domingo, 27 de março de 2016

Quaresma – É Páscoa! – Ele Vive! Aleluia!



“Por que buscais entre os mortos ao que vive? Ele não está aqui, mas ressuscitou.” (Lucas 24.5b-6a)

Ressuscitou! Jesus Cristo vive! Aleluia!

Para renovar, fortalecer, conceder-nos fé. E, por isso, Ele ressuscita em secreto, sem ninguém ver. E revela-se primeiro aos improváveis, aos de menor posição – às mulheres (v. 5-8). Porque essa notícia era para ser recebida pela fé. Não pelo que os olhos diziam ou podiam confirmar. Não pelo raciocínio. Não pelos cálculos da inteligência humana. Mas pela fé. Porque toda a caminhada dali em diante seria pela fé. E Sua ressurreição precisava nos ensinar isso, e conceder, renovar, fortalecer nossa fé.

Para nos lembrar do valor da intimidade e do relacionamento. E, por isso, foi no caminhar ao lado, no ouvido atento, no compartilhar das dores e, principalmente, no partir do pão que Ele se revelou pela segunda vez, aos discípulos entristecidos no caminho de Emaús (v.13-32). Para nos lembrar que Sua ressurreição é para o dia-a-dia, para todos os nossos dias e, em especial, para os dias cansados e entristecidos; que Sua ressurreição era o cumprimento da promessa de que Ele permaneceria ao nosso lado todos os dias, até a consumação dos séculos – e que Ele continua a se importar com nossas dores e a querer participar de todos os nossos momentos, e a partir o pão conosco, o pão da Palavra e o pão para o corpo. Ele ressuscitou para andar com a gente – e é no relacionamento, no coração ardendo, e nos momentos mais singelos de intimidade que O reconheceremos, e que nossa fé e nossa vida se renovarão.

Para renovar nossas esperanças de salvação e vida eterna. E, por isso, Ele faz questão de mostrar aos Seus discípulos que Sua ressurreição foi não apenas em espírito, mas também em carne – possível de ver, de apalpar, de verificar. Porque essa é a promessa de ressurreição que nos foi feita. Porque, provavelmente, se os discípulos não O pudessem tocar e sentir, com seus próprios sentidos, eles pensariam que esta ressurreição era apenas para os seres celestiais, os “espíritos elevados” ou esse tipo de coisa que costumamos pensar quando vemos o sobrenatural de Deus acontecendo na vida de alguém. Mas Jesus lhes concede uma prova, sinal vivo e verificável, para aumentar-lhes a fé e renovar as esperanças da vida vindoura. Uma vida na qual não teremos apenas nossos espíritos, mas nossos próprios corpos ressuscitados e glorificados – como eles foram criados para ser, à semelhança do Messias. Sua ressurreição é também nossa promessa viva e real de nova vida.

Para revelar nossa missão aqui nesta terra: “e que em seu nome se pregasse arrependimento para remissão de pecados a todas as nações, começando de Jerusalém.” (v. 47). Uma vez tendo recebido fé, companhia, esperança e vida real para nossa caminhada, também revelar ao mundo inteiro o caminho para todas essas promessas. Apontar-lhes a porta. Ser porta-vozes das Boas Novas de Deus para a humanidade. Permitir que TODAS AS NAÇÕES recebam estas boas notícias que trazem vida eterna, e ajudar-lhes a alcançar as promessas que, por graça alcançamos, por meio do arrependimento e remissão dos pecados, no Messias enviado, Jesus Nazareno. E não em nossas próprias forças, mas na promessa dada pelo Pai ai Filho, de revestir-nos com o poder vindo do alto.

Para nossa alegria e nossa união. Porque, ao encher o coração de Seus discípulos de júbilo (v. 52) e ao mantê-los sempre unidos, no templo, louvando Seu Nome, Deus seria glorificado neste mundo. Pois, quando o mundo vê discípulos fiéis, regozijantes e unidos em louvor, mesmo após a morte do seu Mestre, o mundo começará a perguntar o motivo da nossa fé – e a também refletir sobre a verdade da Sua ressurreição. Porque é na Sua ressurreição – e no retorno de nosso Mestre ao Pai – que passaram a residir nosso júbilo, nossa paz, nossa esperança, nosso elo. Somos UM nEle. Ele nos une. Ele nos mantem juntos. E, quando assim permanecemos, em amor e regozijo, o mundo O conhecerá. O mundo O verá em nós. Passamos a ser Seu Santuário. Sua Casa. Seu Templo móvel, que pode alcançar o mundo inteiro. É assim que O glorificamos.

E, por todas essas coisas, nosso Redentor Ressuscitou! Ele vive! Aleluia! Nossa maior glória! Nossa maior felicidade! Nossa fonte de alegria e esperança! Nosso Salvador Vive e Reina! E nada mais poderá detê-lo ou superá-Lo! Nem mesmo a própria morte O deteve. Está consumado. Está concluído! E nós recebemos o PRIVILÉGIO, a INSONDÁVEL GRAÇA de ser participantes disto! Aleluia! Nosso Senhor Vive! Isso é Páscoa! Nossa Passagem: da morte para a vida. A Eterna Vida! Ele vive! Aleluia! Vem, Senhor Jesus!


sábado, 26 de março de 2016

Quaresma – Dia 40 – O Sábado da Paixão, a Multidão e os Seguidores do Messias



“Então, Jesus clamou em alta voz: Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito! E, dito isto, expirou” (Lucas 23.46)

E, tendo finalizado Sua vida mortal assim, com estas últimas palavras, Jesus gera diferentes reações naqueles que presenciavam Seus últimos momentos.

Lendo a narração da condenação e crucificação de Jesus, ficava imaginando o que levou aquela multidão, provavelmente a mesma que vivia cercando Jesus e buscando Seus milagres e admirando-se deles e das palavras e ensinos de Jesus, bradar de forma tão veemente para que Pilatos O crucificasse. Não faz sentido! Aquelas pessoas haviam visto o que Jesus fazia! Elas O haviam acompanhado, sabiam quem Ele era. Mas, talvez, tendo sido enganadas por aqueles falsos religiosos que queriam a morte de Jesus, elas achassem que aquilo seria bom. Fiquei pensando se aquelas pessoas não achavam que, de repente, mandar Jesus para ser morto por oficiais romanos não seria a oportunidade perfeita para que Ele operasse o maior de todos os milagres; se elas não estavam realmente esperando que Ele se manifestaria em glória, ali, combatendo Seus inimigos romanos, descendo da cruz e tomando o poder para libertação civil do povo de Israel... e não é possível afirmar nada disso, pois só Deus sabia o que se passava no coração daquela multidão. Mas, talvez, fosse isso. Enganadas por escribas e fariseus, talvez aquelas pessoas, até aquele momento, mesmo depois de tudo o que já haviam visto e ouvido de Jesus, ainda não haviam entendido o que e quem seria o Messias. E esperavam o libertador das cadeias externas – quando o Pai O havia enviado para libertá-los das cadeias internas, e eternas. Mas eles não haviam entendido. E, assim, como a última cartada, esperavam que aquela condenação injusta seria a grande oportunidade para o libertador revolucionário levantar-se para vencer a opressão romana. Então, gritaram pela Sua condenação e morte (v.18, 21, 23) e, após terem-na conseguido, lá foram eles seguindo o Messias crucificado (v.27), aguardando pelo grande milagre.

Porém, o tão esperado milagre não chegou. O Messias não desceu da cruz. Ele não vociferou contra os “malditos romanos” que O escarneciam, maltratavam e humilhavam. Ao contrário, Ele pediu ao Pai que os perdoasse (v.34). Ele era blasfemado, e não falou nada. E “o povo estava ali e a tudo observava” (v.35). Esperando. Esperando. Até que, sem entender nada e, talvez, guardando as esperanças de que o grande milagre e a grande revolução do Messias acontecessem até o fim, eles O ouvem falar: “Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito!”. E morrer. E eu acredito que ali, naquele exato momento, as vendas caíram de seus olhos. E o evangelho de Lucas fala: “E todas as multidões reunidas para este espetáculo, vendo o que havia acontecido, retiraram-se a lamentar, batendo nos peitos” (v.48). E, novamente, fiquei pensando: naquele momento, aquela multidão poderia ter, simplesmente, se frustrado com a não realização do milagre que esperavam e tendo chegado, finalmente, na conclusão de que “Ele não era mesmo o Messias que dizia ser”; e voltariam para suas casas decepcionados e desanimados. Contudo, não foi assim que a multidão saiu. As Escrituras dizem que, mediante tudo o que viram, as multidões saíram lamentando e batendo nos peitos. Sinal de tristeza. Por isso, eu creio que eles entenderam: entenderam Quem era Aquele Homem crucificado, e entenderam o que fizeram. Por isso, choraram e lamentaram. Ele era quem dizia ser. E eles não acreditaram. Porque esperavam o Messias errado. Porque haviam sido convencidos de uma mentira. Mas, ali, diante daquela cruz, diante dAquele Homem que ainda amava e perdoava, que entregava-se como ovelha ao matadouro, que cumpria as Escrituras, e que entregava o Seu espírito ao Seu Pai... eles, finalmente entenderam.

E, infelizmente, ainda hoje, grandes multidões esperam o Messias errado. E não apenas entre os judeus – mas entre nós. Ainda esperam o Salvador que irá salvá-los das coisas deste mundo. Um Messias cujo propósito é acabar com a opressão física: a dor, o sofrimento, a pobreza, a opressão, a violência, toda a maldade dessa terra – representados pela opressão de Roma sobre o povo de Israel. E exatamente por isso muitos vivem tantas crises a respeito de Deus e o sofrimento humano. Como Ele pode ser bom e ainda existir o mal? Como Jesus poderia ser o Messias e o povo de Israel ainda continuar oprimido por Roma e por tantos sofrimentos oriundos disso? Era de um revolucionário que os judeus achavam precisar. Mas Deus enxergava além. Ele enxerga além. Ele sabe que, ainda que fôssemos libertos de todas as correntes de dor e sofrimento deste mundo, continuaríamos escravos. De nós mesmos. De uma escravidão que nada nesse mundo poderia nos livrar – a escravidão eterna. E que nenhum bem, nenhuma felicidade, nenhum conforto vividos nesse mundo poderiam suprir o sofrimento gerado por essa escravidão – porque essa é a verdadeira escravidão, o verdadeiro sofrimento: aquele que nos tira o sentido da vida, o propósito, a identidade... todas as coisas. A escravidão que nos esvazia totalmente – pois nos separa do nosso Criador, a Fonte de todo bem. E, enquanto estivermos separados dEle, nossa alma nunca poderá ser realmente feliz. E nenhum bem dessa vida pode suprir essa falta. Assim, é dessa escravidão que o Messias vem libertar o mundo – pois, uma vez libertos dela, uma vez religados com Deus, a Fonte de todo bem, nenhum sofrimento deste mundo é capaz de roubar nossa felicidade e nossa paz. Somos preenchidos e salvos por dentro e, quando isso acontece, nenhuma guerra, nenhuma opressão, nenhuma fome, nenhuma perseguição, nenhum escárnio, nenhuma humilhação... NADA que venha de fora poderá nos abalar. A salvação HABITA em nós. Por isso, essa era – e é – a maior missão do Salvador.

E, por isso, a reação de Seus seguidores foi tão diferente da reação da multidão. Enquanto a multidão saiu a lamentar e bater nos peitos, “todos os conhecidos de Jesus e as mulheres que o tinham seguido desde a Galiléia permaneceram a contemplar de longe estas coisas. [...] As mulheres que tinham vindo da Galiléia com Jesus, seguindo, viram o túmulo e como o corpo fora ali depositado. Então, se retiraram para preparar aromas e bálsamos. E, no sábado, descansaram, segundo o mandamento” (Lucas 23.49, 55-56). Com toda certeza, aqueles homens e mulheres estavam sofrendo profundamente naquele momento. Seu grande Mestre havia morrido, depois de tanta dor. Não podemos imaginar quão duro isso foi para os Seus seguidores. Mas a narração a respeito deles é claramente diferente da feita a respeito da multidão.

Eles permaneceram. Jesus já estava morto, mas seus corações continuavam fiéis a Ele. Porque Ele os havia transformado – e agora já não era mais possível viver desligados dEle. E, mesmo quando Ele já havia morrido, eles continuavam ali. Sim, é verdade que muitos – talvez a maioria – dos seguidores de Jesus não permaneceram; fugiram. Mas aqueles que ali ficaram, e aquelas mulheres galileias principalmente, representavam o remanescente fiel, o exemplo para todos os seguidores, para todos nós. Sua fidelidade ao Cristo não se extinguia com Sua morte. Elas criam, elas sabiam Que Ele era o Enviado de Deus. E, por isso, continuavam a crer e a segui-Lo. Prova disso é que aquelas mulheres, acompanhando José de Arimatéia e Nicodemus, vão ver onde o corpo do Mestre haveria de ser colocado – e foram preparar aromas e bálsamos para colocar sobre ele (v.56a). O comentário de minha Bíblia Shedd diz assim, sobre esse versículo: “Aromas e bálsamos. Vê-se o amor pelo Senhor no trato do Seu corpo. Normalmente um criminoso crucificado seria enterrado sem cerimônia num campo qualquer”. Mesmo morto, mesmo estando ali apenas o corpo do Mestre, aquelas mulheres ainda O amam e O honram, com seus perfumes e especiarias. Elas continuam crendo. E continuam amando – mesmo quando tudo parece ter “dado errado”. Mesmo quando elas, provavelmente, nem entendiam o porquê de tudo aquilo. Mas elas continuam fiéis. Porque elas já haviam experimentado a verdadeira libertação, dada pelo Cristo. Então, mesmo sem entender, mesmo na dor e no sofrimento, elas permanecem.

E, finalmente, que versículo lindo é o 55, parte b: “E, no sábado, descansaram, segundo o mandamento”. Descansaram. Fiquei me perguntando: “Como elas podem ter descansado no dia imediatamente após a morte de Jesus?”. Mas a palavra se repetia na minha mente: descansaram. E glórias a Deus pelo significado disso! Aquelas mulheres, com toda certeza, sofriam, com seus corações moídos por tudo o que aquela sexta-feira havia trazido. Certamente, elas enfrentavam dor e angústia enormes. Contudo, quando estamos com o Cristo, quando O conhecemos, quando Ele nos transformou, de alguma forma miraculosa que só pode ser resultado da ação do próprio Espírito de Deus, nós podemos encontrar descanso para nossas almas e corações – mesmo quando eles estão quebrados e despedaçados. Nós podemos. Podemos continuar obedecendo – “segundo o mandamento” – mesmo quando parece impossível. Porque é Ele quem nos capacita. E Deus capacitou aquelas mulheres, mesmo em meio à tamanha dor que elas sentiam. E Ele vem nos lembrar hoje: quando o sábado da paixão chegar em nossas vidas, e tudo parecer acabado, sem saída, sem explicação, impossível de compreender, quando isso doer mais do que podemos expressar, quando nos sentirmos sós e abandonados, quando não parecer mais haver esperança e o sofrimento tomar conta do coração – ainda assim, nosso Pai tem um lugar de descanso para nossas almas. Ainda assim, nosso Pai nos capacita para obedecer. Porque Ele continua conosco. Sempre. Todos os dias. E Sua salvação, operada no mais íntimo de nós, continua a nos salvar – dia após dia, dor após dor. Ele é a nossa Salvação. E continuará sendo, até o fim.


Que hoje, no “Sábado da Paixão”, e em cada “sábado da paixão” de nossas vidas, possamos nos lembrar de Quem era o Homem a expirar naquela cruz – e de todas as promessas que o Domingo traria consigo. E trouxe. E trará. Porque nem mesmo a morte foi, é, nem jamais será capaz de deter o Salvador deste mundo. Nossa esperança é eterna, e nunca falhará. Glórias, pois, a Jesus Cristo, eternamente. Amém. Amém.

sexta-feira, 25 de março de 2016

Quaresma - Dia 39 - O exemplo do Jesus Humano


"Pai, se queres, passa de mim este cálice; contudo, não se faça a minha vontade, e sim a tua" (Lucas 22.42)

Talvez as palavras que mais revelam a humanidade de Jesus. E que bonito ver que Deus, ao nos deixar Sua Palavra registrada, deseja expressar a perfeita humanidade de Jesus nesse momento tão primordial que é a véspera do cumprimento da Sua missão na terra - e do pagamento do preço a ela estipulado. Jesus não se faz de forte. Sim, desde o princípio Ele sabia que precisaria sofrer e morrer. Mas, quando o momento chega, o Jesus Homem sofre, tem medo, gostaria de ser poupado. E pede a ajuda do Pai. Pede pra não precisar passar por tanto sofrimento.

E isso é tão importante para nós, seres humanos chamados para imitar o Mestre. Porque nós também sabemos, por Sua Palavra deixada a nós, que sofrimentos e perseguições nos esperam. Sabemos que o caminho de Cristo é nosso caminho. Que a cruz que O esperava também nos espera. Contudo, muitas vezes, nos esquecemos que Ele, mesmo também sabendo que tudo isso O esperava, teve medo e quis ter outra opção. E aqui Ele nos ensina que não precisamos deixar de ser humanos para O seguir. Que Ele sabe como é duro passar pelas dores dessa vida, que dá medo, que é ruim. Ele sabe. E por isso não nos diz que é nosso dever "desejar" essas coisas. Não nos diz para pedir sofrimento e morte. Assim como Ele, o próprio Deus, pediu para ser poupado, tamanho o peso do que O esperava, Ele compreende quando também sentimos medo e queremos ser poupados.

E tudo isso me faz lembrar tanto de nossos irmãos perseguidos fisicamente pela fé. Quando vejo Jesus sendo açoitado, crucificado e morto, lembro de meus irmãos perseguidos pelo Estado Islâmico e tantos outros extremistas religiosos. E, podemos ter certeza: mesmo sabendo de todas as promessas que acompanham o sofrimento do salvo, viver o sofrimento é muito duro. Numa intensidade que a maioria de nós sequer imagina. A ponto de Jesus pedir que Seus discípulos orassem com Ele naquele momento de dor. E assim é com nossos irmãos. Dói. Muito. E pesa em nosso coração e espírito. E gostaríamos de ser poupados. Eles certamente gostariam. E Jesus sabe como é isso. E não nos condena.

Porém, Ele termina nos ensinando a fazer a maior oração de nossas vidas: "contudo, não se faça a minha vontade, e sim a tua". E esse é o grande ponto. Mesmo que tenhamos vontade de fugir, como Jesus parece ter tido, precisamos seguir o exemplo deste Jesus que também foi homem, como nós, e pedir a vontade de Deus ao invés da nossa. Por fé. Por confiança em nosso Pai. Por obediência. Não uma obediência oriunda do medo. Mas uma obediência oriunda de uma fidelidade baseada em confiança e Amor. Jesus conhecia o Seu Pai perfeitamente. E sabia que os planos e vontades dEle eram perfeitos. Por isso pediu por eles. E é isso o que nós precisamos lembrar também. Algumas vezes essas vontades irão doer muito, irão nos levar a uma cruz muito pesada - mas eles continuam sendo mais elevados que os nossos, e perfeitos.

Que possamos aprender com o exemplo do Jesus Homem. Que sofreu. Que teve medo. Mas que permaneceu fiel. Que confiou. Que teve fé. Porque o Seu Pai é o nosso Pai. E porque já conhecemos o fim da história - como Jesus já conhecia. E o verdadeiro amor lança fora todo medo. Vamos sofrer, vai doer, vai ser difícil - Jesus já predisse isso. Mas a conclusão será muito mais maravilhosa do que possamos imaginar. Nosso Pai é fiel e perfeito. Ele não nos abandonará. Podemos confiar nEle - e seguir os passos de Jesus, até o fim. Amém.

quinta-feira, 24 de março de 2016

Quaresma - Dia 38 - Capacitados pelo Mestre


"Assentai, pois, em vosso coração de não vos preocupardes com o que haveis de responder; porque eu vos darei boca e sabedoria a que não poderão resistir, nem contradizer todos quantos se vos opuserem" (Lucas 21.14-15)

Às vezes, paro pra olhar pro trabalho que alguns missionários tem feito ao redor do mundo, em realidades tão difíceis, de povos fechados ao evangelho, inimigos declarados de Jesus, e verdadeiros milagres acontecendo e sendo relatados. Vejo pessoas com uma capacidade incrível de compartilhar o evangelho, levar pessoas ao conhecimento de Jesus, abrir igrejas e trabalhos... e aí olho pra mim, desejando dedicar minha vida para esse propósito, e vejo tão pouco da fé, coragem, ousadia, entre tantas outras coisas que vejo nessas pessoas, e fico me perguntando se sou a pessoa certa para essa obra.

E quando li esse texto, ele foi pra mim. Porque ele diz que Deus mandaria perseguições e prisões aos seus discípulos, como oportunidade para testemunhar, mas que, quando essas oportunidades aparecessem, eles não precisavam ficar se preocupando com o que iriam falar, porque o próprio Deus colocaria a palavra certa em suas bocas, de tal forma que ninguém poderia resistir nem contradizer. Isso não é fantástico? Que esperança e segurança isso me traz. Mas também aquela necessidade sempre presente de me esvaziar de mim mesma, de sair do controle, de largar os remos e o volante, e tornar-me dependente. Fé. Entrega. Novamente, o que Jesus vem nos pedir.

De fato, a capacidade para ver os milagres acontecendo, ver o inimigo transformando-se em amigo, ver o perseguidor transformando-se em defensor, ver coisas como líderes mulçumanos, membros do Estado Islâmico, feiticeiros líderes de comunidades inteiras reconhecendo o Senhorio de Jesus e passando a ama-Lo e segui-Lo... não pode vir de esforços humanos - somente do agir do Senhor. E é isso o que precisa ser lembrado. Não somos nós. Quando o Pai me levar para servi-Lo perante os Seus inimigos, não serão as minhas palavras - e nem devem ser - mas as dEle. E isso requer dependência e entrega. Isso requer fé. Uma fé que costuma ser mais difícil de viver do que nossa autosuficiência natural.

Mas a vida cristã e o serviço ao Reino nada mais é do que isso. Não o quanto me capacitei e estou pronta - ainda que toda capacitação seja bem vinda, quando oportunizada. Não é sobre isso. É sobre o quanto tenho estado com o Mestre, entregue, submissa, confiante no Mestre, para poder ser capacitada por Ele. Pois só Ele tem o poder para fazer a obra do Seu Reino cumprir Seu propósito. É no Seu poder e não no nosso. Capacitados pelo Mestre. E que essa seja nossa maior arma, nossa maior confiança e segurança. Menos de nós, e mais dEle. Para que, em todas as coisas, a honra e a glória sejam UNICAMENTE dEle. E que assim seja. Amém.

Quaresma - Dia 37 - Nossas pequenas moedinhas


"Viu também certa viúva pobre lançar ali duas pequenas moedas; e disse: Verdadeiramente, vos digo que esta viúva pobre deu mais do que todos" (Lucas 21.2-3)

E acho que nós sempre precisaremos lembrar desse ensino da Palavra. Achamos que Deus está interessado em nossa produtividade, nossa utilidade, quantas coisas temos em nossas mãos para oferecer a Ele, o tamanho de nossas ofertas, o tamanho de nossos dons, nossas capacidades, nosso trabalho, nosso tempo em atividades religiosas... E aí as Escrituras nos falam desta viúva pobre. Lá estavam os ricos lançando suas enormes ofertas e achando-se tão importantes por isso, mas é à viúva que Jesus elogia - com suas duas ínfimas moedinhas. Porque não é com a quantidade da oferta que Ele se preocupa, é com o tamanho da entrega. Não com nossas capacidades à serviço dele, mas com nossas vidas entregues a Ele. Aquela viúva se entregou, integralmente, a ponto de entregar sua sobrevivência - ainda que isso significasse apenas duas moedinhas no fundo do gazofilácio.

E nós precisamos aprender isso com ela e com aqueles ricos. Os grandes montantes entregues por aqueles homens ricos não impressionaram Jesus. Porque Ele olha para dentro, e não para fora. Foi o coração daquela mulher, provavelmente desprezada por aqueles homens ricos, provavelmente se sentindo tão pequena e sem utilidade, provavelmente envergonhada por entregar tão pouco... mas foi o coração dela que despertou a admiração do Mestre. E é assim conosco.

Quanto tempo e energias temos gastado tentando conquistar a admiração do Mestre por meio de nossas muitas ofertas - nosso muito trabalho, nossas muitas atividades, nossa muita inteligência, nossos muitos dons e capacidades... e quantas vezes temos vivido sobrecarregados e infelizes por nunca nos sentir bons o suficiente para agradar ao nosso Senhor, sempre sentindo precisar de mais, sempre nos cobrando uma oferta maior... quando nos esquecemos que não é nada disso o que Ele está procurando em nós. E não é por nenhuma dessas coisas que Ele nos ama. Não é com essas coisas que Ele está preocupado e interessado. E vamos perdendo nossas vidas investindo nas coisas erradas - nas coisas que agradam e conquistam a admiração dos homens, mas não a de Deus.

É nossa vida o que Ele deseja. Nosso coração o que Ele quer. Uma entrega total, amor total, confiança total... é uma condição interna, não externa. É a mudança e o compromisso que nenhum homem pode ver, só Ele pode. E é com isso que Ele se importa. Não interessa qual será o resultado da conversão disso em bens quantificáveis e observáveis. Não importa se serão apenas duas moedinhas. É nossa vida - toda ela - o que Ele quer. Nosso amor. Só. Não precisamos convencê-Lo que somos bons ou dignos de ser amados. Nós não somos. Mas Ele nos ama mesmo assim. Porque escolheu nos amar. Não precisamos ficar nos esforçando para conquistar o Seu amor e aprovação.  Não temos essa capacidade. Ele já nos ama INTEGRALMENTE. Numa medida que não pode ser aumentada ou diminuída. E nada vai mudar esse amor (Rm. 8). Não precisamos nos cansar tanto, sobrecarregar tanto, e nem mesmo nos culpar tanto por não termos mais do que nossas duas moedinhas para entregar. Ele nos ama independente disso. E o que Ele está realmente olhando é se o que entregamos reflete a condição de entrega do nosso coração. Se ela é total, não importa que sejam apenas nossas pequenas moedinhas... é a oferta perfeita e suficiente para Aquele que, dia a dia, escolhe nos amar.

quarta-feira, 23 de março de 2016

Quaresma – Dia 36 – Vida cristã, ciladas e o exemplo de Jesus



“Observando-o, subornaram emissários que se fingiam de justos para verem se o apanhavam em alguma palavra” (Lucas 20.20a)

Definitivamente, ao olhar para a Bíblia, precisamos desenvolver o olhar de identificar em Jesus, e em todas as coisas que Ele viveu, o exemplo para nossas vidas e todas as coisas que nós também viveremos.

Estive pensando nesse episódio da vida de Jesus. Escribas e sacerdotes armando uma cilada para pegar Jesus em um erro e entrega-Lo às autoridades romanas e destruí-Lo – e em como isso existe em nossas vidas cristãs também. E eu nem estou falando de como sofremos ciladas e perseguições injustas em nossos relacionamentos com os descrentes – estou falando das ciladas que sofremos dentro do próprio meio religioso, originadas daqueles que deveriam ser defensores da fé junto conosco. E era isso o que Jesus estava vivendo. Enquanto publicanos e pecadores sentavam ao Seu lado para ouvi-Lo e aprender com Ele, os líderes religiosos do grupo ao qual Jesus pertencia (os judeus) armavam armadilhas para derrubar Jesus.

E como é triste viver algo assim. Tenho certeza que nenhuma decepção nessa vida é maior do que sermos enganados, ou descobrirmos que estão armando para nosso mal, no meio daqueles em quem mais confiamos. No meio dos que chamamos de irmãos. No meio dos que nos abraçam. No meio do que chamamos de “igreja”. Isso é muito duro. Tão duro a ponto de fazer muitas e muitas pessoas desistirem dessa coisa de “igreja” – de participar de um grupo e dedicar-se a ele. Porque nos frustramos e nos ferimos, e essas feridas são mais profundas do que a maioria que podemos experimentar. Assim, muitos desistem.

Contudo, olhamos pra vida de Jesus e toda ela era repleta desse tipo de coisas. Do início ao fim de Seu ministério. Até o dia mais difícil de Sua vida – enganado e abandonado pelos Seus. Como sempre, nós não paramos para mensurar quanto aquilo era duro pra Jesus. Aqueles escribas e fariseus e sacerdotes eram, para a religião judaica, a religião “do povo de Deus”, o grupo dentro do qual Deus determinou que o Messias fosse trazido ao mundo, como nossos pastores, líderes de ministérios, mestres da Palavra. Estamos acostumados com o fato desses homens estarem sempre perseguindo a Jesus, e por isso tendemos a achar que Jesus lidava tranquilamente com isso, sem nenhum problema – afinal, Jesus sabia o que se passava no coração deles, né? No entanto, aqueles homens eram os líderes do “Povo de Deus”, aqueles que deveriam estar ensinando os caminhos de vida ao povo, aqueles que deveriam ser os exemplos e ajudar o povo a conhecer a Deus e amá-Lo... mas eles faziam exatamente o contrário. E, certamente, o coração de Jesus doía por conta disso. Ele era homem como nós.

Mas Jesus não desistiu. Ele não abandonou os judeus por causa disso. E Ele também não agiu de forma negligente, não se importando com o que aqueles homens pensavam e faziam, falando o que quisesse e fazendo o que quisesse, de qualquer forma, independente do resultado que aquilo teria, principalmente proveniente daqueles que armavam ciladas para Ele. Não. Jesus identificava as armadilhas, com a ajuda do Pai, e respondia a elas com sabedoria. Ele não precisava justificar-se àqueles homens pecadores e maus. Mas, Ele fazia, na medida do possível. Ele não precisava medir Suas palavras por causa do julgamento daqueles homens, mas Ele o fazia, na medida do possível.

Nesse episódio, especificamente, vemos isso. Os emissários enviados perguntam a Jesus se é lícito pagar tributos a César – porque eles esperavam que Jesus fosse pregar revolução contra Roma ou algo assim, e então diria que não se deve pagar tributos a César, já que boa parte desses tributos era cobrado de maneira injusta e opressiva. E Jesus sabia que aquela pergunta era uma cilada. E Ele poderia nem ter se dado o trabalho de responder. Mas Ele age com sabedoria, e com sabedoria responde: “Mostrai-me um denário. De quem é a efígie e a inscrição? [...] Dai, pois, a César o que é de César e a Deus o que é de Deus” (v.24-25). E a conclusão da narração é que: “Não puderam apanhá-Lo em palavra alguma diante do povo; e, admirados da sua resposta, calaram-se” (v.26). E esse versículo 26, pra mim, resume todo esse ensino.

Não adianta nos enganarmos e esperarmos que nossa vida cristã seja sempre linda, com pessoas lindas, honestas e bem intencionadas, que se dedicarão a nos ajudar e ao nosso bem. Não será assim. Muito mais do que imaginamos, nós encontraremos, dentro do nosso meio cristão, pessoas más, líderes maus, que procurarão puxar nosso tapete, nos enganar, nos apanhar em erros para conseguir nosso mal diante de outros... nós vamos viver isso. Por que posso afirmar isso? Porque Jesus viveu. E Sua vida é o nosso exemplo – para as coisas boas de se viver, e também para as difíceis. Porém, a grande questão para nós é como iremos enfrentar essas situações. E nossa resposta é a mesma: seguindo o exemplo de Jesus. Nós sempre teremos duas opções na hora de decidir como responder a algo que acontece em nossas vidas. Contudo, a Palavra de Deus nos chama a escolher o exemplo do Cristo – porque somos Seus seguidores e imitadores. E como Jesus agia diante dessas situações? Com sabedoria. Com domínio próprio. Com temor a Deus. Honrando o Nome do Senhor. De uma forma que se podia dizer a Seu respeito: “Não puderam apanhá-Lo em palavra alguma”. Jesus procedia de forma que não se tinha do que acusa-Lo. Suas palavras eram medidas, controladas e baseadas em amor. Ele não pagava mal com mal. Ele pagava mal com bem. E então, mesmo os seus acusadores, ao Lhe ouvir, saíam “admirados da sua resposta”, e calavam-se. Esse é nosso Jesus. Esse é nosso modelo. Alguém que poderia ter expressado toda Sua condenação e ódio por tudo aquilo que aqueles homens faziam, enquanto líderes religiosos do povo, mas não fazia assim. Respondia equilibradamente e com sabedoria. E era assim que até mesmo Seus inimigos O admiravam.


Esse é o chamado para nossas vidas. Que, mesmo nos momentos mais difíceis, mesmo quando formos enganados, quando forem armadas armadilhas para nos fazer cair – por aqueles que deveriam ser nossos irmãos e apoiadores da fé – que nossos olhos possam voltar para Jesus e lembrar de Sua sabedoria, domínio próprio e de Seu segundo maior mandamento: amar ao nosso próximo – e amar o nosso inimigo. Jesus viveu assim enquanto esteve em nosso meio, como homem. E nos convida a viver assim também. A sofrer as dores com longanimidade. Paciência. E fé em Deus. A não desistir. A perseverar. Porque nosso caminho é o caminho do amor, da misericórdia, do perdão, da compaixão, da GRAÇA – o mesmo caminho que Jesus escolheu e viveu. Porque Ele é o nosso exemplo, e sempre será. Porque as dores que Ele sofreu são e serão as nossas dores – mas a sabedoria, o amor e o temor a Deus com os quais Jesus decidiu reagir a essas dores também devem ser os nossos. Quando, na vida cristã, tivermos que ser expostos às piores ciladas, provenientes daqueles de quem menos esperávamos, que lembremos do exemplo de Jesus. E o sigamos. De forma que todos os que nos perseguem possam olhar para nossas vidas e “não podendo apanhar-nos em palavra alguma diante do povo; admirados da nossa resposta, calem-se”. Essa é nossa maior arma. E é assim que venceremos. Para a glória do nosso Pai e do Nome de Jesus. Ele nos ajude. Amém.

segunda-feira, 21 de março de 2016

Quaresma – Dia 35 – Não desesperar



“[...] pois será ele entregue aos gentios, escarnecido, ultrajado e cuspido; e, depois de o açoitarem, tirar-lhe-ão a vida; mas, ao terceiro dia, ressuscitará” (Lucas 18.32-33)

Mas o início do texto nos é tão forte, tão doloroso, tão impactante, que esquecemos do fim. Não estamos acostumados com a dor e a morte. Deve ser nossa carne e seu apego à matéria deste mundo, deve ser nossa incapacidade de discernir claramente as coisas espirituais, mas deve ser também a eternidade para a qual fomos criados e que o pecado havia roubado de nós, trazendo a morte antes da verdadeira vida. Mas uma coisa é fato: não nos acostumamos com o sofrimento. Lutamos contra ele. Corremos dele. Não o aceitamos, não o queremos assumir. Não queremos sofrer!

E foi assim com os discípulos. É interessante que as profecias a respeito do Messias já falavam que Ele haveria de sofrer, ser rejeitado, humilhado e morrer. Os discípulos, como bons israelitas, já as haviam ouvido e deviam sabê-las. Contudo, quando Jesus começa a falar que Ele havia de passar por todo esse sofrimento, os discípulos não entendem e não aceitam – a ponto de Pedro falar para Jesus que Ele não deixaria que essas coisas acontecessem com Jesus. A ponto dos discípulos no caminho de Emaús ainda encontrarem-se despedaçados e sem esperanças, após a morte do seu Mestre. Porque a dor nos cega. Os sofrimentos desta vida nos são tão intensos que nos roubam a esperança e, muitas vezes, a fé. Eles nos são tão pesados que nem prestamos atenção no que resta, nem atentamos para as promessas que os acompanham, não conseguimos enxergar além deles. Mas as palavras de Jesus terminam assim: “mas, ao terceiro dia, ressuscitará” (v.33).

Ah, se nós conseguíssemos parar para lembrar disso, todas as vezes em que as lutas se tornarem intensas e os sofrimentos desta vida começarem a nos comprimir e despedaçar. Quando formos escarnecidos, ultrajados, humilhados, açoitados e mortos... quando estiver difícil e dolorido... quando não parecer mais haver esperança... se nós lembrássemos das promessas que acompanham as provações! Se os discípulos tivessem ouvido aquelas palavras e as entronizado. Quanta dor teria sido poupada. Quanto desespero teria sido minimizado. Se, simplesmente, lembrássemos.

Vai haver cruz. Vai haver dor. Vai haver sofrimento. Vai, até mesmo, haver morte. Mas a história não termina aí. Ainda que, quando pensamos na história de Jesus, quando pensamos na Páscoa, muitas vezes, mesmo sem querer, parece que encerramos a narração aí. Jesus sofreu e morreu. Só que a história não termina aí. Não termina em lágrimas. NO TERCEIRO DIA, ELE RESSUSCITOU! ALELUIA, ALELUIA! A morte NÃO O PODE DETER! ALELUIA, ALELUIA! E é isso o que nosso Mestre quer nos lembrar: HÁ RESSURREIÇÃO APÓS A MORTE! Não precisamos temer! ELE JÁ VENCEU A MORTE!

Mas importa que primeiro ele padeça muitas coisas e seja rejeitado por esta geração” (Lc. 17.25). Há glória nos aguardando, no Reino de nosso Mestre! Há ressurreição e vida eterna nos aguardando! Contudo, assim como foi com Jesus, há um caminho a cumprir antes disso. E nesse caminho haverá dores. E nós não podemos esquecer disso. Pois, quando esquecemos, quando esperamos que a glória venha sem o sofrimento, o sofrimento destrói nossas esperanças e nossa fé. Quando esquecemos que haveremos de padecer e ser rejeitados, assim como nosso Mestre foi,  nos desesperamos desta vida. Esperamos dela algo que ela não pode nos oferecer. E começamos a achar que a dor é o fim, é o abandono de Deus, é o último capítulo. Mas ele não é. Jesus nos falou. Primeiro, era preciso que Ele padecesse. Mas, depois, no fim, haveria Sua glorificação. E é disso que precisamos lembrar.


Quem quiser preservar a sua vida perdê-la-á; e quem a perder de fato a salvará” (Lc. 17.33). Esses são os caminhos de Deus. Sua sabedoria, contrária à nossa. E Jesus veio nos deixar o exemplo a seguir. Esses são os caminhos para nós, como foram para Ele. Assim, que as dores desta vida não nos roubem a esperança e a fé. Não nos façam desesperar. Quando o céu escurecer, quando as nuvens surgirem, quando a dor se tornar forte demais, quando formos desprezados, humilhados, escarnecidos, maltratados, ofendidos, perseguidos... quando a própria morte parecer chegar... que nosso coração, nossa mente, nossa alma se lembre que aquele que entrega a sua vida, que a perde, esse é quem a salvará. Que não tentemos manter nossas vidas a salvo, mas que tenhamos fé suficiente para perde-la. E que lembremos que após a morte haverá ressurreição. Após a dor, haverá a glória. Após a luta, haverá o descanso e a recompensa do Pai. Porque esse é o ensino da Páscoa. A Páscoa que também é nossa – como foi de Jesus. A Páscoa que é nossa esperança. Vida que vence a morte. Vida que nos traz descanso. Vida que nos diz para não desesperar...

Quaresma – Dia 34 – Vocação de Jesus, nossa Vocação



“[...] lembra-te de que recebeste os teus bens em tua vida, e Lázaro igualmente, os males; agora, porém, aqui, ele está consolado; tu, em tormentos” (Lucas 16. 25)

Quanto mais eu leio o Evangelho de Lucas, mas vejo como este ensino de Jesus se repete, vez após vez: Jesus veio para os desprezados deste mundo. Isso é tão claro. Capítulo após capítulo, lá está Jesus e os fariseus opondo-se um ao outro: Jesus aproximando-se dos excluídos, ensinando sobre misericórdia, compaixão e amor; e os fariseus, odiando-O por isso, e nos ensinando sobre orgulho, autojustiça e discriminação. De tudo o que tenho aprendido do estudo deste Evangelho, isso tem se destacado. E, neste domingo, pude perceber ainda mais a profundidade, a extensão, a relevância desse ensino.

Fui visitar uma igreja nesse domingo, onde estava acontecendo o Musical de Páscoa deles, com coral, teatro e dança. Foi lindo. É sempre um privilégio poder VER a história das Boas Novas sendo encenada. Pensar em Jesus como um homem de “carne e osso”, vivendo no meio de homens “de carne e osso”, e imaginá-Lo, por meio daquele homem que O encenava, fazendo todas as coisas que a Bíblia nos diz que Ele fazia. Isso me toca profundamente. Abre minha mente, meus olhos. E senti isso naquele dia. E, particularmente, em um momento da encenação: Jesus reunido com Seus discípulos, alegre, sorridente, e aproximando-se dEle os coxos, os cegos, os endemoninhados... e Jesus aproximando-se de cada um deles com amor, e libertando-os – e, talvez pela primeira vez na vida de algumas daquelas pessoas, AMANDO-OS. Como isso foi profundo pra mim. E entendi que essa era a vocação de Jesus, ou fazia parte de Sua vocação: AMAR. E amar exatamente aqueles que não eram amados – os excluídos, os rejeitados, os desprezados.

A gente, com certeza, não tem ideia de quanto a exclusão de aleijados, endemoninhados, leprosos, doentes, pecadores, etc, era algo forte no tempo e na sociedade em que Jesus viveu. Mas a Lei falava para o povo de Israel separar de seu meio os “impuros”, para não se contaminarem. E o povo transformou essa “separação dos impuros” em exclusão mesmo. E nós não temos como imaginar como se sentiam os leprosos, a mulher do fluxo de sangue, os doentes (que eram considerados pecadores), os samaritanos, os publicanos, as prostitutas, os pobres, etc, no meio daquele povo que se considerava tão santo que não poderia nem se aproximar deles. Não podemos imaginar quanto eles se sentiam impuros, indignos, sujos, lixo naquela sociedade. Porque, provavelmente, eles haviam sido tratados assim durante toda ou quase toda sua vida. E eles também já deviam ter sido convencidos de que eram o que todo mundo afirmava que eles eram.

E aí chega Jesus. Nossa! Isso é tão forte! A gente já tá acostumado com o fato de Jesus se aproximar dessas pessoas, a ponto de não percebermos o significado disso. Mas NINGUÉM se aproximava dessas pessoas. NINGUÉM se importava com elas. Elas eram NINGUÉM. E lá está nosso Mestre: não apenas aproximando-se delas, mas estendendo a mão, tocando, curando, AMANDO. E é por isso que, cada dia mais, eram essas pessoas que se aproximavam de Jesus. Ele quebra todos os protocolos e todos os paradigmas. Descontrói tudo, para, então, reconstruir. Tudo. Estava eu lendo os capítulos 15 em diante do livro de Lucas e percebendo de quantos rejeitados Jesus fala até o capítulo 18: o pecador (representado pelo Filho Pródigo, em Lc. 15.11-32), o pobre (representado por Lázaro, em Lc. 16.19-31), o doente (representado pelos 10 leprosos, de Lc. 17.11-19), o que está fora do nosso círculo religioso (representado pelo publicano, de Lc. 18.9-14), os inúteis (representados pelas crianças, de Lc. 18.15-17), e continua nos capítulos seguintes – o cego de Jericó, Zaqueu. Os desprezados. Até as crianças! Hoje, vivendo numa sociedade que entende seu dever de proteger as crianças, por serem indefesos, não entendemos quanto as crianças eram desprezadas naquela sociedade. Mas muitas sociedades patriarcais, ainda hoje, como no Oriente, ainda as trata assim – não podem contribuir com nada, não tem nada para oferecer, então só tornam-se “alguém” quando crescem e podem participar da “vida da sociedade e da família”. E vem Jesus abraça-las e dizer que para entrar no Reino dEle é preciso receber o Reino como elas.

E, diante de tudo isso, diante do Evangelho lido e visto naquela encenação, entendo que esta é a nossa vocação. Foi para estes que Jesus veio. De tantas formas, a Sua Palavra tenta nos mostrar isso. Foi para os pequenos, os invisíveis, os que são “nada” que Ele olhou. E é para eles que devemos olhar também. Eu olhava para aquele homem, encenando Jesus, curando aquelas pessoas com um sorriso no rosto, e pensava: eu quero ser isso neste mundo também! Quero ser aquela que irá olhar para aqueles a quem ninguém olha, aqueles que se acham ninguém, aqueles que não tem mais esperança, os rejeitados, os sem voz, os esquecidos... quero ser Jesus para eles. Quero fazê-los saber que Deus se importa com eles, que Jesus veio ao mundo para eles e que Ele tem vida nova, plena, eterna para lhes oferecer. Que Jesus tem identidade e propósito para suas vidas. Que eles são importantes, são especiais, são amados por Deus – e que Ele nunca os esquece. Quero ser a presença viva e palpável de Deus nas vidas dessas pessoas. Ir àqueles a quem ninguém vai. Levar amor aonde não existe amor. A vocação de Jesus como minha vocação. A vocação de amar – aqueles que já nem acreditam mais em amor.


Vocação de Jesus, nossa vocação. E que nossas vidas possam ser como a vida do nosso Mestre. Sua missão, nossa missão. Seu chamado, nosso chamado. Sua vida, nossa vida. Que seja assim. Que Ele nos ensine. Que Ele nos ajude. E que possamos ser Seus verdadeiros embaixadores e representantes, fiéis e perseverantes, em amor, neste mundo. Para que Seu Nome seja glorificado. Que assim seja. Amém e amém.

sexta-feira, 18 de março de 2016

Quaresma – Dia 33 – Aproximando-nos de quem?



“Aproximavam-se de Jesus todos os publicanos e pecadores para o ouvir” (Lucas 15.1)

Quem são as pessoas que têm se aproximado de nós? Quem são as pessoas de quem temos nos aproximado? Porque esse texto fala muito de quem era Jesus – e de qual era a Sua missão. Mesmo sendo Santo, mesmo sendo o perfeito Deus, os piores da sociedade (material e espiritual) sentiam-se atraídos por Jesus. E se aproximavam para ouvi-Lo. Ainda que Jesus falasse sobre pecado e o condenasse, ainda que Ele falasse sobre a Santidade do Pai e a necessidade de arrependimento, ainda assim... publicanos, pecadores, impuros, doentes, marginalizados, excluídos aproximavam-se dEle. Enquanto isso, os perfeitinhos e santos, os religiosos “filhos de Abraão” cada vez mais se afastavam dEle.

E nós? Quem são as pessoas que temos atraído? Será que nossa postura, nossa vida atrai os sujos, os pequenos, os marginalizados, os PECADORES deste tempo? Ou, ao olhar para nós, eles enxergam os juízes que só sabem condená-los ou os santos dos quais eles não são dignos de se aproximar? Porque, infelizmente, é assim que o mundo tem visto, muitas e muitas vezes, a nós, cristãos. Porque os ensinamos a ver assim. Porque fomos ensinados a nos manter longe dos pecadores. Não podemos nos misturar com quem não entende a teologia no mesmo nível que entendemos. Não podemos visitar igrejas que não sejam 100% santas em suas doutrinas. Não podemos ter amigos pecadores. Não podemos pisar em solo que não seja santo. Só podemos estar na companhia dos santos. E foi aí que construímos este muro que nos separa do mundo real – o mundo que Jesus veio salvar. Sem perceber, fazemos como os fariseus: “E murmuravam os fariseus e os escribas, dizendo: Este recebe pecadores e come com eles” (v.2). Fazemos isso com nossos irmãos. Fazemos isso em nossas igrejas. Perdemos, em nossas vidas, a misericórdia, o amor, a compaixão que havia em Cristo – e que atraía a Ele os piores pecadores. A misericórdia, amor e compaixão que ainda há nEle e que é o que continua atraindo a Ele os pobres desta terra – aqueles que nós rejeitamos.

E o ensino volta para o mesmo ponto: quando crescemos, Ele diminui. Quando nos achamos bons demais, é então que estamos mal. Quando consideramos o outro mau demais, é quando nós mesmos estamos assim. Quando o orgulho tem espaço, o espírito, certamente, não o tem. Não há espaço para este orgulho que olha as pessoas com superioridade, e a Presença Salvadora de Jesus. E Jesus vem, então, ensinar isso, por meio de várias parábolas – A ovelha perdida, a dracma perdida, o filho perdido – para ensinar uma coisa só: o Reino de Deus é para os perdidos, e não para os santos. Para os doentes, e não para os sãos. Para os imperfeitos, e não para os perfeitos. Por um fato simples: diante de Deus, não existem santos, sãos e perfeitos. Somos todos perdidos, doentes e imperfeitos. Contudo, para fazer parte do Reino dEle, precisamos nos reconhecer assim – e parar de nos sentir melhores do que os outros. Não há nada melhor em nós. Nada. Porque tudo que temos de bom é, puramente, graça de Deus. Em essência, somos exatamente iguais a qualquer publicano e pecador. E é por isso que Jesus nos recebe.

Termino com uma música que sempre me confronta demais. É um desafio constante para minha mente orgulhosa e soberba, para essa carne má que há em mim e que me faz acreditar, vez ou outra, que sou melhor do que sou – e que me faz desejar estar junto apenas dos santos e perfeitos. Até que eu paro e me lembro de Jesus – e de quais pessoas Ele escolheu estar perto. De quais pessoas estavam ao redor dEle. E volto a compreender onde devem estar os meus olhos e o meu coração. “Sou humano demais pra compreender...”.


Eu fico tentando compreender
O que nos Teus olhos pôde ver
Aquela mulher na multidão
Que, já condenada, acreditou
Que ainda havia o que fazer
Que ainda restara algum valor
E ao se prender em Teu olhar
Por certo haveria de vencer
E assim fizeste a vida
Retornar aos olhos dela
E quem antes condenava
Se percebe pecador
Teu amor desconcertante
Força que conserta o mundo
Eu confesso não saber compreender

Sou humano demais pra compreender
Humano demais pra entender
Este jeito que escolheste de amar quem não merece
Sou humano demais pra compreender
Humano demais pra entender
Que aqueles que escolheste e tomaste pela mão
Geralmente eu não os quero do meu lado

Eu fico surpreso ao ver-Te assim
Trocando os santos por Zaqueu
E tantos doutores por Simão
Alguns sacerdotes por Mateus
E, mesmo na cruz, em meio à dor
Um gesto revela quem Tu és
Te tornas amigo do ladrão
Só pra lhe roubar o coração
E assim foste o contrário,
O avesso do avesso
E por mais que eu me esforce
Não sei bem se Te conheço
Tu enxergas o profundo
Eu insisto em ver a margem
Quando vês o coração
Eu vejo a imagem

Sou humano demais pra compreender
Humano demais pra entender
Este jeito que escolheste de amar quem não merece
Sou humano demais pra compreender
Humano demais pra entender
Que aqueles que escolheste e tomaste pela mão
Geralmente eu não os quero do meu lado

Mas recebemos, em nós, o Revelador do Coração do Pai. Que Ele nos ensine a ver e a ser como Cristo é. Até que cheguemos à estatura do Varão Perfeito – Jesus, nosso Senhor. Para glória e revelação do Seu Nome na terra. Amém.



Quaresma – Dia 32 – Reino dos necessitados



“Sai depressa para as ruas e becos da cidade e traze para aqui os pobres, os aleijados, os cegos e os coxos” (Lucas 14.21)

Deus chamando para a Sua ceia. E que texto sério este é. Porque, primeiro, Deus chama os “sãos”. E chama muitos. Só que todos eram pessoas importantes e, por isso, na hora em que tudo já estava preparado, eles precisam desculpar-se por não poder ir participar. Afinal, havia tantas coisas para resolver: um campo recém comprado que precisava ser visitado; cinco juntas de bois que precisavam ser experimentadas; um casamento recém contraído que precisava ser desfrutado... Tão importantes... tão ocupados... que não há tempo para ceias.

E, ao ler isso, meu coração se enche de temor. Porque eu me vejo nisso. Nos vejo nisso. Nossa geração sempre tão ocupada, com tantas coisas importantes para fazer. Tantas coisas para estudar, tantas notícias novas para ouvir, tantos compromissos, tantas pessoas importantes com quem falar, tantos eventos importantes para organizar, tanto dinheiro para ganhar, tantas dívidas para pagar, tantos amigos para fazer... e não nos tem sobrado tempo para ceias. Para a grande ceia de Deus. Mas, ela já está pronta (v.16-17). O servo do dono da ceia já veio nos chamar para nos achegar a ela. E o convite foi feito para tantos. Porém, todos eles tinham coisas demais para resolver, e não ligaram para o seu convite.

E foi então que o dono da casa, irado, disse ao seu servo para trazer para o jantar os pobres, os aleijados, os cegos e os coxos. E assim ele o fez. E estes não negaram. E lá estavam eles para a grande ceia daquele grande senhor. Por quê? Por um simples motivo: eles sabiam-se necessitados. Sabiam-se pobres e doentes, e pessoas assim não negam convites – muito menos para uma ceia. Eles sabem reconhecer bênçãos, quando estas lhes são oferecidas. Eles sabem reconhecer que tem tão pouco e, diante disso, tudo se torna tão grandioso e importante – quanto mais um convite feito por um grande senhor.

E é aí que eu penso quem somos nós. Os homens ocupados e importantes, ou os pobres e doentes. Como enxergamos a nós mesmos? Como temos vivido as nossas vidas? Como pessoas grandes, a quem o Grande Senhor oferece favores – os quais nos sentimos no direito de avaliar para verificar se estes são mais ou menos importantes do que os nossos compromissos? Ou como aqueles homens pobres, cegos, aleijados, coxos, conscientes da sua pequenez diante daquele Grande Senhor, e do quanto participar daquela Ceia lhes era um privilégio impagável? De fato, aqueles homens necessitados nunca poderiam pagar por aquela ceia. Eles não tinham nada a oferecer. E, talvez, exatamente por isso eles não negaram aquele chamado.

Infelizmente, costumamos nos enxergar de uma maneira tão diferente do que realmente somos. Somos os homens pobres, cegos e aleijados, sujos, mendigos, sem nada para oferecer a Deus. Mas, tão facilmente acreditamos quando o mundo nos diz que somos grandes e importantes, e que Deus precisa entrar na fila da nossa agenda, para ver onde conseguimos encaixa-Lo. E o triste disso é que, no final desta parábola, o senhor da grande ceia diz: “Porque vos declaro que nenhum daqueles homens que foram convidados provará a minha ceia” (v.24). Uma vez que a ceia tenha começado e o convite tenha sido negado, não há mais volta. A oportunidade passou. E perdemos a coisa mais importante que poderíamos ter recebido nesta existência.

Seguir a Jesus Cristo é um grande privilégio, mas também tem exigências. Primeiro, o reconhecimento de quem, de fato, somos: reconhecermo-nos pobres, cegos, coxos, aleijados. Necessitados. Imerecedores. Sem nada para oferecer em troca, a não ser nossa presença – nossa vida. Segundo, pagar o preço. Reconhecer que todos as nossas coisinhas, que parecem tão grandes diante das lentes deste mundo, são ínfimas, sem valor, diante do insondável valor de participar da ceia dAquele Senhor. Nada pode se comparar a participar daquilo que Ele estava preparando. Nenhum de nossos tesouros. Nem mesmo nossos campos, bois ou, ainda, casamentos. Nem mesmo nosso desejo de afeição natural, pois assim diz o Senhor Jesus: “Se alguém vem a mim e não aborrece a seu pai, e mãe, e mulher, e filhos, e irmãos, e irmãs e ainda a sua própria vida, não pode ser meu discípulo”. Porque para seguir a Jesus é necessária a consciência de que nosso maior tesouro é Ele. Maior do que qualquer outro tesouro, por mais valioso que ele seja, que possamos ter nessa vida – incluindo nossa própria vida neste corpo. Reconhecer nossa pequenez – e reconhecer a grandeza dEle.

Por isso, é preciso calcular o preço a ser pago para dizer esse “Sim” a Jesus. Um preço muitas vezes não ensinado, não esclarecido. Mas o preço é grande, e é preciso que seja calculado – assim como é necessário que se calcule a despesa para construir uma torre ou a quantidade de soldados para vencer uma guerra (v.28-32). Para que não ocorra que, tendo dito um sim inconsciente, venhamos a ser envergonhados. Seguir a Jesus exige renúncia: de nosso orgulho, nossa reputação, nossos maiores tesouros, nossa própria vida: “pois, todo aquele que dentre vós não renuncia a tudo quanto tem não pode ser meu discípulo” (v.33).


Por isso o Reino é dos necessitados. Porque quem é pobre, aleijado, cego e coxo facilmente enxerga que tudo aquilo que ele venha a possuir nesta vida não pode se comparar ao que Aquele Senhor lhe oferece. Aquela ceia. Por isso, sua resposta não poderia ser outra a não ser “Sim!”. Ele olha para si mesmo e olha para Aquele Senhor, e entende. E, para entrar no Reino de Cristo, é necessário que seja assim também. Que Ele cresça, e nós diminuamos. Que reconheçamos quem somos e Quem Ele é. E, só assim, compreenderemos como somos privilegiados por poder fazer parte disso. Quando tivermos a consciência que somos os pobres, aleijados, cegos e coxos. E Ele é o Rei. E a menor coisa que Ele possa nos oferecer ainda será maior do que tudo o mais que possamos conquistar sem Ele. Assim, que nossa resposta seja sim. E que participar do que Ele tem preparado seja a maior alegria dos nossos corações. Que assim seja. Amém.

quarta-feira, 16 de março de 2016

Quaresma – Dia 31 – Chamados a diminuir



“Quando por alguém fores convidado para um casamento, não procures o primeiro lugar [...]. Pelo contrário, quando fores convidado, vai tomar o último lugar...” (Lucas 14.8a, 10a)

Totalmente diferente do que fazemos. Nós queremos os primeiros lugares. O local de destaque. Queremos aparecer na foto. Queremos ser vistos. Queremos que todos saibam que estamos ali. Queremos ser os mais bonitos. Queremos elogios. Queremos privilégios. Queremos ser o centro das atenções. Queremos o protagonismo...

O problema é que essa é a matemática do mundo: para ser o primeiro, é preciso crescer; para ser o primeiro, é preciso ultrapassar todo mundo; para ser o primeiro, é preciso aparecer; pois, quanto mais você for visto, mais será reconhecido. Porém, a matemática de Deus é diferente. É exatamente o oposto: quer ser o primeiro? Seja o último; quer ser servido? Sirva; quer viver? Morra; quer ser salvo? Entregue-se... Só que, entre estes dois raciocínios, facilmente somos convencidos da lógica do primeiro e da falta de lógica do segundo – e escolhemos errado. E isso acontece por causa de um pecado bem particular dentro de nós: o orgulho. Eu realmente acho que ele é o pior pecado – porque tem tudo a ver com nos acharmos deuses, e tomar o lugar do Único Deus.

Por isso é tão difícil falar da submissão feminina em nossos dias. Porque aprendemos (e acreditamos) que só somos valorizados à medida em que aparecemos, crescemos, estamos à frente dos outros, protagonizamos, lideramos. Se não somos a figura central, então estamos sendo desvalorizados – perdendo o nosso valor. Nós aprendemos isso, e acreditamos nisso. Aprendemos que, se queremos viver, devemos lutar pela vida. Mas Jesus ensina que precisamos morrer. Se queremos ser os primeiros, devemos ir pro fim da fila – e só sair de lá se Aquele que nos convidou nos chamar. Se queremos ser líderes, devemos atar a toalha à cintura e lavar os pés dos demais, como Jesus fez. Servir ao invés de procurar ser servidos. Porém, dizer pra alguém ser o último, ser servo, lavar pés, diminuir, nestes dias em que vivemos, é tirar-lhe o valor, é chamar-lhe de inferior, é menospreza-lo. Porque “se alguém tem valor, ele não estará servindo e sim sendo servido”. Mas essa não é a lógica de Deus. Pois a lógica do mundo é egoísta e individualista. Mas a lógica de Deus é altruísta – focada no amor genuíno. E o que ama serve, sem perder, em nada, seu senso de identidade e de valor perante Deus. Porque Deus diminuiu-se e serviu – e continuou sendo inteiramente Deus. Porque, perante Deus, nosso valor não é determinado pelo papel que desempenhamos, e sim pelo que somos – o que Ele diz que somos.

Mas assumir verdades como estas para nossas vidas exige renúncia. Renunciar ao nosso orgulho, ao nosso ego, à nossa vaidade, ao nosso desejo de ser o centro, à idolatria de nós mesmos. E isso dói. Porque é tão bom ser reconhecido, enxergado, elogiado. É tão bom estar à frente e ter seu nome mencionado. E é tão ruim quando trabalhamos tanto mas ninguém nos vê. Ninguém sabe que fomos nós. Ninguém nos reconhece. É tão ruim. Porque não é o que nossa carne quer. Lá no fundo, não é com a aprovação de Deus que estamos realmente preocupados – é com a aprovação dos homens.

Contudo, Jesus termina esta história dizendo àquelas pessoas: “Quando deres um jantar ou uma ceia, não convides os teus amigos, nem teus irmãos, nem teus parentes, nem vizinhos ricos; para não suceder que eles, por sua vez, te convidem e sejas recompensado. Antes, ao dares um banquete, convida os pobres, os aleijados, os coxos e os cegos; e serás bem-aventurado, pelo fato de não terem eles com que recompensar-te; a tua recompensa, porém, tu a receberás na ressurreição dos justos” (Lc. 14.12-14). Ele estava nos ensinando: “Quando fizeres o que quer que seja, não busque a aprovação e as recompensas das mãos dos homens. Busque a aprovação e a recompensa das mãos de Deus. Pois somente uma tu poderás receber. Se tua recompensa vem de homens, Deus não poderá recompensar-te. E mais valiosas – muito mais valiosas – são as recompensas que tens para receber na ressurreição dos justos do que todas as que podes receber aqui nesta vida”.

É isso. Que queiramos o primeiro lugar diante de Deus, e não dos homens. Que queiramos crescer diante de Deus, e não dos homens. Que queiramos viver diante de Deus, e não dos homens. E que entendamos que, se assim desejamos, os caminhos a tomar serão opostos àqueles que os homens nos propõem. É o último lugar que devemos buscar. É diminuir. É morrer. Porque, somente assim, quando tivermos coração de servos, quando o Senhor tiver nos limpado de nosso orgulho e nossa vaidade e presunção, Ele poderá nos exaltar. Só assim poderemos ser os primeiros. Antes, somos chamados a diminuir. E que este chamado não seja rejeitado por nós. Ele é o único caminho para o verdadeiro crescimento.


terça-feira, 15 de março de 2016

Quaresma – Dia 30 – Cuidado com a religião



"Então vocês dirão: ‘Comemos e bebemos contigo, e ensinaste em nossas ruas’. Mas ele responderá: ‘Não os conheço, nem sei de onde são vocês...”. (Lucas 13.26)

Cuidado com a religião – que nos convida para fazer parte do seu grupo, comer e beber com eles, caminhar nas mesmas ruas e ouvir dos ensinos do “seu profeta”. Porque não é esse o convite de Jesus. Não é isso o que o irá salvar. O que Jesus quer não é comer e beber conosco, nem ser ouvido enquanto pregava em nossas ruas. Para Ele, é preciso mais do que isso.

É preciso ESFORÇO. “Esforcem-se para entrar pela porta estreita...” (v.24). Uma vida religiosa que não exige nosso esforço não tem valor diante de Cristo. E o esforço é direcionado para uma coisa especificamente: entrar pela porta estreita. Não é esforço por esforço. Sofrimento por sofrimento. Não tem a ver com nos flagelarmos para sermos aceitos. Tem a ver com dedicar nossas vidas para o alvo certo – a porta estreita da salvação. No comentário de minha Bíblia Shedd sobre o verso 24, diz que o termo “esforço” diz respeito a “concentrar toda a atenção e força”. É isso. O convite de Jesus é pra uma vida cujas atenções e forças todas estejam voltadas para um fim – a porta estreita. A vida com Deus. Isso é muito mais do que sentar à mesa para comer e beber ou ouvir alguns ensinos.

É preciso abandonar o pecado. “Afastem-se de mim, todos vocês, que praticam o mal!” (v.27b). Não tem como atravessar a porta estreita praticando o mal. A Almeida Corrigida e Fiel diz: “vós todos os que praticais a iniquidade”. O Dicionário da Bíblia Almeida, do software The Word, define iniquidade como: “Pecado que consiste em não reconhecer igualmente o direito de cada um, em não ser correto, em ser perverso (Sl 25.11; 51.5; Is 13.11; Mt 7.23; Hb 1.9)”. Pecado. Uma vida de pecado. Não interessa se você comeu com Ele, bebeu com Ele ou quantas vezes você O ouviu pregar. Não interessa o quanto você achava os ensinos dEle legais. Se em sua vida não houve o abandono de pecado, nada disso terá valor nenhum, e você será deixado do lado de fora da porta.

Isso é sério. Muito sério. Jesus não está interessado em sua religião, em quantas vezes você vai à igreja durante a semana, em quanto você é amigo dos “irmãos”, em quantos sermões você já ouviu na vida... não tem a ver com fazer parte do grupo. Tem a ver com uma vida rendida ao Messias. Tem a ver com esforçar-se para agradar a Ele. Dar o seu melhor, todas as suas atenções e forças, para atravessar a porta – abandonando seus pecados e deixando o Espírito Santo reinar sobre sua vida. Estar no lugar certo não lhe garantirá nada. É preciso tornar-se a pessoa certa. E só quem pode fazer isso por você é Jesus. Nenhuma igreja e nenhum guru espirituais podem. Só tem um caminho: Jesus – caminho, verdade e vida.


Cuidado com a religião. Ela pode lhe enganar, cegar e levar-lhe ao inferno sem que você possa perceber para onde está indo. Esforça-te. Arrepende-te do teu pecado e abandona-o. Entrega tudo ao Cristo. Esse sim é o caminho. Jesus. E isso é mais, muito mais, do que qualquer religião. É revelação e transformação espiritual. Ele nos ajude.

sábado, 12 de março de 2016

Quaresma – Dia 29 – O que realmente importa



“[...] porque, onde está o vosso tesouro, aí estará também o vosso coração” (Lucas 12.34)

O texto de Lucas 12, versos 1 a 34, fala de um assunto só: o verdadeiro sentido da vida. E eu só percebi isso quando já estava chegando lá pelo verso 22. Aí acontecem aqueles momentos de iluminação de Deus. É tudo sobre a mesma coisa.

O texto começa com Jesus alertando seus discípulos e a multidão reunida contra o fermento dos fariseus: a hipocrisia. Hipocrisia que se revelava na vida cheia de coisas ocultas que eles tinham, das máscaras que eles usavam. Mas Jesus adverte a todos que nossa verdadeira face nunca poderá ficar escondida para sempre. Nossas máscaras cairão, nossas coisas escondidas serão reveladas. Portanto, que não haja em nossa vida este fermento de hipocrisia que havia nas vidas dos escribas e fariseus, com quem Jesus acabara de conversar e de a quem acabara de repreender, no fim do capítulo 11. E a hipocrisia deles consistia em uma coisa: dizerem-se preocupados com as coisas espirituais, com suas máscaras espirituais, porém com os olhos e o coração fixos em si mesmos e nas coisas deste mundo. Diziam-se espirituais, mas eram carnais. E, então, Jesus mostra três comportamentos que revelam quando nosso coração está nas coisas deste mundo e não nas coisas espirituais, e quais deveriam ser nossas verdadeiras preocupados – o que realmente importa.

1) Medo da morte (Lucas 12.4-12)

“Digo-vos, pois, amigos meus: não temais os que matam o corpo e, depois disso, nada mais podem fazer” (v.4).

Infelizmente, raramente paramos para pensar por que certas coisas da vida geram tanta preocupação, tanto medo em nós. Por que tememos tanto a morte? Mesmo que não assumamos. Nós a tememos. Pensamos, caso somos convidados a realizar uma ação cristã em um local perigoso da cidade: “Mas será que devemos mesmo ir lá? Será que é seguro?”. Se somos convidados para um trabalho missionário em um país em guerra: “Mas não é melhor ir a outro lugar?”. Se somos desafiados a desenvolver qualquer atividade que possa nos trazer dor ou mesmo qualquer tipo de desconforto, até mesmo o emocional, logo desanimamos. Tenho ouvido tantos cristãos preocupados com o risco de extremistas islâmicos se aproveitarem dessa onda de migração de refugiados Sírios e de outras áreas do Oriente Médio, e da abertura que o Brasil tem dado, liberando as fronteiras e facilitando a entrada destes refugiados. E a preocupação sempre é: “nós não sabemos o que eles podem fazer. Daqui a pouco estarão realizando atentados terroristas aqui no Brasil, perseguindo a Igreja, e nós estaremos correndo riscos”. E isso tem gerado tanta preocupação a tantas pessoas, nestes tempos. Mas, por que isso nos amedronta tanto? Por que o risco de sermos perseguidos, de sofrermos um atentado, de sofrermos danos físicos nos causam tanto alarme? E a verdade é que é porque nossas preocupações estão neste mundo, e não na eternidade. No mundo físico, e não no espiritual. Em nós mesmos, e não em Deus. E é por isso que tememos tanto aqueles que podem matar o corpo, mesmo sem poder fazer dano nenhum a nosso espírito. Porque colocamos valor maior no corpo do que no espírito. E é com ele que nos preocupamos, acima de todas as coisas. Por isso, o medo da morte chega a paralisar certas pessoas. Por isso há pessoas (mesmo cristãs) que, quando ouvem alguém dizendo “Se eu morrer amanhã, encontro você lá no céu!”, rapidamente respondem: “Credo! Tá amarrado! Ninguém vai morrer não! Para com isso!”. Porque criamos raízes neste mundo e não queremos deixa-lo. Nós o transformamos em nosso tesouro, nos esquecendo que este corpo perecerá, e este mundo também. Que a verdadeira realidade está além deste corpo físico.

E o ensino de Jesus sobre isso é: “temei aquele que, depois de matar, tem poder para lançar no inferno. Sim, digo-vos, a esse deveis temer.” (v.5). Deus. É a Ele que devemos temer. Ao que acontecerá com nossos espíritos APÓS a nossa morte física. Isso sim é realmente importante. Ao olharmos para todas essas situações arriscadas e difíceis para nós mesmos, que nossa preocupação não esteja em “O que acontecerá comigo?”, mas “De que forma isso pode influenciar realidades espirituais?”. Na minha vida e na vida dos demais envolvidos. Como isso pode beneficiar ou prejudicar, espiritualmente, a Igreja de Jesus Cristo, nossa fé, nosso crescimento, nossa aproximação de Deus, e todos aqueles que ainda precisam conhecer a Jesus. Porque estas coisas influenciarão para a vida eterna. E é com elas que devemos nos preocupar.

2) Avareza (Lucas 12.13-21)

“Então, direi à minha alma: tens em depósito muitos bens para muitos anos; descansa, come, bebe e regala-te. Mas Deus lhe disse: Louco...” (v. 19-20a)

Nós podemos até não perceber também, mas todos pensamos nisso. Precisamos de um fundo de aposentadoria. Precisamos de uma poupança. Precisamos de uma casa melhor. Precisamos de um carro novo. Precisamos de mais roupas. Precisamos de mais sapatos. Precisamos de mais lazer. Precisamos de mais um trabalho. Precisamos de tantas, tantas, tantas coisas. Precisamos derrubar nossos celeiros, para podermos construir outros que possam abarcar os tesouros que temos conseguido juntar. E, então – só então - , quando tivermos conseguido juntar o suficiente, descansaremos e seremos felizes. Essa é a filosofia da grande maioria das pessoas hoje em dia. Nossos pais nos ensinam. Nós, que somos jovens, precisamos ralar muito e trabalhar muito agora, enquanto temos forças e energias, para que, um dia, possamos nos aposentar e usufruir dos bens que acumulamos. Só acontece que juntar bens toma nosso tempo, nossas forças, nossas atenções, nossos planejamentos... tudo o que somos. E, então, quando vemos, em nossa corrida para entesourar para nós mesmos, quase nada sobrou para Deus. Para a minha poupança, nunca pode faltar. Mas para ajudar um necessitado, sempre falta. Para apoiar um missionário, sempre falta. Para investir nos trabalhos da igreja, sempre falta. Mas para minha calça jeans nova, a gente dá um jeitinho. Para o cinema do fim de semana, a gente dá um jeitinho. Para minha maquiagem nova, minhas unhas semanais, meu cabelo... a gente arruma.

“Mas Deus lhe disse: Louco, esta noite te pedirão a tua alma; e o que tens preparado, para quem será? Assim é o que entesoura para si mesmo e não é rico para com Deus” (v.20-21). Temos tempo para nós mesmos, mas não temos para Deus. Temos energia para nosso trabalho, que nos permite juntar tesouro para nós mesmos, mas não temos para nossa família, nossos amigos, os que precisam de nós, e o próprio Deus. Mas essa vida terminará. De repente. Quando menos esperarmos. E o que terá valido serão os tesouros que acumulamos para com Deus. Nosso amor, nossa misericórdia, nossa compaixão, nossa doação, nossa liberalidade para com o Reino de Deus. Juntar para a eternidade, e não para este mundo perecível.

3) Ansiosa preocupação com as necessidades dessa vida (Lucas 12.22-33)

“Por isso, eu vos advirto: não andeis ansiosos pela vossa vida, quanto ao que haveis de comer, nem pelo vosso corpo, quanto ao que haveis de vestir. Porque a vida é mais do que o alimento, e o corpo, mais do que as vestes.” (v.22-23)

E é assim que Jesus conclui o Seu ensino. “Não andem tão ansiosos assim!”. Por que nós andamos tão ansiosos com nossa vida – nossas necessidades diárias ou futuras? Porque nós nos esquecemos que esta vida não se resume à realidade material – há uma realidade espiritual, da qual nós fazemos parte, e, nesta realidade, há um Deus Todo Poderoso que é nosso Pai e cuida dos Seus filhos. Mas nos esquecemos disso. Passamos a acreditar que o provedor de nossas vidas somos nós mesmos. Nossos esforços. Nossos empregos. E, por isso, eles precisam ser nossas prioridades. Por isso precisamos trabalhar mais um turno, mesmo quando isso prejudica as coisas que realmente valem à pena nessa vida. Porque acreditamos que nosso sustento vem de nós mesmos – e não do Senhor. Então, vivemos preocupados com o que haveremos de comer, de beber, de vestir, etc. Por isso, deixamos de investir no Reino de Deus. Por isso, deixamos de estar com o Corpo de Cristo, pois precisamos trabalhar. Por isso, abrimos mão de uma viagem missionária, pois nos custaria reduzir os custos com a manutenção de nosso estilo de vida – o que não podemos fazer. Por isso, o campo missionário transcultural é tão apavorante pra tanta gente ainda. Por isso os pais se desesperam quando seus filhos dizem ser chamados para o trabalho missionário em campos pobres. Por isso, os jovens são ensinados a escolher profissões que darão dinheiro, e não as que fazem parte do chamado de Deus para suas vidas. É assim que fazemos nossas escolhas hoje em dia. Calculando nossa sobrevivência. E é assim que deixamos Deus de fora da nossa história – e ficamos de fora da história dEle.

O que Ele nos ensina: “Observai os corvos, os quais não semeiam, nem ceifam, não têm despensa nem celeiros; todavia, Deus os sustenta. Quanto mais valeis do que as aves! [...] Observai os lírios; [...] se Deus veste assim a erva que hoje está no campo e amanhã é lançada no forno, quanto mais tratando-se de vós, homens de pequena fé! [...] vosso Pai sabe que necessitais [destas coisas]. Buscai, antes de tudo, o seu reino, e estas coisas vos serão acrescentadas. Não temais, ó pequenino rebanho; porque vosso Pai se agradou em dar-vos o seu reino. Vendei os vossos bens e dai esmola; fazei para vós outros bolsas que não desgastam, tesouro inextinguível nos céus, onde não chega o ladrão, nem a traça consome, porque, onde está o vosso tesouro, aí estará também o vosso coração” (v.24, 27a, 28, 30b-34)

Não se trata de não termos mais cuidado com nossa vida e deixarmos de ser atentos e sábios com nossas escolhas diárias. Não se trata de não nos precavermos financeiramente e sairmos torrando nosso dinheiro de qualquer forma, ainda que seja em ações religiosas, sem a responsabilidade de cumprir com nossos compromissos – pessoais, cidadãos, familiares. Não se trata de não assumirmos nosso papel em nos empenharmos para conseguir nosso sustento e ficarmos sentados, esperando Deus mandar o maná do céu. Não é sobre essas coisas que este texto fala. Não é sobre negligência, preguiça, irresponsabilidade, falta de compromisso e de responsabilidade, falta de sabedoria e vida desregrada. Não é sobre uma fé cega. É sobre onde está nosso coração. É sobre onde está o nosso tesouro. É sobre em que temos investido as nossas vidas. É sobre o que realmente tem importado para nós. E o que realmente importa para Deus. O que realmente importa nessa vida. É sobre descobrir isso e investir nisso. Tudo o que pudermos. É sobre não viver para si mesmo – mas para Deus, e para o próximo. Pois foi assim que Jesus viveu. E veio nos deixar o exemplo. Ele sabe o que realmente importa. Aprendamos com Ele.


sexta-feira, 11 de março de 2016

Quaresma – Dia 28 – Reagindo à repreensão



“Saindo Jesus dali, passaram os escribas e fariseus a argui-lo com veemência, procurando confundi-lo a respeito de muitos assuntos, com o intuito de tirar das suas próprias palavras motivos para o acusar” (Lucas 11.53-54)

Como você reage quando é repreendido por alguém, quando alguém chama a sua atenção? Jesus estava fazendo isso com os fariseus e os escribas nos versos de Lucas 11. 37 a 52. Ele censurou os fariseus e os intérpretes da Lei, expondo seus pecados, sua falsa religiosidade, sua hipocrisia. Jesus lhes tirou as máscaras. E é interessante que Jesus nem fez isso diante da multidão. O texto diz que Ele estava à mesa com um fariseu que O havia convidado para comer com ele. Dá a ideia de que eles estavam na casa do fariseu. Mas, mesmo fazendo estas exortações tão sérias e pesadas àqueles líderes religiosos, eles não se arrependeram. Após ouvir todas aquelas revelações a respeito da condição errada e falsa de seus corações e de suas ações religiosas, aqueles homens, que poderiam ter assumido a sua culpa, o seu pecado, e se arrependido, e pedido o perdão de Jesus, não o fizeram. Ao contrário, ao invés de assumirem-se pecadores e pedir perdão, eles decidem encontrar desculpas para matar o Cristo.

E essas são as duas opções que temos. Ou nos humilhamos, assumindo nossa fraqueza e pedindo ajuda; ou nos vestimos de presunção e vaidade e tentamos reverter o quadro, transformando em acusado aquele que nos acusa. Humildade ou orgulho. São as duas opções. Ou tirar as máscaras, ou reforça-las, tirando de nós o foco do julgamento e colocando-o sobre a vida daquele que nos estava revelando. E é exatamente uma dessas duas coisas que nós fazemos quando somos acusados, quando somos repreendidos. Ou reconhecemos ou também nos tornamos acusadores – e ainda mais ferrenhos do que aquele que nos exortou. Se não assumimos nosso papel de “vilões”, para defender nossa falsa fama de “mocinhos”, então nossa saída é transformar todos os que “ameaçam nossa fama” também em vilões. Jesus era Santo – O Messias. Mas aqueles homens precisavam transformá-Lo no vilão, para defender o seu orgulho, para não precisarem reconhecer quão maus eram. Então, mais fácil era transformar Jesus em alguém mau do que reconhecer que Ele estava certo.

E é assim com a gente. Não só quando Deus nos repreende (diretamente, pelo Espírito Santo em nossa consciência). Mas, principalmente, quando as pessoas nos repreendem. Quando Deus nos repreende por meio das pessoas. Quando elas expõem nossos erros e pecados. É tão difícil ser exortado. É duro, dói. A repreensão nunca é algo fácil. Porque é um confronto ao nosso ego, ao nosso orgulho, à nossa vaidade, à nossa necessidade de aceitação, ao nosso desejo de ser deus. A verdade é que o maior pecado de todo ser humano é o desejo de usurpar o lugar de Deus. Ser iguais a Ele, tomando-Lhe o centro. E quando somos censurados e expostos, todos descobrem que não somos “deus” coisa nenhuma. Somos pecadores. E quanto lutamos para esconder essa verdade dos outros – e de nós mesmos.

Mas esse caminho não é um caminho possível para nós, cristãos. Porque só há lugar ao lado de Deus quando há arrependimento. Porque só há lugar para UM DEUS na vida do cristão. E não somos nós. Porque o caminho de Cristo é o caminho da cruz, da humilhação, da diminuição, para que o Pai seja quem cresça. E isso começa nas pequenas coisas. Começa em reconhecermos o orgulho que há em nós – e que se manifesta, ou tenta se manifestar, cada vez que alguém nos chama a atenção. Todas as vezes em que não podemos simplesmente responder “É verdade. Eu fiz isso. Me perdoe”, mas precisamos nos justificar eternamente, para convencer de que estamos sempre certos. Começa em aprender a ficar calados. Aprender a pedir perdão. Aprender a tirar as máscaras e mostrar seu pior lado. É assim que se aprende a ser cristão. É assim que se cresce na fé. Não há lugar para nosso ego, nosso orgulho, nossa vaidade.

Que não sejamos como estes escribas e fariseus que, para se defender, procuram motivos para acusar quem lhes exorta. Que não sejamos assim. Que reconheçamos o pecado em nossa vida, que nos arrependamos, que procuremos mudar – e que nos lembremos que aqueles que nos exortam com sinceridade são verdadeiros amigos e instrumentos de Deus. São voz do Espírito Santo, que é quem nos convence do pecado, da justiça e do juízo. E precisamos dar ouvidos à essa voz. Porque precisamos dela para mudar e para crescer. Que nunca calemos essa voz em função de nossa necessidade de defender nossa “reputação”. Que aprendamos a ser humildes – com o mais humilde dos homens que viveu sobre esta terra: Aquele que deixou o Seu reino celestial e humilhou-se, fazendo-se como um de nós, pecadores, por amor ao Pai e ao próximo. Ele é nosso maior exemplo. E é exatamente com a simplicidade e a humildade dEle que devemos reagir à repreensão. Para que Seu Nome seja glorificado. E que Ele nos ajude. Amém.