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segunda-feira, 20 de julho de 2020

Um Deus relacional. Uma relação de amor.


Nesse dia do amigo, me pego pensando na profundidade do significado de nossas relações humanas na vida. Se pararmos pra refletir com um pouco mais de calma, perceberemos que, no meio dos tantos tesouros oferecidos a nós nessa vida, no fim, são as nossas relações uns com os outros o que realmente tem valor. Uma amizade, um casamento, uma relação pais e filhos, família, até mesmo nossas relações com nossos bichinhos de estimação. No fim de tudo, a coisa mais bonita e valiosa que encontraremos nesta vida é encontrada nas relações. 

Isso me remete a um comentário do Pr Filipe Fontes, em uma reflexão sobre o casamento: costumamos pensar que Deus escolheu algumas imagens existentes no mundo para revelar a si mesmo em sua Palavra - escolheu a figura de um pai, de um filho, de um leão... a coisa criada para revelar Quem Ele é. Porém,a verdade é que Deus já era antes de tudo ser criado. A verdade é que ele CRIOU todas as coisas a fim de que elas pudessem revelar Quem Ele é. E que fantástico isso é! Porque ao invés de pensar que Deus achou a ideia de "família" ou "amizade" suficientemente boas para explicar a Si mesmo, Ele intencionou criar essas coisas, na profundidade de sua beleza e significado, para nos ajudar a compreender a profundidade da Sua beleza e significado. E isso muda drasticamente a forma como devemos olhar para um noivo e uma noiva, um pai e um filho, dois irmãos, dois amigos, pois essas coisas foram criadas para expressar a relação que Deus tem para viver conosco!

E tudo isso nos chama a pensar de onde surgiu todo esse significado das relações para que elas sejam tão importantes, tão marcantes e determinantes em nossas histórias. Por que Deus se revela primordialmente por meio de relacionamentos? E é quando somos chamados a olhar para a Trindade. No princípio, era Deus. E Deus é Pai, Filho e Espírito Santo. No princípio, era o relacionamento mais pleno, bonito, gracioso, amoroso, verdadeiro, profundo, íntimo, perfeito de todos: o relacionamento de Pai, Filho e Espírito Santo. É a partir desta relação que todas as coisas são criadas. E é para expressar e partilhar essa relação que todas as coisas são criadas. 

Que diferença faz pensar em um Deus individual criando todas as coisas, e pensar em um Deus Triuno criando todas as coisas. Pai, Filho e Espírito Santo, juntos, criando. Revelando não somente ao Pai, mas revelando a perfeita unidade da Trindade. Porque isso muda como enxergamos o propósito de todas as coisas. O propósito da criação. Não um propósito pragmático, focado em metas a serem alcançadas, em um trabalho ou função a ser cumprida, definidas por um chefe trabalhador que tem um importante projeto a cumprir. Um propósito relacional: um novo estilo de vida, o estilo de vida que a Trindade vive e deseja partilhar com toda a criação. Não é totalmente diferente?

Talvez toda essa sensação maravilhosa que sentimos quando nos encontramos em verdadeiros e íntimos relacionamentos de amor seja uma gota do que Deus deseja nos revelar sobre si mesmo e Seu propósito eterno: é parecido com isso o que Ele é e o que Ele nos chama a ser e a viver com Ele nessa vida! Um relacionamento de amor. Não é isso o que Ele está construindo? Uma festa de casamento? Não é assim que a história vai acabar: com as Bodas do Cordeiro? Ah, que imagem maravilhosa! A imagem do fim da história não é a coroação de um Rei, é um casamento! Talvez o momento mais incrível vivido por um ser humano nessa terra: o noivo apaixonado que, finalmente, receberá sua amada para uma vida de unidade e intimidade plena, a maior intimidade que se pode viver nessa terra! Lágrimas nos olhos, coração palpitando, sorrisos que não cabem no rosto, e toda a alegria das pessoas que amam aquele casal e torcem para sua mais plena felicidade... Que quadro maravilhoso de se pensar para o fim da história do Deus Eterno! 

Essa é uma história de amor. Que começa com a mais bela relação de amor. Que se desenvolve com um chamado para participação nesta linda relação. Que termina com a celebração da unidade plena, final e eterna desta relação de amor. Não é lindo pensar em um Deus assim? Tenho para mim que, quando O encontrarmos face a face, veremos nEle um olhar apaixonado muito mais apaixonado do que podemos imaginar! O olhar do Noivo que, finalmente, recebe Sua Noiva no altar. Que isso mude nosso jeito de pensar nEle, em nós, na história que está sendo escrita nesse mundo e na vida que estamos sendo chamados a viver. 

Um Deus relacional. Um chamado relacional. Uma vida relacional. Um relacionamento de amor.

domingo, 27 de março de 2016

Quaresma – É Páscoa! – Ele Vive! Aleluia!



“Por que buscais entre os mortos ao que vive? Ele não está aqui, mas ressuscitou.” (Lucas 24.5b-6a)

Ressuscitou! Jesus Cristo vive! Aleluia!

Para renovar, fortalecer, conceder-nos fé. E, por isso, Ele ressuscita em secreto, sem ninguém ver. E revela-se primeiro aos improváveis, aos de menor posição – às mulheres (v. 5-8). Porque essa notícia era para ser recebida pela fé. Não pelo que os olhos diziam ou podiam confirmar. Não pelo raciocínio. Não pelos cálculos da inteligência humana. Mas pela fé. Porque toda a caminhada dali em diante seria pela fé. E Sua ressurreição precisava nos ensinar isso, e conceder, renovar, fortalecer nossa fé.

Para nos lembrar do valor da intimidade e do relacionamento. E, por isso, foi no caminhar ao lado, no ouvido atento, no compartilhar das dores e, principalmente, no partir do pão que Ele se revelou pela segunda vez, aos discípulos entristecidos no caminho de Emaús (v.13-32). Para nos lembrar que Sua ressurreição é para o dia-a-dia, para todos os nossos dias e, em especial, para os dias cansados e entristecidos; que Sua ressurreição era o cumprimento da promessa de que Ele permaneceria ao nosso lado todos os dias, até a consumação dos séculos – e que Ele continua a se importar com nossas dores e a querer participar de todos os nossos momentos, e a partir o pão conosco, o pão da Palavra e o pão para o corpo. Ele ressuscitou para andar com a gente – e é no relacionamento, no coração ardendo, e nos momentos mais singelos de intimidade que O reconheceremos, e que nossa fé e nossa vida se renovarão.

Para renovar nossas esperanças de salvação e vida eterna. E, por isso, Ele faz questão de mostrar aos Seus discípulos que Sua ressurreição foi não apenas em espírito, mas também em carne – possível de ver, de apalpar, de verificar. Porque essa é a promessa de ressurreição que nos foi feita. Porque, provavelmente, se os discípulos não O pudessem tocar e sentir, com seus próprios sentidos, eles pensariam que esta ressurreição era apenas para os seres celestiais, os “espíritos elevados” ou esse tipo de coisa que costumamos pensar quando vemos o sobrenatural de Deus acontecendo na vida de alguém. Mas Jesus lhes concede uma prova, sinal vivo e verificável, para aumentar-lhes a fé e renovar as esperanças da vida vindoura. Uma vida na qual não teremos apenas nossos espíritos, mas nossos próprios corpos ressuscitados e glorificados – como eles foram criados para ser, à semelhança do Messias. Sua ressurreição é também nossa promessa viva e real de nova vida.

Para revelar nossa missão aqui nesta terra: “e que em seu nome se pregasse arrependimento para remissão de pecados a todas as nações, começando de Jerusalém.” (v. 47). Uma vez tendo recebido fé, companhia, esperança e vida real para nossa caminhada, também revelar ao mundo inteiro o caminho para todas essas promessas. Apontar-lhes a porta. Ser porta-vozes das Boas Novas de Deus para a humanidade. Permitir que TODAS AS NAÇÕES recebam estas boas notícias que trazem vida eterna, e ajudar-lhes a alcançar as promessas que, por graça alcançamos, por meio do arrependimento e remissão dos pecados, no Messias enviado, Jesus Nazareno. E não em nossas próprias forças, mas na promessa dada pelo Pai ai Filho, de revestir-nos com o poder vindo do alto.

Para nossa alegria e nossa união. Porque, ao encher o coração de Seus discípulos de júbilo (v. 52) e ao mantê-los sempre unidos, no templo, louvando Seu Nome, Deus seria glorificado neste mundo. Pois, quando o mundo vê discípulos fiéis, regozijantes e unidos em louvor, mesmo após a morte do seu Mestre, o mundo começará a perguntar o motivo da nossa fé – e a também refletir sobre a verdade da Sua ressurreição. Porque é na Sua ressurreição – e no retorno de nosso Mestre ao Pai – que passaram a residir nosso júbilo, nossa paz, nossa esperança, nosso elo. Somos UM nEle. Ele nos une. Ele nos mantem juntos. E, quando assim permanecemos, em amor e regozijo, o mundo O conhecerá. O mundo O verá em nós. Passamos a ser Seu Santuário. Sua Casa. Seu Templo móvel, que pode alcançar o mundo inteiro. É assim que O glorificamos.

E, por todas essas coisas, nosso Redentor Ressuscitou! Ele vive! Aleluia! Nossa maior glória! Nossa maior felicidade! Nossa fonte de alegria e esperança! Nosso Salvador Vive e Reina! E nada mais poderá detê-lo ou superá-Lo! Nem mesmo a própria morte O deteve. Está consumado. Está concluído! E nós recebemos o PRIVILÉGIO, a INSONDÁVEL GRAÇA de ser participantes disto! Aleluia! Nosso Senhor Vive! Isso é Páscoa! Nossa Passagem: da morte para a vida. A Eterna Vida! Ele vive! Aleluia! Vem, Senhor Jesus!


quinta-feira, 24 de março de 2016

Quaresma - Dia 38 - Capacitados pelo Mestre


"Assentai, pois, em vosso coração de não vos preocupardes com o que haveis de responder; porque eu vos darei boca e sabedoria a que não poderão resistir, nem contradizer todos quantos se vos opuserem" (Lucas 21.14-15)

Às vezes, paro pra olhar pro trabalho que alguns missionários tem feito ao redor do mundo, em realidades tão difíceis, de povos fechados ao evangelho, inimigos declarados de Jesus, e verdadeiros milagres acontecendo e sendo relatados. Vejo pessoas com uma capacidade incrível de compartilhar o evangelho, levar pessoas ao conhecimento de Jesus, abrir igrejas e trabalhos... e aí olho pra mim, desejando dedicar minha vida para esse propósito, e vejo tão pouco da fé, coragem, ousadia, entre tantas outras coisas que vejo nessas pessoas, e fico me perguntando se sou a pessoa certa para essa obra.

E quando li esse texto, ele foi pra mim. Porque ele diz que Deus mandaria perseguições e prisões aos seus discípulos, como oportunidade para testemunhar, mas que, quando essas oportunidades aparecessem, eles não precisavam ficar se preocupando com o que iriam falar, porque o próprio Deus colocaria a palavra certa em suas bocas, de tal forma que ninguém poderia resistir nem contradizer. Isso não é fantástico? Que esperança e segurança isso me traz. Mas também aquela necessidade sempre presente de me esvaziar de mim mesma, de sair do controle, de largar os remos e o volante, e tornar-me dependente. Fé. Entrega. Novamente, o que Jesus vem nos pedir.

De fato, a capacidade para ver os milagres acontecendo, ver o inimigo transformando-se em amigo, ver o perseguidor transformando-se em defensor, ver coisas como líderes mulçumanos, membros do Estado Islâmico, feiticeiros líderes de comunidades inteiras reconhecendo o Senhorio de Jesus e passando a ama-Lo e segui-Lo... não pode vir de esforços humanos - somente do agir do Senhor. E é isso o que precisa ser lembrado. Não somos nós. Quando o Pai me levar para servi-Lo perante os Seus inimigos, não serão as minhas palavras - e nem devem ser - mas as dEle. E isso requer dependência e entrega. Isso requer fé. Uma fé que costuma ser mais difícil de viver do que nossa autosuficiência natural.

Mas a vida cristã e o serviço ao Reino nada mais é do que isso. Não o quanto me capacitei e estou pronta - ainda que toda capacitação seja bem vinda, quando oportunizada. Não é sobre isso. É sobre o quanto tenho estado com o Mestre, entregue, submissa, confiante no Mestre, para poder ser capacitada por Ele. Pois só Ele tem o poder para fazer a obra do Seu Reino cumprir Seu propósito. É no Seu poder e não no nosso. Capacitados pelo Mestre. E que essa seja nossa maior arma, nossa maior confiança e segurança. Menos de nós, e mais dEle. Para que, em todas as coisas, a honra e a glória sejam UNICAMENTE dEle. E que assim seja. Amém.

Quaresma - Dia 37 - Nossas pequenas moedinhas


"Viu também certa viúva pobre lançar ali duas pequenas moedas; e disse: Verdadeiramente, vos digo que esta viúva pobre deu mais do que todos" (Lucas 21.2-3)

E acho que nós sempre precisaremos lembrar desse ensino da Palavra. Achamos que Deus está interessado em nossa produtividade, nossa utilidade, quantas coisas temos em nossas mãos para oferecer a Ele, o tamanho de nossas ofertas, o tamanho de nossos dons, nossas capacidades, nosso trabalho, nosso tempo em atividades religiosas... E aí as Escrituras nos falam desta viúva pobre. Lá estavam os ricos lançando suas enormes ofertas e achando-se tão importantes por isso, mas é à viúva que Jesus elogia - com suas duas ínfimas moedinhas. Porque não é com a quantidade da oferta que Ele se preocupa, é com o tamanho da entrega. Não com nossas capacidades à serviço dele, mas com nossas vidas entregues a Ele. Aquela viúva se entregou, integralmente, a ponto de entregar sua sobrevivência - ainda que isso significasse apenas duas moedinhas no fundo do gazofilácio.

E nós precisamos aprender isso com ela e com aqueles ricos. Os grandes montantes entregues por aqueles homens ricos não impressionaram Jesus. Porque Ele olha para dentro, e não para fora. Foi o coração daquela mulher, provavelmente desprezada por aqueles homens ricos, provavelmente se sentindo tão pequena e sem utilidade, provavelmente envergonhada por entregar tão pouco... mas foi o coração dela que despertou a admiração do Mestre. E é assim conosco.

Quanto tempo e energias temos gastado tentando conquistar a admiração do Mestre por meio de nossas muitas ofertas - nosso muito trabalho, nossas muitas atividades, nossa muita inteligência, nossos muitos dons e capacidades... e quantas vezes temos vivido sobrecarregados e infelizes por nunca nos sentir bons o suficiente para agradar ao nosso Senhor, sempre sentindo precisar de mais, sempre nos cobrando uma oferta maior... quando nos esquecemos que não é nada disso o que Ele está procurando em nós. E não é por nenhuma dessas coisas que Ele nos ama. Não é com essas coisas que Ele está preocupado e interessado. E vamos perdendo nossas vidas investindo nas coisas erradas - nas coisas que agradam e conquistam a admiração dos homens, mas não a de Deus.

É nossa vida o que Ele deseja. Nosso coração o que Ele quer. Uma entrega total, amor total, confiança total... é uma condição interna, não externa. É a mudança e o compromisso que nenhum homem pode ver, só Ele pode. E é com isso que Ele se importa. Não interessa qual será o resultado da conversão disso em bens quantificáveis e observáveis. Não importa se serão apenas duas moedinhas. É nossa vida - toda ela - o que Ele quer. Nosso amor. Só. Não precisamos convencê-Lo que somos bons ou dignos de ser amados. Nós não somos. Mas Ele nos ama mesmo assim. Porque escolheu nos amar. Não precisamos ficar nos esforçando para conquistar o Seu amor e aprovação.  Não temos essa capacidade. Ele já nos ama INTEGRALMENTE. Numa medida que não pode ser aumentada ou diminuída. E nada vai mudar esse amor (Rm. 8). Não precisamos nos cansar tanto, sobrecarregar tanto, e nem mesmo nos culpar tanto por não termos mais do que nossas duas moedinhas para entregar. Ele nos ama independente disso. E o que Ele está realmente olhando é se o que entregamos reflete a condição de entrega do nosso coração. Se ela é total, não importa que sejam apenas nossas pequenas moedinhas... é a oferta perfeita e suficiente para Aquele que, dia a dia, escolhe nos amar.

segunda-feira, 21 de março de 2016

Quaresma – Dia 34 – Vocação de Jesus, nossa Vocação



“[...] lembra-te de que recebeste os teus bens em tua vida, e Lázaro igualmente, os males; agora, porém, aqui, ele está consolado; tu, em tormentos” (Lucas 16. 25)

Quanto mais eu leio o Evangelho de Lucas, mas vejo como este ensino de Jesus se repete, vez após vez: Jesus veio para os desprezados deste mundo. Isso é tão claro. Capítulo após capítulo, lá está Jesus e os fariseus opondo-se um ao outro: Jesus aproximando-se dos excluídos, ensinando sobre misericórdia, compaixão e amor; e os fariseus, odiando-O por isso, e nos ensinando sobre orgulho, autojustiça e discriminação. De tudo o que tenho aprendido do estudo deste Evangelho, isso tem se destacado. E, neste domingo, pude perceber ainda mais a profundidade, a extensão, a relevância desse ensino.

Fui visitar uma igreja nesse domingo, onde estava acontecendo o Musical de Páscoa deles, com coral, teatro e dança. Foi lindo. É sempre um privilégio poder VER a história das Boas Novas sendo encenada. Pensar em Jesus como um homem de “carne e osso”, vivendo no meio de homens “de carne e osso”, e imaginá-Lo, por meio daquele homem que O encenava, fazendo todas as coisas que a Bíblia nos diz que Ele fazia. Isso me toca profundamente. Abre minha mente, meus olhos. E senti isso naquele dia. E, particularmente, em um momento da encenação: Jesus reunido com Seus discípulos, alegre, sorridente, e aproximando-se dEle os coxos, os cegos, os endemoninhados... e Jesus aproximando-se de cada um deles com amor, e libertando-os – e, talvez pela primeira vez na vida de algumas daquelas pessoas, AMANDO-OS. Como isso foi profundo pra mim. E entendi que essa era a vocação de Jesus, ou fazia parte de Sua vocação: AMAR. E amar exatamente aqueles que não eram amados – os excluídos, os rejeitados, os desprezados.

A gente, com certeza, não tem ideia de quanto a exclusão de aleijados, endemoninhados, leprosos, doentes, pecadores, etc, era algo forte no tempo e na sociedade em que Jesus viveu. Mas a Lei falava para o povo de Israel separar de seu meio os “impuros”, para não se contaminarem. E o povo transformou essa “separação dos impuros” em exclusão mesmo. E nós não temos como imaginar como se sentiam os leprosos, a mulher do fluxo de sangue, os doentes (que eram considerados pecadores), os samaritanos, os publicanos, as prostitutas, os pobres, etc, no meio daquele povo que se considerava tão santo que não poderia nem se aproximar deles. Não podemos imaginar quanto eles se sentiam impuros, indignos, sujos, lixo naquela sociedade. Porque, provavelmente, eles haviam sido tratados assim durante toda ou quase toda sua vida. E eles também já deviam ter sido convencidos de que eram o que todo mundo afirmava que eles eram.

E aí chega Jesus. Nossa! Isso é tão forte! A gente já tá acostumado com o fato de Jesus se aproximar dessas pessoas, a ponto de não percebermos o significado disso. Mas NINGUÉM se aproximava dessas pessoas. NINGUÉM se importava com elas. Elas eram NINGUÉM. E lá está nosso Mestre: não apenas aproximando-se delas, mas estendendo a mão, tocando, curando, AMANDO. E é por isso que, cada dia mais, eram essas pessoas que se aproximavam de Jesus. Ele quebra todos os protocolos e todos os paradigmas. Descontrói tudo, para, então, reconstruir. Tudo. Estava eu lendo os capítulos 15 em diante do livro de Lucas e percebendo de quantos rejeitados Jesus fala até o capítulo 18: o pecador (representado pelo Filho Pródigo, em Lc. 15.11-32), o pobre (representado por Lázaro, em Lc. 16.19-31), o doente (representado pelos 10 leprosos, de Lc. 17.11-19), o que está fora do nosso círculo religioso (representado pelo publicano, de Lc. 18.9-14), os inúteis (representados pelas crianças, de Lc. 18.15-17), e continua nos capítulos seguintes – o cego de Jericó, Zaqueu. Os desprezados. Até as crianças! Hoje, vivendo numa sociedade que entende seu dever de proteger as crianças, por serem indefesos, não entendemos quanto as crianças eram desprezadas naquela sociedade. Mas muitas sociedades patriarcais, ainda hoje, como no Oriente, ainda as trata assim – não podem contribuir com nada, não tem nada para oferecer, então só tornam-se “alguém” quando crescem e podem participar da “vida da sociedade e da família”. E vem Jesus abraça-las e dizer que para entrar no Reino dEle é preciso receber o Reino como elas.

E, diante de tudo isso, diante do Evangelho lido e visto naquela encenação, entendo que esta é a nossa vocação. Foi para estes que Jesus veio. De tantas formas, a Sua Palavra tenta nos mostrar isso. Foi para os pequenos, os invisíveis, os que são “nada” que Ele olhou. E é para eles que devemos olhar também. Eu olhava para aquele homem, encenando Jesus, curando aquelas pessoas com um sorriso no rosto, e pensava: eu quero ser isso neste mundo também! Quero ser aquela que irá olhar para aqueles a quem ninguém olha, aqueles que se acham ninguém, aqueles que não tem mais esperança, os rejeitados, os sem voz, os esquecidos... quero ser Jesus para eles. Quero fazê-los saber que Deus se importa com eles, que Jesus veio ao mundo para eles e que Ele tem vida nova, plena, eterna para lhes oferecer. Que Jesus tem identidade e propósito para suas vidas. Que eles são importantes, são especiais, são amados por Deus – e que Ele nunca os esquece. Quero ser a presença viva e palpável de Deus nas vidas dessas pessoas. Ir àqueles a quem ninguém vai. Levar amor aonde não existe amor. A vocação de Jesus como minha vocação. A vocação de amar – aqueles que já nem acreditam mais em amor.


Vocação de Jesus, nossa vocação. E que nossas vidas possam ser como a vida do nosso Mestre. Sua missão, nossa missão. Seu chamado, nosso chamado. Sua vida, nossa vida. Que seja assim. Que Ele nos ensine. Que Ele nos ajude. E que possamos ser Seus verdadeiros embaixadores e representantes, fiéis e perseverantes, em amor, neste mundo. Para que Seu Nome seja glorificado. Que assim seja. Amém e amém.

sexta-feira, 18 de março de 2016

Quaresma – Dia 33 – Aproximando-nos de quem?



“Aproximavam-se de Jesus todos os publicanos e pecadores para o ouvir” (Lucas 15.1)

Quem são as pessoas que têm se aproximado de nós? Quem são as pessoas de quem temos nos aproximado? Porque esse texto fala muito de quem era Jesus – e de qual era a Sua missão. Mesmo sendo Santo, mesmo sendo o perfeito Deus, os piores da sociedade (material e espiritual) sentiam-se atraídos por Jesus. E se aproximavam para ouvi-Lo. Ainda que Jesus falasse sobre pecado e o condenasse, ainda que Ele falasse sobre a Santidade do Pai e a necessidade de arrependimento, ainda assim... publicanos, pecadores, impuros, doentes, marginalizados, excluídos aproximavam-se dEle. Enquanto isso, os perfeitinhos e santos, os religiosos “filhos de Abraão” cada vez mais se afastavam dEle.

E nós? Quem são as pessoas que temos atraído? Será que nossa postura, nossa vida atrai os sujos, os pequenos, os marginalizados, os PECADORES deste tempo? Ou, ao olhar para nós, eles enxergam os juízes que só sabem condená-los ou os santos dos quais eles não são dignos de se aproximar? Porque, infelizmente, é assim que o mundo tem visto, muitas e muitas vezes, a nós, cristãos. Porque os ensinamos a ver assim. Porque fomos ensinados a nos manter longe dos pecadores. Não podemos nos misturar com quem não entende a teologia no mesmo nível que entendemos. Não podemos visitar igrejas que não sejam 100% santas em suas doutrinas. Não podemos ter amigos pecadores. Não podemos pisar em solo que não seja santo. Só podemos estar na companhia dos santos. E foi aí que construímos este muro que nos separa do mundo real – o mundo que Jesus veio salvar. Sem perceber, fazemos como os fariseus: “E murmuravam os fariseus e os escribas, dizendo: Este recebe pecadores e come com eles” (v.2). Fazemos isso com nossos irmãos. Fazemos isso em nossas igrejas. Perdemos, em nossas vidas, a misericórdia, o amor, a compaixão que havia em Cristo – e que atraía a Ele os piores pecadores. A misericórdia, amor e compaixão que ainda há nEle e que é o que continua atraindo a Ele os pobres desta terra – aqueles que nós rejeitamos.

E o ensino volta para o mesmo ponto: quando crescemos, Ele diminui. Quando nos achamos bons demais, é então que estamos mal. Quando consideramos o outro mau demais, é quando nós mesmos estamos assim. Quando o orgulho tem espaço, o espírito, certamente, não o tem. Não há espaço para este orgulho que olha as pessoas com superioridade, e a Presença Salvadora de Jesus. E Jesus vem, então, ensinar isso, por meio de várias parábolas – A ovelha perdida, a dracma perdida, o filho perdido – para ensinar uma coisa só: o Reino de Deus é para os perdidos, e não para os santos. Para os doentes, e não para os sãos. Para os imperfeitos, e não para os perfeitos. Por um fato simples: diante de Deus, não existem santos, sãos e perfeitos. Somos todos perdidos, doentes e imperfeitos. Contudo, para fazer parte do Reino dEle, precisamos nos reconhecer assim – e parar de nos sentir melhores do que os outros. Não há nada melhor em nós. Nada. Porque tudo que temos de bom é, puramente, graça de Deus. Em essência, somos exatamente iguais a qualquer publicano e pecador. E é por isso que Jesus nos recebe.

Termino com uma música que sempre me confronta demais. É um desafio constante para minha mente orgulhosa e soberba, para essa carne má que há em mim e que me faz acreditar, vez ou outra, que sou melhor do que sou – e que me faz desejar estar junto apenas dos santos e perfeitos. Até que eu paro e me lembro de Jesus – e de quais pessoas Ele escolheu estar perto. De quais pessoas estavam ao redor dEle. E volto a compreender onde devem estar os meus olhos e o meu coração. “Sou humano demais pra compreender...”.


Eu fico tentando compreender
O que nos Teus olhos pôde ver
Aquela mulher na multidão
Que, já condenada, acreditou
Que ainda havia o que fazer
Que ainda restara algum valor
E ao se prender em Teu olhar
Por certo haveria de vencer
E assim fizeste a vida
Retornar aos olhos dela
E quem antes condenava
Se percebe pecador
Teu amor desconcertante
Força que conserta o mundo
Eu confesso não saber compreender

Sou humano demais pra compreender
Humano demais pra entender
Este jeito que escolheste de amar quem não merece
Sou humano demais pra compreender
Humano demais pra entender
Que aqueles que escolheste e tomaste pela mão
Geralmente eu não os quero do meu lado

Eu fico surpreso ao ver-Te assim
Trocando os santos por Zaqueu
E tantos doutores por Simão
Alguns sacerdotes por Mateus
E, mesmo na cruz, em meio à dor
Um gesto revela quem Tu és
Te tornas amigo do ladrão
Só pra lhe roubar o coração
E assim foste o contrário,
O avesso do avesso
E por mais que eu me esforce
Não sei bem se Te conheço
Tu enxergas o profundo
Eu insisto em ver a margem
Quando vês o coração
Eu vejo a imagem

Sou humano demais pra compreender
Humano demais pra entender
Este jeito que escolheste de amar quem não merece
Sou humano demais pra compreender
Humano demais pra entender
Que aqueles que escolheste e tomaste pela mão
Geralmente eu não os quero do meu lado

Mas recebemos, em nós, o Revelador do Coração do Pai. Que Ele nos ensine a ver e a ser como Cristo é. Até que cheguemos à estatura do Varão Perfeito – Jesus, nosso Senhor. Para glória e revelação do Seu Nome na terra. Amém.



sábado, 12 de março de 2016

Quaresma – Dia 29 – O que realmente importa



“[...] porque, onde está o vosso tesouro, aí estará também o vosso coração” (Lucas 12.34)

O texto de Lucas 12, versos 1 a 34, fala de um assunto só: o verdadeiro sentido da vida. E eu só percebi isso quando já estava chegando lá pelo verso 22. Aí acontecem aqueles momentos de iluminação de Deus. É tudo sobre a mesma coisa.

O texto começa com Jesus alertando seus discípulos e a multidão reunida contra o fermento dos fariseus: a hipocrisia. Hipocrisia que se revelava na vida cheia de coisas ocultas que eles tinham, das máscaras que eles usavam. Mas Jesus adverte a todos que nossa verdadeira face nunca poderá ficar escondida para sempre. Nossas máscaras cairão, nossas coisas escondidas serão reveladas. Portanto, que não haja em nossa vida este fermento de hipocrisia que havia nas vidas dos escribas e fariseus, com quem Jesus acabara de conversar e de a quem acabara de repreender, no fim do capítulo 11. E a hipocrisia deles consistia em uma coisa: dizerem-se preocupados com as coisas espirituais, com suas máscaras espirituais, porém com os olhos e o coração fixos em si mesmos e nas coisas deste mundo. Diziam-se espirituais, mas eram carnais. E, então, Jesus mostra três comportamentos que revelam quando nosso coração está nas coisas deste mundo e não nas coisas espirituais, e quais deveriam ser nossas verdadeiras preocupados – o que realmente importa.

1) Medo da morte (Lucas 12.4-12)

“Digo-vos, pois, amigos meus: não temais os que matam o corpo e, depois disso, nada mais podem fazer” (v.4).

Infelizmente, raramente paramos para pensar por que certas coisas da vida geram tanta preocupação, tanto medo em nós. Por que tememos tanto a morte? Mesmo que não assumamos. Nós a tememos. Pensamos, caso somos convidados a realizar uma ação cristã em um local perigoso da cidade: “Mas será que devemos mesmo ir lá? Será que é seguro?”. Se somos convidados para um trabalho missionário em um país em guerra: “Mas não é melhor ir a outro lugar?”. Se somos desafiados a desenvolver qualquer atividade que possa nos trazer dor ou mesmo qualquer tipo de desconforto, até mesmo o emocional, logo desanimamos. Tenho ouvido tantos cristãos preocupados com o risco de extremistas islâmicos se aproveitarem dessa onda de migração de refugiados Sírios e de outras áreas do Oriente Médio, e da abertura que o Brasil tem dado, liberando as fronteiras e facilitando a entrada destes refugiados. E a preocupação sempre é: “nós não sabemos o que eles podem fazer. Daqui a pouco estarão realizando atentados terroristas aqui no Brasil, perseguindo a Igreja, e nós estaremos correndo riscos”. E isso tem gerado tanta preocupação a tantas pessoas, nestes tempos. Mas, por que isso nos amedronta tanto? Por que o risco de sermos perseguidos, de sofrermos um atentado, de sofrermos danos físicos nos causam tanto alarme? E a verdade é que é porque nossas preocupações estão neste mundo, e não na eternidade. No mundo físico, e não no espiritual. Em nós mesmos, e não em Deus. E é por isso que tememos tanto aqueles que podem matar o corpo, mesmo sem poder fazer dano nenhum a nosso espírito. Porque colocamos valor maior no corpo do que no espírito. E é com ele que nos preocupamos, acima de todas as coisas. Por isso, o medo da morte chega a paralisar certas pessoas. Por isso há pessoas (mesmo cristãs) que, quando ouvem alguém dizendo “Se eu morrer amanhã, encontro você lá no céu!”, rapidamente respondem: “Credo! Tá amarrado! Ninguém vai morrer não! Para com isso!”. Porque criamos raízes neste mundo e não queremos deixa-lo. Nós o transformamos em nosso tesouro, nos esquecendo que este corpo perecerá, e este mundo também. Que a verdadeira realidade está além deste corpo físico.

E o ensino de Jesus sobre isso é: “temei aquele que, depois de matar, tem poder para lançar no inferno. Sim, digo-vos, a esse deveis temer.” (v.5). Deus. É a Ele que devemos temer. Ao que acontecerá com nossos espíritos APÓS a nossa morte física. Isso sim é realmente importante. Ao olharmos para todas essas situações arriscadas e difíceis para nós mesmos, que nossa preocupação não esteja em “O que acontecerá comigo?”, mas “De que forma isso pode influenciar realidades espirituais?”. Na minha vida e na vida dos demais envolvidos. Como isso pode beneficiar ou prejudicar, espiritualmente, a Igreja de Jesus Cristo, nossa fé, nosso crescimento, nossa aproximação de Deus, e todos aqueles que ainda precisam conhecer a Jesus. Porque estas coisas influenciarão para a vida eterna. E é com elas que devemos nos preocupar.

2) Avareza (Lucas 12.13-21)

“Então, direi à minha alma: tens em depósito muitos bens para muitos anos; descansa, come, bebe e regala-te. Mas Deus lhe disse: Louco...” (v. 19-20a)

Nós podemos até não perceber também, mas todos pensamos nisso. Precisamos de um fundo de aposentadoria. Precisamos de uma poupança. Precisamos de uma casa melhor. Precisamos de um carro novo. Precisamos de mais roupas. Precisamos de mais sapatos. Precisamos de mais lazer. Precisamos de mais um trabalho. Precisamos de tantas, tantas, tantas coisas. Precisamos derrubar nossos celeiros, para podermos construir outros que possam abarcar os tesouros que temos conseguido juntar. E, então – só então - , quando tivermos conseguido juntar o suficiente, descansaremos e seremos felizes. Essa é a filosofia da grande maioria das pessoas hoje em dia. Nossos pais nos ensinam. Nós, que somos jovens, precisamos ralar muito e trabalhar muito agora, enquanto temos forças e energias, para que, um dia, possamos nos aposentar e usufruir dos bens que acumulamos. Só acontece que juntar bens toma nosso tempo, nossas forças, nossas atenções, nossos planejamentos... tudo o que somos. E, então, quando vemos, em nossa corrida para entesourar para nós mesmos, quase nada sobrou para Deus. Para a minha poupança, nunca pode faltar. Mas para ajudar um necessitado, sempre falta. Para apoiar um missionário, sempre falta. Para investir nos trabalhos da igreja, sempre falta. Mas para minha calça jeans nova, a gente dá um jeitinho. Para o cinema do fim de semana, a gente dá um jeitinho. Para minha maquiagem nova, minhas unhas semanais, meu cabelo... a gente arruma.

“Mas Deus lhe disse: Louco, esta noite te pedirão a tua alma; e o que tens preparado, para quem será? Assim é o que entesoura para si mesmo e não é rico para com Deus” (v.20-21). Temos tempo para nós mesmos, mas não temos para Deus. Temos energia para nosso trabalho, que nos permite juntar tesouro para nós mesmos, mas não temos para nossa família, nossos amigos, os que precisam de nós, e o próprio Deus. Mas essa vida terminará. De repente. Quando menos esperarmos. E o que terá valido serão os tesouros que acumulamos para com Deus. Nosso amor, nossa misericórdia, nossa compaixão, nossa doação, nossa liberalidade para com o Reino de Deus. Juntar para a eternidade, e não para este mundo perecível.

3) Ansiosa preocupação com as necessidades dessa vida (Lucas 12.22-33)

“Por isso, eu vos advirto: não andeis ansiosos pela vossa vida, quanto ao que haveis de comer, nem pelo vosso corpo, quanto ao que haveis de vestir. Porque a vida é mais do que o alimento, e o corpo, mais do que as vestes.” (v.22-23)

E é assim que Jesus conclui o Seu ensino. “Não andem tão ansiosos assim!”. Por que nós andamos tão ansiosos com nossa vida – nossas necessidades diárias ou futuras? Porque nós nos esquecemos que esta vida não se resume à realidade material – há uma realidade espiritual, da qual nós fazemos parte, e, nesta realidade, há um Deus Todo Poderoso que é nosso Pai e cuida dos Seus filhos. Mas nos esquecemos disso. Passamos a acreditar que o provedor de nossas vidas somos nós mesmos. Nossos esforços. Nossos empregos. E, por isso, eles precisam ser nossas prioridades. Por isso precisamos trabalhar mais um turno, mesmo quando isso prejudica as coisas que realmente valem à pena nessa vida. Porque acreditamos que nosso sustento vem de nós mesmos – e não do Senhor. Então, vivemos preocupados com o que haveremos de comer, de beber, de vestir, etc. Por isso, deixamos de investir no Reino de Deus. Por isso, deixamos de estar com o Corpo de Cristo, pois precisamos trabalhar. Por isso, abrimos mão de uma viagem missionária, pois nos custaria reduzir os custos com a manutenção de nosso estilo de vida – o que não podemos fazer. Por isso, o campo missionário transcultural é tão apavorante pra tanta gente ainda. Por isso os pais se desesperam quando seus filhos dizem ser chamados para o trabalho missionário em campos pobres. Por isso, os jovens são ensinados a escolher profissões que darão dinheiro, e não as que fazem parte do chamado de Deus para suas vidas. É assim que fazemos nossas escolhas hoje em dia. Calculando nossa sobrevivência. E é assim que deixamos Deus de fora da nossa história – e ficamos de fora da história dEle.

O que Ele nos ensina: “Observai os corvos, os quais não semeiam, nem ceifam, não têm despensa nem celeiros; todavia, Deus os sustenta. Quanto mais valeis do que as aves! [...] Observai os lírios; [...] se Deus veste assim a erva que hoje está no campo e amanhã é lançada no forno, quanto mais tratando-se de vós, homens de pequena fé! [...] vosso Pai sabe que necessitais [destas coisas]. Buscai, antes de tudo, o seu reino, e estas coisas vos serão acrescentadas. Não temais, ó pequenino rebanho; porque vosso Pai se agradou em dar-vos o seu reino. Vendei os vossos bens e dai esmola; fazei para vós outros bolsas que não desgastam, tesouro inextinguível nos céus, onde não chega o ladrão, nem a traça consome, porque, onde está o vosso tesouro, aí estará também o vosso coração” (v.24, 27a, 28, 30b-34)

Não se trata de não termos mais cuidado com nossa vida e deixarmos de ser atentos e sábios com nossas escolhas diárias. Não se trata de não nos precavermos financeiramente e sairmos torrando nosso dinheiro de qualquer forma, ainda que seja em ações religiosas, sem a responsabilidade de cumprir com nossos compromissos – pessoais, cidadãos, familiares. Não se trata de não assumirmos nosso papel em nos empenharmos para conseguir nosso sustento e ficarmos sentados, esperando Deus mandar o maná do céu. Não é sobre essas coisas que este texto fala. Não é sobre negligência, preguiça, irresponsabilidade, falta de compromisso e de responsabilidade, falta de sabedoria e vida desregrada. Não é sobre uma fé cega. É sobre onde está nosso coração. É sobre onde está o nosso tesouro. É sobre em que temos investido as nossas vidas. É sobre o que realmente tem importado para nós. E o que realmente importa para Deus. O que realmente importa nessa vida. É sobre descobrir isso e investir nisso. Tudo o que pudermos. É sobre não viver para si mesmo – mas para Deus, e para o próximo. Pois foi assim que Jesus viveu. E veio nos deixar o exemplo. Ele sabe o que realmente importa. Aprendamos com Ele.


quinta-feira, 10 de março de 2016

Quaresma – Dia 27 – Ver como Cristo vê



“Ora, aconteceu que, ao dizer Jesus estas palavras, uma mulher, que estava entre a multidão, exclamou e disse-lhe: Bem-aventurada aquela que te concebeu, e os seios que te amamentaram! Ele, porém, respondeu: Antes, bem-aventurados são os que ouvem a palavra de Deus e a guardam!” (Lucas 11.27)

Nós somos como essa mulher. Nos admiramos com feitos, com status, com o exterior. Conhecemos um pastor ou líder cristão e nos admiramos com suas palavras bonitas, sua excelente explanação bíblica, seu nível de conhecimento, sua persuasão, sua eloquência, sua gentileza. Chegamos em uma igreja e logo nos chamam a atenção aqueles que desenvolvem grandes trabalhos, os missionários que foram para o outro lado do planeta e estão fazendo grandes coisas lá, os que estão abrindo igrejas ou que possuem cargos importantes. Olhamos para Hebreus 11, o capítulo dos “Heróis da fé”, e ficamos maravilhados com seus feitos poderosos e maravilhosos. Olhamos o exterior. Nos deixamos encantar com obras. Somos facilmente convencidos por nossos olhos e ouvidos.

Assim foi com aquela mulher. Ela estava tão tomada de admiração por tudo que ouvira Jesus falando, que concluiu: “Uau! Quão abençoada é a mãe deste homem, aquela que lhe amamentou em seu seio!”. E é uma conclusão tão natural. É uma conclusão provavelmente correta, inclusive. Todos nós poderíamos concordar com ela: de fato, como foi bem-aventurada a mulher escolhida por Deus para ser a mãe de Jesus! Ela é mesmo bem-aventurada. Assim como quando ouvimos uma boa pregação e nos enchemos de admiração, quando olhamos para os missionários desenvolvendo grandes projetos ao redor do mundo e nos enchemos de admiração, quando vemos as manifestações sobrenaturais de poder que os patriarcas e profetas fizeram e nos enchemos de admiração... e tudo isso é natural, é esperado, e não está errado.

Porém, Jesus responde aquela mulher: “Antes, bem-aventurados são os que ouvem a palavra de Deus e a guardam!” (Lc.11.28). A Nova Tradução na Linguagem de Hoje traduziu a fala de Jesus da seguinte forma: “—Mais felizes são aqueles que ouvem a mensagem de Deus e obedecem a ela”. A versão Bíblia Viva diz: “Sim, mas ainda mais abençoados são todos aqueles que ouvem a palavra de Deus e a põem em prática”. Jesus não estava dizendo que a mulher estava errada. Não é que Sua mãe não fosse bem-aventurada, que não houvesse motivo de júbilo pela vida da mulher que Lhe havia dado a luz e amamentado. Havia motivos de alegria por isso. O que Jesus estava dizendo era: “Porém, há coisas que são muito mais importantes do que isso!”. Há razão em admirar-se com as palavras de sabedoria e de conhecimento de alguém, com os resultados alcançados por um projeto sociomissionário ou evangelístico, com um determinado ministério dentro de nossas igrejas, com grandes feitos poderosos e sobrenaturais... estas são coisas que merecem a nossa admiração. Contudo... há coisas muito mais importantes, PARA DEUS, do que estas.

Deus não se admira de nossos grandes feitos, de nossos cargos, dos lugares altos que conquistamos em nossas vidas – mesmo em nossas vidas religiosas e cristãs. Porque Ele é Deus – e quem pode ter feitos maiores do que os Seus? Não, não dá pra convencê-Lo dessa forma. Até porque o conhecimento que Ele tem sobre nós é muito – infinitamente – maior do que o que qualquer ser humano pode vir a ter. Ele sabe exatamente quem somos. E isso me faz lembrar a história de Samuel visitando a casa de Jessé, pai de Davi, para ungir um de seus filhos como Rei de Israel. E lá estava Samuel tentando descobrir quem daqueles rapazes ele deveria ungir como rei. E de que forma ele estava fazendo a sua avaliação? Olhando para o exterior – a estatura, a força, a beleza... Então, Deus lhe diz: “Não considere a sua aparência nem sua altura, pois eu o rejeitei. O Senhor não vê como o homem: o homem vê a aparência, mas o Senhor vê o coração" (1 Sm. 16.7).

E a mesma coisa Jesus estava falando para aquela mulher: “Não olhe somente para o exterior, para a posição que aquela mulher desempenhou, pelo fato dela ter sido minha mãe. Olhe além. Porque, diante de vocês, isso pode significar muita coisa. Mas diante do Pai, isso é tão pouco. Ele vê muito além disso. E Ele se importa com coisas muito mais importantes e difíceis – com o coração.”. E é quando Jesus diz o que é mais importante para Deus: Ouvir e guardar a Sua Palavra. Isso é muito mais profundo do que pregar sobre a Palavra de Deus. É muito mais profundo do que realizar curas e milagres. É muito mais profundo do que liderar projetos bem-sucedidos. É muito mais profundo do que ter conquistado uma posição reconhecida diante dos outros. Tem a ver com o coração. Com o mais íntimo do seu ser. Com o lugar que a Palavra de Deus tem em sua vida. Quão profundo ela tem chegado? E quanto dela tem sido guardado – e vivido? Muito mais difícil. Muito mais profundo. Aquilo que convence a Deus.

É isso o que Ele procura em nós. Não alguém que possui cargos ou funções importantes e de destaque – como ser a “mãe de Jesus”. Não alguém com grandes e poderosos feitos. Não. O que admira a Deus é um coração rendido à Sua Palavra. Que a ouve com atenção, com interesse, com desejo, com sede e fome – e que a guarde como um tesouro que não tem preço, que não se vende nem se compra, como sua pérola encontrada. É com a condição do nosso coração que Ele está interessado. Porque nossos feitos podem, facilmente, mascarar nosso coração sujo, impuro e distante de Deus. Muitos chegarão, no último dia, tendo feito grandes coisas no Nome de Jesus, e serão considerados estranhos por Jesus e deixados de fora do Seu Reino (Mt. 7.22-23). Porém, se o nosso coração está cheio de Jesus, não será possível esconder isso naquilo que fazemos. Nossas obras, nossas vidas refletirão isso. Porque a boca fala do que o coração está cheio (Mt. 12:34b).

Que possamos aprender a ver como Cristo vê. A nos importar com o que Ele se importa. A investir no que causa admiração a Ele – e não aos homens. Porque Ele não vê como os homens vêem. Para convencê-Lo, é preciso ir além das aparências. Assim, que nossas vidas possam ser mais do que aparência. Que nos importemos menos com a aparência que temos do que com o que há no mais íntimo de nós. Que ouvir e guardar a Sua Palavra seja nosso objetivo principal. E que, depois que formos transformados pela Palavra, nossa vida possa, simplesmente, ser um reflexo do que o Espírito Santo já está operando dentro de nós. De dentro para fora. E que nossa maior preocupação – conosco e com os outros – seja o que está acontecendo lá dentro, e não aqui fora. Porque o homem vê o exterior, mas Deus vê o coração. Esse é o nosso maior testemunho cristão – e nosso maior instrumento de glórias a Deus. Ver como Ele vê. E que Ele nos ensine e nos ajude. Amém.

quarta-feira, 9 de março de 2016

Quaresma – Dia 25 – Quem é o meu próximo?



“Ele, porém, querendo justificar-se, perguntou a Jesus: Quem é o meu próximo?” (Lucas 10.29)

E, por meio de uma parábola, Jesus responde:

Teu próximo é todo aquele que, no decorrer de teu caminho, precisar de você. Todo aquele que, estando ferido, abandonado, desprezado, saqueado surgir à beira do caminho pelo qual passas. Todo aquele que precisar da tua ajuda. Material, emocional, física, espiritual, social. Este é o teu próximo.

E você perguntará: “- E o que eu devo fazer por ele?”

Você deve amá-lo. E amar significa doar-se. Significa parar um pouco, em seu caminho, desviar um pouco os olhos do ponto aonde se estava indo, do compromisso que lhe esperava, da atividade religiosa que você tinha a fazer, para olhar para o lado, reconhecer quem está jogado às margens de sua estrada, aproximar-se dele, ter piedade de sua dor, cuidar de seus ferimentos, tomar de seu óleo e seu vinho para ajudar suas feridas a cicatrizarem, deixar o conforto do animal que o transportava até então e oferece-lo para transportar aquele que, naquele momento, precisa mais do que você, decidir vivenciar o incômodo e o desconforto por um tempo, para que aquele que precisa de comodidade e conforto naquela hora possa desfruta-los, procurar junto àquele estranho o auxílio e repouso que ele precisa, e certificar-se de não deixa-lo por conta própria, mas sob os cuidados de alguém que esteja por perto para garantir sua recuperação, tomando sobre você mesmo todos os custos e cobranças provenientes desta atenção oferecida e comprometendo-se a arcar com eles. Isso é amor. Isso é AMAR AO PRÓXIMO COMO A SI MESMO.

Isso é o que todos nós, fariseus mascarados, precisamos aprender. A pensar menos em nós mesmos e nossa necessidade de cumprir nossos caminhos, nossos objetivos, nossas atividades, nossas rotinas – e reconhecer que há um outro PRÓXIMO A NÓS, que precisa ser enxergado e amado. E que, se queremos herdar a vida eterna, este é o caminho. Amar a Deus sobre todas as coisas culmina no amor ao PRÓXIMO como amamos a nós mesmos. E nos preocupar com o outro tanto quanto nos preocupamos com nós mesmos. E fazer pelo outro o que fazemos por nós mesmos. E colocar o outro em nosso lugar. E nos colocar no lugar dele. E abrir mão de nosso conforto e comodidade para oferece-los a quem precisa mais do que nós. E como tudo isso é difícil. Mas isso é amor.

“Qual destes três te parece ter sido o próximo do homem que caiu nas mãos dos salteadores? Respondeu-lhe o intérprete da Lei: O que usou de misericórdia para com ele. Então, [Jesus] lhe disse: Vai e procede tu de igual modo” (Lucas 10.36-37)


Saber quem é o seu próximo, descobrir onde ele está, enxerga-lo não é suficiente. É preciso ir e proceder de igual modo. Usar de misericórdia. Ser para com o outro como aquele samaritano foi para com aquele viajante. Reconhecer o seu próximo – e amar. Nosso maior desafio de vida. Saber trilhar nossos caminhos de tal maneira que nossos próximos não nos passem despercebidos – e que não os ignoremos, negligenciemos, calemos, em função das nossas tantas preocupações, sejam elas quais forem. E, ao encontra-los, ama-los. Doar-nos. Oferecer nosso melhor. Nosso grande desafio. Ser como Jesus. Que Ele nos ajude, para Sua glória neste mundo. Amém.

domingo, 6 de março de 2016

Quaresma – Dia 23 – Para onde quer que for?



“Indo eles caminho fora, alguém lhe disse: Seguir-te-ei para onde quer que fores” (Lucas 9.57)

E quantos de nós temos dito isso, não é? Mas nós realmente estamos dispostos a seguir o Cristo AONDE QUER QUE ELE FOR?

E se Ele nos disser: “As raposas têm suas tocas e as aves do céu têm seus ninhos, mas o Filho do homem não tem onde repousar a cabeça" (v.58), nós ainda iremos? Se Ele nos disser: “Sabe aquele sonho da casa própria, do carro próprio, das raízes estabelecidas em algum lugar? Não será possível para você. Porque sua casa será o mundo todo, você não estabelecerá raízes, pois te levarei para os mais diversos lugares, e os bens materiais deste mundo nunca serão realmente seus!”, nós ainda iremos com Ele?

E se Ele nos disser: “Deixe que os mortos sepultem os seus próprios mortos; você, porém, vá e proclame o Reino de Deus" (v.60)? E se não tivermos a oportunidade de estar por perto quando nossos pais morrerem para os sepultar, pelo motivo de estarmos em algum lugar deste mundo, proclamando o Reino de Deus? E se o preço a ser pago for viver os melhores e piores momentos longe de nossa própria família? Nós ainda O seguiremos?

E se Ele nos disser: “Ninguém que, tendo posto a mão no arado, olha para trás é apto para o reino de Deus” (v.62), quando pedirmos para ir primeiro nos despedir de nossa família, antes de partirmos para segui-Lo? E se for preciso largar o barco de nossa família, como Pedro, Tiago, João fizeram, deixando para trás pai e mãe, irmãos e irmãs, para seguir a Cristo? E se esse convite for para o resto da vida? Nós ainda iríamos após Ele?

E se Ele nos dissesse que segui-Lo resultaria no permanecer solteiras pelo resto da vida – nunca viver o sonho do casamento, da maternidade biológica, da sua própria família? E se resultasse em nunca ser lembrado, por ter vivido em um local tão isolado que ninguém nunca saberia de seus feitos? E se resultasse em nunca ser reconhecido por ninguém mais além de Deus? Nós ainda O seguiríamos?

Seguir a Jesus é sério. É uma decisão que envolve toda a nossa vida. Não há entrega pela metade – ou é tudo ou é nada. Ele não nos quer pela metade. E, quando entregamos, Ele faz o que quiser. E é assim para ser. Tornar-nos discípulos dEle envolve estar dispostos a pagar o preço – tal qual Ele pagou. Porém, a parte bonita dessa história é que os caminhos dEle sempre serão bons, agradáveis e perfeitos. Mesmo que eles façam nossos pés doerem. Mesmo que eles tragam lágrimas. Mesmo que eles não correspondam às expectativas de vida que tínhamos. Ainda assim. Ainda que tudo saia diferente do que planejávamos – Sua vontade continua sendo boa, agradável e perfeita. E será assim para nossas vidas. Nosso lugar de descanso, alegria e paz. Porque o motivo para a felicidade de nossa alma é ELE. Ele. Onde Ele estiver, ali estará o gozo de nossas vidas. E, se Ele não estiver, ainda que todos os planos e expectativas de nossas vidas tenham se cumprido, nada terá verdadeiro sentido. Porque TUDO, sem Ele, é nada. É vazio. É morto. Ele é a vida. Jesus. Assim, se estivermos com Ele, nós teremos vida – e VIDA EM ABUNDÂNCIA.

E, além de todas as coisas, esse Deus revela-se Pai. Ele cuida de nós. Ele promete que, ainda que uma mãe se esquecesse do filho que amamenta, Ele não se esqueceria de nós. Que, se nós que somos maus, sabemos dar boas coisas a nossos filhos, quanto mais o Pai celestial dará boas coisas aos que pedirem. Ele não se esquece de nós. Ele não abandona os Seus. Isso é impossível de acontecer. Contudo, não podemos nos esquecer que segui-Lo exigirá um preço. Que os caminhos trilhados por Jesus não foram cheios de rosas. Que os caminhos trilhados por nossos pais na fé, pelos discípulos, pelos apóstolos, pela Igreja Primitiva não foram cheios de rosas. Foram cheios de pedras. Foram duros. E que, muitas e muitas vezes, estes que escolheram seguir o Messias antes, tiveram que pagar estes preços citados por Jesus nesse texto – e muitos outros ainda piores. Segui-Lo exige entrega TOTAL. Custe o que custar. Mas, ainda que nos custe TUDO o que temos neste mundo, podemos ter a certeza, a segurança, de que coisas infinitamente melhores nos estarão reservadas – nesta vida e na por vir.


Ele é nosso maior tesouro. Jesus. E que nossos corações nunca esqueçam disso. E que seja assim para sempre. Amém.

sexta-feira, 4 de março de 2016

Quaresma – Dia 22: É o discípulo maior que o seu Mestre?



“É necessário que o Filho do Homem sofra muitas coisas, seja rejeitado pelos anciãos, pelos principais sacerdotes e pelos escribas; seja morto e, no terceiro dia, ressuscite” (Lucas 9.22)

É necessário. Sofrimento. Rejeição. Morte. Era NECESSÁRIO. Esse era o caminho do Messias. E Jesus estava falando a respeito de si mesmo.

Todos nós queremos a ressurreição. Todos queremos a glória do Messias – ser como Ele é em todo o Seu resplendor e glória, na eternidade de gozo e paz que teremos ao lado do Salvador, que será Rei sobre toda a terra. Ah, todos queremos. Queremos a coroa. Queremos os joelhos dobrados. Queremos ser reconhecidos. Queremos a ressurreição. Mas queremos a MORTE que a antecede? Queremos o sofrimento e a rejeição? Queremos a coroa de espinhos tanto quanto a de ouro? Queremos o abandono tanto quanto a morada celestial? Queremos o peso de uma cruz tanto quanto a ascensão ao céu? Porque, para que o Mestre chegasse ao Seu ponto de glorificação – a ressurreição, primeiro lhe foi necessário sofrer muitas coisas, ser rejeitado por todos os líderes de sua religião e, finalmente, ser morto. Foi-lhe NECESSÁRIO. Acaso é o discípulo maior do que o seu Mestre?

A vida cristã consiste em seguir os passos de Jesus. Isso é ser discípulos. E quando somos chamados para ser como o Cristo, não é apenas no amor, na alegria e no bem para com todos. É também na maneira que reagimos quando somos injustiçados, quando somos abandonados pelos que se juravam nossos melhores amigos, quando somos rejeitados e humilhados, quando sofremos nossas piores dores e nossos amigos dormem ou fogem, quando nos sentimos tão sós a ponto de sentir que o próprio Pai nos abandonou... a forma como carregamos a nossa cruz – ainda estando machucados, ensanguentados, doloridos, cheios de chagas. Isso é ser Cristão. Ser como Cristo em TODAS AS COISAS.

E é exatamente o que Jesus continua falando após esse versículo:

Se alguém quer vir após mim, a si mesmo se negue, dia a dia tome a sua cruz e siga-me” (v.23)

O caminho para seguir Jesus é de negação. Negar a si mesmo. Não existe outro caminho. A Bíblia Viva diz: “Aquele que quiser Me seguir, deve pôr de lado seus próprios desejos e carregar sua cruz cada dia”. E quando Jesus diz: “tome a sua cruz, dia a dia, e siga-me”, esse convite para seguir Jesus, após tomar a sua cruz, era pra onde? Era para o Gólgota. Seguir Jesus até o monte em que a crucificação ocorreria. Tomar a cruz é aceitar morrer. Dar sua vida. Abrir mão. Entregar tudo. Estar disposto a carregar o fardo e o peso da cruz. A sentir dor. A sentir-se solitário, muitas vezes. A sentir-se humilhado e desprezado. Até mesmo abandonado pelo Pai. Foi assim quando Jesus tomou a Sua cruz. Esse foi Seu caminho de cruz. E é o de todo aquele que resolve tomar cruz também. Compreender que haverá morte. Mas fazer como Abraão – só que o sacrifício, ao invés de ser de seu filho, seria de si mesmo.

Por quê? Porque a lógica de Deus não é a nossa lógica. “Pois quem quiser salvar a sua vida perde-la-á; quem perder a vida por minha causa, esse a salvará” (v.24). Porque, na lógica de Deus, ganha quem perde. Vive quem morre. É o primeiro quem é o último. É o maior quem é o menor. É exaltado quem se humilha. Bem-aventurado é o que chora, o que tem fome e sede, o que é perseguido. Essa é a lógica de Deus. Totalmente oposta à nossa. E se realmente desejamos nos tornar mais parecidos com Jesus, são essas coisas que precisamos começar a ver em nossas vidas. Se o que estamos vivendo se parece com o que Jesus viveu – e se estamos aprendendo a reagir como Ele reagiu. A olhar como Ele olhou. A valorizar as coisas que Ele valoriza.

Esse é o caminho que somos chamados a percorrer. Um caminho que pode parecer tão duro e cinza, às vezes. Mas, lembremos, que é o mesmo caminho que o nosso Mestre trilhou. O mesmo caminho que O conduziu à vida plena e eterna. À verdadeira glória. Portanto, um caminho que terminará em muito, muito gozo, paz e felicidade. Podemos confiar. Não é o discípulo maior do que o seu Mestre. Aquele que partilhar da morte de Cristo, também partilhará de Sua ressurreição. Essa é a promessa que nos foi feita. Mas não há ressurreição sem morte. Portanto, que a morte venha. Que venham os caminhos duros. Porque, no fim, alcançaremos a glória de toda nossa existência – ser como o nosso Mestre.

E eu termino com uma música que amo demais e que fala exatamente sobre isso. Espinhos, Grupo Logos. E que o Nome de Jesus cresça – e o nosso diminua. Toda honra e glória a Ele. Amém.




Senhor Jesus, eu não entendo o espinho
Mas se a cruz é o fim deste caminho
Dá-me mais graça, não sou maior que o meu Senhor
Apenas servo sou, apenas servo e nada mais.

Se as pontas aguçadas da coroa Te feriram, ó Cabeça
Eu que sou corpo, parte do Teu corpo, não devo reclamar.

Dá-me mais graça, Senhor! Dá-me mais graça!
Passa os Teus dedos nos meus olhos, vem me consolar
Dá-me mais graça, Senhor! Dá-me mais graça!
Faze-me em Cristo, outra vez
Ser mais que vencedor

Senhor Jesus, ainda não entendo o espinho
Mas se o mesmo faz parte da Tua cruz
Eu o aceito, não sou maior que o meu Senhor
Apenas servo sou, apenas servo e nada mais.

Senhor, se estou por Ti sendo provado quero aprovado ser agora
Sei o que tens a dizer, e creio nisto também, basta-me a graça.

Dá-me mais graça, Senhor! Dá-me mais graça!
Passa os Teus dedos nos meus olhos, vem me consolar
Dá-me mais graça, Senhor! Dá-me mais graça!
Faze-me em Cristo, outra vez
Ser mais que vencedor

Um vencedor em Cristo

quinta-feira, 3 de março de 2016

Quaresma – Dia 21 – Chamados para ser resposta


“Ele, porém, lhes disse: Dai-lhes vós mesmos de comer.” (Lucas 9.13a)

Ano passado, eu participei de uma conferência em Manaus, chamada Oxigênio, e lembro que uma das principais frases que me marcaram naquela conferência foi: “Esse problema que você está vendo, esse descontentamento que arde em você... talvez seja um chamado de Deus para você ser parte da resposta”. Isso realmente me marcou. Porque eu fui praquela conferência com tantas crises, vivenciando tantos problemas na minha vida cristã, enxergando tantos problemas nessa coisa de ser igreja e tudo, e todas essas coisas estavam minando minha vida espiritual, me tornando amarga, triste, desesperançosa. E quando ouvi aquela frase, ela foi para mim. Esses problemas todos que eu estava enxergando, essas coisas fora do lugar, sem solução, que estavam ardendo no meu coração... talvez fosse o próprio Deus que os estava colocando na minha vida – e talvez Ele estivesse querendo me chamar para ser a resposta que eles precisavam. Porém, não entendendo a voz de Deus, ao invés de me tornar resposta, eu estava me tornando reforço – reclamando, murmurando, julgando, condenando. E ao invés de ajudar a diminuir o problema, eu só o estava aumentando.

E quando eu li esse trecho de Lucas, me lembrei dessa frase. Nesse contexto, Jesus estava com seus apóstolos, falando a uma multidão a respeito do Reino de Deus, havia horas. O dia já estava chegando ao fim, e lá estava Jesus, os apóstolos e a multidão. Sendo que, já no fim do dia, os discípulos se aproximam de Jesus para pedir a Ele que mande aquela multidão embora, para voltar às aldeias e campos vizinhos, a fim de encontrarem abrigo e alimento, pois aquele lugar em que estavam era deserto (v.12). Uma boa ideia, não é? Os discípulos estavam preocupados com aquelas pessoas, não queriam que elas ficassem sem abrigo e sem alimento ali, no meio do deserto. A preocupação deles era genuína e com razão. Como nossas propostas para resolução dos problemas, muitas vezes, também são prudentes e justificáveis.

Porém, Jesus, como sempre, enxerga o mais profundo de nós, de nossas motivações, de nossos pensamentos e sentimentos mais escondidos. E responde: “Dai-lhes vós mesmos de comer”. Porque uma preocupação com um problema, uma proposta de solução que não envolve a MIM é tão fácil de ser oferecida. Por mais “honesta” que seja minha preocupação e minhas propostas, se eu estou me eximindo da RESPONSABILIDADE perante aquele problema, é muito provável que eu também vá ouvir do Senhor Jesus: “Dê você de comer a eles!”. É como se Jesus estivesse falando: “Você está vendo que existe um problema que precisa de solução aqui? Por que você está me pedindo para manda-los embora se virar pra resolver os seus próprios problemas, então? Não é assim que nós fazemos! Vá você mesmo arrumar uma forma de solucionar o problema deles!”. Venha você ser a resposta! Venha você ser a solução! Não passe para o outro, quem quer que ele seja, a responsabilidade de resolver um problema que o Senhor mostrou A VOCÊ! Porque Deus não nos chama para ser “identificadores de problemas”, Ele nos chama a ser “solucionadores de problemas”. Era o que Jesus fazia. É o que Ele nos convoca a fazer.

Estava tão confortável pros discípulos enxergarem a fome e a falta de abrigo daquela multidão, compostas por milhares de pessoas, e pedir que Jesus as mandasse embora para resolver seus problemas. Eles já haviam passado o dia inteiro ali, com aquelas pessoas, compartilhando com elas o “melhor que eles tinham”, a Palavra de Deus – pronto! Já não estava suficiente? Eles já tinham oferecido tanto! Mas, para Jesus, não era o suficiente. Sentar e falar àquelas pessoas, enxergar a dor deles, mas não envolver-se, não tomar para si, não desejar doar-se pelo outro, era uma missão muito distante de estar cumprida. Havia homens, mulheres e crianças ali, e o chamado de Jesus foi: “Venham vocês ser resposta para a dor deles!”.

E o bonito do restante do texto é que o que aqueles homens tinham para oferecer em obediência ao chamado do Mestre era tão pouco! “Não temos mais que cinco pães e dois peixes...”, foi o que eles responderam (v.13b). Mas esse pouco, que aos olhos dos discípulos não era nada, era o suficiente para Jesus. Porque o que Jesus espera de nós não é uma quantidade enorme de coisas que possamos oferecer para resolver os problemas que Ele nos mostra – é que entreguemos aquilo que temos. Só isso. Deus não espera de você mais do que você tem. Aliás, Jesus nem precisava daqueles 5 pães e dois peixes! Ele poderia ter feito o milagre sem eles. No entanto, Ele queria que os discípulos aprendessem a se oferecer, oferecer tudo o que tinham, por mais ínfimo que aquilo pudesse parecer, para ajudar a resolver aquele problema. E é assim conosco. Deus não está preocupado com quantos pães e peixes existem nas nossas mãos, e com quanto o tamanho de nossa oferta se aproxima do tamanho do problema que somos chamados a resolver. O que Ele espera de nós é que haja em nós envolvimento tal na resolução daquela tarefa que Ele nos chama a fazer, a ponto de entregarmos tudo o que temos – ainda que sejam apenas 5 pães e 2 peixes para alimentar 10 mil pessoas. É com a nossa entrega – total – que Ele está preocupado. É com nosso ASSUMIR A RESPONSABILIDADE.

E isso é tão difícil! É tão fácil enxergar que falta gente pra cuidar dos jovens da igreja – mas é tão difícil se oferecer pra ser esse alguém. É tão fácil dizer que a igreja não está arrecadando a oferta que precisava para investir em missões – mas é tão difícil tomar iniciativa para mobilizar essas ofertas e entregar as suas próprias. É tão fácil dizer que a igreja deveria evangelizar mais – mas tão difícil tomar a frente para montar um programa de evangelismo. É tão fácil olhar para a violência na nossa cidade, e colocar a culpa no governo – mas tão difícil desenvolver num projeto para redução de violência. É tão fácil condenar a corrupção e a falta de envolvimento político dos brasileiros – mas tão difícil fazer uma ação de combate real à corrupção. É tão fácil ver gente com fome e sentir pena – mas tão difícil ficar sem comer ou sem fazer as unhas para dar de comer a alguém. É tão fácil se comover com um vídeo que mostra as dificuldades dos campos missionários ao redor do mundo, e dos povos ainda não alcançados por Cristo – mas tão difícil ser aqueles que assumem o compromisso de oração, de sustento ou de doação de toda a sua vida para participar da redução dessas dores. É tão fácil falar e apontar e criticar e condenar... mas tão difícil tomar para nós a responsabilidade, e fazer.


Você está enxergando uma multidão que precisa de abrigo e de comida? Que está correndo o risco de perecer de fome no deserto? Isso está incomodando o seu coração? Está lhe gerando preocupação? Deus está lhe chamando para ser a resposta. “Dai-lhes vós mesmos de comer”. É conosco. O que você pode oferecer para saciar a fome deles? 5 pães e 2 peixes? É tudo o que você tem? Então é o suficiente. Porque o resultado vem de um Deus TODO-PODEROSO, que transforma nossas mais ínfimas ofertas num alimento para multidões. Ele não precisa de nossas “quantidades”. Ele precisa da nossa doação – de vida. Quando nos levantarmos para ser a resposta, Ele fará o milagre acontecer. Que possamos aprender, com a ajuda do Espírito Santo, a transformar problemas menos em reclamações, murmurações, julgamentos, e mais em soluções e respostas. Chamados para ser resposta. E chamados pelo Mestre. Chamados para ser COMO O MESTRE. Para a glória dEle, o Único digno, sobre Quem todas as coisas são. Ele nos ajude. Amém.