domingo, 19 de novembro de 2017

Maturidade...



Estou cada dia mais convencida de que maturidade tem muito mais a ver com lágrimas do que com risos, com decepções do que com encantos, com frustrações do que com vitórias, com dores do que com conforto, com tempestades do que com bonanças, com desertos do que com jardins...

Pois é na dor, na fornalha, na pressão, nos tempos contrários, quando nada do que esperamos acontece, quando nenhuma das nossas expectativas é suprida, quando nossos sonhos se frustram, quando os sentimentos são abafados e a empolgação passa que iremos mostrar a real força de nossas convicções – a real força de nossa fé.

Pois maturidade tem a ver com força. Não é sobre a intensidade com que começamos, mas com nossa capacidade de permanecer, enfrentando cada estação, cada inverno pesado, cada outono em que as folhas todas caem e as árvores ficam todas desfolhadas e secas... e ainda continuar de pé. É poder cantar como cantaram “Os Arrais”: “Como as árvores, eu permaneço no mesmo lugar; no outono, no inverno, eu espero primavera chegar...”. É sobre saber esperar.

É sobre ser testado e aprovado. Sobre sobreviver ao dia mau. Sobre conseguir atravessar as noites escuras sem deixar o coração endurecer e perder a esperança. É sobre não desistir de amar, mesmo sem receber amor. É sobre não desistir de dar, mesmo sem nada em troca. É sobre decidir pelo que se é, pelo que é verdade, não pelo retorno que teremos. É sobre escolher continuar dizendo sim à missão de salvar a outrem, ainda que nosso único pagamento seja uma cruz.

Estou cada dia mais convencida de que maturidade tem a ver com suportar as demoras da vida e ainda acreditar. Sobre abalar-se e não desistir. Sobre ainda poder olhar com compaixão, graça e misericórdia mesmo para aqueles que mais nos feriram. Sobre morrer, mas ainda assim escolher doar-se. Sobre injustiças, sobre “nãos”, sobre feridas, sobre solidão, sobre diminuir, pois, como também cantaram “Os Arrais”, “somente uma fé que se abalou inabalável é”.

Porque é tão fácil ter um sorriso nos lábios, um coração grato, um olhar compassivo, braços estendidos, serviço disposto, vontades firmes, convicções inabaláveis quando os tempos nos são favoráveis, quando o caminho está cheio de companheiros, quando nosso sonho é compreendido e apoiado, quando encontramos suporte e cuidado, quando está confortável e bonito o trajeto à frente, quando há luz e certezas... e como são bons e abençoados estes tempos de bonança que o Senhor nos dá!

Porém o dia mau chegará. E não nos enganemos: ele chegará! O inverno. Depois de viver as belezas do verão e da primavera, precisamos estar preparados para o inverno, pois ele sempre chega. Quando não haverá mais tantas companhias, quando nossos sonhos e visões serão considerados loucos, quando não haverá a mão estendida ou o abraço esperado, quando seremos julgados e condenados, quando uma cruz nos esperará no fim do caminho, quando vai doer e sangrar e pareceremos enfrentar tudo isso sozinhos... e é então que saberemos a real força de tudo que achávamos ter e ser. É então que saberemos o real material do qual nossa casa era construída. Quando o vento bate forte. Quando a tempestade cai.

E esse é o propósito dos nossos invernos. Não apenas nos testar e provar, mas nos amadurecer. Nos mostrar nossas fragilidades e nos convidar a cuidar delas e deixa-las ser cuidadas, e nos fortalecer. Pois quando conseguimos vence-los – ah! quando conseguimos vence-los! – descobriremos que havia em nós uma força que jamais imaginaríamos, e descobriremos que nossa paz e satisfação não são construídas e determinadas pelo que está acontecendo lá fora, mas pelo que está acontecendo aqui dentro. Até chegar aquele dia em que, esteja frio ou calor, claro ou escuro, silêncio ou barulho, repleto de gente ou sem ninguém, continuaremos encontrando motivos para sorrir e confiar e, finalmente, descansar. Maturidade.

Por isso, também “nos gloriamos nas tribulações, porque aprendemos que a tribulação produz perseverança; a perseverança produz um caráter aprovado; e o caráter aprovado produz confiança. E a confiança não nos decepciona, porque Deus derramou seu amor em nossos corações, por meio do Espírito Santo que Ele mesmo nos outorgou” (Romanos 5.3-5), porque “Ele me declarou: “A minha graça te é suficiente, pois o meu poder se aperfeiçoa na fraqueza”. Sendo assim, de boa vontade me gloriarei nas minhas fraquezas, a fim de que o poder de Cristo repouse sobre mim. Por esse motivo, por amor de Cristo, posso ser feliz nas fraquezas, nas ofensas, nas necessidades, nas perseguições, nas angústias. Porquanto, quando estou enfraquecido é que sou forte!” (1 Coríntios 12.9-10).

Porque Ele é a nossa força. Ele é nossa fonte de paz e alegria. Ele é nosso motivo e esperança. Ele é nosso propósito e herança. Ele é nosso conforto e abrigo. Ele é nossa segurança e nosso amigo sempre presente.

“Porque dELE, e por ELE, e para ELE, são todas as coisas; glória, pois, a ELE eternamente. Amém.” (Romanos 11.36)

E, seja verão ou inverno, outono ou primavera... Ele nunca nos faltará!


Nele podemos descansar e confiar.

Amadurecer...

terça-feira, 7 de novembro de 2017

Envelhecer...



Gosto da beleza desses tempos meio cansados da vida.

Os passos lentos, os lugares ermos da espera, antes tão temidos e rejeitados, hoje parecem tão mais desejáveis do que os empolgados e bobos desejos perecíveis dos tempos de meninice.

Aquela pressa de chegar, que antes parecia nunca passar, que parecia vital como o ar, que parecia quase propósito em si mesma, começa a dar lugar a essa brisa meio melancólica e tão desapressada dos cabelos que começam a embranquecer.

A vontade cheia de intensidade dos holofotes, das emoções explosivas, das respostas rápidas começa a tornar-se desejo por rede de varanda, cadeira de balanço, e as reflexões acalmadas já não causam mais tanto temor.

A palavra esperança ganha um novo sentido. Ou uma nova compreensão. Assim como paciência. E fé. Aprende-se a contemplar a beleza do inalcançado, do que ainda não é – e nem se sabe se será.
A beleza dos tempos de espera. A beleza da caminhada, e não apenas da chegada. A beleza de desacelerar.

Hoje confesso que as fortes e explosivas emoções, as grandiosas promessas, a necessidade de tantas juras já não me atraem tanto. Quase me causam desconfiança. Atrai-me um amor quieto, pensado, sentido devagar, delicado como gestação, como bebê recém-nascido que maior e mais definitivo significado ganha quanto mais o tempo passa. Não à primeira vista, mas a cada nova vista do dia-a-dia, gota a gota, passo a passo. A beleza da frágil construção. De quem vê semente tornar-se flor.


Deve ser algo assim o que chamam de maturidade. Só sei que me conquista. Pouco a pouco. Envelhecer...

Ele continua sendo bom...



Se estivermos atentos, se houver em nós uma pequena centelha de atenção, um pequeno intervalo de paciência para parar e contemplar em meio aos dias maus, em meio aos dias de ventos parados, quando parece que o Senhor calou e esqueceu, como se tivesse resolvido sair do jogo e deixar pra lá todas as promessas... nós ainda O ouviremos. Ele ainda nos falará, no meio da brisa suave, no meio de uma discreta luz brilhante, como aquela flor escondida, solitária, no meio de pedras e cachoeiras... Ele ainda falará.

Falará que continua sendo Deus, e que continua sendo bom. E que, diferente de nós, Ele não esquece e não desiste. Ele não volta atrás e não abandona. E Ele ainda sabe o caminho mais bonito para nós, aquele que precisamos trilhar pra descobrirmos o melhor que podemos ser. Ele ainda tem o plano sob controle e sabe exatamente aonde quer nos levar. Ele ainda tem o plano perfeito – e Seus planos continuam sendo belos, plenos e cheios de alegria e paz.

Ele ainda escreve histórias bonitas e, revelando Sua infinita graça, as coloca em nossas vidas para nos fazer lembrar – e não desistir. Para não nos deixar achar que eram apenas fábulas contadas pelos antigos, apenas sonhos infantis ou aspirações utópicas. Então, Ele nos lembra e nos revela Seu imensurável poder. Porque Ele continua sendo Deus, e continua sendo bom. Porque todo o poder está em Suas mãos, e Ele realmente – REALMENTE – nos ama. Ele conhece cada anseio dos nossos corações, Ele conhece cada uma das nossas lágrimas, Ele mesmo plantou sonhos em nossas almas, desde a eternidade, e é fiel e justo para completar em nós a obra que Ele mesmo começou.

Então, coração, espera nEle. Confia nEle. Para, contempla, respira fundo e confia. Seu Deus continua sendo Deus – e Ele continua sendo bom. Você pode descansar. Ele ainda está lá, Ele ainda vê você, Ele ainda te conhece e te ama e continua contigo. Não desanima, não! Ainda há muito para acontecer. Ainda há muito para se surpreender. Caminha, continua a caminhar. Olha para o alto, olha para o Pai, coloca nEle seu amor, e Ele te guiará.


Sonha, coração! Nunca deixe de sonhar! Pois para as alturas fostes criado, para os ares, para os céus, para as montanhas, para muito mais... continua a crer, abre tuas asas e recomeça o teu voar – pois lá no fim, na plenitude do mais belo horizonte, está Seu Criador e Pai – sempre Deus, e sempre bom – a te esperar...

sábado, 9 de setembro de 2017

Procura-se um amor...



Procura-se um amor que goste de velharias: Vinícius de Moraes, Tom Jobim, Bossa Nova, um bom xote do Gonzaguinha e um bom chorinho, preferencialmente tocado por algumas cabecinhas já bem esbranquiçadas pelo tempo.

Procura-se um amor sensível: romântico, que goste das pequenas expressões de carinho - andar de mãos dadas, abraço de cumplicidade, dançar juntinho, sorrir com o olhar, abraçar com o sorriso...

Procura-se um amor menino: leve, de sorriso fácil, grato para com as pequenas bonitezas da vida, sem vergonha das gargalhadas escandalosas e das fotos de poses malucas, capaz de regozijar-se com as gotas de alegria do dia-a-dia.

Procura-se um amor maduro: guerreiro, sério, pensado, desejado, decidido, daqueles que sabem o que se quer e aonde se vai e que são pela decisão de ser e, sendo assim, não mudam com cada vento a soprar, mas permanecem, apesar das tempestades, pois, como disse o velho Vinícius: “Para viver um grande amor direito, primeiro é preciso muito peito, peito de remador”.

Procura-se um amor reflexivo: contemplativo, daqueles que andam sempre à procura da profundidade das coisas - a letra de uma música, a história de um filme ou de um bom livro, o bate-papo com um amigo, o ouvir uma criança ou o simples parar para olhar o céu, o rio, as árvores, as aves, a vida intensa de toda a criação.

Procura-se um amor intenso, que ame a aventura da vida e vibre com o desejo de descobrir tudo de bom que ela tem para oferecer. Um amor criança, que regozije-se com a novidade, a descoberta, a adrenalina da renovação - um amor para explorar cada pequena eternidade da caminhada!

Procura-se um amor Divino. Acima de todas as outras coisas. Um amor cheio do amor do alto, inundado pelo Próprio Amor – vindo dEle, olhando para Ele, apontando para Ele, existindo nEle, crescendo para Ele, compreendendo que sua força, seu propósito, sua essência está na eternidade e não nos pequeninos tesouros empoeirados desse mundo.


Procura-se um amor cheio de sonhos: sonhos de Deus, sonhos com Ele. Muitos sonhos! Esse desejo enorme, essa ansiedade bonita de se entregar para algo maior do que a si mesmo, de viver uma vida que vale a pena, de não desperdiçar toda graça recebida, de multiplicar, de frutificar, de florescer. Procura-se um amor cheio de amor, para dar e receber.

quinta-feira, 27 de julho de 2017

Alma de passarinho...


Ela tem alma de passarinho. Nasceu para as alturas, para a liberdade, para o doce soprar do vento, para abrir as asas e plainar. Nasceu para a plenitude do horizonte, para o contemplar de belas paisagens, para o despertar e o pôr do sol, para a sombra da lua nos rios, para a vida da natureza. Seu coração anseia por voar, pelo que está além, pelo que ainda não se descobriu. Sua alma caminha na simples confiança de quem se entrega, de quem sabe que o amanhã virá e trará consigo a provisão do Criador. Alma livre, alma de aventuras, de emoções, de intensidades. Sempre criança, sempre abraço, sempre amor. Ela não tem vergonha de ser feliz. Nasceu para a vida, para o alto, para o profundo, para o porvir, para muito mais...

quarta-feira, 23 de novembro de 2016

Série 1 Coríntios - Parte 1: Uma igreja orgulhosa e o problema das divisões denominacionais



Hoje iniciaremos uma série de reflexões a respeito do livro de 1 Coríntios. Serão análises gerais a respeito dos assuntos abordados na carta, sem adentrar de maneira muito profunda em tópicos específicos ou polêmicos, exceto em alguns casos. O objetivo é termos uma noção geral do que Paulo estava tentando ensinar àquela igreja, e como esses ensinos são aplicados à nossa vida cristã hoje. As análises apresentadas são pessoais, mais baseadas em meu entendimento da Palavra do que em estudos teológicos aprofundados a respeito de cada assunto, então, é claro que posso estar equivocada a respeito do sentido de qualquer aspecto, e a correção e/ou complementação por parte de todos os visitantes será muito bem-vinda.

Começaremos falando um pouco da questão que acredito ser a central na igreja de Corinto, e os aspectos abordados nos capítulos 1 a 4. Deus seja conosco, nos iluminando, revelando Sua Palavra e nos transformando, pela renovação da nossa mente, por meio das Sagradas Escrituras. A graça do Senhor seja conosco.

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"Porque em tudo fostes enriquecidos nele, em toda a palavra e em todo o conhecimento (Como o testemunho de Cristo foi mesmo confirmado entre vós). De maneira que nenhum dom vos falta, esperando a manifestação de nosso Senhor Jesus Cristo" (1 Co. 1. 5-7)


Estudando o livro de 1 Coríntios e tentando entender quem era aquela igreja para quem Paulo estava escrevendo, e percebendo as características das exortações que Paulo fazia àqueles irmãos, esses versículos 5 a 7 do primeiro capítulo me pareceram resumir o problema da igreja de Corinto: o que Paulo elogia foi o que se tornou a queda daquela igreja - seu enriquecimento na Palavra, conhecimento e dons espirituais tornou-se orgulho. E em muitos momentos veremos essa característica se manifestando nos pecados que aquela igreja estava cometendo. Uma igreja orgulhosa - ou cheia de pessoas que se tornaram espiritualmente orgulhosas e soberbas.

E isso é tão fácil de acontecer, não é? Quando começamos a receber muito de Deus, seja no que for - conhecimento, dons, manifestações sobrenaturais (como estava acontecendo com Corinto), o que quer que seja - corremos o grande perigo de começar a nos achar melhores do que os outros e, assim, começar a olhar quem "não está no nosso nível" com julgamento, exclusão, menosprezo.

A primeira expressão desse pecado na vida da igreja de Corinto pode ser percebida nos capítulos 1 a 
4, quando Paulo está falando das divisões que se estabeleceram dentro da igreja, principalmente, no caso desses capítulos, em função da valorização de nomes de líderes em detrimento da valorização da obra de Cristo, que une a todos os cristãos.

Paulo exorta a igreja contra a procura/ valorização / foco naquilo que homens podem oferecer, na sabedoria humana, no colocar a esperança e a fé nos atributos humanos, o que estava gerando divisões na igreja, visto que alguns se chamavam pelo nome de Paulo, outros pelo de Apolo, outros pelo de Pedro. Paulo lembra que nossa esperança e nosso foco devem estar na obra de Cristo (e não de homens) e na sabedoria de Deus (e não de homens), e que estas, ambas, são loucura para o mundo, porém, foi por meio do que é louco (e não sábio) que Deus resolveu operar e revelar Seu mistério de salvação. Portanto, não devemos olhar ou nos apoiar em homens, pois a sabedoria humana é loucura para Deus, mas em Cristo, e nEle sermos UM e andar em unidade.

Ainda falando sobre a divisão que havia se instalado na igreja, no capítulo 4, Paulo ensina que os apóstolos são apenas servidores de Cristo, e que a igreja / os grupos não deveriam julgar nenhum dos obreiros de Deus precocemente, que o dever de cada apóstolo era ser fiel a Deus e não a homens, e era Deus quem iria julgá-los. Portanto, um grupo, que seguia uma pessoa, não deveria ficar julgando outro grupo, que seguia outra pessoa, mas aguardar o julgamento final, quando todos serão julgados pelo Pai e todas as obras serão manifestadas.

O apóstolo também fala que esse julgamento que um grupo fazia do outro originava-se do orgulho que havia entre eles: um se achava superior ao outro. Mas lembra que tudo o que temos foi dado por Deus, portanto não temos do que nos orgulhar. 

Termina lembrando que os verdadeiros apóstolos, ao invés de estarem sendo exaltados ou procurando exaltação, estão sendo humilhados, perseguidos, pagando alto preço para ver o crescimento da Igreja, e diz à igreja para seguir seu exemplo, ao invés de ficarem orgulhosos, e envia Timóteo para ajudar a igreja a relembrar tudo que havia ensinado e tudo que estava vivendo por estar unido com Cristo.

Trazendo os ensinos desses 4 primeiros capítulos para nossas vidas, penso nitidamente nas divisões denominacionais que existem no meio evangélico brasileiro. Como nós somos como a igreja de Corinto. Um grupo achando-se melhor do que outro, apoiando-se em nomes de homens, em suas histórias, naquilo em que se acham superiores aos outros, e julgando todos aqueles que pensam e vivem diferente como inferiores. Como temos vivido como se não fôssemos a mesma Igreja, o mesmo Corpo de Cristo, a mesma Noiva, e dividindo o Corpo de Cristo, de forma a manchar o nome de nosso Cabeça, Jesus Cristo, entre os incrédulos. Quando nossa união deveria manifestar a maravilhosa obra que Cristo fez por nós, Sua graça em nos revelar Suas maravilhas e nos dar dons e entendimento - a nós e a todos os demais salvos, nos enchemos de orgulho com o pouco que temos recebido e nos tornamos juízes de todo mundo. Como nossa igreja evangélica brasileira precisa olhar para a igreja de Corinto, enxergar-se nela e aprender com ela. E eu faço parte disso. Eu também estou aprendendo a julgar menos e amar mais - como Paulo ensinará nos capítulos posteriores. O orgulho nos mata, e as divisões dentro do Corpo de Cristo nos matam também. Que não seja assim. Que o Senhor nos liberte do pecado do orgulho espiritual, da vaidade, da soberba, e nos ensine a enxergar o que realmente importa, o que realmente Jesus veio nos ensinar - e Seu Evangelho nos ensina.

Que Deus ajude a igreja brasileira. Vem, Senhor Jesus.



sábado, 1 de outubro de 2016

A questão do beijo antes do casamento


Eis uma questão sobre a qual, enquanto jovem solteira, tenho refletido durante muitos anos. Faz muito tempo desde que comecei a ler/ouvir pessoas falando sobre esse aspecto específico dos “namoros” cristãos, e já pensei realmente bastante no assunto. Vi muita gente que, enquanto solteira, defendia o “beijo só no dia do casamento”, mas que acabou abrindo mão dessa convicção quando iniciou um relacionamento romântico. Vi muita gente desacreditando desse fato como um princípio bíblico. Assim como vi muita gente ensinando isso como pecado e regra a ser cumprida. E me deparei com muito medo, em meu coração, de defender a reserva do beijo romântico (leia-se “beijo na boca”) para o dia do casamento de uma forma legalista – porque pude identificar muitas coisas em minha caminhada cristã que eram defendidas de maneira legalista e acusadora e que precisaram ser repensadas e redefinidas.

Contudo, continua havendo uma voz incômoda em meu coração me dizendo que não posso abrir mão deste princípio. E hoje já não tenho a ousadia de acreditar que todos precisam pensar e sentir assim como eu. Sei que não tenho o direito de julgar pessoas simplesmente pelo fato de não enxergarem a vida como eu enxergo e não tomarem as mesmas decisões que eu. Entendi que cada um de nós tem uma história e que o pecado se manifestará em nossas vidas de maneiras diferentes, que cada um de nós enfrentará tentações diferentes de acordo com tudo aquilo que tem vivido. Assim, hoje quero falar dos motivos que me fazem crer que o beijo romântico deve ser reservado para o casamento – mas quero falar do que isso representa para mim. Não posso afirmar que seja assim para todas as pessoas – e, certamente, não é. Mas, provavelmente, já foi muito parecido para todos nós, em algum ponto de nossas vidas.

Eu sempre me pego fazendo essa pergunta a mim mesma: “E quando eu precisar falar para o cara com quem espero me relacionar que não pretendo beijar até o dia do casamento? Como vai ser? Como vou explicar isso pra ele?”. E confesso que não é nada fácil. Porque parece algo tão louco, tão de outro mundo. E não é fácil, pelo menos pra mim, ter de lidar com o julgamento dos outros a respeito de você – especialmente se esse outro é alguém com quem você espera desenvolver um relacionamento para casamento. Mas tenho precisado pensar nas explicações que darei um dia, e me perguntar quais são as reais razões que me levam a crer nisso como um princípio cristão. E eu realmente poderia escrever quase um livro aqui sobre isso, porque eis um assunto que me tira o sossego há anos mesmo! (rs). Mas gostaria de mencionar aqueles que, hoje, me são os mais importantes diante de minha identidade cristã.

1) Meu corpo não me pertence

“Acaso não sabem que o corpo de vocês é santuário do Espírito Santo que habita em vocês, que lhes foi dado por Deus, e que vocês não são de si mesmos? Vocês foram comprados por alto preço. Portanto, glorifiquem a Deus com o corpo de vocês” (1 Coríntios 6.19-20 – NVI)

Esse texto pra mim é um dos mais importantes na Bíblia quando penso em “até onde devo chegar em meu contato físico romântico antes do casamento”. A verdade ensinada por ele é uma das mais importantes: nosso corpo não é nosso. Fomos comprados, e por alto preço, e, por isso, não nos pertencemos mais. Somos de Deus. E nossos corpos são morada do Espírito Santo de Deus. E não tem como fugir do fato de que, ao escrever isso, Paulo estava falando exatamente do uso do corpo para pecado sexual. Todo o texto de 1 Coríntios 6.12-20 trata disso. Em minha Bíblia, o título para esse trecho é “A sensualidade é condenada”.

Paulo começa dizendo: “Todas as coisas me são lícitas, mas nem todas convêm”. E fica claro também que Paulo não está falando apenas contra o ato sexual em si, porque no verso 18 ele diz: “Fujam da imoralidade sexual [...]”. O Dicionário Almeida do aplicativo The Word traduz o termo imoralidade como “Ato ou costume que fere a pureza e a moral; indecência (1Co 5.1, RA)”. Poderíamos dizer: tudo aquilo que fere a pureza e a moral sexual – não apenas o ato sexual em si. E o verso 13b diz: “Porém o corpo não é para a impureza, mas, para o Senhor, e o Senhor, para o corpo”. Uma vez que fomos comprados por Cristo, toda nossa vida passou a pertencer a Ele – incluindo nosso corpo. Não é mais meu. Não posso mais usar do jeito que eu quiser. É do Senhor e para o Senhor. O entendimento disso é essencial.

E a única circunstância em que a Bíblia afirma que Deus compartilha a posse de nosso corpo com outra pessoa é no contexto do casamento: “A mulher não tem autoridade sobre o seu próprio corpo, mas sim o marido. Da mesma forma, o marido não tem autoridade sobre o seu próprio corpo, mas sim a mulher” (1 Coríntios 7.4). Nunca encontrei outra situação em que posso compartilhar a posse de meu corpo com outro, para outro propósito que não seja a glória de Deus, que não o casamento. Nesse contexto, Deus concede o corpo um do outro como um presente ao cônjuge – e como nossa arma contra a imoralidade. É interessante que Paulo fale, no verso 1 deste mesmo capítulo, que “é bom que o homem não toque em mulher, mas, por causa da imoralidade, cada um deve ter sua esposa, e cada mulher o seu próprio marido”. Não “tocar em mulher” é muito mais do que “não fazer sexo”. Porque não tenho direito sobre o corpo do outro, e não tenho direito de entregar meu corpo a alguém, exceto a esposa a seu marido e vice-versa.

2) O que não provem de fé é pecado

“Mas aquele que tem dúvidas, se come está condenado, porque o que faz não provém da fé; e tudo o que não provém da fé é pecado” (Romanos 14.23)

Outro texto extremamente desafiador pra mim nesse assunto. Já pensei em abrir mão desse princípio do beijo só no dia do casamento. Realmente já quis abrir mão disso. “Deve ser besteira isso. Deve ser exagero meu. Olha quantos jovens cristãos genuínos se beijam durante seus namoros! Não deve ser tudo isso que eu penso! Eu nunca nem vivi isso, como vou querer saber?”. Mas, por mais que eu pensasse em todos os argumentos pra não precisar mais defender esse princípio, sempre havia aquele incômodo lá no coração me dizendo que DEUS estava me ensinando sobre esse tipo de pureza há anos – e que eu queria abrir mão disso não por convicção, mas por medo de ser julgada. Eu não acreditava, e não acredito, que “beijo não tem problema”. Portanto, decidir viver assim não seria uma decisão proveniente de FÉ e, portanto, para mim, seria pecado.

Nesse ponto, assim como Paulo falava sobre os alimentos ou a guarda de dias especiais, aquele que o faz não deve julgar aquele que não faz porque, no fim, seremos julgamos é pela fé que motivou nossa decisão. Deus está olhando nossas motivações. E eu quis optar por atitudes que fossem mais compreensíveis ao mundo, que não exigissem tantas explicações e que não viessem a gerar tantos olhares de “qual o problema dela?” quando o dia de tomar essa decisão chegar. Mas optar dessa forma não seria viver por fé – e não seria viver para a glória de Deus. Então, até que o Espírito de Deus testemunhe ao meu espírito e transforme minhas convicções, gerando fé onde não há fé, não tenho como abrir mão disso sem pecar.

3) Pureza além do corpo: na mente

“Ouvistes que foi dito: Não adulterarás. Eu, porém, vos digo: qualquer que olhar para uma mulher com intenção impura, no coração, já adulterou com ela” (Mateus 5.26-27 – ARA)

“Mas eu lhes digo: quem olhar para uma mulher e desejar possuí-la já cometeu adultério no seu coração.” (Mateus 5.27 – NTLH)

Lembro de um texto fantástico que li, em algum blog, que dizia “Deus não quer a sua virgindade”, ou algo assim. E o que ele defendia era que podemos, facilmente, ainda ser virgens em nosso corpo, mas será que em nossas mentes ainda somos virgens? E essa é uma pergunta muito séria. Acredito que é o mesmo que Jesus estava ensinando nesse trecho de Mateus: você pode não ter adulterado fisicamente, mas tê-lo feito em sua mente e coração. E aí vem o grande ensino de Jesus: Deus não está preocupado apenas com nosso exterior, Ele está interessado em nosso coração e nossas motivações. O Antigo Testamento, a Lei, estavam preocupados com o pecado externo – o adultério do corpo. Mas o Novo Testamento ensina que Deus vai além disso: preocupa-se com a santidade e a pureza de nosso coração e nossa mente. E, com toda certeza: esse é um padrão muito mais difícil de pureza a se manter.
Eu nunca namorei. Beijei 3 rapazes, entre os 14 e os 16 anos (coisa que eu realmente gostaria que não tivesse acontecido). Desde os 16, quando o Senhor converteu meu coração a Si mesmo, não tenho contato físico romântico com rapaz nenhum. Não tenho necessidade ou dependência de contato físico com rapazes. Eles me são até estranhos, pra falar a verdade. Manter virgindade física não é um problema pra mim – porque a gente não sente tanta falta daquilo que a gente nunca teve. Mas guardar minha mente e meu coração das expectativas do que virá a ser um relacionamento sexual dentro do casamento, com alguém que ainda nem sei quem é, é muito mais difícil. Porque tenho esperado pelo casamento (e, claro, todas as “bênçãos” que virão com ele) há muitos anos, e sou o tipo de pessoa que cria muita expectativa a respeito das coisas. Não deixar que essas expectativas se tornem essa cobiça, esse “olhar [ou pensar] com intenção impura”, esse “desejar possuir” que Jesus estava falando é muito mais difícil, pra mim, do que não fazer sexo.

E onde entra o beijo nisso? Se é difícil manter a pureza de minha mente e meu coração estando ainda solteira e sem sequer conhecer o cara com quem irei me casar, quem dirá tendo-o conhecido, estando apaixonada, planejando um casamento e ainda trocando beijos apaixonados com ele? Eu nunca passei por isso, mas, com toda sinceridade, não tem como um beijo entre duas pessoas apaixonadas ser um contato não sexual – e que não traga pensamentos e expectativas sexuais. A vivência de nossa sexualidade é um impulso natural do ser humano, que tende a ser crescente quando é iniciado, e não decrescente – porque seu destino final é a consumação sexual, a qual constitui a consumação do próprio casamento (aliás, era a própria celebração do casamento no Antigo Testamento). Assim, nossos impulsos sexuais, uma vez iniciados, não tendem a diminuir, mas a crescer, até que o ápice da união sexual seja alcançado.

E eu não quero ter que ficar lutando contra esses impulsos durante a minha preparação para o casamento – nem no aspecto físico, nem no mental. Não quero precisar ficar experimentando a culpa por não resistir ao pecado, no corpo ou na mente, e manchar a pureza para a qual o Senhor me chamou e a qual Ele tem me ensinado a buscar. Dediquei os últimos 12 anos de minha vida tentando viver de forma pura e bonita diante de Deus, tentando aprender Seus princípios e coloca-los em prática na minha vida, para honrar a Deus em todas as minhas escolhas. Não quero perder isso exatamente ao encontrar aquele que deve ser o primeiro protetor e estimulador de minha pureza, enquanto noiva sua e de Cristo. Não quero, depois, carregar o sentimento de culpa-lo por ter me feito quebrar meu compromisso com Deus. Quero andar tão longe quanto possível de tudo aquilo que me tente a desonrar a Deus em meu corpo e, principalmente, em meu coração. E, em meu caso, o beijo seria um problema com certeza. Conheço a fraqueza da minha carne e sei que não posso brincar com ela.

4) O significado do contato físico pra mim

E esse ponto não é um ponto bíblico. É pessoal – e apenas um complemento do ponto anterior. Como mencionei, nunca namorei e praticamente não sei o que é contato físico romântico. Esse tipo de contato não tem o mesmo significado pra mim que tem para quem já o vivenciou tanto que já se acostumou com ele. Um beijo pra mim não é “só um beijo”. Se você já beijou tantas vezes que já até perdeu a conta (ou mesmo que não tenha perdido a conta ainda), o beijo já se tornou algo comum pra você. Não tem mais o efeito que o “primeiro beijo” teve. É a mesma coisa com o sexo. Um amigo meu, já com 30 anos e virgem, me disse isso: sexo pra mim não tem o mesmo significado que tem pros meus amigos que já transam há anos. E eles não entendem. E é verdade. O valor do sexo – e a preocupação com quando ou como vive-lo – só é tão grande pra nós porque ele ainda é um “tesouro inexplorado”. Ainda é mistério, ainda é alvo. A “Lua-de-mel” só é algo cheio de expectativas pra nós porque traz consigo o presente da iniciação sexual. Para um casal de namorados que já faz sexo normalmente, a lua-de-mel nada mais é do que uma noite como outra qualquer. Perdeu o brilho, perdeu o valor.

E é nesse ponto que não me atrevo a esperar que todas as pessoas enxerguem a questão do beijo como eu enxergo. O beijo é algo que traz quase tantas expectativas pra mim quanto o sexo – porque não me é comum, é também um alvo, é também uma espera. Não é como dar um abraço ou segurar na mão – ainda que até essas pequenas coisas tenham um significado diferente quando você não está acostumado ao contato físico com alguém do sexo oposto (sabe quando você se assusta e meio que toma um choque quando “sua mão encosta na mão daquela pessoa”? Quantos, nesses nossos dias de excessivo contato físico entre pessoas de sexos opostos, ainda conseguem sentir isso, não é?). E não posso esperar que alguém que já se acostumou – porque explorou isso de forma errada, antes do tempo – enxergue e viva isso da mesma forma. Por isso não julgo mais. Vejo casais de namorados cristãos, que realmente são cristãos, e se beijam normalmente. Antes eu só conseguia pensar que eles só podiam viver mergulhados em desejo sexual ilícito. Mas hoje penso que pode não ser assim. Não sei, talvez os dois já tenham explorado tanto esse contato durante suas vidas que já estão anestesiados a ele. E o beijo pode já não gerar neles aquilo que, provavelmente, vai gerar em mim. Então, não dá pra saber. O fato é que cada um de nós sabe qual o efeito que os contatos físicos com alguém do sexo oposto terá em nós.

E uma coisa é certa: o significado que aquele “pode beijar a noiva” terá em alguém para quem o beijo não foi uma prática constante dentro do relacionamento pré-conjugal será totalmente diferente (e muito mais bonito e cheio de valor) do que para alguém que já se acostumou com essa carícia. E, como uma boa e incurável sonhadora, certamente vou querer a história mais cheia dos valores e significados intensos – e da pureza, no corpo e na mente, para glória do meu Criador, Salvador e Santificador. E que meus filhos e as próximas gerações possam ter uma bela história para contar – uma história de honra e glória a Deus.

Espero poder saber um pouquinho mais sobre as experiências ou expectativas de vocês a respeito do assunto também. Ainda tô em tempo de continuar aprendendo – até que o prometido apareça!

Paz e graça do Pai, pessoal – e muita alegria de voltar aqui!