quarta-feira, 23 de novembro de 2016

Série 1 Coríntios - Parte 1: Uma igreja orgulhosa e o problema das divisões denominacionais



Hoje iniciaremos uma série de reflexões a respeito do livro de 1 Coríntios. Serão análises gerais a respeito dos assuntos abordados na carta, sem adentrar de maneira muito profunda em tópicos específicos ou polêmicos, exceto em alguns casos. O objetivo é termos uma noção geral do que Paulo estava tentando ensinar àquela igreja, e como esses ensinos são aplicados à nossa vida cristã hoje. As análises apresentadas são pessoais, mais baseadas em meu entendimento da Palavra do que em estudos teológicos aprofundados a respeito de cada assunto, então, é claro que posso estar equivocada a respeito do sentido de qualquer aspecto, e a correção e/ou complementação por parte de todos os visitantes será muito bem-vinda.

Começaremos falando um pouco da questão que acredito ser a central na igreja de Corinto, e os aspectos abordados nos capítulos 1 a 4. Deus seja conosco, nos iluminando, revelando Sua Palavra e nos transformando, pela renovação da nossa mente, por meio das Sagradas Escrituras. A graça do Senhor seja conosco.

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"Porque em tudo fostes enriquecidos nele, em toda a palavra e em todo o conhecimento (Como o testemunho de Cristo foi mesmo confirmado entre vós). De maneira que nenhum dom vos falta, esperando a manifestação de nosso Senhor Jesus Cristo" (1 Co. 1. 5-7)


Estudando o livro de 1 Coríntios e tentando entender quem era aquela igreja para quem Paulo estava escrevendo, e percebendo as características das exortações que Paulo fazia àqueles irmãos, esses versículos 5 a 7 do primeiro capítulo me pareceram resumir o problema da igreja de Corinto: o que Paulo elogia foi o que se tornou a queda daquela igreja - seu enriquecimento na Palavra, conhecimento e dons espirituais tornou-se orgulho. E em muitos momentos veremos essa característica se manifestando nos pecados que aquela igreja estava cometendo. Uma igreja orgulhosa - ou cheia de pessoas que se tornaram espiritualmente orgulhosas e soberbas.

E isso é tão fácil de acontecer, não é? Quando começamos a receber muito de Deus, seja no que for - conhecimento, dons, manifestações sobrenaturais (como estava acontecendo com Corinto), o que quer que seja - corremos o grande perigo de começar a nos achar melhores do que os outros e, assim, começar a olhar quem "não está no nosso nível" com julgamento, exclusão, menosprezo.

A primeira expressão desse pecado na vida da igreja de Corinto pode ser percebida nos capítulos 1 a 
4, quando Paulo está falando das divisões que se estabeleceram dentro da igreja, principalmente, no caso desses capítulos, em função da valorização de nomes de líderes em detrimento da valorização da obra de Cristo, que une a todos os cristãos.

Paulo exorta a igreja contra a procura/ valorização / foco naquilo que homens podem oferecer, na sabedoria humana, no colocar a esperança e a fé nos atributos humanos, o que estava gerando divisões na igreja, visto que alguns se chamavam pelo nome de Paulo, outros pelo de Apolo, outros pelo de Pedro. Paulo lembra que nossa esperança e nosso foco devem estar na obra de Cristo (e não de homens) e na sabedoria de Deus (e não de homens), e que estas, ambas, são loucura para o mundo, porém, foi por meio do que é louco (e não sábio) que Deus resolveu operar e revelar Seu mistério de salvação. Portanto, não devemos olhar ou nos apoiar em homens, pois a sabedoria humana é loucura para Deus, mas em Cristo, e nEle sermos UM e andar em unidade.

Ainda falando sobre a divisão que havia se instalado na igreja, no capítulo 4, Paulo ensina que os apóstolos são apenas servidores de Cristo, e que a igreja / os grupos não deveriam julgar nenhum dos obreiros de Deus precocemente, que o dever de cada apóstolo era ser fiel a Deus e não a homens, e era Deus quem iria julgá-los. Portanto, um grupo, que seguia uma pessoa, não deveria ficar julgando outro grupo, que seguia outra pessoa, mas aguardar o julgamento final, quando todos serão julgados pelo Pai e todas as obras serão manifestadas.

O apóstolo também fala que esse julgamento que um grupo fazia do outro originava-se do orgulho que havia entre eles: um se achava superior ao outro. Mas lembra que tudo o que temos foi dado por Deus, portanto não temos do que nos orgulhar. 

Termina lembrando que os verdadeiros apóstolos, ao invés de estarem sendo exaltados ou procurando exaltação, estão sendo humilhados, perseguidos, pagando alto preço para ver o crescimento da Igreja, e diz à igreja para seguir seu exemplo, ao invés de ficarem orgulhosos, e envia Timóteo para ajudar a igreja a relembrar tudo que havia ensinado e tudo que estava vivendo por estar unido com Cristo.

Trazendo os ensinos desses 4 primeiros capítulos para nossas vidas, penso nitidamente nas divisões denominacionais que existem no meio evangélico brasileiro. Como nós somos como a igreja de Corinto. Um grupo achando-se melhor do que outro, apoiando-se em nomes de homens, em suas histórias, naquilo em que se acham superiores aos outros, e julgando todos aqueles que pensam e vivem diferente como inferiores. Como temos vivido como se não fôssemos a mesma Igreja, o mesmo Corpo de Cristo, a mesma Noiva, e dividindo o Corpo de Cristo, de forma a manchar o nome de nosso Cabeça, Jesus Cristo, entre os incrédulos. Quando nossa união deveria manifestar a maravilhosa obra que Cristo fez por nós, Sua graça em nos revelar Suas maravilhas e nos dar dons e entendimento - a nós e a todos os demais salvos, nos enchemos de orgulho com o pouco que temos recebido e nos tornamos juízes de todo mundo. Como nossa igreja evangélica brasileira precisa olhar para a igreja de Corinto, enxergar-se nela e aprender com ela. E eu faço parte disso. Eu também estou aprendendo a julgar menos e amar mais - como Paulo ensinará nos capítulos posteriores. O orgulho nos mata, e as divisões dentro do Corpo de Cristo nos matam também. Que não seja assim. Que o Senhor nos liberte do pecado do orgulho espiritual, da vaidade, da soberba, e nos ensine a enxergar o que realmente importa, o que realmente Jesus veio nos ensinar - e Seu Evangelho nos ensina.

Que Deus ajude a igreja brasileira. Vem, Senhor Jesus.



sábado, 1 de outubro de 2016

A questão do beijo antes do casamento


Eis uma questão sobre a qual, enquanto jovem solteira, tenho refletido durante muitos anos. Faz muito tempo desde que comecei a ler/ouvir pessoas falando sobre esse aspecto específico dos “namoros” cristãos, e já pensei realmente bastante no assunto. Vi muita gente que, enquanto solteira, defendia o “beijo só no dia do casamento”, mas que acabou abrindo mão dessa convicção quando iniciou um relacionamento romântico. Vi muita gente desacreditando desse fato como um princípio bíblico. Assim como vi muita gente ensinando isso como pecado e regra a ser cumprida. E me deparei com muito medo, em meu coração, de defender a reserva do beijo romântico (leia-se “beijo na boca”) para o dia do casamento de uma forma legalista – porque pude identificar muitas coisas em minha caminhada cristã que eram defendidas de maneira legalista e acusadora e que precisaram ser repensadas e redefinidas.

Contudo, continua havendo uma voz incômoda em meu coração me dizendo que não posso abrir mão deste princípio. E hoje já não tenho a ousadia de acreditar que todos precisam pensar e sentir assim como eu. Sei que não tenho o direito de julgar pessoas simplesmente pelo fato de não enxergarem a vida como eu enxergo e não tomarem as mesmas decisões que eu. Entendi que cada um de nós tem uma história e que o pecado se manifestará em nossas vidas de maneiras diferentes, que cada um de nós enfrentará tentações diferentes de acordo com tudo aquilo que tem vivido. Assim, hoje quero falar dos motivos que me fazem crer que o beijo romântico deve ser reservado para o casamento – mas quero falar do que isso representa para mim. Não posso afirmar que seja assim para todas as pessoas – e, certamente, não é. Mas, provavelmente, já foi muito parecido para todos nós, em algum ponto de nossas vidas.

Eu sempre me pego fazendo essa pergunta a mim mesma: “E quando eu precisar falar para o cara com quem espero me relacionar que não pretendo beijar até o dia do casamento? Como vai ser? Como vou explicar isso pra ele?”. E confesso que não é nada fácil. Porque parece algo tão louco, tão de outro mundo. E não é fácil, pelo menos pra mim, ter de lidar com o julgamento dos outros a respeito de você – especialmente se esse outro é alguém com quem você espera desenvolver um relacionamento para casamento. Mas tenho precisado pensar nas explicações que darei um dia, e me perguntar quais são as reais razões que me levam a crer nisso como um princípio cristão. E eu realmente poderia escrever quase um livro aqui sobre isso, porque eis um assunto que me tira o sossego há anos mesmo! (rs). Mas gostaria de mencionar aqueles que, hoje, me são os mais importantes diante de minha identidade cristã.

1) Meu corpo não me pertence

“Acaso não sabem que o corpo de vocês é santuário do Espírito Santo que habita em vocês, que lhes foi dado por Deus, e que vocês não são de si mesmos? Vocês foram comprados por alto preço. Portanto, glorifiquem a Deus com o corpo de vocês” (1 Coríntios 6.19-20 – NVI)

Esse texto pra mim é um dos mais importantes na Bíblia quando penso em “até onde devo chegar em meu contato físico romântico antes do casamento”. A verdade ensinada por ele é uma das mais importantes: nosso corpo não é nosso. Fomos comprados, e por alto preço, e, por isso, não nos pertencemos mais. Somos de Deus. E nossos corpos são morada do Espírito Santo de Deus. E não tem como fugir do fato de que, ao escrever isso, Paulo estava falando exatamente do uso do corpo para pecado sexual. Todo o texto de 1 Coríntios 6.12-20 trata disso. Em minha Bíblia, o título para esse trecho é “A sensualidade é condenada”.

Paulo começa dizendo: “Todas as coisas me são lícitas, mas nem todas convêm”. E fica claro também que Paulo não está falando apenas contra o ato sexual em si, porque no verso 18 ele diz: “Fujam da imoralidade sexual [...]”. O Dicionário Almeida do aplicativo The Word traduz o termo imoralidade como “Ato ou costume que fere a pureza e a moral; indecência (1Co 5.1, RA)”. Poderíamos dizer: tudo aquilo que fere a pureza e a moral sexual – não apenas o ato sexual em si. E o verso 13b diz: “Porém o corpo não é para a impureza, mas, para o Senhor, e o Senhor, para o corpo”. Uma vez que fomos comprados por Cristo, toda nossa vida passou a pertencer a Ele – incluindo nosso corpo. Não é mais meu. Não posso mais usar do jeito que eu quiser. É do Senhor e para o Senhor. O entendimento disso é essencial.

E a única circunstância em que a Bíblia afirma que Deus compartilha a posse de nosso corpo com outra pessoa é no contexto do casamento: “A mulher não tem autoridade sobre o seu próprio corpo, mas sim o marido. Da mesma forma, o marido não tem autoridade sobre o seu próprio corpo, mas sim a mulher” (1 Coríntios 7.4). Nunca encontrei outra situação em que posso compartilhar a posse de meu corpo com outro, para outro propósito que não seja a glória de Deus, que não o casamento. Nesse contexto, Deus concede o corpo um do outro como um presente ao cônjuge – e como nossa arma contra a imoralidade. É interessante que Paulo fale, no verso 1 deste mesmo capítulo, que “é bom que o homem não toque em mulher, mas, por causa da imoralidade, cada um deve ter sua esposa, e cada mulher o seu próprio marido”. Não “tocar em mulher” é muito mais do que “não fazer sexo”. Porque não tenho direito sobre o corpo do outro, e não tenho direito de entregar meu corpo a alguém, exceto a esposa a seu marido e vice-versa.

2) O que não provem de fé é pecado

“Mas aquele que tem dúvidas, se come está condenado, porque o que faz não provém da fé; e tudo o que não provém da fé é pecado” (Romanos 14.23)

Outro texto extremamente desafiador pra mim nesse assunto. Já pensei em abrir mão desse princípio do beijo só no dia do casamento. Realmente já quis abrir mão disso. “Deve ser besteira isso. Deve ser exagero meu. Olha quantos jovens cristãos genuínos se beijam durante seus namoros! Não deve ser tudo isso que eu penso! Eu nunca nem vivi isso, como vou querer saber?”. Mas, por mais que eu pensasse em todos os argumentos pra não precisar mais defender esse princípio, sempre havia aquele incômodo lá no coração me dizendo que DEUS estava me ensinando sobre esse tipo de pureza há anos – e que eu queria abrir mão disso não por convicção, mas por medo de ser julgada. Eu não acreditava, e não acredito, que “beijo não tem problema”. Portanto, decidir viver assim não seria uma decisão proveniente de FÉ e, portanto, para mim, seria pecado.

Nesse ponto, assim como Paulo falava sobre os alimentos ou a guarda de dias especiais, aquele que o faz não deve julgar aquele que não faz porque, no fim, seremos julgamos é pela fé que motivou nossa decisão. Deus está olhando nossas motivações. E eu quis optar por atitudes que fossem mais compreensíveis ao mundo, que não exigissem tantas explicações e que não viessem a gerar tantos olhares de “qual o problema dela?” quando o dia de tomar essa decisão chegar. Mas optar dessa forma não seria viver por fé – e não seria viver para a glória de Deus. Então, até que o Espírito de Deus testemunhe ao meu espírito e transforme minhas convicções, gerando fé onde não há fé, não tenho como abrir mão disso sem pecar.

3) Pureza além do corpo: na mente

“Ouvistes que foi dito: Não adulterarás. Eu, porém, vos digo: qualquer que olhar para uma mulher com intenção impura, no coração, já adulterou com ela” (Mateus 5.26-27 – ARA)

“Mas eu lhes digo: quem olhar para uma mulher e desejar possuí-la já cometeu adultério no seu coração.” (Mateus 5.27 – NTLH)

Lembro de um texto fantástico que li, em algum blog, que dizia “Deus não quer a sua virgindade”, ou algo assim. E o que ele defendia era que podemos, facilmente, ainda ser virgens em nosso corpo, mas será que em nossas mentes ainda somos virgens? E essa é uma pergunta muito séria. Acredito que é o mesmo que Jesus estava ensinando nesse trecho de Mateus: você pode não ter adulterado fisicamente, mas tê-lo feito em sua mente e coração. E aí vem o grande ensino de Jesus: Deus não está preocupado apenas com nosso exterior, Ele está interessado em nosso coração e nossas motivações. O Antigo Testamento, a Lei, estavam preocupados com o pecado externo – o adultério do corpo. Mas o Novo Testamento ensina que Deus vai além disso: preocupa-se com a santidade e a pureza de nosso coração e nossa mente. E, com toda certeza: esse é um padrão muito mais difícil de pureza a se manter.
Eu nunca namorei. Beijei 3 rapazes, entre os 14 e os 16 anos (coisa que eu realmente gostaria que não tivesse acontecido). Desde os 16, quando o Senhor converteu meu coração a Si mesmo, não tenho contato físico romântico com rapaz nenhum. Não tenho necessidade ou dependência de contato físico com rapazes. Eles me são até estranhos, pra falar a verdade. Manter virgindade física não é um problema pra mim – porque a gente não sente tanta falta daquilo que a gente nunca teve. Mas guardar minha mente e meu coração das expectativas do que virá a ser um relacionamento sexual dentro do casamento, com alguém que ainda nem sei quem é, é muito mais difícil. Porque tenho esperado pelo casamento (e, claro, todas as “bênçãos” que virão com ele) há muitos anos, e sou o tipo de pessoa que cria muita expectativa a respeito das coisas. Não deixar que essas expectativas se tornem essa cobiça, esse “olhar [ou pensar] com intenção impura”, esse “desejar possuir” que Jesus estava falando é muito mais difícil, pra mim, do que não fazer sexo.

E onde entra o beijo nisso? Se é difícil manter a pureza de minha mente e meu coração estando ainda solteira e sem sequer conhecer o cara com quem irei me casar, quem dirá tendo-o conhecido, estando apaixonada, planejando um casamento e ainda trocando beijos apaixonados com ele? Eu nunca passei por isso, mas, com toda sinceridade, não tem como um beijo entre duas pessoas apaixonadas ser um contato não sexual – e que não traga pensamentos e expectativas sexuais. A vivência de nossa sexualidade é um impulso natural do ser humano, que tende a ser crescente quando é iniciado, e não decrescente – porque seu destino final é a consumação sexual, a qual constitui a consumação do próprio casamento (aliás, era a própria celebração do casamento no Antigo Testamento). Assim, nossos impulsos sexuais, uma vez iniciados, não tendem a diminuir, mas a crescer, até que o ápice da união sexual seja alcançado.

E eu não quero ter que ficar lutando contra esses impulsos durante a minha preparação para o casamento – nem no aspecto físico, nem no mental. Não quero precisar ficar experimentando a culpa por não resistir ao pecado, no corpo ou na mente, e manchar a pureza para a qual o Senhor me chamou e a qual Ele tem me ensinado a buscar. Dediquei os últimos 12 anos de minha vida tentando viver de forma pura e bonita diante de Deus, tentando aprender Seus princípios e coloca-los em prática na minha vida, para honrar a Deus em todas as minhas escolhas. Não quero perder isso exatamente ao encontrar aquele que deve ser o primeiro protetor e estimulador de minha pureza, enquanto noiva sua e de Cristo. Não quero, depois, carregar o sentimento de culpa-lo por ter me feito quebrar meu compromisso com Deus. Quero andar tão longe quanto possível de tudo aquilo que me tente a desonrar a Deus em meu corpo e, principalmente, em meu coração. E, em meu caso, o beijo seria um problema com certeza. Conheço a fraqueza da minha carne e sei que não posso brincar com ela.

4) O significado do contato físico pra mim

E esse ponto não é um ponto bíblico. É pessoal – e apenas um complemento do ponto anterior. Como mencionei, nunca namorei e praticamente não sei o que é contato físico romântico. Esse tipo de contato não tem o mesmo significado pra mim que tem para quem já o vivenciou tanto que já se acostumou com ele. Um beijo pra mim não é “só um beijo”. Se você já beijou tantas vezes que já até perdeu a conta (ou mesmo que não tenha perdido a conta ainda), o beijo já se tornou algo comum pra você. Não tem mais o efeito que o “primeiro beijo” teve. É a mesma coisa com o sexo. Um amigo meu, já com 30 anos e virgem, me disse isso: sexo pra mim não tem o mesmo significado que tem pros meus amigos que já transam há anos. E eles não entendem. E é verdade. O valor do sexo – e a preocupação com quando ou como vive-lo – só é tão grande pra nós porque ele ainda é um “tesouro inexplorado”. Ainda é mistério, ainda é alvo. A “Lua-de-mel” só é algo cheio de expectativas pra nós porque traz consigo o presente da iniciação sexual. Para um casal de namorados que já faz sexo normalmente, a lua-de-mel nada mais é do que uma noite como outra qualquer. Perdeu o brilho, perdeu o valor.

E é nesse ponto que não me atrevo a esperar que todas as pessoas enxerguem a questão do beijo como eu enxergo. O beijo é algo que traz quase tantas expectativas pra mim quanto o sexo – porque não me é comum, é também um alvo, é também uma espera. Não é como dar um abraço ou segurar na mão – ainda que até essas pequenas coisas tenham um significado diferente quando você não está acostumado ao contato físico com alguém do sexo oposto (sabe quando você se assusta e meio que toma um choque quando “sua mão encosta na mão daquela pessoa”? Quantos, nesses nossos dias de excessivo contato físico entre pessoas de sexos opostos, ainda conseguem sentir isso, não é?). E não posso esperar que alguém que já se acostumou – porque explorou isso de forma errada, antes do tempo – enxergue e viva isso da mesma forma. Por isso não julgo mais. Vejo casais de namorados cristãos, que realmente são cristãos, e se beijam normalmente. Antes eu só conseguia pensar que eles só podiam viver mergulhados em desejo sexual ilícito. Mas hoje penso que pode não ser assim. Não sei, talvez os dois já tenham explorado tanto esse contato durante suas vidas que já estão anestesiados a ele. E o beijo pode já não gerar neles aquilo que, provavelmente, vai gerar em mim. Então, não dá pra saber. O fato é que cada um de nós sabe qual o efeito que os contatos físicos com alguém do sexo oposto terá em nós.

E uma coisa é certa: o significado que aquele “pode beijar a noiva” terá em alguém para quem o beijo não foi uma prática constante dentro do relacionamento pré-conjugal será totalmente diferente (e muito mais bonito e cheio de valor) do que para alguém que já se acostumou com essa carícia. E, como uma boa e incurável sonhadora, certamente vou querer a história mais cheia dos valores e significados intensos – e da pureza, no corpo e na mente, para glória do meu Criador, Salvador e Santificador. E que meus filhos e as próximas gerações possam ter uma bela história para contar – uma história de honra e glória a Deus.

Espero poder saber um pouquinho mais sobre as experiências ou expectativas de vocês a respeito do assunto também. Ainda tô em tempo de continuar aprendendo – até que o prometido apareça!

Paz e graça do Pai, pessoal – e muita alegria de voltar aqui!

domingo, 27 de março de 2016

Quaresma – É Páscoa! – Ele Vive! Aleluia!



“Por que buscais entre os mortos ao que vive? Ele não está aqui, mas ressuscitou.” (Lucas 24.5b-6a)

Ressuscitou! Jesus Cristo vive! Aleluia!

Para renovar, fortalecer, conceder-nos fé. E, por isso, Ele ressuscita em secreto, sem ninguém ver. E revela-se primeiro aos improváveis, aos de menor posição – às mulheres (v. 5-8). Porque essa notícia era para ser recebida pela fé. Não pelo que os olhos diziam ou podiam confirmar. Não pelo raciocínio. Não pelos cálculos da inteligência humana. Mas pela fé. Porque toda a caminhada dali em diante seria pela fé. E Sua ressurreição precisava nos ensinar isso, e conceder, renovar, fortalecer nossa fé.

Para nos lembrar do valor da intimidade e do relacionamento. E, por isso, foi no caminhar ao lado, no ouvido atento, no compartilhar das dores e, principalmente, no partir do pão que Ele se revelou pela segunda vez, aos discípulos entristecidos no caminho de Emaús (v.13-32). Para nos lembrar que Sua ressurreição é para o dia-a-dia, para todos os nossos dias e, em especial, para os dias cansados e entristecidos; que Sua ressurreição era o cumprimento da promessa de que Ele permaneceria ao nosso lado todos os dias, até a consumação dos séculos – e que Ele continua a se importar com nossas dores e a querer participar de todos os nossos momentos, e a partir o pão conosco, o pão da Palavra e o pão para o corpo. Ele ressuscitou para andar com a gente – e é no relacionamento, no coração ardendo, e nos momentos mais singelos de intimidade que O reconheceremos, e que nossa fé e nossa vida se renovarão.

Para renovar nossas esperanças de salvação e vida eterna. E, por isso, Ele faz questão de mostrar aos Seus discípulos que Sua ressurreição foi não apenas em espírito, mas também em carne – possível de ver, de apalpar, de verificar. Porque essa é a promessa de ressurreição que nos foi feita. Porque, provavelmente, se os discípulos não O pudessem tocar e sentir, com seus próprios sentidos, eles pensariam que esta ressurreição era apenas para os seres celestiais, os “espíritos elevados” ou esse tipo de coisa que costumamos pensar quando vemos o sobrenatural de Deus acontecendo na vida de alguém. Mas Jesus lhes concede uma prova, sinal vivo e verificável, para aumentar-lhes a fé e renovar as esperanças da vida vindoura. Uma vida na qual não teremos apenas nossos espíritos, mas nossos próprios corpos ressuscitados e glorificados – como eles foram criados para ser, à semelhança do Messias. Sua ressurreição é também nossa promessa viva e real de nova vida.

Para revelar nossa missão aqui nesta terra: “e que em seu nome se pregasse arrependimento para remissão de pecados a todas as nações, começando de Jerusalém.” (v. 47). Uma vez tendo recebido fé, companhia, esperança e vida real para nossa caminhada, também revelar ao mundo inteiro o caminho para todas essas promessas. Apontar-lhes a porta. Ser porta-vozes das Boas Novas de Deus para a humanidade. Permitir que TODAS AS NAÇÕES recebam estas boas notícias que trazem vida eterna, e ajudar-lhes a alcançar as promessas que, por graça alcançamos, por meio do arrependimento e remissão dos pecados, no Messias enviado, Jesus Nazareno. E não em nossas próprias forças, mas na promessa dada pelo Pai ai Filho, de revestir-nos com o poder vindo do alto.

Para nossa alegria e nossa união. Porque, ao encher o coração de Seus discípulos de júbilo (v. 52) e ao mantê-los sempre unidos, no templo, louvando Seu Nome, Deus seria glorificado neste mundo. Pois, quando o mundo vê discípulos fiéis, regozijantes e unidos em louvor, mesmo após a morte do seu Mestre, o mundo começará a perguntar o motivo da nossa fé – e a também refletir sobre a verdade da Sua ressurreição. Porque é na Sua ressurreição – e no retorno de nosso Mestre ao Pai – que passaram a residir nosso júbilo, nossa paz, nossa esperança, nosso elo. Somos UM nEle. Ele nos une. Ele nos mantem juntos. E, quando assim permanecemos, em amor e regozijo, o mundo O conhecerá. O mundo O verá em nós. Passamos a ser Seu Santuário. Sua Casa. Seu Templo móvel, que pode alcançar o mundo inteiro. É assim que O glorificamos.

E, por todas essas coisas, nosso Redentor Ressuscitou! Ele vive! Aleluia! Nossa maior glória! Nossa maior felicidade! Nossa fonte de alegria e esperança! Nosso Salvador Vive e Reina! E nada mais poderá detê-lo ou superá-Lo! Nem mesmo a própria morte O deteve. Está consumado. Está concluído! E nós recebemos o PRIVILÉGIO, a INSONDÁVEL GRAÇA de ser participantes disto! Aleluia! Nosso Senhor Vive! Isso é Páscoa! Nossa Passagem: da morte para a vida. A Eterna Vida! Ele vive! Aleluia! Vem, Senhor Jesus!


sábado, 26 de março de 2016

Quaresma – Dia 40 – O Sábado da Paixão, a Multidão e os Seguidores do Messias



“Então, Jesus clamou em alta voz: Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito! E, dito isto, expirou” (Lucas 23.46)

E, tendo finalizado Sua vida mortal assim, com estas últimas palavras, Jesus gera diferentes reações naqueles que presenciavam Seus últimos momentos.

Lendo a narração da condenação e crucificação de Jesus, ficava imaginando o que levou aquela multidão, provavelmente a mesma que vivia cercando Jesus e buscando Seus milagres e admirando-se deles e das palavras e ensinos de Jesus, bradar de forma tão veemente para que Pilatos O crucificasse. Não faz sentido! Aquelas pessoas haviam visto o que Jesus fazia! Elas O haviam acompanhado, sabiam quem Ele era. Mas, talvez, tendo sido enganadas por aqueles falsos religiosos que queriam a morte de Jesus, elas achassem que aquilo seria bom. Fiquei pensando se aquelas pessoas não achavam que, de repente, mandar Jesus para ser morto por oficiais romanos não seria a oportunidade perfeita para que Ele operasse o maior de todos os milagres; se elas não estavam realmente esperando que Ele se manifestaria em glória, ali, combatendo Seus inimigos romanos, descendo da cruz e tomando o poder para libertação civil do povo de Israel... e não é possível afirmar nada disso, pois só Deus sabia o que se passava no coração daquela multidão. Mas, talvez, fosse isso. Enganadas por escribas e fariseus, talvez aquelas pessoas, até aquele momento, mesmo depois de tudo o que já haviam visto e ouvido de Jesus, ainda não haviam entendido o que e quem seria o Messias. E esperavam o libertador das cadeias externas – quando o Pai O havia enviado para libertá-los das cadeias internas, e eternas. Mas eles não haviam entendido. E, assim, como a última cartada, esperavam que aquela condenação injusta seria a grande oportunidade para o libertador revolucionário levantar-se para vencer a opressão romana. Então, gritaram pela Sua condenação e morte (v.18, 21, 23) e, após terem-na conseguido, lá foram eles seguindo o Messias crucificado (v.27), aguardando pelo grande milagre.

Porém, o tão esperado milagre não chegou. O Messias não desceu da cruz. Ele não vociferou contra os “malditos romanos” que O escarneciam, maltratavam e humilhavam. Ao contrário, Ele pediu ao Pai que os perdoasse (v.34). Ele era blasfemado, e não falou nada. E “o povo estava ali e a tudo observava” (v.35). Esperando. Esperando. Até que, sem entender nada e, talvez, guardando as esperanças de que o grande milagre e a grande revolução do Messias acontecessem até o fim, eles O ouvem falar: “Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito!”. E morrer. E eu acredito que ali, naquele exato momento, as vendas caíram de seus olhos. E o evangelho de Lucas fala: “E todas as multidões reunidas para este espetáculo, vendo o que havia acontecido, retiraram-se a lamentar, batendo nos peitos” (v.48). E, novamente, fiquei pensando: naquele momento, aquela multidão poderia ter, simplesmente, se frustrado com a não realização do milagre que esperavam e tendo chegado, finalmente, na conclusão de que “Ele não era mesmo o Messias que dizia ser”; e voltariam para suas casas decepcionados e desanimados. Contudo, não foi assim que a multidão saiu. As Escrituras dizem que, mediante tudo o que viram, as multidões saíram lamentando e batendo nos peitos. Sinal de tristeza. Por isso, eu creio que eles entenderam: entenderam Quem era Aquele Homem crucificado, e entenderam o que fizeram. Por isso, choraram e lamentaram. Ele era quem dizia ser. E eles não acreditaram. Porque esperavam o Messias errado. Porque haviam sido convencidos de uma mentira. Mas, ali, diante daquela cruz, diante dAquele Homem que ainda amava e perdoava, que entregava-se como ovelha ao matadouro, que cumpria as Escrituras, e que entregava o Seu espírito ao Seu Pai... eles, finalmente entenderam.

E, infelizmente, ainda hoje, grandes multidões esperam o Messias errado. E não apenas entre os judeus – mas entre nós. Ainda esperam o Salvador que irá salvá-los das coisas deste mundo. Um Messias cujo propósito é acabar com a opressão física: a dor, o sofrimento, a pobreza, a opressão, a violência, toda a maldade dessa terra – representados pela opressão de Roma sobre o povo de Israel. E exatamente por isso muitos vivem tantas crises a respeito de Deus e o sofrimento humano. Como Ele pode ser bom e ainda existir o mal? Como Jesus poderia ser o Messias e o povo de Israel ainda continuar oprimido por Roma e por tantos sofrimentos oriundos disso? Era de um revolucionário que os judeus achavam precisar. Mas Deus enxergava além. Ele enxerga além. Ele sabe que, ainda que fôssemos libertos de todas as correntes de dor e sofrimento deste mundo, continuaríamos escravos. De nós mesmos. De uma escravidão que nada nesse mundo poderia nos livrar – a escravidão eterna. E que nenhum bem, nenhuma felicidade, nenhum conforto vividos nesse mundo poderiam suprir o sofrimento gerado por essa escravidão – porque essa é a verdadeira escravidão, o verdadeiro sofrimento: aquele que nos tira o sentido da vida, o propósito, a identidade... todas as coisas. A escravidão que nos esvazia totalmente – pois nos separa do nosso Criador, a Fonte de todo bem. E, enquanto estivermos separados dEle, nossa alma nunca poderá ser realmente feliz. E nenhum bem dessa vida pode suprir essa falta. Assim, é dessa escravidão que o Messias vem libertar o mundo – pois, uma vez libertos dela, uma vez religados com Deus, a Fonte de todo bem, nenhum sofrimento deste mundo é capaz de roubar nossa felicidade e nossa paz. Somos preenchidos e salvos por dentro e, quando isso acontece, nenhuma guerra, nenhuma opressão, nenhuma fome, nenhuma perseguição, nenhum escárnio, nenhuma humilhação... NADA que venha de fora poderá nos abalar. A salvação HABITA em nós. Por isso, essa era – e é – a maior missão do Salvador.

E, por isso, a reação de Seus seguidores foi tão diferente da reação da multidão. Enquanto a multidão saiu a lamentar e bater nos peitos, “todos os conhecidos de Jesus e as mulheres que o tinham seguido desde a Galiléia permaneceram a contemplar de longe estas coisas. [...] As mulheres que tinham vindo da Galiléia com Jesus, seguindo, viram o túmulo e como o corpo fora ali depositado. Então, se retiraram para preparar aromas e bálsamos. E, no sábado, descansaram, segundo o mandamento” (Lucas 23.49, 55-56). Com toda certeza, aqueles homens e mulheres estavam sofrendo profundamente naquele momento. Seu grande Mestre havia morrido, depois de tanta dor. Não podemos imaginar quão duro isso foi para os Seus seguidores. Mas a narração a respeito deles é claramente diferente da feita a respeito da multidão.

Eles permaneceram. Jesus já estava morto, mas seus corações continuavam fiéis a Ele. Porque Ele os havia transformado – e agora já não era mais possível viver desligados dEle. E, mesmo quando Ele já havia morrido, eles continuavam ali. Sim, é verdade que muitos – talvez a maioria – dos seguidores de Jesus não permaneceram; fugiram. Mas aqueles que ali ficaram, e aquelas mulheres galileias principalmente, representavam o remanescente fiel, o exemplo para todos os seguidores, para todos nós. Sua fidelidade ao Cristo não se extinguia com Sua morte. Elas criam, elas sabiam Que Ele era o Enviado de Deus. E, por isso, continuavam a crer e a segui-Lo. Prova disso é que aquelas mulheres, acompanhando José de Arimatéia e Nicodemus, vão ver onde o corpo do Mestre haveria de ser colocado – e foram preparar aromas e bálsamos para colocar sobre ele (v.56a). O comentário de minha Bíblia Shedd diz assim, sobre esse versículo: “Aromas e bálsamos. Vê-se o amor pelo Senhor no trato do Seu corpo. Normalmente um criminoso crucificado seria enterrado sem cerimônia num campo qualquer”. Mesmo morto, mesmo estando ali apenas o corpo do Mestre, aquelas mulheres ainda O amam e O honram, com seus perfumes e especiarias. Elas continuam crendo. E continuam amando – mesmo quando tudo parece ter “dado errado”. Mesmo quando elas, provavelmente, nem entendiam o porquê de tudo aquilo. Mas elas continuam fiéis. Porque elas já haviam experimentado a verdadeira libertação, dada pelo Cristo. Então, mesmo sem entender, mesmo na dor e no sofrimento, elas permanecem.

E, finalmente, que versículo lindo é o 55, parte b: “E, no sábado, descansaram, segundo o mandamento”. Descansaram. Fiquei me perguntando: “Como elas podem ter descansado no dia imediatamente após a morte de Jesus?”. Mas a palavra se repetia na minha mente: descansaram. E glórias a Deus pelo significado disso! Aquelas mulheres, com toda certeza, sofriam, com seus corações moídos por tudo o que aquela sexta-feira havia trazido. Certamente, elas enfrentavam dor e angústia enormes. Contudo, quando estamos com o Cristo, quando O conhecemos, quando Ele nos transformou, de alguma forma miraculosa que só pode ser resultado da ação do próprio Espírito de Deus, nós podemos encontrar descanso para nossas almas e corações – mesmo quando eles estão quebrados e despedaçados. Nós podemos. Podemos continuar obedecendo – “segundo o mandamento” – mesmo quando parece impossível. Porque é Ele quem nos capacita. E Deus capacitou aquelas mulheres, mesmo em meio à tamanha dor que elas sentiam. E Ele vem nos lembrar hoje: quando o sábado da paixão chegar em nossas vidas, e tudo parecer acabado, sem saída, sem explicação, impossível de compreender, quando isso doer mais do que podemos expressar, quando nos sentirmos sós e abandonados, quando não parecer mais haver esperança e o sofrimento tomar conta do coração – ainda assim, nosso Pai tem um lugar de descanso para nossas almas. Ainda assim, nosso Pai nos capacita para obedecer. Porque Ele continua conosco. Sempre. Todos os dias. E Sua salvação, operada no mais íntimo de nós, continua a nos salvar – dia após dia, dor após dor. Ele é a nossa Salvação. E continuará sendo, até o fim.


Que hoje, no “Sábado da Paixão”, e em cada “sábado da paixão” de nossas vidas, possamos nos lembrar de Quem era o Homem a expirar naquela cruz – e de todas as promessas que o Domingo traria consigo. E trouxe. E trará. Porque nem mesmo a morte foi, é, nem jamais será capaz de deter o Salvador deste mundo. Nossa esperança é eterna, e nunca falhará. Glórias, pois, a Jesus Cristo, eternamente. Amém. Amém.

sexta-feira, 25 de março de 2016

Quaresma - Dia 39 - O exemplo do Jesus Humano


"Pai, se queres, passa de mim este cálice; contudo, não se faça a minha vontade, e sim a tua" (Lucas 22.42)

Talvez as palavras que mais revelam a humanidade de Jesus. E que bonito ver que Deus, ao nos deixar Sua Palavra registrada, deseja expressar a perfeita humanidade de Jesus nesse momento tão primordial que é a véspera do cumprimento da Sua missão na terra - e do pagamento do preço a ela estipulado. Jesus não se faz de forte. Sim, desde o princípio Ele sabia que precisaria sofrer e morrer. Mas, quando o momento chega, o Jesus Homem sofre, tem medo, gostaria de ser poupado. E pede a ajuda do Pai. Pede pra não precisar passar por tanto sofrimento.

E isso é tão importante para nós, seres humanos chamados para imitar o Mestre. Porque nós também sabemos, por Sua Palavra deixada a nós, que sofrimentos e perseguições nos esperam. Sabemos que o caminho de Cristo é nosso caminho. Que a cruz que O esperava também nos espera. Contudo, muitas vezes, nos esquecemos que Ele, mesmo também sabendo que tudo isso O esperava, teve medo e quis ter outra opção. E aqui Ele nos ensina que não precisamos deixar de ser humanos para O seguir. Que Ele sabe como é duro passar pelas dores dessa vida, que dá medo, que é ruim. Ele sabe. E por isso não nos diz que é nosso dever "desejar" essas coisas. Não nos diz para pedir sofrimento e morte. Assim como Ele, o próprio Deus, pediu para ser poupado, tamanho o peso do que O esperava, Ele compreende quando também sentimos medo e queremos ser poupados.

E tudo isso me faz lembrar tanto de nossos irmãos perseguidos fisicamente pela fé. Quando vejo Jesus sendo açoitado, crucificado e morto, lembro de meus irmãos perseguidos pelo Estado Islâmico e tantos outros extremistas religiosos. E, podemos ter certeza: mesmo sabendo de todas as promessas que acompanham o sofrimento do salvo, viver o sofrimento é muito duro. Numa intensidade que a maioria de nós sequer imagina. A ponto de Jesus pedir que Seus discípulos orassem com Ele naquele momento de dor. E assim é com nossos irmãos. Dói. Muito. E pesa em nosso coração e espírito. E gostaríamos de ser poupados. Eles certamente gostariam. E Jesus sabe como é isso. E não nos condena.

Porém, Ele termina nos ensinando a fazer a maior oração de nossas vidas: "contudo, não se faça a minha vontade, e sim a tua". E esse é o grande ponto. Mesmo que tenhamos vontade de fugir, como Jesus parece ter tido, precisamos seguir o exemplo deste Jesus que também foi homem, como nós, e pedir a vontade de Deus ao invés da nossa. Por fé. Por confiança em nosso Pai. Por obediência. Não uma obediência oriunda do medo. Mas uma obediência oriunda de uma fidelidade baseada em confiança e Amor. Jesus conhecia o Seu Pai perfeitamente. E sabia que os planos e vontades dEle eram perfeitos. Por isso pediu por eles. E é isso o que nós precisamos lembrar também. Algumas vezes essas vontades irão doer muito, irão nos levar a uma cruz muito pesada - mas eles continuam sendo mais elevados que os nossos, e perfeitos.

Que possamos aprender com o exemplo do Jesus Homem. Que sofreu. Que teve medo. Mas que permaneceu fiel. Que confiou. Que teve fé. Porque o Seu Pai é o nosso Pai. E porque já conhecemos o fim da história - como Jesus já conhecia. E o verdadeiro amor lança fora todo medo. Vamos sofrer, vai doer, vai ser difícil - Jesus já predisse isso. Mas a conclusão será muito mais maravilhosa do que possamos imaginar. Nosso Pai é fiel e perfeito. Ele não nos abandonará. Podemos confiar nEle - e seguir os passos de Jesus, até o fim. Amém.

quinta-feira, 24 de março de 2016

Quaresma - Dia 38 - Capacitados pelo Mestre


"Assentai, pois, em vosso coração de não vos preocupardes com o que haveis de responder; porque eu vos darei boca e sabedoria a que não poderão resistir, nem contradizer todos quantos se vos opuserem" (Lucas 21.14-15)

Às vezes, paro pra olhar pro trabalho que alguns missionários tem feito ao redor do mundo, em realidades tão difíceis, de povos fechados ao evangelho, inimigos declarados de Jesus, e verdadeiros milagres acontecendo e sendo relatados. Vejo pessoas com uma capacidade incrível de compartilhar o evangelho, levar pessoas ao conhecimento de Jesus, abrir igrejas e trabalhos... e aí olho pra mim, desejando dedicar minha vida para esse propósito, e vejo tão pouco da fé, coragem, ousadia, entre tantas outras coisas que vejo nessas pessoas, e fico me perguntando se sou a pessoa certa para essa obra.

E quando li esse texto, ele foi pra mim. Porque ele diz que Deus mandaria perseguições e prisões aos seus discípulos, como oportunidade para testemunhar, mas que, quando essas oportunidades aparecessem, eles não precisavam ficar se preocupando com o que iriam falar, porque o próprio Deus colocaria a palavra certa em suas bocas, de tal forma que ninguém poderia resistir nem contradizer. Isso não é fantástico? Que esperança e segurança isso me traz. Mas também aquela necessidade sempre presente de me esvaziar de mim mesma, de sair do controle, de largar os remos e o volante, e tornar-me dependente. Fé. Entrega. Novamente, o que Jesus vem nos pedir.

De fato, a capacidade para ver os milagres acontecendo, ver o inimigo transformando-se em amigo, ver o perseguidor transformando-se em defensor, ver coisas como líderes mulçumanos, membros do Estado Islâmico, feiticeiros líderes de comunidades inteiras reconhecendo o Senhorio de Jesus e passando a ama-Lo e segui-Lo... não pode vir de esforços humanos - somente do agir do Senhor. E é isso o que precisa ser lembrado. Não somos nós. Quando o Pai me levar para servi-Lo perante os Seus inimigos, não serão as minhas palavras - e nem devem ser - mas as dEle. E isso requer dependência e entrega. Isso requer fé. Uma fé que costuma ser mais difícil de viver do que nossa autosuficiência natural.

Mas a vida cristã e o serviço ao Reino nada mais é do que isso. Não o quanto me capacitei e estou pronta - ainda que toda capacitação seja bem vinda, quando oportunizada. Não é sobre isso. É sobre o quanto tenho estado com o Mestre, entregue, submissa, confiante no Mestre, para poder ser capacitada por Ele. Pois só Ele tem o poder para fazer a obra do Seu Reino cumprir Seu propósito. É no Seu poder e não no nosso. Capacitados pelo Mestre. E que essa seja nossa maior arma, nossa maior confiança e segurança. Menos de nós, e mais dEle. Para que, em todas as coisas, a honra e a glória sejam UNICAMENTE dEle. E que assim seja. Amém.

Quaresma - Dia 37 - Nossas pequenas moedinhas


"Viu também certa viúva pobre lançar ali duas pequenas moedas; e disse: Verdadeiramente, vos digo que esta viúva pobre deu mais do que todos" (Lucas 21.2-3)

E acho que nós sempre precisaremos lembrar desse ensino da Palavra. Achamos que Deus está interessado em nossa produtividade, nossa utilidade, quantas coisas temos em nossas mãos para oferecer a Ele, o tamanho de nossas ofertas, o tamanho de nossos dons, nossas capacidades, nosso trabalho, nosso tempo em atividades religiosas... E aí as Escrituras nos falam desta viúva pobre. Lá estavam os ricos lançando suas enormes ofertas e achando-se tão importantes por isso, mas é à viúva que Jesus elogia - com suas duas ínfimas moedinhas. Porque não é com a quantidade da oferta que Ele se preocupa, é com o tamanho da entrega. Não com nossas capacidades à serviço dele, mas com nossas vidas entregues a Ele. Aquela viúva se entregou, integralmente, a ponto de entregar sua sobrevivência - ainda que isso significasse apenas duas moedinhas no fundo do gazofilácio.

E nós precisamos aprender isso com ela e com aqueles ricos. Os grandes montantes entregues por aqueles homens ricos não impressionaram Jesus. Porque Ele olha para dentro, e não para fora. Foi o coração daquela mulher, provavelmente desprezada por aqueles homens ricos, provavelmente se sentindo tão pequena e sem utilidade, provavelmente envergonhada por entregar tão pouco... mas foi o coração dela que despertou a admiração do Mestre. E é assim conosco.

Quanto tempo e energias temos gastado tentando conquistar a admiração do Mestre por meio de nossas muitas ofertas - nosso muito trabalho, nossas muitas atividades, nossa muita inteligência, nossos muitos dons e capacidades... e quantas vezes temos vivido sobrecarregados e infelizes por nunca nos sentir bons o suficiente para agradar ao nosso Senhor, sempre sentindo precisar de mais, sempre nos cobrando uma oferta maior... quando nos esquecemos que não é nada disso o que Ele está procurando em nós. E não é por nenhuma dessas coisas que Ele nos ama. Não é com essas coisas que Ele está preocupado e interessado. E vamos perdendo nossas vidas investindo nas coisas erradas - nas coisas que agradam e conquistam a admiração dos homens, mas não a de Deus.

É nossa vida o que Ele deseja. Nosso coração o que Ele quer. Uma entrega total, amor total, confiança total... é uma condição interna, não externa. É a mudança e o compromisso que nenhum homem pode ver, só Ele pode. E é com isso que Ele se importa. Não interessa qual será o resultado da conversão disso em bens quantificáveis e observáveis. Não importa se serão apenas duas moedinhas. É nossa vida - toda ela - o que Ele quer. Nosso amor. Só. Não precisamos convencê-Lo que somos bons ou dignos de ser amados. Nós não somos. Mas Ele nos ama mesmo assim. Porque escolheu nos amar. Não precisamos ficar nos esforçando para conquistar o Seu amor e aprovação.  Não temos essa capacidade. Ele já nos ama INTEGRALMENTE. Numa medida que não pode ser aumentada ou diminuída. E nada vai mudar esse amor (Rm. 8). Não precisamos nos cansar tanto, sobrecarregar tanto, e nem mesmo nos culpar tanto por não termos mais do que nossas duas moedinhas para entregar. Ele nos ama independente disso. E o que Ele está realmente olhando é se o que entregamos reflete a condição de entrega do nosso coração. Se ela é total, não importa que sejam apenas nossas pequenas moedinhas... é a oferta perfeita e suficiente para Aquele que, dia a dia, escolhe nos amar.