quarta-feira, 23 de novembro de 2016

Série 1 Coríntios - Parte 1: Uma igreja orgulhosa e o problema das divisões denominacionais



Hoje iniciaremos uma série de reflexões a respeito do livro de 1 Coríntios. Serão análises gerais a respeito dos assuntos abordados na carta, sem adentrar de maneira muito profunda em tópicos específicos ou polêmicos, exceto em alguns casos. O objetivo é termos uma noção geral do que Paulo estava tentando ensinar àquela igreja, e como esses ensinos são aplicados à nossa vida cristã hoje. As análises apresentadas são pessoais, mais baseadas em meu entendimento da Palavra do que em estudos teológicos aprofundados a respeito de cada assunto, então, é claro que posso estar equivocada a respeito do sentido de qualquer aspecto, e a correção e/ou complementação por parte de todos os visitantes será muito bem-vinda.

Começaremos falando um pouco da questão que acredito ser a central na igreja de Corinto, e os aspectos abordados nos capítulos 1 a 4. Deus seja conosco, nos iluminando, revelando Sua Palavra e nos transformando, pela renovação da nossa mente, por meio das Sagradas Escrituras. A graça do Senhor seja conosco.

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"Porque em tudo fostes enriquecidos nele, em toda a palavra e em todo o conhecimento (Como o testemunho de Cristo foi mesmo confirmado entre vós). De maneira que nenhum dom vos falta, esperando a manifestação de nosso Senhor Jesus Cristo" (1 Co. 1. 5-7)


Estudando o livro de 1 Coríntios e tentando entender quem era aquela igreja para quem Paulo estava escrevendo, e percebendo as características das exortações que Paulo fazia àqueles irmãos, esses versículos 5 a 7 do primeiro capítulo me pareceram resumir o problema da igreja de Corinto: o que Paulo elogia foi o que se tornou a queda daquela igreja - seu enriquecimento na Palavra, conhecimento e dons espirituais tornou-se orgulho. E em muitos momentos veremos essa característica se manifestando nos pecados que aquela igreja estava cometendo. Uma igreja orgulhosa - ou cheia de pessoas que se tornaram espiritualmente orgulhosas e soberbas.

E isso é tão fácil de acontecer, não é? Quando começamos a receber muito de Deus, seja no que for - conhecimento, dons, manifestações sobrenaturais (como estava acontecendo com Corinto), o que quer que seja - corremos o grande perigo de começar a nos achar melhores do que os outros e, assim, começar a olhar quem "não está no nosso nível" com julgamento, exclusão, menosprezo.

A primeira expressão desse pecado na vida da igreja de Corinto pode ser percebida nos capítulos 1 a 
4, quando Paulo está falando das divisões que se estabeleceram dentro da igreja, principalmente, no caso desses capítulos, em função da valorização de nomes de líderes em detrimento da valorização da obra de Cristo, que une a todos os cristãos.

Paulo exorta a igreja contra a procura/ valorização / foco naquilo que homens podem oferecer, na sabedoria humana, no colocar a esperança e a fé nos atributos humanos, o que estava gerando divisões na igreja, visto que alguns se chamavam pelo nome de Paulo, outros pelo de Apolo, outros pelo de Pedro. Paulo lembra que nossa esperança e nosso foco devem estar na obra de Cristo (e não de homens) e na sabedoria de Deus (e não de homens), e que estas, ambas, são loucura para o mundo, porém, foi por meio do que é louco (e não sábio) que Deus resolveu operar e revelar Seu mistério de salvação. Portanto, não devemos olhar ou nos apoiar em homens, pois a sabedoria humana é loucura para Deus, mas em Cristo, e nEle sermos UM e andar em unidade.

Ainda falando sobre a divisão que havia se instalado na igreja, no capítulo 4, Paulo ensina que os apóstolos são apenas servidores de Cristo, e que a igreja / os grupos não deveriam julgar nenhum dos obreiros de Deus precocemente, que o dever de cada apóstolo era ser fiel a Deus e não a homens, e era Deus quem iria julgá-los. Portanto, um grupo, que seguia uma pessoa, não deveria ficar julgando outro grupo, que seguia outra pessoa, mas aguardar o julgamento final, quando todos serão julgados pelo Pai e todas as obras serão manifestadas.

O apóstolo também fala que esse julgamento que um grupo fazia do outro originava-se do orgulho que havia entre eles: um se achava superior ao outro. Mas lembra que tudo o que temos foi dado por Deus, portanto não temos do que nos orgulhar. 

Termina lembrando que os verdadeiros apóstolos, ao invés de estarem sendo exaltados ou procurando exaltação, estão sendo humilhados, perseguidos, pagando alto preço para ver o crescimento da Igreja, e diz à igreja para seguir seu exemplo, ao invés de ficarem orgulhosos, e envia Timóteo para ajudar a igreja a relembrar tudo que havia ensinado e tudo que estava vivendo por estar unido com Cristo.

Trazendo os ensinos desses 4 primeiros capítulos para nossas vidas, penso nitidamente nas divisões denominacionais que existem no meio evangélico brasileiro. Como nós somos como a igreja de Corinto. Um grupo achando-se melhor do que outro, apoiando-se em nomes de homens, em suas histórias, naquilo em que se acham superiores aos outros, e julgando todos aqueles que pensam e vivem diferente como inferiores. Como temos vivido como se não fôssemos a mesma Igreja, o mesmo Corpo de Cristo, a mesma Noiva, e dividindo o Corpo de Cristo, de forma a manchar o nome de nosso Cabeça, Jesus Cristo, entre os incrédulos. Quando nossa união deveria manifestar a maravilhosa obra que Cristo fez por nós, Sua graça em nos revelar Suas maravilhas e nos dar dons e entendimento - a nós e a todos os demais salvos, nos enchemos de orgulho com o pouco que temos recebido e nos tornamos juízes de todo mundo. Como nossa igreja evangélica brasileira precisa olhar para a igreja de Corinto, enxergar-se nela e aprender com ela. E eu faço parte disso. Eu também estou aprendendo a julgar menos e amar mais - como Paulo ensinará nos capítulos posteriores. O orgulho nos mata, e as divisões dentro do Corpo de Cristo nos matam também. Que não seja assim. Que o Senhor nos liberte do pecado do orgulho espiritual, da vaidade, da soberba, e nos ensine a enxergar o que realmente importa, o que realmente Jesus veio nos ensinar - e Seu Evangelho nos ensina.

Que Deus ajude a igreja brasileira. Vem, Senhor Jesus.



sábado, 1 de outubro de 2016

A questão do beijo antes do casamento


Eis uma questão sobre a qual, enquanto jovem solteira, tenho refletido durante muitos anos. Faz muito tempo desde que comecei a ler/ouvir pessoas falando sobre esse aspecto específico dos “namoros” cristãos, e já pensei realmente bastante no assunto. Vi muita gente que, enquanto solteira, defendia o “beijo só no dia do casamento”, mas que acabou abrindo mão dessa convicção quando iniciou um relacionamento romântico. Vi muita gente desacreditando desse fato como um princípio bíblico. Assim como vi muita gente ensinando isso como pecado e regra a ser cumprida. E me deparei com muito medo, em meu coração, de defender a reserva do beijo romântico (leia-se “beijo na boca”) para o dia do casamento de uma forma legalista – porque pude identificar muitas coisas em minha caminhada cristã que eram defendidas de maneira legalista e acusadora e que precisaram ser repensadas e redefinidas.

Contudo, continua havendo uma voz incômoda em meu coração me dizendo que não posso abrir mão deste princípio. E hoje já não tenho a ousadia de acreditar que todos precisam pensar e sentir assim como eu. Sei que não tenho o direito de julgar pessoas simplesmente pelo fato de não enxergarem a vida como eu enxergo e não tomarem as mesmas decisões que eu. Entendi que cada um de nós tem uma história e que o pecado se manifestará em nossas vidas de maneiras diferentes, que cada um de nós enfrentará tentações diferentes de acordo com tudo aquilo que tem vivido. Assim, hoje quero falar dos motivos que me fazem crer que o beijo romântico deve ser reservado para o casamento – mas quero falar do que isso representa para mim. Não posso afirmar que seja assim para todas as pessoas – e, certamente, não é. Mas, provavelmente, já foi muito parecido para todos nós, em algum ponto de nossas vidas.

Eu sempre me pego fazendo essa pergunta a mim mesma: “E quando eu precisar falar para o cara com quem espero me relacionar que não pretendo beijar até o dia do casamento? Como vai ser? Como vou explicar isso pra ele?”. E confesso que não é nada fácil. Porque parece algo tão louco, tão de outro mundo. E não é fácil, pelo menos pra mim, ter de lidar com o julgamento dos outros a respeito de você – especialmente se esse outro é alguém com quem você espera desenvolver um relacionamento para casamento. Mas tenho precisado pensar nas explicações que darei um dia, e me perguntar quais são as reais razões que me levam a crer nisso como um princípio cristão. E eu realmente poderia escrever quase um livro aqui sobre isso, porque eis um assunto que me tira o sossego há anos mesmo! (rs). Mas gostaria de mencionar aqueles que, hoje, me são os mais importantes diante de minha identidade cristã.

1) Meu corpo não me pertence

“Acaso não sabem que o corpo de vocês é santuário do Espírito Santo que habita em vocês, que lhes foi dado por Deus, e que vocês não são de si mesmos? Vocês foram comprados por alto preço. Portanto, glorifiquem a Deus com o corpo de vocês” (1 Coríntios 6.19-20 – NVI)

Esse texto pra mim é um dos mais importantes na Bíblia quando penso em “até onde devo chegar em meu contato físico romântico antes do casamento”. A verdade ensinada por ele é uma das mais importantes: nosso corpo não é nosso. Fomos comprados, e por alto preço, e, por isso, não nos pertencemos mais. Somos de Deus. E nossos corpos são morada do Espírito Santo de Deus. E não tem como fugir do fato de que, ao escrever isso, Paulo estava falando exatamente do uso do corpo para pecado sexual. Todo o texto de 1 Coríntios 6.12-20 trata disso. Em minha Bíblia, o título para esse trecho é “A sensualidade é condenada”.

Paulo começa dizendo: “Todas as coisas me são lícitas, mas nem todas convêm”. E fica claro também que Paulo não está falando apenas contra o ato sexual em si, porque no verso 18 ele diz: “Fujam da imoralidade sexual [...]”. O Dicionário Almeida do aplicativo The Word traduz o termo imoralidade como “Ato ou costume que fere a pureza e a moral; indecência (1Co 5.1, RA)”. Poderíamos dizer: tudo aquilo que fere a pureza e a moral sexual – não apenas o ato sexual em si. E o verso 13b diz: “Porém o corpo não é para a impureza, mas, para o Senhor, e o Senhor, para o corpo”. Uma vez que fomos comprados por Cristo, toda nossa vida passou a pertencer a Ele – incluindo nosso corpo. Não é mais meu. Não posso mais usar do jeito que eu quiser. É do Senhor e para o Senhor. O entendimento disso é essencial.

E a única circunstância em que a Bíblia afirma que Deus compartilha a posse de nosso corpo com outra pessoa é no contexto do casamento: “A mulher não tem autoridade sobre o seu próprio corpo, mas sim o marido. Da mesma forma, o marido não tem autoridade sobre o seu próprio corpo, mas sim a mulher” (1 Coríntios 7.4). Nunca encontrei outra situação em que posso compartilhar a posse de meu corpo com outro, para outro propósito que não seja a glória de Deus, que não o casamento. Nesse contexto, Deus concede o corpo um do outro como um presente ao cônjuge – e como nossa arma contra a imoralidade. É interessante que Paulo fale, no verso 1 deste mesmo capítulo, que “é bom que o homem não toque em mulher, mas, por causa da imoralidade, cada um deve ter sua esposa, e cada mulher o seu próprio marido”. Não “tocar em mulher” é muito mais do que “não fazer sexo”. Porque não tenho direito sobre o corpo do outro, e não tenho direito de entregar meu corpo a alguém, exceto a esposa a seu marido e vice-versa.

2) O que não provem de fé é pecado

“Mas aquele que tem dúvidas, se come está condenado, porque o que faz não provém da fé; e tudo o que não provém da fé é pecado” (Romanos 14.23)

Outro texto extremamente desafiador pra mim nesse assunto. Já pensei em abrir mão desse princípio do beijo só no dia do casamento. Realmente já quis abrir mão disso. “Deve ser besteira isso. Deve ser exagero meu. Olha quantos jovens cristãos genuínos se beijam durante seus namoros! Não deve ser tudo isso que eu penso! Eu nunca nem vivi isso, como vou querer saber?”. Mas, por mais que eu pensasse em todos os argumentos pra não precisar mais defender esse princípio, sempre havia aquele incômodo lá no coração me dizendo que DEUS estava me ensinando sobre esse tipo de pureza há anos – e que eu queria abrir mão disso não por convicção, mas por medo de ser julgada. Eu não acreditava, e não acredito, que “beijo não tem problema”. Portanto, decidir viver assim não seria uma decisão proveniente de FÉ e, portanto, para mim, seria pecado.

Nesse ponto, assim como Paulo falava sobre os alimentos ou a guarda de dias especiais, aquele que o faz não deve julgar aquele que não faz porque, no fim, seremos julgamos é pela fé que motivou nossa decisão. Deus está olhando nossas motivações. E eu quis optar por atitudes que fossem mais compreensíveis ao mundo, que não exigissem tantas explicações e que não viessem a gerar tantos olhares de “qual o problema dela?” quando o dia de tomar essa decisão chegar. Mas optar dessa forma não seria viver por fé – e não seria viver para a glória de Deus. Então, até que o Espírito de Deus testemunhe ao meu espírito e transforme minhas convicções, gerando fé onde não há fé, não tenho como abrir mão disso sem pecar.

3) Pureza além do corpo: na mente

“Ouvistes que foi dito: Não adulterarás. Eu, porém, vos digo: qualquer que olhar para uma mulher com intenção impura, no coração, já adulterou com ela” (Mateus 5.26-27 – ARA)

“Mas eu lhes digo: quem olhar para uma mulher e desejar possuí-la já cometeu adultério no seu coração.” (Mateus 5.27 – NTLH)

Lembro de um texto fantástico que li, em algum blog, que dizia “Deus não quer a sua virgindade”, ou algo assim. E o que ele defendia era que podemos, facilmente, ainda ser virgens em nosso corpo, mas será que em nossas mentes ainda somos virgens? E essa é uma pergunta muito séria. Acredito que é o mesmo que Jesus estava ensinando nesse trecho de Mateus: você pode não ter adulterado fisicamente, mas tê-lo feito em sua mente e coração. E aí vem o grande ensino de Jesus: Deus não está preocupado apenas com nosso exterior, Ele está interessado em nosso coração e nossas motivações. O Antigo Testamento, a Lei, estavam preocupados com o pecado externo – o adultério do corpo. Mas o Novo Testamento ensina que Deus vai além disso: preocupa-se com a santidade e a pureza de nosso coração e nossa mente. E, com toda certeza: esse é um padrão muito mais difícil de pureza a se manter.
Eu nunca namorei. Beijei 3 rapazes, entre os 14 e os 16 anos (coisa que eu realmente gostaria que não tivesse acontecido). Desde os 16, quando o Senhor converteu meu coração a Si mesmo, não tenho contato físico romântico com rapaz nenhum. Não tenho necessidade ou dependência de contato físico com rapazes. Eles me são até estranhos, pra falar a verdade. Manter virgindade física não é um problema pra mim – porque a gente não sente tanta falta daquilo que a gente nunca teve. Mas guardar minha mente e meu coração das expectativas do que virá a ser um relacionamento sexual dentro do casamento, com alguém que ainda nem sei quem é, é muito mais difícil. Porque tenho esperado pelo casamento (e, claro, todas as “bênçãos” que virão com ele) há muitos anos, e sou o tipo de pessoa que cria muita expectativa a respeito das coisas. Não deixar que essas expectativas se tornem essa cobiça, esse “olhar [ou pensar] com intenção impura”, esse “desejar possuir” que Jesus estava falando é muito mais difícil, pra mim, do que não fazer sexo.

E onde entra o beijo nisso? Se é difícil manter a pureza de minha mente e meu coração estando ainda solteira e sem sequer conhecer o cara com quem irei me casar, quem dirá tendo-o conhecido, estando apaixonada, planejando um casamento e ainda trocando beijos apaixonados com ele? Eu nunca passei por isso, mas, com toda sinceridade, não tem como um beijo entre duas pessoas apaixonadas ser um contato não sexual – e que não traga pensamentos e expectativas sexuais. A vivência de nossa sexualidade é um impulso natural do ser humano, que tende a ser crescente quando é iniciado, e não decrescente – porque seu destino final é a consumação sexual, a qual constitui a consumação do próprio casamento (aliás, era a própria celebração do casamento no Antigo Testamento). Assim, nossos impulsos sexuais, uma vez iniciados, não tendem a diminuir, mas a crescer, até que o ápice da união sexual seja alcançado.

E eu não quero ter que ficar lutando contra esses impulsos durante a minha preparação para o casamento – nem no aspecto físico, nem no mental. Não quero precisar ficar experimentando a culpa por não resistir ao pecado, no corpo ou na mente, e manchar a pureza para a qual o Senhor me chamou e a qual Ele tem me ensinado a buscar. Dediquei os últimos 12 anos de minha vida tentando viver de forma pura e bonita diante de Deus, tentando aprender Seus princípios e coloca-los em prática na minha vida, para honrar a Deus em todas as minhas escolhas. Não quero perder isso exatamente ao encontrar aquele que deve ser o primeiro protetor e estimulador de minha pureza, enquanto noiva sua e de Cristo. Não quero, depois, carregar o sentimento de culpa-lo por ter me feito quebrar meu compromisso com Deus. Quero andar tão longe quanto possível de tudo aquilo que me tente a desonrar a Deus em meu corpo e, principalmente, em meu coração. E, em meu caso, o beijo seria um problema com certeza. Conheço a fraqueza da minha carne e sei que não posso brincar com ela.

4) O significado do contato físico pra mim

E esse ponto não é um ponto bíblico. É pessoal – e apenas um complemento do ponto anterior. Como mencionei, nunca namorei e praticamente não sei o que é contato físico romântico. Esse tipo de contato não tem o mesmo significado pra mim que tem para quem já o vivenciou tanto que já se acostumou com ele. Um beijo pra mim não é “só um beijo”. Se você já beijou tantas vezes que já até perdeu a conta (ou mesmo que não tenha perdido a conta ainda), o beijo já se tornou algo comum pra você. Não tem mais o efeito que o “primeiro beijo” teve. É a mesma coisa com o sexo. Um amigo meu, já com 30 anos e virgem, me disse isso: sexo pra mim não tem o mesmo significado que tem pros meus amigos que já transam há anos. E eles não entendem. E é verdade. O valor do sexo – e a preocupação com quando ou como vive-lo – só é tão grande pra nós porque ele ainda é um “tesouro inexplorado”. Ainda é mistério, ainda é alvo. A “Lua-de-mel” só é algo cheio de expectativas pra nós porque traz consigo o presente da iniciação sexual. Para um casal de namorados que já faz sexo normalmente, a lua-de-mel nada mais é do que uma noite como outra qualquer. Perdeu o brilho, perdeu o valor.

E é nesse ponto que não me atrevo a esperar que todas as pessoas enxerguem a questão do beijo como eu enxergo. O beijo é algo que traz quase tantas expectativas pra mim quanto o sexo – porque não me é comum, é também um alvo, é também uma espera. Não é como dar um abraço ou segurar na mão – ainda que até essas pequenas coisas tenham um significado diferente quando você não está acostumado ao contato físico com alguém do sexo oposto (sabe quando você se assusta e meio que toma um choque quando “sua mão encosta na mão daquela pessoa”? Quantos, nesses nossos dias de excessivo contato físico entre pessoas de sexos opostos, ainda conseguem sentir isso, não é?). E não posso esperar que alguém que já se acostumou – porque explorou isso de forma errada, antes do tempo – enxergue e viva isso da mesma forma. Por isso não julgo mais. Vejo casais de namorados cristãos, que realmente são cristãos, e se beijam normalmente. Antes eu só conseguia pensar que eles só podiam viver mergulhados em desejo sexual ilícito. Mas hoje penso que pode não ser assim. Não sei, talvez os dois já tenham explorado tanto esse contato durante suas vidas que já estão anestesiados a ele. E o beijo pode já não gerar neles aquilo que, provavelmente, vai gerar em mim. Então, não dá pra saber. O fato é que cada um de nós sabe qual o efeito que os contatos físicos com alguém do sexo oposto terá em nós.

E uma coisa é certa: o significado que aquele “pode beijar a noiva” terá em alguém para quem o beijo não foi uma prática constante dentro do relacionamento pré-conjugal será totalmente diferente (e muito mais bonito e cheio de valor) do que para alguém que já se acostumou com essa carícia. E, como uma boa e incurável sonhadora, certamente vou querer a história mais cheia dos valores e significados intensos – e da pureza, no corpo e na mente, para glória do meu Criador, Salvador e Santificador. E que meus filhos e as próximas gerações possam ter uma bela história para contar – uma história de honra e glória a Deus.

Espero poder saber um pouquinho mais sobre as experiências ou expectativas de vocês a respeito do assunto também. Ainda tô em tempo de continuar aprendendo – até que o prometido apareça!

Paz e graça do Pai, pessoal – e muita alegria de voltar aqui!

domingo, 27 de março de 2016

Quaresma – É Páscoa! – Ele Vive! Aleluia!



“Por que buscais entre os mortos ao que vive? Ele não está aqui, mas ressuscitou.” (Lucas 24.5b-6a)

Ressuscitou! Jesus Cristo vive! Aleluia!

Para renovar, fortalecer, conceder-nos fé. E, por isso, Ele ressuscita em secreto, sem ninguém ver. E revela-se primeiro aos improváveis, aos de menor posição – às mulheres (v. 5-8). Porque essa notícia era para ser recebida pela fé. Não pelo que os olhos diziam ou podiam confirmar. Não pelo raciocínio. Não pelos cálculos da inteligência humana. Mas pela fé. Porque toda a caminhada dali em diante seria pela fé. E Sua ressurreição precisava nos ensinar isso, e conceder, renovar, fortalecer nossa fé.

Para nos lembrar do valor da intimidade e do relacionamento. E, por isso, foi no caminhar ao lado, no ouvido atento, no compartilhar das dores e, principalmente, no partir do pão que Ele se revelou pela segunda vez, aos discípulos entristecidos no caminho de Emaús (v.13-32). Para nos lembrar que Sua ressurreição é para o dia-a-dia, para todos os nossos dias e, em especial, para os dias cansados e entristecidos; que Sua ressurreição era o cumprimento da promessa de que Ele permaneceria ao nosso lado todos os dias, até a consumação dos séculos – e que Ele continua a se importar com nossas dores e a querer participar de todos os nossos momentos, e a partir o pão conosco, o pão da Palavra e o pão para o corpo. Ele ressuscitou para andar com a gente – e é no relacionamento, no coração ardendo, e nos momentos mais singelos de intimidade que O reconheceremos, e que nossa fé e nossa vida se renovarão.

Para renovar nossas esperanças de salvação e vida eterna. E, por isso, Ele faz questão de mostrar aos Seus discípulos que Sua ressurreição foi não apenas em espírito, mas também em carne – possível de ver, de apalpar, de verificar. Porque essa é a promessa de ressurreição que nos foi feita. Porque, provavelmente, se os discípulos não O pudessem tocar e sentir, com seus próprios sentidos, eles pensariam que esta ressurreição era apenas para os seres celestiais, os “espíritos elevados” ou esse tipo de coisa que costumamos pensar quando vemos o sobrenatural de Deus acontecendo na vida de alguém. Mas Jesus lhes concede uma prova, sinal vivo e verificável, para aumentar-lhes a fé e renovar as esperanças da vida vindoura. Uma vida na qual não teremos apenas nossos espíritos, mas nossos próprios corpos ressuscitados e glorificados – como eles foram criados para ser, à semelhança do Messias. Sua ressurreição é também nossa promessa viva e real de nova vida.

Para revelar nossa missão aqui nesta terra: “e que em seu nome se pregasse arrependimento para remissão de pecados a todas as nações, começando de Jerusalém.” (v. 47). Uma vez tendo recebido fé, companhia, esperança e vida real para nossa caminhada, também revelar ao mundo inteiro o caminho para todas essas promessas. Apontar-lhes a porta. Ser porta-vozes das Boas Novas de Deus para a humanidade. Permitir que TODAS AS NAÇÕES recebam estas boas notícias que trazem vida eterna, e ajudar-lhes a alcançar as promessas que, por graça alcançamos, por meio do arrependimento e remissão dos pecados, no Messias enviado, Jesus Nazareno. E não em nossas próprias forças, mas na promessa dada pelo Pai ai Filho, de revestir-nos com o poder vindo do alto.

Para nossa alegria e nossa união. Porque, ao encher o coração de Seus discípulos de júbilo (v. 52) e ao mantê-los sempre unidos, no templo, louvando Seu Nome, Deus seria glorificado neste mundo. Pois, quando o mundo vê discípulos fiéis, regozijantes e unidos em louvor, mesmo após a morte do seu Mestre, o mundo começará a perguntar o motivo da nossa fé – e a também refletir sobre a verdade da Sua ressurreição. Porque é na Sua ressurreição – e no retorno de nosso Mestre ao Pai – que passaram a residir nosso júbilo, nossa paz, nossa esperança, nosso elo. Somos UM nEle. Ele nos une. Ele nos mantem juntos. E, quando assim permanecemos, em amor e regozijo, o mundo O conhecerá. O mundo O verá em nós. Passamos a ser Seu Santuário. Sua Casa. Seu Templo móvel, que pode alcançar o mundo inteiro. É assim que O glorificamos.

E, por todas essas coisas, nosso Redentor Ressuscitou! Ele vive! Aleluia! Nossa maior glória! Nossa maior felicidade! Nossa fonte de alegria e esperança! Nosso Salvador Vive e Reina! E nada mais poderá detê-lo ou superá-Lo! Nem mesmo a própria morte O deteve. Está consumado. Está concluído! E nós recebemos o PRIVILÉGIO, a INSONDÁVEL GRAÇA de ser participantes disto! Aleluia! Nosso Senhor Vive! Isso é Páscoa! Nossa Passagem: da morte para a vida. A Eterna Vida! Ele vive! Aleluia! Vem, Senhor Jesus!


sábado, 26 de março de 2016

Quaresma – Dia 40 – O Sábado da Paixão, a Multidão e os Seguidores do Messias



“Então, Jesus clamou em alta voz: Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito! E, dito isto, expirou” (Lucas 23.46)

E, tendo finalizado Sua vida mortal assim, com estas últimas palavras, Jesus gera diferentes reações naqueles que presenciavam Seus últimos momentos.

Lendo a narração da condenação e crucificação de Jesus, ficava imaginando o que levou aquela multidão, provavelmente a mesma que vivia cercando Jesus e buscando Seus milagres e admirando-se deles e das palavras e ensinos de Jesus, bradar de forma tão veemente para que Pilatos O crucificasse. Não faz sentido! Aquelas pessoas haviam visto o que Jesus fazia! Elas O haviam acompanhado, sabiam quem Ele era. Mas, talvez, tendo sido enganadas por aqueles falsos religiosos que queriam a morte de Jesus, elas achassem que aquilo seria bom. Fiquei pensando se aquelas pessoas não achavam que, de repente, mandar Jesus para ser morto por oficiais romanos não seria a oportunidade perfeita para que Ele operasse o maior de todos os milagres; se elas não estavam realmente esperando que Ele se manifestaria em glória, ali, combatendo Seus inimigos romanos, descendo da cruz e tomando o poder para libertação civil do povo de Israel... e não é possível afirmar nada disso, pois só Deus sabia o que se passava no coração daquela multidão. Mas, talvez, fosse isso. Enganadas por escribas e fariseus, talvez aquelas pessoas, até aquele momento, mesmo depois de tudo o que já haviam visto e ouvido de Jesus, ainda não haviam entendido o que e quem seria o Messias. E esperavam o libertador das cadeias externas – quando o Pai O havia enviado para libertá-los das cadeias internas, e eternas. Mas eles não haviam entendido. E, assim, como a última cartada, esperavam que aquela condenação injusta seria a grande oportunidade para o libertador revolucionário levantar-se para vencer a opressão romana. Então, gritaram pela Sua condenação e morte (v.18, 21, 23) e, após terem-na conseguido, lá foram eles seguindo o Messias crucificado (v.27), aguardando pelo grande milagre.

Porém, o tão esperado milagre não chegou. O Messias não desceu da cruz. Ele não vociferou contra os “malditos romanos” que O escarneciam, maltratavam e humilhavam. Ao contrário, Ele pediu ao Pai que os perdoasse (v.34). Ele era blasfemado, e não falou nada. E “o povo estava ali e a tudo observava” (v.35). Esperando. Esperando. Até que, sem entender nada e, talvez, guardando as esperanças de que o grande milagre e a grande revolução do Messias acontecessem até o fim, eles O ouvem falar: “Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito!”. E morrer. E eu acredito que ali, naquele exato momento, as vendas caíram de seus olhos. E o evangelho de Lucas fala: “E todas as multidões reunidas para este espetáculo, vendo o que havia acontecido, retiraram-se a lamentar, batendo nos peitos” (v.48). E, novamente, fiquei pensando: naquele momento, aquela multidão poderia ter, simplesmente, se frustrado com a não realização do milagre que esperavam e tendo chegado, finalmente, na conclusão de que “Ele não era mesmo o Messias que dizia ser”; e voltariam para suas casas decepcionados e desanimados. Contudo, não foi assim que a multidão saiu. As Escrituras dizem que, mediante tudo o que viram, as multidões saíram lamentando e batendo nos peitos. Sinal de tristeza. Por isso, eu creio que eles entenderam: entenderam Quem era Aquele Homem crucificado, e entenderam o que fizeram. Por isso, choraram e lamentaram. Ele era quem dizia ser. E eles não acreditaram. Porque esperavam o Messias errado. Porque haviam sido convencidos de uma mentira. Mas, ali, diante daquela cruz, diante dAquele Homem que ainda amava e perdoava, que entregava-se como ovelha ao matadouro, que cumpria as Escrituras, e que entregava o Seu espírito ao Seu Pai... eles, finalmente entenderam.

E, infelizmente, ainda hoje, grandes multidões esperam o Messias errado. E não apenas entre os judeus – mas entre nós. Ainda esperam o Salvador que irá salvá-los das coisas deste mundo. Um Messias cujo propósito é acabar com a opressão física: a dor, o sofrimento, a pobreza, a opressão, a violência, toda a maldade dessa terra – representados pela opressão de Roma sobre o povo de Israel. E exatamente por isso muitos vivem tantas crises a respeito de Deus e o sofrimento humano. Como Ele pode ser bom e ainda existir o mal? Como Jesus poderia ser o Messias e o povo de Israel ainda continuar oprimido por Roma e por tantos sofrimentos oriundos disso? Era de um revolucionário que os judeus achavam precisar. Mas Deus enxergava além. Ele enxerga além. Ele sabe que, ainda que fôssemos libertos de todas as correntes de dor e sofrimento deste mundo, continuaríamos escravos. De nós mesmos. De uma escravidão que nada nesse mundo poderia nos livrar – a escravidão eterna. E que nenhum bem, nenhuma felicidade, nenhum conforto vividos nesse mundo poderiam suprir o sofrimento gerado por essa escravidão – porque essa é a verdadeira escravidão, o verdadeiro sofrimento: aquele que nos tira o sentido da vida, o propósito, a identidade... todas as coisas. A escravidão que nos esvazia totalmente – pois nos separa do nosso Criador, a Fonte de todo bem. E, enquanto estivermos separados dEle, nossa alma nunca poderá ser realmente feliz. E nenhum bem dessa vida pode suprir essa falta. Assim, é dessa escravidão que o Messias vem libertar o mundo – pois, uma vez libertos dela, uma vez religados com Deus, a Fonte de todo bem, nenhum sofrimento deste mundo é capaz de roubar nossa felicidade e nossa paz. Somos preenchidos e salvos por dentro e, quando isso acontece, nenhuma guerra, nenhuma opressão, nenhuma fome, nenhuma perseguição, nenhum escárnio, nenhuma humilhação... NADA que venha de fora poderá nos abalar. A salvação HABITA em nós. Por isso, essa era – e é – a maior missão do Salvador.

E, por isso, a reação de Seus seguidores foi tão diferente da reação da multidão. Enquanto a multidão saiu a lamentar e bater nos peitos, “todos os conhecidos de Jesus e as mulheres que o tinham seguido desde a Galiléia permaneceram a contemplar de longe estas coisas. [...] As mulheres que tinham vindo da Galiléia com Jesus, seguindo, viram o túmulo e como o corpo fora ali depositado. Então, se retiraram para preparar aromas e bálsamos. E, no sábado, descansaram, segundo o mandamento” (Lucas 23.49, 55-56). Com toda certeza, aqueles homens e mulheres estavam sofrendo profundamente naquele momento. Seu grande Mestre havia morrido, depois de tanta dor. Não podemos imaginar quão duro isso foi para os Seus seguidores. Mas a narração a respeito deles é claramente diferente da feita a respeito da multidão.

Eles permaneceram. Jesus já estava morto, mas seus corações continuavam fiéis a Ele. Porque Ele os havia transformado – e agora já não era mais possível viver desligados dEle. E, mesmo quando Ele já havia morrido, eles continuavam ali. Sim, é verdade que muitos – talvez a maioria – dos seguidores de Jesus não permaneceram; fugiram. Mas aqueles que ali ficaram, e aquelas mulheres galileias principalmente, representavam o remanescente fiel, o exemplo para todos os seguidores, para todos nós. Sua fidelidade ao Cristo não se extinguia com Sua morte. Elas criam, elas sabiam Que Ele era o Enviado de Deus. E, por isso, continuavam a crer e a segui-Lo. Prova disso é que aquelas mulheres, acompanhando José de Arimatéia e Nicodemus, vão ver onde o corpo do Mestre haveria de ser colocado – e foram preparar aromas e bálsamos para colocar sobre ele (v.56a). O comentário de minha Bíblia Shedd diz assim, sobre esse versículo: “Aromas e bálsamos. Vê-se o amor pelo Senhor no trato do Seu corpo. Normalmente um criminoso crucificado seria enterrado sem cerimônia num campo qualquer”. Mesmo morto, mesmo estando ali apenas o corpo do Mestre, aquelas mulheres ainda O amam e O honram, com seus perfumes e especiarias. Elas continuam crendo. E continuam amando – mesmo quando tudo parece ter “dado errado”. Mesmo quando elas, provavelmente, nem entendiam o porquê de tudo aquilo. Mas elas continuam fiéis. Porque elas já haviam experimentado a verdadeira libertação, dada pelo Cristo. Então, mesmo sem entender, mesmo na dor e no sofrimento, elas permanecem.

E, finalmente, que versículo lindo é o 55, parte b: “E, no sábado, descansaram, segundo o mandamento”. Descansaram. Fiquei me perguntando: “Como elas podem ter descansado no dia imediatamente após a morte de Jesus?”. Mas a palavra se repetia na minha mente: descansaram. E glórias a Deus pelo significado disso! Aquelas mulheres, com toda certeza, sofriam, com seus corações moídos por tudo o que aquela sexta-feira havia trazido. Certamente, elas enfrentavam dor e angústia enormes. Contudo, quando estamos com o Cristo, quando O conhecemos, quando Ele nos transformou, de alguma forma miraculosa que só pode ser resultado da ação do próprio Espírito de Deus, nós podemos encontrar descanso para nossas almas e corações – mesmo quando eles estão quebrados e despedaçados. Nós podemos. Podemos continuar obedecendo – “segundo o mandamento” – mesmo quando parece impossível. Porque é Ele quem nos capacita. E Deus capacitou aquelas mulheres, mesmo em meio à tamanha dor que elas sentiam. E Ele vem nos lembrar hoje: quando o sábado da paixão chegar em nossas vidas, e tudo parecer acabado, sem saída, sem explicação, impossível de compreender, quando isso doer mais do que podemos expressar, quando nos sentirmos sós e abandonados, quando não parecer mais haver esperança e o sofrimento tomar conta do coração – ainda assim, nosso Pai tem um lugar de descanso para nossas almas. Ainda assim, nosso Pai nos capacita para obedecer. Porque Ele continua conosco. Sempre. Todos os dias. E Sua salvação, operada no mais íntimo de nós, continua a nos salvar – dia após dia, dor após dor. Ele é a nossa Salvação. E continuará sendo, até o fim.


Que hoje, no “Sábado da Paixão”, e em cada “sábado da paixão” de nossas vidas, possamos nos lembrar de Quem era o Homem a expirar naquela cruz – e de todas as promessas que o Domingo traria consigo. E trouxe. E trará. Porque nem mesmo a morte foi, é, nem jamais será capaz de deter o Salvador deste mundo. Nossa esperança é eterna, e nunca falhará. Glórias, pois, a Jesus Cristo, eternamente. Amém. Amém.

sexta-feira, 25 de março de 2016

Quaresma - Dia 39 - O exemplo do Jesus Humano


"Pai, se queres, passa de mim este cálice; contudo, não se faça a minha vontade, e sim a tua" (Lucas 22.42)

Talvez as palavras que mais revelam a humanidade de Jesus. E que bonito ver que Deus, ao nos deixar Sua Palavra registrada, deseja expressar a perfeita humanidade de Jesus nesse momento tão primordial que é a véspera do cumprimento da Sua missão na terra - e do pagamento do preço a ela estipulado. Jesus não se faz de forte. Sim, desde o princípio Ele sabia que precisaria sofrer e morrer. Mas, quando o momento chega, o Jesus Homem sofre, tem medo, gostaria de ser poupado. E pede a ajuda do Pai. Pede pra não precisar passar por tanto sofrimento.

E isso é tão importante para nós, seres humanos chamados para imitar o Mestre. Porque nós também sabemos, por Sua Palavra deixada a nós, que sofrimentos e perseguições nos esperam. Sabemos que o caminho de Cristo é nosso caminho. Que a cruz que O esperava também nos espera. Contudo, muitas vezes, nos esquecemos que Ele, mesmo também sabendo que tudo isso O esperava, teve medo e quis ter outra opção. E aqui Ele nos ensina que não precisamos deixar de ser humanos para O seguir. Que Ele sabe como é duro passar pelas dores dessa vida, que dá medo, que é ruim. Ele sabe. E por isso não nos diz que é nosso dever "desejar" essas coisas. Não nos diz para pedir sofrimento e morte. Assim como Ele, o próprio Deus, pediu para ser poupado, tamanho o peso do que O esperava, Ele compreende quando também sentimos medo e queremos ser poupados.

E tudo isso me faz lembrar tanto de nossos irmãos perseguidos fisicamente pela fé. Quando vejo Jesus sendo açoitado, crucificado e morto, lembro de meus irmãos perseguidos pelo Estado Islâmico e tantos outros extremistas religiosos. E, podemos ter certeza: mesmo sabendo de todas as promessas que acompanham o sofrimento do salvo, viver o sofrimento é muito duro. Numa intensidade que a maioria de nós sequer imagina. A ponto de Jesus pedir que Seus discípulos orassem com Ele naquele momento de dor. E assim é com nossos irmãos. Dói. Muito. E pesa em nosso coração e espírito. E gostaríamos de ser poupados. Eles certamente gostariam. E Jesus sabe como é isso. E não nos condena.

Porém, Ele termina nos ensinando a fazer a maior oração de nossas vidas: "contudo, não se faça a minha vontade, e sim a tua". E esse é o grande ponto. Mesmo que tenhamos vontade de fugir, como Jesus parece ter tido, precisamos seguir o exemplo deste Jesus que também foi homem, como nós, e pedir a vontade de Deus ao invés da nossa. Por fé. Por confiança em nosso Pai. Por obediência. Não uma obediência oriunda do medo. Mas uma obediência oriunda de uma fidelidade baseada em confiança e Amor. Jesus conhecia o Seu Pai perfeitamente. E sabia que os planos e vontades dEle eram perfeitos. Por isso pediu por eles. E é isso o que nós precisamos lembrar também. Algumas vezes essas vontades irão doer muito, irão nos levar a uma cruz muito pesada - mas eles continuam sendo mais elevados que os nossos, e perfeitos.

Que possamos aprender com o exemplo do Jesus Homem. Que sofreu. Que teve medo. Mas que permaneceu fiel. Que confiou. Que teve fé. Porque o Seu Pai é o nosso Pai. E porque já conhecemos o fim da história - como Jesus já conhecia. E o verdadeiro amor lança fora todo medo. Vamos sofrer, vai doer, vai ser difícil - Jesus já predisse isso. Mas a conclusão será muito mais maravilhosa do que possamos imaginar. Nosso Pai é fiel e perfeito. Ele não nos abandonará. Podemos confiar nEle - e seguir os passos de Jesus, até o fim. Amém.

quinta-feira, 24 de março de 2016

Quaresma - Dia 38 - Capacitados pelo Mestre


"Assentai, pois, em vosso coração de não vos preocupardes com o que haveis de responder; porque eu vos darei boca e sabedoria a que não poderão resistir, nem contradizer todos quantos se vos opuserem" (Lucas 21.14-15)

Às vezes, paro pra olhar pro trabalho que alguns missionários tem feito ao redor do mundo, em realidades tão difíceis, de povos fechados ao evangelho, inimigos declarados de Jesus, e verdadeiros milagres acontecendo e sendo relatados. Vejo pessoas com uma capacidade incrível de compartilhar o evangelho, levar pessoas ao conhecimento de Jesus, abrir igrejas e trabalhos... e aí olho pra mim, desejando dedicar minha vida para esse propósito, e vejo tão pouco da fé, coragem, ousadia, entre tantas outras coisas que vejo nessas pessoas, e fico me perguntando se sou a pessoa certa para essa obra.

E quando li esse texto, ele foi pra mim. Porque ele diz que Deus mandaria perseguições e prisões aos seus discípulos, como oportunidade para testemunhar, mas que, quando essas oportunidades aparecessem, eles não precisavam ficar se preocupando com o que iriam falar, porque o próprio Deus colocaria a palavra certa em suas bocas, de tal forma que ninguém poderia resistir nem contradizer. Isso não é fantástico? Que esperança e segurança isso me traz. Mas também aquela necessidade sempre presente de me esvaziar de mim mesma, de sair do controle, de largar os remos e o volante, e tornar-me dependente. Fé. Entrega. Novamente, o que Jesus vem nos pedir.

De fato, a capacidade para ver os milagres acontecendo, ver o inimigo transformando-se em amigo, ver o perseguidor transformando-se em defensor, ver coisas como líderes mulçumanos, membros do Estado Islâmico, feiticeiros líderes de comunidades inteiras reconhecendo o Senhorio de Jesus e passando a ama-Lo e segui-Lo... não pode vir de esforços humanos - somente do agir do Senhor. E é isso o que precisa ser lembrado. Não somos nós. Quando o Pai me levar para servi-Lo perante os Seus inimigos, não serão as minhas palavras - e nem devem ser - mas as dEle. E isso requer dependência e entrega. Isso requer fé. Uma fé que costuma ser mais difícil de viver do que nossa autosuficiência natural.

Mas a vida cristã e o serviço ao Reino nada mais é do que isso. Não o quanto me capacitei e estou pronta - ainda que toda capacitação seja bem vinda, quando oportunizada. Não é sobre isso. É sobre o quanto tenho estado com o Mestre, entregue, submissa, confiante no Mestre, para poder ser capacitada por Ele. Pois só Ele tem o poder para fazer a obra do Seu Reino cumprir Seu propósito. É no Seu poder e não no nosso. Capacitados pelo Mestre. E que essa seja nossa maior arma, nossa maior confiança e segurança. Menos de nós, e mais dEle. Para que, em todas as coisas, a honra e a glória sejam UNICAMENTE dEle. E que assim seja. Amém.

Quaresma - Dia 37 - Nossas pequenas moedinhas


"Viu também certa viúva pobre lançar ali duas pequenas moedas; e disse: Verdadeiramente, vos digo que esta viúva pobre deu mais do que todos" (Lucas 21.2-3)

E acho que nós sempre precisaremos lembrar desse ensino da Palavra. Achamos que Deus está interessado em nossa produtividade, nossa utilidade, quantas coisas temos em nossas mãos para oferecer a Ele, o tamanho de nossas ofertas, o tamanho de nossos dons, nossas capacidades, nosso trabalho, nosso tempo em atividades religiosas... E aí as Escrituras nos falam desta viúva pobre. Lá estavam os ricos lançando suas enormes ofertas e achando-se tão importantes por isso, mas é à viúva que Jesus elogia - com suas duas ínfimas moedinhas. Porque não é com a quantidade da oferta que Ele se preocupa, é com o tamanho da entrega. Não com nossas capacidades à serviço dele, mas com nossas vidas entregues a Ele. Aquela viúva se entregou, integralmente, a ponto de entregar sua sobrevivência - ainda que isso significasse apenas duas moedinhas no fundo do gazofilácio.

E nós precisamos aprender isso com ela e com aqueles ricos. Os grandes montantes entregues por aqueles homens ricos não impressionaram Jesus. Porque Ele olha para dentro, e não para fora. Foi o coração daquela mulher, provavelmente desprezada por aqueles homens ricos, provavelmente se sentindo tão pequena e sem utilidade, provavelmente envergonhada por entregar tão pouco... mas foi o coração dela que despertou a admiração do Mestre. E é assim conosco.

Quanto tempo e energias temos gastado tentando conquistar a admiração do Mestre por meio de nossas muitas ofertas - nosso muito trabalho, nossas muitas atividades, nossa muita inteligência, nossos muitos dons e capacidades... e quantas vezes temos vivido sobrecarregados e infelizes por nunca nos sentir bons o suficiente para agradar ao nosso Senhor, sempre sentindo precisar de mais, sempre nos cobrando uma oferta maior... quando nos esquecemos que não é nada disso o que Ele está procurando em nós. E não é por nenhuma dessas coisas que Ele nos ama. Não é com essas coisas que Ele está preocupado e interessado. E vamos perdendo nossas vidas investindo nas coisas erradas - nas coisas que agradam e conquistam a admiração dos homens, mas não a de Deus.

É nossa vida o que Ele deseja. Nosso coração o que Ele quer. Uma entrega total, amor total, confiança total... é uma condição interna, não externa. É a mudança e o compromisso que nenhum homem pode ver, só Ele pode. E é com isso que Ele se importa. Não interessa qual será o resultado da conversão disso em bens quantificáveis e observáveis. Não importa se serão apenas duas moedinhas. É nossa vida - toda ela - o que Ele quer. Nosso amor. Só. Não precisamos convencê-Lo que somos bons ou dignos de ser amados. Nós não somos. Mas Ele nos ama mesmo assim. Porque escolheu nos amar. Não precisamos ficar nos esforçando para conquistar o Seu amor e aprovação.  Não temos essa capacidade. Ele já nos ama INTEGRALMENTE. Numa medida que não pode ser aumentada ou diminuída. E nada vai mudar esse amor (Rm. 8). Não precisamos nos cansar tanto, sobrecarregar tanto, e nem mesmo nos culpar tanto por não termos mais do que nossas duas moedinhas para entregar. Ele nos ama independente disso. E o que Ele está realmente olhando é se o que entregamos reflete a condição de entrega do nosso coração. Se ela é total, não importa que sejam apenas nossas pequenas moedinhas... é a oferta perfeita e suficiente para Aquele que, dia a dia, escolhe nos amar.

quarta-feira, 23 de março de 2016

Quaresma – Dia 36 – Vida cristã, ciladas e o exemplo de Jesus



“Observando-o, subornaram emissários que se fingiam de justos para verem se o apanhavam em alguma palavra” (Lucas 20.20a)

Definitivamente, ao olhar para a Bíblia, precisamos desenvolver o olhar de identificar em Jesus, e em todas as coisas que Ele viveu, o exemplo para nossas vidas e todas as coisas que nós também viveremos.

Estive pensando nesse episódio da vida de Jesus. Escribas e sacerdotes armando uma cilada para pegar Jesus em um erro e entrega-Lo às autoridades romanas e destruí-Lo – e em como isso existe em nossas vidas cristãs também. E eu nem estou falando de como sofremos ciladas e perseguições injustas em nossos relacionamentos com os descrentes – estou falando das ciladas que sofremos dentro do próprio meio religioso, originadas daqueles que deveriam ser defensores da fé junto conosco. E era isso o que Jesus estava vivendo. Enquanto publicanos e pecadores sentavam ao Seu lado para ouvi-Lo e aprender com Ele, os líderes religiosos do grupo ao qual Jesus pertencia (os judeus) armavam armadilhas para derrubar Jesus.

E como é triste viver algo assim. Tenho certeza que nenhuma decepção nessa vida é maior do que sermos enganados, ou descobrirmos que estão armando para nosso mal, no meio daqueles em quem mais confiamos. No meio dos que chamamos de irmãos. No meio dos que nos abraçam. No meio do que chamamos de “igreja”. Isso é muito duro. Tão duro a ponto de fazer muitas e muitas pessoas desistirem dessa coisa de “igreja” – de participar de um grupo e dedicar-se a ele. Porque nos frustramos e nos ferimos, e essas feridas são mais profundas do que a maioria que podemos experimentar. Assim, muitos desistem.

Contudo, olhamos pra vida de Jesus e toda ela era repleta desse tipo de coisas. Do início ao fim de Seu ministério. Até o dia mais difícil de Sua vida – enganado e abandonado pelos Seus. Como sempre, nós não paramos para mensurar quanto aquilo era duro pra Jesus. Aqueles escribas e fariseus e sacerdotes eram, para a religião judaica, a religião “do povo de Deus”, o grupo dentro do qual Deus determinou que o Messias fosse trazido ao mundo, como nossos pastores, líderes de ministérios, mestres da Palavra. Estamos acostumados com o fato desses homens estarem sempre perseguindo a Jesus, e por isso tendemos a achar que Jesus lidava tranquilamente com isso, sem nenhum problema – afinal, Jesus sabia o que se passava no coração deles, né? No entanto, aqueles homens eram os líderes do “Povo de Deus”, aqueles que deveriam estar ensinando os caminhos de vida ao povo, aqueles que deveriam ser os exemplos e ajudar o povo a conhecer a Deus e amá-Lo... mas eles faziam exatamente o contrário. E, certamente, o coração de Jesus doía por conta disso. Ele era homem como nós.

Mas Jesus não desistiu. Ele não abandonou os judeus por causa disso. E Ele também não agiu de forma negligente, não se importando com o que aqueles homens pensavam e faziam, falando o que quisesse e fazendo o que quisesse, de qualquer forma, independente do resultado que aquilo teria, principalmente proveniente daqueles que armavam ciladas para Ele. Não. Jesus identificava as armadilhas, com a ajuda do Pai, e respondia a elas com sabedoria. Ele não precisava justificar-se àqueles homens pecadores e maus. Mas, Ele fazia, na medida do possível. Ele não precisava medir Suas palavras por causa do julgamento daqueles homens, mas Ele o fazia, na medida do possível.

Nesse episódio, especificamente, vemos isso. Os emissários enviados perguntam a Jesus se é lícito pagar tributos a César – porque eles esperavam que Jesus fosse pregar revolução contra Roma ou algo assim, e então diria que não se deve pagar tributos a César, já que boa parte desses tributos era cobrado de maneira injusta e opressiva. E Jesus sabia que aquela pergunta era uma cilada. E Ele poderia nem ter se dado o trabalho de responder. Mas Ele age com sabedoria, e com sabedoria responde: “Mostrai-me um denário. De quem é a efígie e a inscrição? [...] Dai, pois, a César o que é de César e a Deus o que é de Deus” (v.24-25). E a conclusão da narração é que: “Não puderam apanhá-Lo em palavra alguma diante do povo; e, admirados da sua resposta, calaram-se” (v.26). E esse versículo 26, pra mim, resume todo esse ensino.

Não adianta nos enganarmos e esperarmos que nossa vida cristã seja sempre linda, com pessoas lindas, honestas e bem intencionadas, que se dedicarão a nos ajudar e ao nosso bem. Não será assim. Muito mais do que imaginamos, nós encontraremos, dentro do nosso meio cristão, pessoas más, líderes maus, que procurarão puxar nosso tapete, nos enganar, nos apanhar em erros para conseguir nosso mal diante de outros... nós vamos viver isso. Por que posso afirmar isso? Porque Jesus viveu. E Sua vida é o nosso exemplo – para as coisas boas de se viver, e também para as difíceis. Porém, a grande questão para nós é como iremos enfrentar essas situações. E nossa resposta é a mesma: seguindo o exemplo de Jesus. Nós sempre teremos duas opções na hora de decidir como responder a algo que acontece em nossas vidas. Contudo, a Palavra de Deus nos chama a escolher o exemplo do Cristo – porque somos Seus seguidores e imitadores. E como Jesus agia diante dessas situações? Com sabedoria. Com domínio próprio. Com temor a Deus. Honrando o Nome do Senhor. De uma forma que se podia dizer a Seu respeito: “Não puderam apanhá-Lo em palavra alguma”. Jesus procedia de forma que não se tinha do que acusa-Lo. Suas palavras eram medidas, controladas e baseadas em amor. Ele não pagava mal com mal. Ele pagava mal com bem. E então, mesmo os seus acusadores, ao Lhe ouvir, saíam “admirados da sua resposta”, e calavam-se. Esse é nosso Jesus. Esse é nosso modelo. Alguém que poderia ter expressado toda Sua condenação e ódio por tudo aquilo que aqueles homens faziam, enquanto líderes religiosos do povo, mas não fazia assim. Respondia equilibradamente e com sabedoria. E era assim que até mesmo Seus inimigos O admiravam.


Esse é o chamado para nossas vidas. Que, mesmo nos momentos mais difíceis, mesmo quando formos enganados, quando forem armadas armadilhas para nos fazer cair – por aqueles que deveriam ser nossos irmãos e apoiadores da fé – que nossos olhos possam voltar para Jesus e lembrar de Sua sabedoria, domínio próprio e de Seu segundo maior mandamento: amar ao nosso próximo – e amar o nosso inimigo. Jesus viveu assim enquanto esteve em nosso meio, como homem. E nos convida a viver assim também. A sofrer as dores com longanimidade. Paciência. E fé em Deus. A não desistir. A perseverar. Porque nosso caminho é o caminho do amor, da misericórdia, do perdão, da compaixão, da GRAÇA – o mesmo caminho que Jesus escolheu e viveu. Porque Ele é o nosso exemplo, e sempre será. Porque as dores que Ele sofreu são e serão as nossas dores – mas a sabedoria, o amor e o temor a Deus com os quais Jesus decidiu reagir a essas dores também devem ser os nossos. Quando, na vida cristã, tivermos que ser expostos às piores ciladas, provenientes daqueles de quem menos esperávamos, que lembremos do exemplo de Jesus. E o sigamos. De forma que todos os que nos perseguem possam olhar para nossas vidas e “não podendo apanhar-nos em palavra alguma diante do povo; admirados da nossa resposta, calem-se”. Essa é nossa maior arma. E é assim que venceremos. Para a glória do nosso Pai e do Nome de Jesus. Ele nos ajude. Amém.

segunda-feira, 21 de março de 2016

Quaresma – Dia 35 – Não desesperar



“[...] pois será ele entregue aos gentios, escarnecido, ultrajado e cuspido; e, depois de o açoitarem, tirar-lhe-ão a vida; mas, ao terceiro dia, ressuscitará” (Lucas 18.32-33)

Mas o início do texto nos é tão forte, tão doloroso, tão impactante, que esquecemos do fim. Não estamos acostumados com a dor e a morte. Deve ser nossa carne e seu apego à matéria deste mundo, deve ser nossa incapacidade de discernir claramente as coisas espirituais, mas deve ser também a eternidade para a qual fomos criados e que o pecado havia roubado de nós, trazendo a morte antes da verdadeira vida. Mas uma coisa é fato: não nos acostumamos com o sofrimento. Lutamos contra ele. Corremos dele. Não o aceitamos, não o queremos assumir. Não queremos sofrer!

E foi assim com os discípulos. É interessante que as profecias a respeito do Messias já falavam que Ele haveria de sofrer, ser rejeitado, humilhado e morrer. Os discípulos, como bons israelitas, já as haviam ouvido e deviam sabê-las. Contudo, quando Jesus começa a falar que Ele havia de passar por todo esse sofrimento, os discípulos não entendem e não aceitam – a ponto de Pedro falar para Jesus que Ele não deixaria que essas coisas acontecessem com Jesus. A ponto dos discípulos no caminho de Emaús ainda encontrarem-se despedaçados e sem esperanças, após a morte do seu Mestre. Porque a dor nos cega. Os sofrimentos desta vida nos são tão intensos que nos roubam a esperança e, muitas vezes, a fé. Eles nos são tão pesados que nem prestamos atenção no que resta, nem atentamos para as promessas que os acompanham, não conseguimos enxergar além deles. Mas as palavras de Jesus terminam assim: “mas, ao terceiro dia, ressuscitará” (v.33).

Ah, se nós conseguíssemos parar para lembrar disso, todas as vezes em que as lutas se tornarem intensas e os sofrimentos desta vida começarem a nos comprimir e despedaçar. Quando formos escarnecidos, ultrajados, humilhados, açoitados e mortos... quando estiver difícil e dolorido... quando não parecer mais haver esperança... se nós lembrássemos das promessas que acompanham as provações! Se os discípulos tivessem ouvido aquelas palavras e as entronizado. Quanta dor teria sido poupada. Quanto desespero teria sido minimizado. Se, simplesmente, lembrássemos.

Vai haver cruz. Vai haver dor. Vai haver sofrimento. Vai, até mesmo, haver morte. Mas a história não termina aí. Ainda que, quando pensamos na história de Jesus, quando pensamos na Páscoa, muitas vezes, mesmo sem querer, parece que encerramos a narração aí. Jesus sofreu e morreu. Só que a história não termina aí. Não termina em lágrimas. NO TERCEIRO DIA, ELE RESSUSCITOU! ALELUIA, ALELUIA! A morte NÃO O PODE DETER! ALELUIA, ALELUIA! E é isso o que nosso Mestre quer nos lembrar: HÁ RESSURREIÇÃO APÓS A MORTE! Não precisamos temer! ELE JÁ VENCEU A MORTE!

Mas importa que primeiro ele padeça muitas coisas e seja rejeitado por esta geração” (Lc. 17.25). Há glória nos aguardando, no Reino de nosso Mestre! Há ressurreição e vida eterna nos aguardando! Contudo, assim como foi com Jesus, há um caminho a cumprir antes disso. E nesse caminho haverá dores. E nós não podemos esquecer disso. Pois, quando esquecemos, quando esperamos que a glória venha sem o sofrimento, o sofrimento destrói nossas esperanças e nossa fé. Quando esquecemos que haveremos de padecer e ser rejeitados, assim como nosso Mestre foi,  nos desesperamos desta vida. Esperamos dela algo que ela não pode nos oferecer. E começamos a achar que a dor é o fim, é o abandono de Deus, é o último capítulo. Mas ele não é. Jesus nos falou. Primeiro, era preciso que Ele padecesse. Mas, depois, no fim, haveria Sua glorificação. E é disso que precisamos lembrar.


Quem quiser preservar a sua vida perdê-la-á; e quem a perder de fato a salvará” (Lc. 17.33). Esses são os caminhos de Deus. Sua sabedoria, contrária à nossa. E Jesus veio nos deixar o exemplo a seguir. Esses são os caminhos para nós, como foram para Ele. Assim, que as dores desta vida não nos roubem a esperança e a fé. Não nos façam desesperar. Quando o céu escurecer, quando as nuvens surgirem, quando a dor se tornar forte demais, quando formos desprezados, humilhados, escarnecidos, maltratados, ofendidos, perseguidos... quando a própria morte parecer chegar... que nosso coração, nossa mente, nossa alma se lembre que aquele que entrega a sua vida, que a perde, esse é quem a salvará. Que não tentemos manter nossas vidas a salvo, mas que tenhamos fé suficiente para perde-la. E que lembremos que após a morte haverá ressurreição. Após a dor, haverá a glória. Após a luta, haverá o descanso e a recompensa do Pai. Porque esse é o ensino da Páscoa. A Páscoa que também é nossa – como foi de Jesus. A Páscoa que é nossa esperança. Vida que vence a morte. Vida que nos traz descanso. Vida que nos diz para não desesperar...

Quaresma – Dia 34 – Vocação de Jesus, nossa Vocação



“[...] lembra-te de que recebeste os teus bens em tua vida, e Lázaro igualmente, os males; agora, porém, aqui, ele está consolado; tu, em tormentos” (Lucas 16. 25)

Quanto mais eu leio o Evangelho de Lucas, mas vejo como este ensino de Jesus se repete, vez após vez: Jesus veio para os desprezados deste mundo. Isso é tão claro. Capítulo após capítulo, lá está Jesus e os fariseus opondo-se um ao outro: Jesus aproximando-se dos excluídos, ensinando sobre misericórdia, compaixão e amor; e os fariseus, odiando-O por isso, e nos ensinando sobre orgulho, autojustiça e discriminação. De tudo o que tenho aprendido do estudo deste Evangelho, isso tem se destacado. E, neste domingo, pude perceber ainda mais a profundidade, a extensão, a relevância desse ensino.

Fui visitar uma igreja nesse domingo, onde estava acontecendo o Musical de Páscoa deles, com coral, teatro e dança. Foi lindo. É sempre um privilégio poder VER a história das Boas Novas sendo encenada. Pensar em Jesus como um homem de “carne e osso”, vivendo no meio de homens “de carne e osso”, e imaginá-Lo, por meio daquele homem que O encenava, fazendo todas as coisas que a Bíblia nos diz que Ele fazia. Isso me toca profundamente. Abre minha mente, meus olhos. E senti isso naquele dia. E, particularmente, em um momento da encenação: Jesus reunido com Seus discípulos, alegre, sorridente, e aproximando-se dEle os coxos, os cegos, os endemoninhados... e Jesus aproximando-se de cada um deles com amor, e libertando-os – e, talvez pela primeira vez na vida de algumas daquelas pessoas, AMANDO-OS. Como isso foi profundo pra mim. E entendi que essa era a vocação de Jesus, ou fazia parte de Sua vocação: AMAR. E amar exatamente aqueles que não eram amados – os excluídos, os rejeitados, os desprezados.

A gente, com certeza, não tem ideia de quanto a exclusão de aleijados, endemoninhados, leprosos, doentes, pecadores, etc, era algo forte no tempo e na sociedade em que Jesus viveu. Mas a Lei falava para o povo de Israel separar de seu meio os “impuros”, para não se contaminarem. E o povo transformou essa “separação dos impuros” em exclusão mesmo. E nós não temos como imaginar como se sentiam os leprosos, a mulher do fluxo de sangue, os doentes (que eram considerados pecadores), os samaritanos, os publicanos, as prostitutas, os pobres, etc, no meio daquele povo que se considerava tão santo que não poderia nem se aproximar deles. Não podemos imaginar quanto eles se sentiam impuros, indignos, sujos, lixo naquela sociedade. Porque, provavelmente, eles haviam sido tratados assim durante toda ou quase toda sua vida. E eles também já deviam ter sido convencidos de que eram o que todo mundo afirmava que eles eram.

E aí chega Jesus. Nossa! Isso é tão forte! A gente já tá acostumado com o fato de Jesus se aproximar dessas pessoas, a ponto de não percebermos o significado disso. Mas NINGUÉM se aproximava dessas pessoas. NINGUÉM se importava com elas. Elas eram NINGUÉM. E lá está nosso Mestre: não apenas aproximando-se delas, mas estendendo a mão, tocando, curando, AMANDO. E é por isso que, cada dia mais, eram essas pessoas que se aproximavam de Jesus. Ele quebra todos os protocolos e todos os paradigmas. Descontrói tudo, para, então, reconstruir. Tudo. Estava eu lendo os capítulos 15 em diante do livro de Lucas e percebendo de quantos rejeitados Jesus fala até o capítulo 18: o pecador (representado pelo Filho Pródigo, em Lc. 15.11-32), o pobre (representado por Lázaro, em Lc. 16.19-31), o doente (representado pelos 10 leprosos, de Lc. 17.11-19), o que está fora do nosso círculo religioso (representado pelo publicano, de Lc. 18.9-14), os inúteis (representados pelas crianças, de Lc. 18.15-17), e continua nos capítulos seguintes – o cego de Jericó, Zaqueu. Os desprezados. Até as crianças! Hoje, vivendo numa sociedade que entende seu dever de proteger as crianças, por serem indefesos, não entendemos quanto as crianças eram desprezadas naquela sociedade. Mas muitas sociedades patriarcais, ainda hoje, como no Oriente, ainda as trata assim – não podem contribuir com nada, não tem nada para oferecer, então só tornam-se “alguém” quando crescem e podem participar da “vida da sociedade e da família”. E vem Jesus abraça-las e dizer que para entrar no Reino dEle é preciso receber o Reino como elas.

E, diante de tudo isso, diante do Evangelho lido e visto naquela encenação, entendo que esta é a nossa vocação. Foi para estes que Jesus veio. De tantas formas, a Sua Palavra tenta nos mostrar isso. Foi para os pequenos, os invisíveis, os que são “nada” que Ele olhou. E é para eles que devemos olhar também. Eu olhava para aquele homem, encenando Jesus, curando aquelas pessoas com um sorriso no rosto, e pensava: eu quero ser isso neste mundo também! Quero ser aquela que irá olhar para aqueles a quem ninguém olha, aqueles que se acham ninguém, aqueles que não tem mais esperança, os rejeitados, os sem voz, os esquecidos... quero ser Jesus para eles. Quero fazê-los saber que Deus se importa com eles, que Jesus veio ao mundo para eles e que Ele tem vida nova, plena, eterna para lhes oferecer. Que Jesus tem identidade e propósito para suas vidas. Que eles são importantes, são especiais, são amados por Deus – e que Ele nunca os esquece. Quero ser a presença viva e palpável de Deus nas vidas dessas pessoas. Ir àqueles a quem ninguém vai. Levar amor aonde não existe amor. A vocação de Jesus como minha vocação. A vocação de amar – aqueles que já nem acreditam mais em amor.


Vocação de Jesus, nossa vocação. E que nossas vidas possam ser como a vida do nosso Mestre. Sua missão, nossa missão. Seu chamado, nosso chamado. Sua vida, nossa vida. Que seja assim. Que Ele nos ensine. Que Ele nos ajude. E que possamos ser Seus verdadeiros embaixadores e representantes, fiéis e perseverantes, em amor, neste mundo. Para que Seu Nome seja glorificado. Que assim seja. Amém e amém.

sexta-feira, 18 de março de 2016

Quaresma – Dia 33 – Aproximando-nos de quem?



“Aproximavam-se de Jesus todos os publicanos e pecadores para o ouvir” (Lucas 15.1)

Quem são as pessoas que têm se aproximado de nós? Quem são as pessoas de quem temos nos aproximado? Porque esse texto fala muito de quem era Jesus – e de qual era a Sua missão. Mesmo sendo Santo, mesmo sendo o perfeito Deus, os piores da sociedade (material e espiritual) sentiam-se atraídos por Jesus. E se aproximavam para ouvi-Lo. Ainda que Jesus falasse sobre pecado e o condenasse, ainda que Ele falasse sobre a Santidade do Pai e a necessidade de arrependimento, ainda assim... publicanos, pecadores, impuros, doentes, marginalizados, excluídos aproximavam-se dEle. Enquanto isso, os perfeitinhos e santos, os religiosos “filhos de Abraão” cada vez mais se afastavam dEle.

E nós? Quem são as pessoas que temos atraído? Será que nossa postura, nossa vida atrai os sujos, os pequenos, os marginalizados, os PECADORES deste tempo? Ou, ao olhar para nós, eles enxergam os juízes que só sabem condená-los ou os santos dos quais eles não são dignos de se aproximar? Porque, infelizmente, é assim que o mundo tem visto, muitas e muitas vezes, a nós, cristãos. Porque os ensinamos a ver assim. Porque fomos ensinados a nos manter longe dos pecadores. Não podemos nos misturar com quem não entende a teologia no mesmo nível que entendemos. Não podemos visitar igrejas que não sejam 100% santas em suas doutrinas. Não podemos ter amigos pecadores. Não podemos pisar em solo que não seja santo. Só podemos estar na companhia dos santos. E foi aí que construímos este muro que nos separa do mundo real – o mundo que Jesus veio salvar. Sem perceber, fazemos como os fariseus: “E murmuravam os fariseus e os escribas, dizendo: Este recebe pecadores e come com eles” (v.2). Fazemos isso com nossos irmãos. Fazemos isso em nossas igrejas. Perdemos, em nossas vidas, a misericórdia, o amor, a compaixão que havia em Cristo – e que atraía a Ele os piores pecadores. A misericórdia, amor e compaixão que ainda há nEle e que é o que continua atraindo a Ele os pobres desta terra – aqueles que nós rejeitamos.

E o ensino volta para o mesmo ponto: quando crescemos, Ele diminui. Quando nos achamos bons demais, é então que estamos mal. Quando consideramos o outro mau demais, é quando nós mesmos estamos assim. Quando o orgulho tem espaço, o espírito, certamente, não o tem. Não há espaço para este orgulho que olha as pessoas com superioridade, e a Presença Salvadora de Jesus. E Jesus vem, então, ensinar isso, por meio de várias parábolas – A ovelha perdida, a dracma perdida, o filho perdido – para ensinar uma coisa só: o Reino de Deus é para os perdidos, e não para os santos. Para os doentes, e não para os sãos. Para os imperfeitos, e não para os perfeitos. Por um fato simples: diante de Deus, não existem santos, sãos e perfeitos. Somos todos perdidos, doentes e imperfeitos. Contudo, para fazer parte do Reino dEle, precisamos nos reconhecer assim – e parar de nos sentir melhores do que os outros. Não há nada melhor em nós. Nada. Porque tudo que temos de bom é, puramente, graça de Deus. Em essência, somos exatamente iguais a qualquer publicano e pecador. E é por isso que Jesus nos recebe.

Termino com uma música que sempre me confronta demais. É um desafio constante para minha mente orgulhosa e soberba, para essa carne má que há em mim e que me faz acreditar, vez ou outra, que sou melhor do que sou – e que me faz desejar estar junto apenas dos santos e perfeitos. Até que eu paro e me lembro de Jesus – e de quais pessoas Ele escolheu estar perto. De quais pessoas estavam ao redor dEle. E volto a compreender onde devem estar os meus olhos e o meu coração. “Sou humano demais pra compreender...”.


Eu fico tentando compreender
O que nos Teus olhos pôde ver
Aquela mulher na multidão
Que, já condenada, acreditou
Que ainda havia o que fazer
Que ainda restara algum valor
E ao se prender em Teu olhar
Por certo haveria de vencer
E assim fizeste a vida
Retornar aos olhos dela
E quem antes condenava
Se percebe pecador
Teu amor desconcertante
Força que conserta o mundo
Eu confesso não saber compreender

Sou humano demais pra compreender
Humano demais pra entender
Este jeito que escolheste de amar quem não merece
Sou humano demais pra compreender
Humano demais pra entender
Que aqueles que escolheste e tomaste pela mão
Geralmente eu não os quero do meu lado

Eu fico surpreso ao ver-Te assim
Trocando os santos por Zaqueu
E tantos doutores por Simão
Alguns sacerdotes por Mateus
E, mesmo na cruz, em meio à dor
Um gesto revela quem Tu és
Te tornas amigo do ladrão
Só pra lhe roubar o coração
E assim foste o contrário,
O avesso do avesso
E por mais que eu me esforce
Não sei bem se Te conheço
Tu enxergas o profundo
Eu insisto em ver a margem
Quando vês o coração
Eu vejo a imagem

Sou humano demais pra compreender
Humano demais pra entender
Este jeito que escolheste de amar quem não merece
Sou humano demais pra compreender
Humano demais pra entender
Que aqueles que escolheste e tomaste pela mão
Geralmente eu não os quero do meu lado

Mas recebemos, em nós, o Revelador do Coração do Pai. Que Ele nos ensine a ver e a ser como Cristo é. Até que cheguemos à estatura do Varão Perfeito – Jesus, nosso Senhor. Para glória e revelação do Seu Nome na terra. Amém.



Quaresma – Dia 32 – Reino dos necessitados



“Sai depressa para as ruas e becos da cidade e traze para aqui os pobres, os aleijados, os cegos e os coxos” (Lucas 14.21)

Deus chamando para a Sua ceia. E que texto sério este é. Porque, primeiro, Deus chama os “sãos”. E chama muitos. Só que todos eram pessoas importantes e, por isso, na hora em que tudo já estava preparado, eles precisam desculpar-se por não poder ir participar. Afinal, havia tantas coisas para resolver: um campo recém comprado que precisava ser visitado; cinco juntas de bois que precisavam ser experimentadas; um casamento recém contraído que precisava ser desfrutado... Tão importantes... tão ocupados... que não há tempo para ceias.

E, ao ler isso, meu coração se enche de temor. Porque eu me vejo nisso. Nos vejo nisso. Nossa geração sempre tão ocupada, com tantas coisas importantes para fazer. Tantas coisas para estudar, tantas notícias novas para ouvir, tantos compromissos, tantas pessoas importantes com quem falar, tantos eventos importantes para organizar, tanto dinheiro para ganhar, tantas dívidas para pagar, tantos amigos para fazer... e não nos tem sobrado tempo para ceias. Para a grande ceia de Deus. Mas, ela já está pronta (v.16-17). O servo do dono da ceia já veio nos chamar para nos achegar a ela. E o convite foi feito para tantos. Porém, todos eles tinham coisas demais para resolver, e não ligaram para o seu convite.

E foi então que o dono da casa, irado, disse ao seu servo para trazer para o jantar os pobres, os aleijados, os cegos e os coxos. E assim ele o fez. E estes não negaram. E lá estavam eles para a grande ceia daquele grande senhor. Por quê? Por um simples motivo: eles sabiam-se necessitados. Sabiam-se pobres e doentes, e pessoas assim não negam convites – muito menos para uma ceia. Eles sabem reconhecer bênçãos, quando estas lhes são oferecidas. Eles sabem reconhecer que tem tão pouco e, diante disso, tudo se torna tão grandioso e importante – quanto mais um convite feito por um grande senhor.

E é aí que eu penso quem somos nós. Os homens ocupados e importantes, ou os pobres e doentes. Como enxergamos a nós mesmos? Como temos vivido as nossas vidas? Como pessoas grandes, a quem o Grande Senhor oferece favores – os quais nos sentimos no direito de avaliar para verificar se estes são mais ou menos importantes do que os nossos compromissos? Ou como aqueles homens pobres, cegos, aleijados, coxos, conscientes da sua pequenez diante daquele Grande Senhor, e do quanto participar daquela Ceia lhes era um privilégio impagável? De fato, aqueles homens necessitados nunca poderiam pagar por aquela ceia. Eles não tinham nada a oferecer. E, talvez, exatamente por isso eles não negaram aquele chamado.

Infelizmente, costumamos nos enxergar de uma maneira tão diferente do que realmente somos. Somos os homens pobres, cegos e aleijados, sujos, mendigos, sem nada para oferecer a Deus. Mas, tão facilmente acreditamos quando o mundo nos diz que somos grandes e importantes, e que Deus precisa entrar na fila da nossa agenda, para ver onde conseguimos encaixa-Lo. E o triste disso é que, no final desta parábola, o senhor da grande ceia diz: “Porque vos declaro que nenhum daqueles homens que foram convidados provará a minha ceia” (v.24). Uma vez que a ceia tenha começado e o convite tenha sido negado, não há mais volta. A oportunidade passou. E perdemos a coisa mais importante que poderíamos ter recebido nesta existência.

Seguir a Jesus Cristo é um grande privilégio, mas também tem exigências. Primeiro, o reconhecimento de quem, de fato, somos: reconhecermo-nos pobres, cegos, coxos, aleijados. Necessitados. Imerecedores. Sem nada para oferecer em troca, a não ser nossa presença – nossa vida. Segundo, pagar o preço. Reconhecer que todos as nossas coisinhas, que parecem tão grandes diante das lentes deste mundo, são ínfimas, sem valor, diante do insondável valor de participar da ceia dAquele Senhor. Nada pode se comparar a participar daquilo que Ele estava preparando. Nenhum de nossos tesouros. Nem mesmo nossos campos, bois ou, ainda, casamentos. Nem mesmo nosso desejo de afeição natural, pois assim diz o Senhor Jesus: “Se alguém vem a mim e não aborrece a seu pai, e mãe, e mulher, e filhos, e irmãos, e irmãs e ainda a sua própria vida, não pode ser meu discípulo”. Porque para seguir a Jesus é necessária a consciência de que nosso maior tesouro é Ele. Maior do que qualquer outro tesouro, por mais valioso que ele seja, que possamos ter nessa vida – incluindo nossa própria vida neste corpo. Reconhecer nossa pequenez – e reconhecer a grandeza dEle.

Por isso, é preciso calcular o preço a ser pago para dizer esse “Sim” a Jesus. Um preço muitas vezes não ensinado, não esclarecido. Mas o preço é grande, e é preciso que seja calculado – assim como é necessário que se calcule a despesa para construir uma torre ou a quantidade de soldados para vencer uma guerra (v.28-32). Para que não ocorra que, tendo dito um sim inconsciente, venhamos a ser envergonhados. Seguir a Jesus exige renúncia: de nosso orgulho, nossa reputação, nossos maiores tesouros, nossa própria vida: “pois, todo aquele que dentre vós não renuncia a tudo quanto tem não pode ser meu discípulo” (v.33).


Por isso o Reino é dos necessitados. Porque quem é pobre, aleijado, cego e coxo facilmente enxerga que tudo aquilo que ele venha a possuir nesta vida não pode se comparar ao que Aquele Senhor lhe oferece. Aquela ceia. Por isso, sua resposta não poderia ser outra a não ser “Sim!”. Ele olha para si mesmo e olha para Aquele Senhor, e entende. E, para entrar no Reino de Cristo, é necessário que seja assim também. Que Ele cresça, e nós diminuamos. Que reconheçamos quem somos e Quem Ele é. E, só assim, compreenderemos como somos privilegiados por poder fazer parte disso. Quando tivermos a consciência que somos os pobres, aleijados, cegos e coxos. E Ele é o Rei. E a menor coisa que Ele possa nos oferecer ainda será maior do que tudo o mais que possamos conquistar sem Ele. Assim, que nossa resposta seja sim. E que participar do que Ele tem preparado seja a maior alegria dos nossos corações. Que assim seja. Amém.