sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

Quaresma - Dia 3: Superando a tradição

[Breve comentário: hoje eu tive problema com minha internet, o que me impossibilitou de assistir ao vídeo devocional. Porém, continuei a leitura do Evangelho de Lucas mesmo assim, e escrevi a reflexão do dia a partir de meu tempo de leitura. Mas, agora que minha internet voltou e eu pude assistir ao vídeo, percebi que os temas divergem entre si. Então, postarei o texto que já havia escrito para o terceiro dia e, amanhã (que já é hoje! rs) publico o terceiro vídeo e a reflexão a respeito dele (que já começou a brotar no coração.. ^^ Então, vamos lá!]



“Sucedeu que, no oitavo dia, foram circuncidar o menino e queriam dar-lhe o nome de seu pai, Zacarias. [....] Então, pedindo ele uma tabuinha, escreveu: João é o seu nome. E todos se admiraram.” (Lucas 1.59,63)

Em todo o Antigo Testamento, podemos observar que os nomes, na cultura judaica, não eram dados aleatoriamente – eles tinham um significado. Em geral, o significado do nome tinha a ver com a identidade ou o propósito para a vida da pessoa que o recebia. E, na nossa cultura em que nomes não significam nada, talvez não percebamos a importância disso. Duas das grandes crises do ser humano são as de identidade (Quem sou eu?) e propósito (Para que vim ao mundo?). E quando era Deus quem escolhia o nome de alguém e o revelava aos seus pais, boa parte dessa crise já podia ser superada.

Então, me intrigou esse trecho do evangelho de Lucas em que, oito dias após o nascimento de João Batista, os vizinhos e parentes de Zacarias e Isabel participam da escolha de seu nome. E a conclusão imediata deles foi que seu nome deveria ser Zacarias – como o de seu pai. E, quando a mãe do menino discorda e diz que seu nome seria João, eles não aceitam. Contestam: mas não há ninguém em tua parentela com esse nome! (v.61) A pergunta deles era: “por que alguém daria a um filho um nome que não existe entre a sua parentela?”. E aquilo realmente os chocou. Tanto que ignoraram Isabel e foram perguntar ao pai. E, quando Zacarias confirmou a resposta de Isabel, “todos se admiraram” (v.63).

E foi isso que me fez parar. Por que a questão do nome do menino gerou tanta agitação entre o povo? E a resposta que me veio foi: a escolha do nome havia deixado de ter seu foco no propósito de vida ou identidade que Deus queria revelar para cada pessoa, e tornou-se tradição. Era com base nos “nomes que existem entre sua parentela” que se escolhiam os nomes. Meu pai chamava-se assim, então também me chamarei. Meus parentes chamavam-se assim, então é assim que também devo me chamar. Meras repetições. Meras tradições sem sentido, sem reflexão, vazias.

E isso me fez pensar em muitas coisas. Quantas vezes nossa identidade não está sendo construída assim, com base em tradições que são apenas repetições? E eu falo de identidade pessoal, mas também de nossa identidade cristã. Quantas vezes nossa fé tem se tornado apenas repetição da fé de nossos pais ou de nossos “irmãos na fé” – nosso pastor, nosso discipulador, nosso líder? Quantas vezes sequer paramos para refletir sobre qual o chamado particular que Deus tem para nossas vidas, e apenas tomamos para nós os modelos empacotados que todos estão acostumados a ensinar e a seguir? Deus deixa de ser nossa fonte de respostas, e passamos a procura-las e encontra-las nos homens. Na tradição. Na religião. E quão perigoso isso é!

João não era seu pai! João não era seus parentes! João era alguém único. E Deus tinha um chamado especial para sua vida. Talvez tenha havido estranhamento e dúvidas no coração de Zacarias (que passou todo o período de gestação de sua esposa mudo!) em relação a essa mudança na tradição de nomes que sua família e de sua esposa estavam acostumados a seguir. Talvez. Mas Zacarias pôde ver e comprovar, durante as tantas experiências que vivenciou em relação a seu filho – desde as palavras do anjo até o encontro entre Isabel e Maria e a revelação pelo Espírito de que o filho de Maria era o Salvador esperado – que havia um propósito diferente para seu filho. O comentário de minha Bíblia, nesse texto, diz que Zacarias significava “Deus lembra-se de Sua aliança”, Isabel significava “Deus é fiel” – basicamente o mesmo significado. Mas João significava “Deus é misericordioso”. Era a resposta para a promessa que havia nos nomes de seus pais. Deus manifestando Sua misericórdia para com a terra. E João faria parte dessa manifestação. E seus pais entenderam. E, ainda que aquilo ferisse a tradição, ainda que chocasse as pessoas ao redor, eles haviam entendido: aquele nome trazia consigo propósito e identidade para aquele menino.

Que nós possamos estar sensíveis à voz de Deus em nossa busca por respostas. Que não sejam as vozes humanas, os raciocínios humanos, os confortos das tradições humanas, o engessamento dos modelos criados por nós mesmos – por mais bem intencionadas que todas essas coisas possam vir a ser – que sejam nossas fontes de resposta. Que consigamos ir além. Superar as tradições – aquelas que são apenas tradições. Que paremos para refletir sobre nosso propósito e identidade. Para que Deus me criou? Quem sou eu? O que Ele quer fazer em e através da minha vida? E que não sejamos somente imitadores de outros – por melhores que estes outros possam ser. Que descubramos nossos próprios caminhos, em Deus, guiados pelo Seu Espírito Santo e que, como Zacarias e Isabel, tenhamos a fé e a coragem suficientes para quebrar paradigmas, chocar a opinião pública, divergir dos demais, caso seja esse o caminho revelado pelo Pai a nós.

Termino com um trecho de uma música do Padre Zezinho da qual gosto muito e que se chama “Canção Religiosa”, e diz:

“Que a minha fé seja maior que a minha religião
Que a minha religião seja maior que as minhas crenças
Que eu saiba ser irmão de um jeito consequente
Que eu saiba crer em Deus de um jeito inteligente
Que o meu amor seja bem mais que simples afeição
Que eu saiba ir além, bem mais além do sentimento
Que eu saiba Te buscar de um jeito consciente
Nadar sem me afogar nas águas do meu tempo
Sem medo de viver, com medo de matar
Sem medo de morrer, com medo de odiar
Pessoa de alma boa e fé inteligente
Que viva de perguntas e respostas
Mas sabe conviver...”

Uma fé autêntica. Uma vida autêntica. Uma resposta autêntica. De Deus, para nós. Além, muito além das tradições. E que Seu Santo Espírito nos ajude. Amém.


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