ver assim. Porque fomos ensinados a nos manter longe dos pecadores. Não podemos nos misturar com quem não entende a teologia no mesmo nível que entendemos. Não podemos visitar igrejas que não sejam 100% santas em suas doutrinas. Não podemos ter amigos pecadores. Não podemos pisar em solo que não seja santo. Só podemos estar na companhia dos santos. E foi aí que construímos este muro que nos separa do mundo real – o mundo que Jesus veio salvar. Sem perceber, fazemos como os fariseus: “E murmuravam os fariseus e os escribas, dizendo: Este recebe pecadores e come com eles” (v.2). Fazemos isso com nossos irmãos. Fazemos isso em nossas igrejas. Perdemos, em nossas vidas, a misericórdia, o amor, a compaixão que havia em Cristo – e que atraía a Ele os piores pecadores. A misericórdia, amor e compaixão que ainda há nEle e que é o que continua atraindo a Ele os pobres desta terra – aqueles que nós rejeitamos.

E o ensino volta para o mesmo ponto: quando crescemos, Ele diminui. Quando nos achamos bons demais, é então que estamos mal. Quando consideramos o outro mau demais, é quando nós mesmos estamos assim. Quando o orgulho tem espaço, o espírito, certamente, não o tem. Não há espaço para este orgulho que olha as pessoas com superioridade, e a Presença Salvadora de Jesus. E Jesus vem, então, ensinar isso, por meio de várias parábolas – A ovelha perdida, a dracma perdida, o filho perdido – para ensinar uma coisa só: o Reino de Deus é para os perdidos, e não para os santos. Para os doentes, e não para os sãos. Para os imperfeitos, e não para os perfeitos. Por um fato simples: diante de Deus, não existem santos, sãos e perfeitos. Somos todos perdidos, doentes e imperfeitos. Contudo, para fazer parte do Reino dEle, precisamos nos reconhecer assim – e parar de nos sentir melhores do que os outros. Não há nada melhor em nós. Nada. Porque tudo que temos de bom é, puramente, graça de Deus. Em essência, somos exatamente iguais a qualquer publicano e pecador. E é por isso que Jesus nos recebe.

Termino com uma música que sempre me confronta demais. É um desafio constante para minha mente orgulhosa e soberba, para essa carne má que há em mim e que me faz acreditar, vez ou outra, que sou melhor do que sou – e que me faz desejar estar junto apenas dos santos e perfeitos. Até que eu paro e me lembro de Jesus – e de quais pessoas Ele escolheu estar perto. De quais pessoas estavam ao redor dEle. E volto a compreender onde devem estar os meus olhos e o meu coração. “Sou humano demais pra compreender...”.


Eu fico tentando compreender
O que nos Teus olhos pôde ver
Aquela mulher na multidão
Que, já condenada, acreditou
Que ainda havia o que fazer
Que ainda restara algum valor
E ao se prender em Teu olhar
Por certo haveria de vencer
E assim fizeste a vida
Retornar aos olhos dela
E quem antes condenava
Se percebe pecador
Teu amor desconcertante
Força que conserta o mundo
Eu confesso não saber compreender

Sou humano demais pra compreender
Humano demais pra entender
Este jeito que escolheste de amar quem não merece
Sou humano demais pra compreender
Humano demais pra entender
Que aqueles que escolheste e tomaste pela mão
Geralmente eu não os quero do meu lado

Eu fico surpreso ao ver-Te assim
Trocando os santos por Zaqueu
E tantos doutores por Simão
Alguns sacerdotes por Mateus
E, mesmo na cruz, em meio à dor
Um gesto revela quem Tu és
Te tornas amigo do ladrão
Só pra lhe roubar o coração
E assim foste o contrário,
O avesso do avesso
E por mais que eu me esforce
Não sei bem se Te conheço
Tu enxergas o profundo
Eu insisto em ver a margem
Quando vês o coração
Eu vejo a imagem

Sou humano demais pra compreender
Humano demais pra entender
Este jeito que escolheste de amar quem não merece
Sou humano demais pra compreender
Humano demais pra entender
Que aqueles que escolheste e tomaste pela mão
Geralmente eu não os quero do meu lado

Mas recebemos, em nós, o Revelador do Coração do Pai. Que Ele nos ensine a ver e a ser como Cristo é. Até que cheguemos à estatura do Varão Perfeito – Jesus, nosso Senhor. Para glória e revelação do Seu Nome na terra. Amém.



terça-feira, 15 de março de 2016

Quaresma – Dia 30 – Cuidado com a religião



"Então vocês dirão: ‘Comemos e bebemos contigo, e ensinaste em nossas ruas’. Mas ele responderá: ‘Não os conheço, nem sei de onde são vocês...”. (Lucas 13.26)

Cuidado com a religião – que nos convida para fazer parte do seu grupo, comer e beber com eles, caminhar nas mesmas ruas e ouvir dos ensinos do “seu profeta”. Porque não é esse o convite de Jesus. Não é isso o que o irá salvar. O que Jesus quer não é comer e beber conosco, nem ser ouvido enquanto pregava em nossas ruas. Para Ele, é preciso mais do que isso.

É preciso ESFORÇO. “Esforcem-se para entrar pela porta estreita...” (v.24). Uma vida religiosa que não exige nosso esforço não tem valor diante de Cristo. E o esforço é direcionado para uma coisa especificamente: entrar pela porta estreita. Não é esforço por esforço. Sofrimento por sofrimento. Não tem a ver com nos flagelarmos para sermos aceitos. Tem a ver com dedicar nossas vidas para o alvo certo – a porta estreita da salvação. No comentário de minha Bíblia Shedd sobre o verso 24, diz que o termo “esforço” diz respeito a “concentrar toda a atenção e força”. É isso. O convite de Jesus é pra uma vida cujas atenções e forças todas estejam voltadas para um fim – a porta estreita. A vida com Deus. Isso é muito mais do que sentar à mesa para comer e beber ou ouvir alguns ensinos.

É preciso abandonar o pecado. “Afastem-se de mim, todos vocês, que praticam o mal!” (v.27b). Não tem como atravessar a porta estreita praticando o mal. A Almeida Corrigida e Fiel diz: “vós todos os que praticais a iniquidade”. O Dicionário da Bíblia Almeida, do software The Word, define iniquidade como: “Pecado que consiste em não reconhecer igualmente o direito de cada um, em não ser correto, em ser perverso (Sl 25.11; 51.5; Is 13.11; Mt 7.23; Hb 1.9)”. Pecado. Uma vida de pecado. Não interessa se você comeu com Ele, bebeu com Ele ou quantas vezes você O ouviu pregar. Não interessa o quanto você achava os ensinos dEle legais. Se em sua vida não houve o abandono de pecado, nada disso terá valor nenhum, e você será deixado do lado de fora da porta.

Isso é sério. Muito sério. Jesus não está interessado em sua religião, em quantas vezes você vai à igreja durante a semana, em quanto você é amigo dos “irmãos”, em quantos sermões você já ouviu na vida... não tem a ver com fazer parte do grupo. Tem a ver com uma vida rendida ao Messias. Tem a ver com esforçar-se para agradar a Ele. Dar o seu melhor, todas as suas atenções e forças, para atravessar a porta – abandonando seus pecados e deixando o Espírito Santo reinar sobre sua vida. Estar no lugar certo não lhe garantirá nada. É preciso tornar-se a pessoa certa. E só quem pode fazer isso por você é Jesus. Nenhuma igreja e nenhum guru espirituais podem. Só tem um caminho: Jesus – caminho, verdade e vida.


Cuidado com a religião. Ela pode lhe enganar, cegar e levar-lhe ao inferno sem que você possa perceber para onde está indo. Esforça-te. Arrepende-te do teu pecado e abandona-o. Entrega tudo ao Cristo. Esse sim é o caminho. Jesus. E isso é mais, muito mais, do que qualquer religião. É revelação e transformação espiritual. Ele nos ajude.

sexta-feira, 4 de março de 2016

Quaresma – Dia 22: É o discípulo maior que o seu Mestre?



“É necessário que o Filho do Homem sofra muitas coisas, seja rejeitado pelos anciãos, pelos principais sacerdotes e pelos escribas; seja morto e, no terceiro dia, ressuscite” (Lucas 9.22)

É necessário. Sofrimento. Rejeição. Morte. Era NECESSÁRIO. Esse era o caminho do Messias. E Jesus estava falando a respeito de si mesmo.

Todos nós queremos a ressurreição. Todos queremos a glória do Messias – ser como Ele é em todo o Seu resplendor e glória, na eternidade de gozo e paz que teremos ao lado do Salvador, que será Rei sobre toda a terra. Ah, todos queremos. Queremos a coroa. Queremos os joelhos dobrados. Queremos ser reconhecidos. Queremos a ressurreição. Mas queremos a MORTE que a antecede? Queremos o sofrimento e a rejeição? Queremos a coroa de espinhos tanto quanto a de ouro? Queremos o abandono tanto quanto a morada celestial? Queremos o peso de uma cruz tanto quanto a ascensão ao céu? Porque, para que o Mestre chegasse ao Seu ponto de glorificação – a ressurreição, primeiro lhe foi necessário sofrer muitas coisas, ser rejeitado por todos os líderes de sua religião e, finalmente, ser morto. Foi-lhe NECESSÁRIO. Acaso é o discípulo maior do que o seu Mestre?

A vida cristã consiste em seguir os passos de Jesus. Isso é ser discípulos. E quando somos chamados para ser como o Cristo, não é apenas no amor, na alegria e no bem para com todos. É também na maneira que reagimos quando somos injustiçados, quando somos abandonados pelos que se juravam nossos melhores amigos, quando somos rejeitados e humilhados, quando sofremos nossas piores dores e nossos amigos dormem ou fogem, quando nos sentimos tão sós a ponto de sentir que o próprio Pai nos abandonou... a forma como carregamos a nossa cruz – ainda estando machucados, ensanguentados, doloridos, cheios de chagas. Isso é ser Cristão. Ser como Cristo em TODAS AS COISAS.

E é exatamente o que Jesus continua falando após esse versículo:

Se alguém quer vir após mim, a si mesmo se negue, dia a dia tome a sua cruz e siga-me” (v.23)

O caminho para seguir Jesus é de negação. Negar a si mesmo. Não existe outro caminho. A Bíblia Viva diz: “Aquele que quiser Me seguir, deve pôr de lado seus próprios desejos e carregar sua cruz cada dia”. E quando Jesus diz: “tome a sua cruz, dia a dia, e siga-me”, esse convite para seguir Jesus, após tomar a sua cruz, era pra onde? Era para o Gólgota. Seguir Jesus até o monte em que a crucificação ocorreria. Tomar a cruz é aceitar morrer. Dar sua vida. Abrir mão. Entregar tudo. Estar disposto a carregar o fardo e o peso da cruz. A sentir dor. A sentir-se solitário, muitas vezes. A sentir-se humilhado e desprezado. Até mesmo abandonado pelo Pai. Foi assim quando Jesus tomou a Sua cruz. Esse foi Seu caminho de cruz. E é o de todo aquele que resolve tomar cruz também. Compreender que haverá morte. Mas fazer como Abraão – só que o sacrifício, ao invés de ser de seu filho, seria de si mesmo.

Por quê? Porque a lógica de Deus não é a nossa lógica. “Pois quem quiser salvar a sua vida perde-la-á; quem perder a vida por minha causa, esse a salvará” (v.24). Porque, na lógica de Deus, ganha quem perde. Vive quem morre. É o primeiro quem é o último. É o maior quem é o menor. É exaltado quem se humilha. Bem-aventurado é o que chora, o que tem fome e sede, o que é perseguido. Essa é a lógica de Deus. Totalmente oposta à nossa. E se realmente desejamos nos tornar mais parecidos com Jesus, são essas coisas que precisamos começar a ver em nossas vidas. Se o que estamos vivendo se parece com o que Jesus viveu – e se estamos aprendendo a reagir como Ele reagiu. A olhar como Ele olhou. A valorizar as coisas que Ele valoriza.

Esse é o caminho que somos chamados a percorrer. Um caminho que pode parecer tão duro e cinza, às vezes. Mas, lembremos, que é o mesmo caminho que o nosso Mestre trilhou. O mesmo caminho que O conduziu à vida plena e eterna. À verdadeira glória. Portanto, um caminho que terminará em muito, muito gozo, paz e felicidade. Podemos confiar. Não é o discípulo maior do que o seu Mestre. Aquele que partilhar da morte de Cristo, também partilhará de Sua ressurreição. Essa é a promessa que nos foi feita. Mas não há ressurreição sem morte. Portanto, que a morte venha. Que venham os caminhos duros. Porque, no fim, alcançaremos a glória de toda nossa existência – ser como o nosso Mestre.

E eu termino com uma música que amo demais e que fala exatamente sobre isso. Espinhos, Grupo Logos. E que o Nome de Jesus cresça – e o nosso diminua. Toda honra e glória a Ele. Amém.




Senhor Jesus, eu não entendo o espinho
Mas se a cruz é o fim deste caminho
Dá-me mais graça, não sou maior que o meu Senhor
Apenas servo sou, apenas servo e nada mais.

Se as pontas aguçadas da coroa Te feriram, ó Cabeça
Eu que sou corpo, parte do Teu corpo, não devo reclamar.

Dá-me mais graça, Senhor! Dá-me mais graça!
Passa os Teus dedos nos meus olhos, vem me consolar
Dá-me mais graça, Senhor! Dá-me mais graça!
Faze-me em Cristo, outra vez
Ser mais que vencedor

Senhor Jesus, ainda não entendo o espinho
Mas se o mesmo faz parte da Tua cruz
Eu o aceito, não sou maior que o meu Senhor
Apenas servo sou, apenas servo e nada mais.

Senhor, se estou por Ti sendo provado quero aprovado ser agora
Sei o que tens a dizer, e creio nisto também, basta-me a graça.

Dá-me mais graça, Senhor! Dá-me mais graça!
Passa os Teus dedos nos meus olhos, vem me consolar
Dá-me mais graça, Senhor! Dá-me mais graça!
Faze-me em Cristo, outra vez
Ser mais que vencedor

Um vencedor em Cristo

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

Quaresma – Dia 16: Chamados para ser agricultores



"O semeador saiu a semear. Enquanto lançava a semente, parte dela caiu à beira do caminho; foi pisada, e as aves do céu a comeram.
Parte dela caiu sobre pedras e, quando germinou, as plantas secaram, porque não havia umidade.
Outra parte caiu entre espinhos, que cresceram com ela e sufocaram as plantas.
Outra ainda caiu em boa terra. Cresceu e deu boa colheita, a cem por um". Tendo dito isso, exclamou: "Aquele que tem ouvidos para ouvir, ouça! ".

"Este é o significado da parábola: A semente é a palavra de Deus.
As que caíram à beira do caminho são os que ouvem, e então vem o diabo e tira a palavra dos seus corações, para que não creiam e não sejam salvos.
As que caíram sobre as pedras são os que recebem a palavra com alegria quando a ouvem, mas não têm raiz. Crêem durante algum tempo, mas desistem na hora da provação.
As que caíram entre espinhos são os que ouvem, mas, ao seguirem seu caminho, são sufocados pelas preocupações, pelas riquezas e pelos prazeres desta vida, e não amadurecem.
Mas as que caíram em boa terra são os que, com coração bom e generoso, ouvem a palavra, a retêm e dão fruto, com perseverança".

(Lucas 8: 5-8, 11-15)

E se nós estivéssemos lá no caminho, e ajudássemos aquela semente que caiu à sua beirada a alcançar a terra profunda, onde as aves não a pudessem alcançar? E se estivéssemos lá ao lado daquele em cuja vida a semente foi lançada, intercedendo e colocando-nos na brecha para que o diabo não roubasse dele as Palavras de vida e salvação?

E se nós retirássemos as pedras e fôssemos os regadores que umedecem a terra, para que aquela semente não morresse pela sua secura? E se déssemos àquela terra as condições adequadas para possibilitar que a semente ali lançada criasse raízes? E se, na hora da provação, fossemos o braço e o abraço, o sustento, a palavra consoladora para aqueles em cuja vida as Palavras de vida e salvação foram lançadas, ajudando-os a crescer mesmo durante as provações?

E se arrancássemos os espinhos antes mesmo que aquela semente começasse a crescer, para que eles não a sufocassem? E se fôssemos aqueles que estariam ajudando aquele em cujo coração as Palavras de vida e salvação foram semeadas a compreender as vãs filosofias deste mundo e suas falsas promessas de felicidade, ensinando-lhe o caminho da verdadeira felicidade, caminhando com ele neste caminho, para que os cuidados, riquezas e prazeres deste mundo não lhe soassem tão atraentes assim?

O crescimento vem de Deus, é verdade (1 Coríntios 3.6). Mas nós podemos cuidar da terra e prepara-la para receber a semente. Podemos ser, como Paulo e Apolo, aqueles que plantam e regam. Os agricultores, que dão seu melhor para ajudar a terra a estar preparada para que as sementes lançadas sobre elas dêem muitos frutos. Ajudar a terra a chegar no nível de ser chamada de “boa terra”. Não, isso não garante que as sementes frutificarão. O frutificar é com Deus. Mas, ainda assim, somos chamados a cuidar da terra.

Cada um de nós já passou pelo momento em que o diabo veio roubar de nós as palavras enviadas por Deus aos nossos corações; em que as provações foram tão duras que o coração tornou-se seco e carente de água; em que os espinhos cresceram junto com nossa semente e os prazeres deste mundo atraíram nossos olhos, colocando em risco a vida das promessas de Deus para nós... e nós sabemos o quanto é duro enfrentar tudo isso sozinho. Como a solidão na caminhada cristã é dolorosa. Pela graça e misericórdia de Deus, nossas sementes não morreram, porque Ele intercedeu por nós. Porém, ainda assim, como desejamos ter tido o auxílio de irmãos na fé cuidadosos e amorosos ao nosso lado. Ou, quando os tivemos, como percebemos o valor de ter um verdadeiro irmão em Cristo combatendo esses combates conosco.

E nós também somos chamados a esta missão. Ser estas respostas aos nossos irmãos que sofrem, que estão fracos, que estão atraídos pelo brilho deste mundo, que estão passando por provações, que estão sendo atacados pelo inimigo... e nós somos aqueles que podem oferecer o ombro, os ouvidos, os conselhos, os consolos – mãos, pés, voz de Deus neste mundo. Talvez, mesmo sendo tudo isso, a semente não permaneça viva. Talvez não dê os resultados que gostaríamos que desse. O crescimento vem de Deus. Mas, ainda assim, devemos plantar e regar. Fazer nossa parte. Cuidar da terra – em amor.

Há tantos de nossos irmãos, ao redor deste mundo, lutando tão duras batalhas sozinhos. Irmãos e irmãs que conheceram verdadeiramente o Senhor Jesus, e que fazem parte da Igreja Perseguida de nossos dias – que desejam ter um companheiro de fé ao lado, que desejam aprender mais das Sagradas Escrituras, que desejam crescer na fé e no conhecimento do Filho de Deus. Homens e mulheres que tem sido abandonados por suas famílias, excluídos de suas comunidades, discriminados, perseguidos, maltratados, assassinados... pessoas que têm passado pelas mais intensas dores, por amor a Cristo – coisas que sequer podemos imaginar. E, sim, eles permanecerão fiéis, porque o Senhor que eles amam os sustentará. Mas, ainda assim, como lhes teria sido menos duro enfrentar isso ao lado de algum irmão na fé. Como teria sido menos duro NOS TER por perto. Saber que não estão sós. Ter a quem dar as mãos. Ter com quem compartilhar as lágrimas e os risos. Ter com quem andar. Sentir-se amado.

E se nós fôssemos essa resposta?


Chamados para ser agricultores. No mundo todo. Onde houver terra precisando de cuidados. Onde houver batalhas sendo enfrentadas. Onde houver dor. Onde houver solidão. Aonde o Senhor da Seara quiser nos enviar. E que Ele nos envie. Para a glória do Seu Nome e a salvação dos perdidos. Amém. Amém.


quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

Quaresma – Dia 15: Quebrando os Paradigmas Religiosos



“Afirmo-vos que nem mesmo em Israel achei fé como esta” (Lucas 7.9b)

A reflexão do vídeo devocional de hoje da Cidade Viva Pb (que você pode ver aqui), sobre esse trecho do Evangelho de Lucas, contando a história da cura do servo do centurião, já traz uma boa análise a respeito do assunto. Mas eu gostaria de avaliar um pouco mais o contexto por detrás desse evento vivenciado por Jesus e o significado destas palavras que Jesus pronunciou a respeito daquele centurião.

Primeiro, vamos lembrar algumas coisas sobre os judeus. Durante toda a história do povo de Israel, narrada no Antigo Testamento, os judeus foram O POVO separado de Deus. Eles eram únicos. Os únicos. Não havia mistura. Inclusive, em todo o percurso histórico deles, o grande mandamento de Deus era para que eles não se misturassem com os outros povos e não adotassem as práticas deles. Então, em todo o Antigo Testamento, vemos o povo de Israel sendo ensinado a manter-se separado dos demais, pois eles eram um povo especial – O POVO DE DEUS. E então, sabemos pelos estudos históricos, que os judeus acabaram desenvolvendo uma verdadeira inimizade contra todos aqueles que não eram judeus – como os samaritanos e os “gentios” de forma geral, entre os quais encontravam-se os publicanos e centuriões, que além de não serem judeus ainda trabalhavam para Roma na opressão de Roma sobre Israel. Então, essas pessoas eram consideradas inimigas – enquanto que os judeus achavam-se especiais, pois ELES ERAM “O Povo da Aliança” e, portanto, O Povo de Deus. Portanto, o sentimento de superioridade era algo comum a praticamente todos os judeus. Eles cresceram aprendendo a enxergar a vida dessa forma.

Aí nós chegamos neste texto, lembrando de uma segunda coisa: todo o texto que antecede esse fato, que se estende desde Lucas 5.17 até Lucas 6.49, como já discutimos anteriormente, está condenando as práticas e as vidas dos LÍDERES RELIGIOSOS do povo israelita. Aqueles que se sentiam os mais nobres judeus, “protetores da Lei”, estavam sendo desmascarados por Jesus e combatidos por ele – os fariseus e os escribas. Eles eram os maiorais dentro da religião judaica. E Jesus vinha enfrentando e denunciando várias de suas mentiras religiosas. E, logo após terminar de expor Seu confronto com os líderes religiosos do “Povo escolhido de Deus”, Lucas narra o encontro de Jesus com o Centurião Romano – um GENTIO, um (quase) INIMIGO de Israel. É verdade que aquele centurião tinha a amizade dos anciãos dos judeus, como diz o verso 5, era considerado “amigo do povo” e “digno” de receber o favor de Jesus, inclusive tendo construído a sinagoga de Cafarnaum. No entanto, ele continuava sendo gentio, e eu posso quase ter certeza que aqueles judeus, por mais que o considerassem amigo, não o consideravam como um igual. Ele ainda era gentio e ainda era romano.

E então, depois de ter reprovado tão duramente os escribas e fariseus diante de Seus discípulos, aquele centurião se comporta com tamanha fé, e Lucas registra que: “admirou-se Jesus dele” (v.9a). Que coisa linda de se dizer a respeito de alguém! Uma pessoa que conquistou a admiração do MESSIAS. Depois das palavras de tanta frustração e decepção de Jesus em relação AOS DO SEU POVO, Ele encontra aquele gentio e sente ADMIRAÇÃO por ele. E não apenas admira-se, mas declara aos Seus discípulos e aos que estavam reunidos ali: “Afirmo-vos que nem mesmo em Israel achei fé como esta” (v.9b). E eu fiquei pensando: que afronta estas palavras foram para os judeus ali reunidos! E que quebra de paradigmas! Porque, aqueles homens, tão acostumados a se sentirem superiores aos outros simplesmente por serem “os descendentes de Abraão”, são não apenas comparados a um centurião romano, mas considerados inferiores a ele – e não em qualquer coisa, mas na coisa que mais os definia como “especiais” – FÉ.

E penso que havia propósito nessa sequência de fatos. Jesus estava preparando os Seus discípulos. Seus discípulos precisavam daquela renovação da mente que Paulo menciona em Romanos 12.2. Eles haviam sido criados com tantos paradigmas religiosos, e tantos deles errados, resultando numa mentalidade tão diferente do que todas as revelações de Deus significavam, que eles precisavam aprender tudo de novo. Afinal, foi isso o que Jesus veio fazer, não é? Revelar o real significado da Lei. Todo o entendimento religioso que aquele povo havia adquirido até ali estava incompleto, e só em Jesus era possível compreender o sentido pleno. E era o que Jesus estava começando a fazer – transformar os Seus seguidores. Expô-los aos grandes erros de seu PRÓPRIO POVO – humilhá-los, diminuí-los, para que eles pudessem desenvolver a humildade e a compaixão necessárias para um discípulo Seu. Para que Eles pudessem compreender e também desenvolver o Seu Próprio Caráter. O caráter de Deus. E, para isso, eles precisavam diminuir, “baixar a bola”. E é o que está acontecendo aqui. Eles não apenas foram expostos às mentiras existentes na vida religiosa de seu próprio povo, mas também foram forçados a escutar Deus elogiando um “DE FORA DOS SEUS”, e considera-lo superior aos “escolhidos”.

E como Deus precisa fazer isso conosco! Oh, Senhor, quantas vezes temos nos achado superiores às pessoas que estão “fora do nosso círculo” – sejam pessoas de denominações cristãs diferentes da nossa, ou mesmo pessoas que são novas na fé, que estão conhecendo a Jesus agora – em contraste conosco, que conhecemos a Cristo “há tanto tempo”. E olhamos com menosprezo para nosso próximo, e com orgulho para nós mesmos. “Nós já conhecemos as grandes doutrinas teológicas” ou “nós fazemos parte da denominação mais bíblica”, e etc. E é quando Jesus precisa nos fazer passar por essas experiências que Seus discípulos passaram – de “baixar nossa bola”. Fazer um milagre na vida daquele irmãozinho tão simples, que conhece tão pouco ainda, mas que tem TANTA FÉ! Aquele irmão que talvez nem saiba explicar direitinho o plano de salvação ou a história da igreja, ou que talvez nem entenda direito essa coisa de ser Protestante, nunca estudo a Reforma, sabe o básico da Bíblia, mas SEU CORAÇÃO ESTÁ EM DEUS. Ele CRÊ. Ele sabe. Ele tem FÉ. Aquela fé que muitas vezes, por nosso excesso de paradigmas e de raciocínios, nos falta. A fé simples. A fé que diz: “Senhor, não te incomodes, porque não sou digno de que entres em minha casa. Por isso, eu mesmo não me julguei digno de ir ter contigo; porém manda com uma palavra, e o meu rapaz será curado. Porque também eu sou homem sujeito à autoridade, e tenho soldados às minhas ordens, e digo a este: vai, e ele vai; e a outro: vem, e ele vem; e ao meu servo: faze isto, e ele o faz” (v. 6-8). Tão diferente de tudo que se falou sobre os escribas e fariseus. Fé humilde. Fé sincera. A fé, o coração, a vida que aqueles discípulos precisavam aprender – a vida que nós precisamos aprender.

Quantos paradigmas existiam na mentalidade religiosa daquele povo, mesmo daqueles discípulos. Verdades que lhes foram ensinadas no decorrer de anos e anos. E que criaram raízes. E que não eram questionadas. E Jesus vem acabar com tudo isso. Ele vem questionar. Ele vem mostrar que estava errado. Ele vem reconstruir e revelar o verdadeiro sentido de todas as coisas. É o que Ele quer fazer conosco. Quebrar nossos “pré-conceitos”. Questionar nossos paradigmas. Nos levar a refletir acerca de nossas próprias vidas, antes de nos acharmos superiores a quem quer que seja. Nos mostrar que o que causa a Sua admiração é tão diferente do que causa a nossa. E que é com as coisas que despertam a SUA ADMIRAÇÃO que nós devemos nos preocupar. Seus critérios. Seus padrões. E não os nossos. Não os da religião. E que o Seu jeito de avaliar tem a ver com simplicidade, humildade, compaixão, fé sincera, confiança, entrega. A partir destas coisas vem a verdadeira religião.


Que Ele nos ensine. Amém.

domingo, 21 de fevereiro de 2016

Quaresma – Dia 12: A visão dos fariseus e a visão de Jesus


“Ora, aconteceu que, num daqueles dias, estava ele ensinando, e achavam-se ali assentados fariseus e mestres da Lei, vindos de todas as aldeias da Galiléia, da Judéia e de Jerusalém” (Lucas 5.17)

E aqui começa uma série de textos que mostram o conflito entre Jesus e os fariseus e mestres da Lei ou escribas. De Lucas 5.17 a 6.11, cada narração vem trazendo um confronto entre os feitos de Jesus e as reações dos religiosos judeus da época. E isso me chamou muita atenção, pois a tendência é nós lermos os textos separadamente, como se não houvesse ligação entre eles, como se fossem apenas narrações de histórias. Porém, parando para analisar mais um pouco, existe um padrão repetitivo entre eles, e talvez esse seja exatamente o propósito: reforçar uma ideia, para deixar bem claro aquilo que se gostaria de revelar. Vejamos que padrão é esse.

1) O padrão de Jesus: nesse trecho das Escrituras, de Lucas 5.17 a 6.11, Jesus faz 6 coisas – cura um paralítico, perdoando-lhe os pecados; chama para ser Seu discípulo um publicano, considerado pecador e inimigo dos judeus por cobrar-lhes impostos para dar a César; vai comer na casa desse publicano, ao lado de um monte de pecadores; defende seus discípulos, que não obedecem a lei do jejum, como os de João Batista; colhe espigas e as come num sábado, quando nenhum trabalho era permitido pela lei judaica; e cura um homem que tinha a mão ressequida, também num sábado.

2) O padrão dos fariseus: nesse mesmo trecho, vemos as 5 reações dos fariseus, mestres da Lei e escribas, as quais eu gostaria de destacar com os versículos referentes:

“E os escribas e fariseus arrazoavam, dizendo: Quem é este que diz blasfêmias? Quem pode perdoar pecados, senão Deus?” (Lc. 5.21)

“Os fariseus e seus escribas murmuravam contra os discípulos de Jesus, perguntando: Por que comeis e bebeis com os publicanos e pecadores?” (Lc. 5.30)

“Em seguida, eles [os fariseus e seus escribas] lhes observaram: “Os discípulos de João jejuam e oram com grande frequência, assim como os discípulos dos fariseus; no entanto, os teus vivem comendo e bebendo” (Lc. 5.33)

“E alguns dos fariseus lhe disseram: Por que fazeis o que não é lícito aos sábados?” (Lc. 6.2)

“Os escribas e os fariseus observavam-no, procurando ver se ele faria uma cura no sábado, a fim de acharem de que o acusar” (Lc. 6.7)

E eu queria começar destacando os comportamentos dos fariseus e escribas. O que eles têm em comum? É incrível! Eles só estavam preocupados com a LEI! Era só isso o que eles conseguiam enxergar: regras, normas, leis que precisavam ser mantidas, porque era assim que deveria ser e essa era a missão deles – os “guardiões da lei”, como costumavam ser chamados. Os “construtores dos muros” que deveriam proteger as pessoas do descumprimento da LEI. E eu fiquei tão espantada com o nível de cegueira dessas pessoas! Não sei se temos como dizer se eles agiam assim por maldade ou se era simplesmente a cegueira do pecado. No fim, acho que acaba sendo a mesma coisa. Porém, não acho que era proposital, mas simplesmente cegueira. Estavam cegos. Fixaram tanto os seus olhos nos DEVERES, nas REGRAS  a serem cumpridas na LEI, que tornaram-se totalmente incapazes de olhar além, de enxergar A VIDA e o SER HUMANO que existiam por trás da negra nuvem de normas que eles se dedicavam a defender. E eu realmente acho que era isso o que Deus queria nos mostrar com esses 5 ou 6 sucessivos confrontos entre Jesus e esses RELIGIOSOS.

Eu não acredito que devamos olhar para fariseus e escribas como “as pessoas más” daquele tempo. Não. Eles eram os líderes da religião judaica – a religião do Povo escolhido por Deus – naquele tempo. Eram religiosos. E acho que o que eles representam é exatamente isso: aqueles que são RELIGIOSOS, mas tão religiosos que acabam tornando-se cegos para a vida que acontece ao seu redor. E, quando olho para nós, mesmo os mais dedicados entre nós, como eu vejo a facilidade com que podemos nos encaixar nesse modelo dos fariseus. Quantas vezes temos reproduzido, mesmo sem perceber, a visão dos fariseus e escribas. Olhamos para “o cisco no olho” do irmão, enquanto esquecemos a trave em nossos olhos. Estamos tão preocupados procurando erros teológicos, a falha na igreja fulana de tal, a queda do “irmão”, a oportunidade para apontar o dedo e expor o erro alheio, nos achamos tão “guardiões da verdade”, que nos tornamos frios. Ferimos os outros, com a desculpa de “defender a verdade”, e isso nem nos incomoda mais. Nos achamos tão certos em tudo o que defendemos, que todo aquele que discordar de nós acaba merecendo ser “desmascarado” e julgado (e condenado!).

Eu me considero uma seguidora da fé reformada, a fé defendida nos primórdios da Reforma Protestante, a qual acredito ser a fé bíblica. E quanto eu tenho visto esse pecado do farisaísmo, do legalismo, do julgamento frio e sem amor, das discussões sem valor, das briguinhas sem sentido, nesse meio. E não apenas nos outros. Eu também já fui assim. Me sentindo tão dona da verdade, e apontando o dedo ou virando o nariz pra quem fosse diferente. E tenho visto isso se reproduzindo tantas vezes. Valorizamos tanto a “teologia” que esquecemos que existe SERES HUMANOS por trás da teologia. Nos preocupamos mais com a quantidade de água usada para o batismo do que com o ser humano declarando seu compromisso com o Cristo. Nos preocupamos mais com as palavras que devem ser usadas na hora de fazer um apelo (ou com o fato de estar certo ou não fazer um apelo) do que com os seres humanos que levantam-se de seus lugares, desejando conhecer ou seguir o Cristo. Nos preocupamos mais com o nível de “coerência teológica” de uma música que está sendo cantada do que com a aproximação que aquela música pode gerar entre um ser humano e o Cristo. Nos preocupamos tanto em corrigir os outros, que deixamos o AMOR morrer em nós.

E, quando olhamos para Jesus, o que Ele estava fazendo em todas essas situações? Ele estava olhando para PESSOAS. Estava revelando misericórdia, compaixão, graça, AMOR por um paralítico e seu grupo de amigos que foram capazes de levanta-lo até um telhado, para conseguir coloca-lo diante da sua presença; por um publicano, pecador, que necessitava de uma chance para mudar, e de seus amigos que aceitaram o convite para também conhece-Lo; por Seus discípulos, que mereciam alegrar-se e celebrar a Sua presença e que mereciam comer, ainda que fosse em um sábado; e por um homem que tinha a mão defeituosa. Seres humanos necessitados do Seu amor. E era isso o que Ele enxergava. Essa era a visão de Jesus. Pessoas e suas histórias de vida. Era isso o que Ele olhava primeiro. Porque “Os sãos não precisam de médico, e sim os doentes”. Misericórdia. Que diferença. De uma visão tão pesada e penosa como a dos fariseus, tão dura, tão cinzenta, nós olhamos para Jesus e vemos um quadro totalmente diferente – tão suave, tão leve, tão bonito, tão límpido. E é uma vida assim que Ele nos comprou para viver. Mas isso só é possível quando nosso caminho também for de graça, misericórdia, compaixão e AMOR, acima de todas as outras coisas. E é isso o que nós precisamos lembrar.

Jesus não condenou o zelo e cuidado que os fariseus tinham com a Lei, porque a Lei havia sido dada por Deus e Deus não se arrepende ou volta atrás. O que Jesus condenava naqueles religiosos é que eles fixaram de tal forma seus olhos na letra da Lei que perderam a capacidade de compreender seu real significado. Perderam a essência. Perderam-se. É óbvio que a busca pelo conhecimento e entendimento teológico jamais será uma coisa condenável. E a defesa da verdade bíblica também não. Eu amo teologia e amo conversar sobre assuntos teológicos. Aliás, costumam ser meus papos preferidos. E isso não é errado. Paulo cita, em 1 Coríntios 12, diversos dons que o Espírito Santo dá aos salvos, dentre os quais estão a palavra de sabedoria e a palavra do conhecimento (v.8), e o ofício de mestre (v.28), que são dons e chamados para o estudo e ensino das Escrituras. Deus nos capacita e chama para isso. Contudo, após terminar sua exposição acerca da diversidade de dons, Paulo faz questão de fechar o assunto com um dos meus textos favoritos na Bíblia: 1 Coríntios 13 – “O amor é o dom supremo”. O último verso do capítulo 12 diz: “Entretanto, procurai, com zelo, os melhores dons” (v.31). E o primeiro verso do capítulo 13 diz: “E eu passo a mostrar-vos ainda um caminho sobremodo excelente”. Então, Paulo passa a falar deste que é O MELHOR DOM, sem o qual TODOS OS DEMAIS perdem o valor – o AMOR. Sem ele, “serei como o bronze que soa ou como o címbalo que retine” (v.1), “nada serei” (v.2), “nada disso me aproveitará” (v.3). Foi o que aconteceu com os escribas e os fariseus. Tinham a Lei, mas não tinham amor. E, sem amor, de nada adiantará nossa vasta teologia.


Que Deus nos livre deste descaminho! Que o Espírito Santo nos convença quando nossa visão estiver como a dos fariseus e escribas, quando formos mais religiosos do que CRISTÃOS – seguidores do Cristo - , quando nosso zelo pela “Lei” prejudicar nossa capacidade de enxergar AS PESSOAS e de amá-las. Deus nos livre disso! Que Ele nos ensine a ver como Jesus vê. Pessoas, primeiro. Vidas. Seres humanos que Ele criou segundo Sua imagem e semelhança. E que nada seja maior do que o AMOR – a Deus e a elas – em todas as nossas motivações. Que possamos ter a visão de Jesus. Misericórdia, graça, compaixão e AMOR. E que, assim, o Nome do nosso Salvador possa ser glorificado nesta terra. Por meio de nós. Amém.