quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

Quaresma – Dia 8: Estrutura Eclesiástica e "Desigrejados"



Então, Jesus, no poder do Espírito, regressou para a Galiléia, e a sua fama correu por toda a circunvizinhança. E ensinava nas sinagogas...” (Lucas 4.14-15a)

A temática do crescente “movimento dos desigrejados” muito desperta meu interesse. Há não muito tempo, tive uma conversa com um amigo cristão, de profundas convicções e que parece ser um genuíno seguidor de Jesus Cristo, o qual defendia emblematicamente que o grande problema do cristianismo hoje é a institucionalização da fé, a existência da “Instituição”, ou seja, da estrutura eclesiástica que foi criada ao redor da fé cristã. E nós discutimos bastante a respeito desse assunto. E, ainda que eu concorde com ele em muitos pontos, no sentido dos muitos problemas que essa institucionalização, a criação dessa estrutura eclesiástica, o surgimento da “religião” como uma estrutura fechada com suas regras de variados aspectos traz, não posso concordar que a “Instituição” é a causa do problema ou o problema em si mesmo. E esse texto de Lucas me faz pensar sobre isso.

Nós conhecemos os textos bíblicos e os Evangelhos e sabemos quantas e quantas vezes Jesus emitiu palavras severas, críticas duras aos líderes da “religião judaica estabelecida” – os doutores da lei, os fariseus, os próprios sacerdotes. E sabemos como que os grandes pecados deles estavam em ter focado tanto na religião, a ponto de perder a e a prática da genuína vida espiritual. Eles estavam tão preocupados e ocupados com o “cumprimento da lei”, a ponto de perderem de vista o significado da lei. Deixaram de ser povo de Deus, para tornarem-se religiosos. Sua religião tornou-se mais importante do que o próprio Deus. E essa foi a grande crítica de Jesus a essas pessoas – os religiosos. E ainda é assim em nossos dias. Tantas pessoas que estão mais preocupadas com a manutenção dos dogmas e costumes de sua religião, ou com a popularidade e o crescimento de seu grupo religioso, do que com a vontade do próprio Deus. E, então, temos visto coisas absurdas acontecendo em nossa realidade brasileira.

Contudo, basta lermos com atenção os evangelhos e veremos, repetidamente, os relatos de Jesus exercendo o seu ministério NAS SINAGOGAS. E não apenas Jesus, mas os discípulos também. E, certamente, não é que Jesus ou os discípulos não tinham consciência a respeito das práticas totalmente erradas que aconteciam ali – Jesus mesmo precisou expulsar aqueles que transformavam o Templo em mercado. Eles viviam apontando os erros da religião. Porém, ainda assim, em nenhum momento Jesus ou os discípulos condenaram a existência da estrutura eclesiástica ou contraindicaram o exercício da fé dentro dessas estruturas. Não. Ao invés disso, eles SE APROVEITAVAM dessa estrutura, dessa centralização, da presença das pessoas reunidas na sinagoga, no sábado, para exercer seus ministérios. Sabendo de todos os pecados que eram cometidos dentro dessa estrutura, eles poderiam, simplesmente, ter se recusado a estar presentes nas sinagogas – os locais usados pelos sacerdotes, fariseus, doutores da lei para propagar seus falsos ensinos. Mas não. Eu entendo que eles foram sábios.

O versículo 16 de Lucas 4 fala que: “Indo para Nazaré, onde fora criado, entrou [Jesus], num sábado, na sinagoga, segundo o seu costume, e levantou-se para ler”. E, aqui, eu gostaria de destacar duas coisas: primeiro, ir à sinagoga, NO SÁBADO, participar das práticas religiosas daquele povo não era apenas “uma última estratégia” de Jesus – era seu costume!; e, segundo, Jesus não chegou na sinagoga querendo cancelar as práticas rotineiras daquele serviço religioso, inventando uma nova metodologia para superar as metodologias usadas por aquele povo. Não. Ele apoderou-se do modelo de serviço religioso daquele próprio meio: levantou-se para ler. O verso 20 diz: “Tendo fechado o livro, devolveu-o ao assistente e sentou-se; e todos na sinagoga tinham os olhos fitos nele. Então, Jesus passou a dizer-lhes...”. Que narração fantástica! Porque Jesus seguiu exatamente os costumes de “culto” daquela comunidade religiosa. Ele não precisou chegar lá e mudar tudo para exercer seu ministério. Ele usou de seu direito, enquanto judeu, de ir ao encontro semanal na sinagoga, de levantar-se para ler e de explicar o texto que havia lido, para propagar suas verdades e anunciar as boas-novas no meio daquele povo. E poderíamos coletar uma quantidade enorme de textos dos evangelhos que narram essa mesma prática – tanto de Jesus quanto dos discípulos/apóstolos.

Nós não precisamos destruir toda a estrutura para realizar uma reforma efetiva nas coisas que estão erradas dentro de nossos meios religiosos. Sim, existem muitos erros dentro de nossas estruturas. Sim, existe muita religião vazia de Deus. Sim, existem muitos fariseus e sacerdotes e doutores da lei condenáveis em nosso meio evangélico brasileiro. Porém, a culpa não é da existência de uma “organização eclesiástica”, ou “institucionalização”. Não foi na “existência da sinagoga e seus costumes” que Jesus colocou a culpa. Não foi a isso que Ele condenou. Foi às pessoas! Elas são o problema! Nós somos o problema! Não as nossas “igrejas”. Derrubar todas as “igrejas” (entenda-se “templos”) do Brasil não resolveria o problema do cristianismo brasileiro, assim como derrubar as sinagogas não resolveria o problema dos judeus daquele tempo. Desfazer todos os conselhos e diretorias e demais estruturas administrativas de nossas “igrejas” não resolveria o problema de nosso cristianismo. Acabar com todos os regulamentos, grupos organizacionais, etc, não resolveria nosso problema. Porque o problema está EM NÓS! No ser humano! E, enquanto houver seres humanos compondo a IGREJA de Jesus Cristo, haverá problemas a serem corrigidos. E enquanto houver seres humanos NÃO REGENERADOS fingindo ser IGREJA de Jesus Cristo, haverá falsas profecias e pecados inimagináveis!

Nossas igrejas-instituições serão aquilo que fizermos delas. Podemos usá-las a nosso favor, com sabedoria, como Jesus e os discípulos faziam, aproveitando de suas estruturas para alcançar o povo de Deus e anunciar a eles as verdades das Escrituras, ou podemos nos tornar “inimigos” delas (e, de algum modo, das pessoas ali presentes), e nunca alcançar aquelas vidas que escolheram ali estar, e simplesmente abandoná-las. É óbvio que não PRECISAMOS exercer nosso ministério e chamado cristão dentro da estrutura eclesiástica. Não. Porém, que não seja porque resolvemos que esse não é o ambiente adequado. Jesus o julgou adequado para desenvolver seu ministério. Seus primeiros discípulos também – e ainda dentro das sinagogas, mesmo sabendo que sua fé não era mais centrada nas sinagogas. Por que eles assim o julgaram? Uso as palavras de Paulo: “Fiz-me tudo para todos, para por todos os meios chegar a salvar alguns” (1 Coríntios 9:22). Porque o foco deles era as pessoas. Não era eles mesmos ou aquilo que mais os fazia felizes ou satisfeitos. Eles tinham uma missão a cumprir: anunciar as verdades de Deus para a salvação dos perdidos e a glória de Deus. Então, tudo aquilo que pudesse ser usado no cumprimento dessa missão, era bem-vindo. Era nas sinagogas que elas estavam? Era ali que eles iriam. Era nas praças? Ali eles estariam. Era nas casas? Então era esse seu destino. Cumprir o chamado. Viver a missão.

Que Deus nos ajude a lidar com todos os erros, dos mais leves aos mais graves, que temos visto acontecendo dentro de nossas igrejas-instituições, dentro da “religião” cristã. Que tenhamos a iluminação do Espírito Santo para reconhece-los onde eles estiverem ocorrendo. Mas que recebamos, dEle, também a sabedoria e o discernimento para saber como agir. A quem combater. A ajuda do Espírito Santo para reconhecermos contra quem é a nossa luta. Que Ele nos ajude a lembrar que “nossa luta não é contra o sangue e a carne, e sim contra os principados e potestades, contra os dominadores deste mundo tenebroso, contra as forças espirituais do mal, nas regiões celestes” (Efésios 6.12). E que lembremos também que, até que a colheita final aconteça, haverá joio crescendo junto ao trigo. E que não será possível separá-los completamente até que a grande colheita chegue, pois iria-se destruir o trigo juntamente com o joio se tentássemos fazê-lo. Portanto, é de sabedoria que precisamos, para combater o joio antes que a colheita chegue, mesmo sabendo que não será possível arrancá-lo completamente do meio da plantação.

Que o Espírito Santo sonde as motivações por trás de nossa luta contra o que quer que seja, e nos molde e transforme, para que o cumprimento de nossa missão e o amor a Deus e ao próximo sejam, acima de todas as coisas, nossa grande bandeira e nosso caminho a seguir. Para a glória do Único Digno e para o crescimento de SUA IGREJA. Amém.


2 comentários:

Priscila de Lima disse...

Acho que sou meio como esse teu amigo aí! hahaha Só que não consegui sair da igreja. Tens uns dias que são bem difíceis, mas eu vou tentando.

Aline Ramos disse...

Eu sei quanto isso é difícil, Pri. Sei mesmo. Tenho tantos amigos passando por essa luta. A desilusão com a "igreja". Vemos tanta coisa errada. Tanta vaidade, disputa de cargos, etc. Realmente revolta, frustra, cansa. Fiquei pensando, e deve ser mais ou menos como a borboleta que já está quase pronta pra bater asas e voar, depois de ter vencido seu longo caminho como lagarta, mas ainda precisa estar presa no casulo. Aquele casulo tornou-se pequeno demais pra ela. Mas ainda é tempo de permanecer lá. Por enquanto. Mas logo logo chegará o tempo de alcançar as alturas dos céus e viver plenamente sua liberdade. Nosso tempo chegará em breve. Mas a culpa não é do casulo. Não nos revoltemos contra ele. E, no fim, que ainda possamos lembrar de quanto ele nos ajudou em nosso tempo de transformação, e quanto todas as borboletas precisam dele, por mais simples que ele seja. Que, quando nossas asas tornarem-se grandes demais, não esqueçamos todos os benefícios que ele já nos trouxe um dia. E possamos ser gratos. E amar os que ainda têm necessidade dele. E amar. Fim.
[P.S: Adoro te ter aqui! xD]