segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

Quaresma - Dia 6: Submissão incondicional



“E desceu com eles para Nazaré; e era-lhes submisso.” (Lucas 2.51a)

É tão bonito ler como foi a vida humana de Jesus. Seus passos como menino, adolescente, e algumas coisas que revelam um pouco sobre como foi para o próprio Filho de Deus viver como um ser humano. Fico pensando em quando Jesus tornou-se consciente de Quem Ele era, de que Ele era Filho de Deus. Que coisa louca! A Bíblia nos mostra que Deus usou várias pessoas, desde o nascimento de Jesus, para confirmar a Maria e a José Quem Jesus era, Sua natureza divina. Porém, fico me perguntando se eles conversavam sobre isso com Jesus, ou se foi o próprio Deus quem ia revelando isso a Jesus, por meio de Seu Santo Espírito. Bem, o fato é que, segundo o texto de Lucas 2.41-52, aos doze anos, Jesus já sabia quem era. E podemos ver isso no verso 49, quando Ele diz aos seus pais: “Por que me procuráveis? Não sabíeis que me cumpria estar na casa de meu Pai?”.

Mais uma vez, ao lermos certos termos com os quais estamos acostumados, enquanto cristãos, como o fato de chamar Deus de “Pai”, não nos atentamos para o significado de alguns textos bíblicos. Ninguém chamava Deus de Pai entre o povo de Israel naquele período! As pessoas sequer podiam pronunciar o Nome de Deus, o Yaweh, o EU SOU. Deus era temido como um Deus distante, o Todo-Poderoso, o SENHOR, Aquele que revelava-se apenas aos Sacerdotes e Profetas. E, então, um menino de DOZE ANOS, no meio dos doutores do Templo (v.46), fala a seus pais que lhe cumpria estar na CASA DE SEU PAI. É provável que outras pessoas tenham ouvido o diálogo entre José, Maria e Jesus, porque o texto diz que “Logo que seus pais o viram, ficaram maravilhados; e sua mãe lhe disse...” (v.48), quando aconteceu o diálogo. Porém, é igualmente provável que ninguém tenha entendido o que Ele queria dizer, o que aquilo significava. Nem mesmo seus pais, que desde Seu nascimento ouviam revelações sobre Quem era aquele menino, compreenderam: “Não compreenderam, porém, as palavras que lhes dissera” (v.50).

E, então, o texto continua dizendo que Jesus desceu com seus pais para Nazaré, “e era-lhes submisso” (v.51). E foi aqui que meu coração parou e fiquei a pensar em Jesus, aquele menino de 12 anos que interrogava e respondia aos doutores do Templo e causava admiração em todos que O ouviam. Ele sabia quem era. Jesus já sabia que Ele era o Filho de Deus, o próprio Deus. Ele já sabia que tinha uma missão a cumprir. Tendo sido criado na cultura judaica, e tendo pais que eram fiéis no cumprimento da Lei de Moisés, como vemos em todo este capítulo 2 de Lucas, Jesus certamente já conhecia as Escrituras e as promessas de que Deus enviaria o Messias, o Grande Salvador de Israel. E era Ele. Ele era grande. Não havia outro como Ele. Ele tinha essa consciência.

Enquanto isso, quem eram os seus pais? Pessoas humildes, um carpinteiro, uma mãe com muitos filhos, um homem e uma mulher ainda de uma cidade humilde e discriminada, e esta era a família de Jesus. Mesmo tendo recebido tantas revelações a respeito da Identidade e missão de Jesus, Seus pais ainda não haviam entendido. Havia passado 12 anos, Jesus, um adolescente, já havia entendido, e eles ainda não. E esses eram os seus pais. Essas eram as AUTORIDADES humanas que Deus havia estabelecido para cuidar, guiar, orientar aquele Jesus adolescente em sua caminhada.

Jesus, certamente, teria muitos motivos para olhar para seus pais e questionar a autoridade deles em sua vida, como pais. Eles tinham tantos defeitos. Eles não entendiam! Ele tinha uma missão grandiosa a cumprir, e eles estavam preocupados com o fato dele não ter voltado para casa junto com sua família. Jesus enxergava tão longe, e eles enxergavam tão pouco. Mas eram SEUS PAIS. E, ainda sabendo que o lugar da Sua Missão seria ali, na grande Jerusalém, Jesus voltou para a pequena e esquecida Nazaré com seus pais, para cumprir Seu tempo de espera. E viveu assim até os seus TRINTA anos. Que coisa linda ver que Ele entendia, e Ele VIVEU, a verdade a respeito da AUTORIDADE DADA POR DEUS a determinadas pessoas, escolhidas pelo próprio Deus, para sua vida. Lá na frente, Seus discípulos ensinariam a Igreja sobre submissão às autoridades estabelecidas, e já com 12 anos, Jesus dava testemunho de vida a respeito disso. Submissão INCONDICIONAL.

E olhei pra mim. Pensei em nós. Como é difícil viver isso. Quando aqueles que são autoridades em nossas vidas, líderes estabelecidos por Deus, não compreendem, quando estamos “lá na frente” e eles estão “lá atrás” e, por isso, acabam limitando o fluir de alguns de nossos planos e projetos. Quando Deus revela algo a nossos corações, mas nossos líderes não entendem e, então, nos seguram. Quando precisamos abrir mão de nossos sonhos, de nosso tempo, de nossa vontade por causa de uma autoridade que não entendia. Isso é tão duro! Isso é tão frustrante e revoltante! Não sei se Jesus chegou a ser tentado com a revolta que bate numa situação como essa – a vontade de desobedecer, de virar as coisas e ir embora, cuidar da sua própria vida, sozinho, sem ter mais que dar satisfações a ninguém, a não ser a Deus. Não sei. Mas em nossos corações, ah, como isso acontece! Às vezes é com nossos pais, às vezes é com nosso pastor, com um chefe no trabalho, etc. Vontade de fingir que não foi Deus quem os estabeleceu como autoridades sobre nossas vidas e declarar independência. Mas não foi o que Jesus fez. E se houve alguém neste mundo que poderia ter feito isso, que não precisava realmente de NINGUÉM, era Jesus. Ele era DEUS. Mas não foi o que Ele fez. Ele se submeteu.

Sim, é óbvio que a submissão de Jesus, ainda que INCONDICIONAL – não dependia de quem eram as pessoas que haviam recebido autoridade sobre sua vida, de quais qualidades elas tinham - , não era uma submissão cega. Houve momentos em que Jesus contrariou as expectativas de seus pais. Sua permanência em Jerusalém, sem a permissão de seus pais, foi um desses momentos. Quando Maria, nas bodas de Caná da Galiléia, vai reclamar com Jesus que o vinho havia acabado, pedindo-lhe para fazer algo, Jesus diz a ela que o Seu tempo ainda não havia chegado (João 2.3,4). Quando Maria e os irmãos de Jesus chegam à casa onde Jesus ensinava ao povo, sem conseguir entrar, e mandam chama-Lo, Jesus não para seu ensino para ir falar com eles, Ele explica que mais importante que sua mãe e seus irmãos terrenos era cumprir a Sua missão, e permanece ensinando (Mateus 12.46-50). Então, sim, houve momentos em que Jesus precisou contrariar as expectativas de seus pais. Porém, a Bíblia nos diz que Ele era-lhes submisso. Poderíamos ler “(tanto quanto possível) era-lhes submisso”. Esse era o seu esforço. Essa era sua dedicação. Honrar os Seus pais, sendo-lhes submisso.

E esse é um grande ensino para nós. Ainda que afirmemos que somos submissos, estamos sempre esperando a menor desculpa para acessar a pasta das “exceções” e deixar de seguir as orientações de nossos pais, ou outras autoridades, quando suas opiniões divergem das nossas. Queremos que nossa vontade seja feita e, então, se temos convicção de ser aquela uma revelação de Deus para nossas vidas, deixamos a submissão de lado. E tentamos tornar esse “tanto quanto for possível” o mais limitado possível, e o “quando não houver outro jeito”, o mais amplo possível. Não é fácil ser submisso quando a vontade de nossos líderes diverge da nossa. Quando o entendimento deles não acompanha o nosso. Até mesmo quando eles não conseguem enxergar a vontade de Deus da forma como nós enxergamos. Dói muito ter que abrir mão de algumas convicções para obedecer. Mas Jesus nos deu o exemplo. E se Ele, sendo DEUS, sabendo tudo o que aconteceria lá na frente, tendo certeza de que aquela era Sua missão, soube obedecer o tempo de “abrir mão e submeter-se”, quem somos nós para não fazê-lo?


Que o Espírito Santo nos ensine. Que possamos crescer “em sabedoria, estatura e graça, diante de Deus e dos homens”, assim como acontecia com Jesus (v.52), para compreendermos esse tempo de “abrir mão e submeter-se” também em nossas vidas, e para termos a confiança, a fé, a força necessárias para viver a submissão ensinada e cobrada por Deus, tanto quanto nos for possível. E que, assim, honrando os líderes que Deus colocou sobre nossas vidas, possamos honrar Àquele que os escolheu, e mostrar a este mundo que mais importante do que cumprir as nossas vontades, nos é viver em obediência e louvor a nosso Pai, que está nos céus. Que Ele nos ajude a ser boas testemunhas. Para Sua glória. Amém.

2 comentários:

Priscila de Lima disse...

Que texto difícil de ler, viu! haha
Que Deus nos ajude a sermos mais submissos em fazer a Sua vontade.

Aline Ramos disse...

Difícil de escrever também, Pri, você sabe, né? Mas, sim, que Ele nos ajude! E que nossas vidas sejam mais voltadas para a GLÓRIA DELE do que para nossa própria satisfação, não é? Ele nos ajude.
[P.S.: que legal ter você aqui! xD]